Maria, Alenquer 🇵🇹

Conheci a Para Onde? através das redes sociais e do meu desejo ardente de ter uma experiência de voluntariado internacional. (In)Felizmente o tão aclamado COVID veio trocar as voltas, e o distanciamento conduziu-me até ao Alão Radical. A minha paixão por animais e crianças levou a que aceitasse o desafio desta experiência em território nacional, e posso dizer que não podia ter sido melhor! Desde a chegada à quinta, com o desafio de saber os nomes de todos os animais e a sua respetiva história (não é tarefa fácil, acreditem), a passar pela equipa de resgate e salvamento de um peru, aos desafios constantes das 15 crianças (todas com idades diferentes) até à dolorosa despedida, foram 10 dias cheios, intensos e a transbordar de alegria e boa disposição. A energia extraordinária e contagiante da Carla, a alegria e paciência do Sr. Simões com as crianças, e toda a harmonia do espaço fez com que a Marta, o Diogo, a Joana e eu criássemos um espírito de grupo brutal, que tanto nos ajudou a viver aqueles dias com um olhar diferente. Para mim, esta experiência foi exatamente aquilo que precisava no momento. Confesso que fiquei reticente por ser um projeto nacional, mas foi muito mais do que estava à espera. Foi abraçar um projeto com que me identificasse, sem levar pedras na mochila. Assumir um compromisso sem pensar demasiado, sem calcular prós e contras, simplesmente ir. E estar lá com tudo aquilo que sou e absorver cada segundo. Aprendi que a super organização não é tudo, e que às vezes mais vale deixar fluir e saborear o momento. Passado um mês, e com o coração cheio, continuo cheia de saudades da Pepa, do Heitor, do querido Snow, do meu Jeremias (Strogonof para os amigos), das tostas mistas do Ruben acompanhadas por chicletes do Diogo, do Gin, da Carla cheia de vida e, claro, dos meus companheiros de campo! Mil obrigadas a todos os que proporcionaram esta experiência, e principalmente, à Para Onde?. Não tenho palavras para descrever o meu agradecimento! Vocês são espetaculares! Vieram mostrar que não é preciso passar fronteiras para ter uma experiência de voluntariado. Obrigada a todos!

Luís, Colares 🇵🇹

Há momentos de espontaneidade que podem valer muito! Um deles foi sem dúvida aquele em que me voluntariei através da Para Onde? para ajudar num projeto cujo título me cativou logo: “PLANTAR PARA O FUTURO”. Achei que é algo que realmente precisamos de fazer, cada vez mais… Pensar a longo prazo e plantar, não só num sentido literal mas também em todos os outros aspetos da nossa vida, é a chave para cumprir os propósitos que são todos os dias defendidos na Quinta dos 7 Nomes e assim concretizar um futuro para nós e para as gerações vindouras.  E é com todos estes valores e com toda esta espontaneidade que se iniciou uma grande aventura de duas semanas com momentos incríveis, pessoas fenomenais e valiosas aprendizagens.  

Ainda antes de chegar à Quinta dos 7 Nomes conheci a Maria, coordenadora do voluntariado, uma pessoa super comunicativa, competente e aventureira, tornou-se uma grande amiga. Chegados e já com a tour feita pela Joana, responsável pela quinta, e uma pessoa super amável, conheci o Francisco que ia ser o meu parceiro voluntário. Com ele passei bons e intensos momentos em que ajudámos no que era necessário, apenas pelo prazer de contribuir para a manutenção de algo que queríamos que continuasse a gerar valor. Ao longo do tempo fomos conhecendo outras pessoas que nos ensinaram muito, que nos fizeram rir até rebentar e que essencialmente no seu conjunto nos mostraram espontaneamente como “PLANTAR PARA O FUTURO”.

Descobri que é bom não termos expectativas, desta forma deixar que tudo nos surpreenda, saber lidar com as situações no momento, abraçar a diferença e o inesperado mantendo uma perspetiva otimista mas realista das coisas. Isto foi a chave para nos ajudar a fazer sempre o melhor trabalho que conseguimos em cada momento. Assim alimentamos os animais, plantamos alface, courgette, beterraba…Limpamos e arranjamos o terreno os caminhos e os espaços comuns, pintamos de forma criativa, colocamos a lona e loteamos a zona de camping, aprendemos a fazer pão, cavámos a terra, preparámos a sala de aulas, compusemos o lago e ainda levámos o Bacon “Porco lindo” a passear. Sinto que fizemos a diferença, deixámos a Quinta dos 7 Nomes com a certeza de ter contribuído de forma positiva.

Para fazer a diferença não temos obrigatoriamente que sair do nosso país, onde vivemos também há pessoas a precisar de ajuda e projetos incríveis como este que precisam de voluntários com vontade de fazer o melhor por eles apenas esperando sair com a frase “Missão cumprida” nas suas cabeças. Foi tudo isto e “coisas que não se escrevem” que vivi com a experiência que a Para Onde? me proporcionou!

António, São Vicente 🇨🇻

Fazer voluntariado é algo que passa pela cabeça de muita gente, sim, certo e sabido que muita gente já pensou, pelo menos uma vez na vida, nessa hipótese; todavia, passar da teoria à prática vai uma distância grande. Esse caminho grande deve ser percorrido individualmente, por cada um, e, na altura certa, a oportunidade há de aparecer. A mim aparece-me a Para Onde. Depois, apareceu-me a cidade do Mindelo em Cabo Verde.

A experiência em si, a minha, claro está, porque cada um tem uma visão distinta de uma mesma situação, foi maravilhosa. É verdade, começou ainda antes de sair de Lisboa e só acabou quando aterrei, passados mais de dois meses, outra vez, em Lisboa. Este tipo de aventuras tem um bocadinho de tudo e, é precisamente nesses pequenos bocados, que está o sumo da situação equacionada à posteriori, de uma forma geral. Desde os dias sem água (poucos), aos dias sem gás (dois dias), passando pelas crianças, os centros de apoio escolar, o Frei, os muitos amigos que por lá fiz, tudo, mas mesmo tudo, são parte integrante deste meu voluntariado.

Aprendemos nas situações menos expectáveis e foi essa a grande lição que daqui levei. Quem tiver a oportunidade de ir, vá! Vá, porque da vida pouco levamos, e são experiências destas que nos fazem mais humanos e mais conhecedores de nós mesmos e das nossas capacidades.

Se houve maus momentos ? Claro que houve, mas quando é que não os há; digo, houve e ainda bem que os houve, porque foi aí, precisamente, que o aprendizado foi maior. Aprendi com crianças de 10 anos, aprendi com pessoas mais idosas, aprendi com pessoas da minha idade e, sobretudo, aprendi com um povo que não precisa de muito para sorrir.

Nunca me vou esquecer do que por lá passei e dos amigos que por lá fiz, isso é certo. E já sabem, depois do primeiro voluntariado, a probabilidade de lá sair com vontade redobrada para fazer um segundo, é muito, mas mesmo muito grande. Obrigado a todos aqueles que fizeram parte destes dois meses que voaram, por um lado, e que se arrastaram, no sentido positivo, por outro. 

Francisca, São Vicente 🇨🇻

A minha experiência em Cabo Verde com a ajuda da Para Onde foi simplesmente inesquecível.

Escolhi a ilha de S. Vicente. Para ser sincera nunca tinha pensado muito em fazer voluntariado mas sempre fui de experimentar coisas novas, por isso decidi embarcar na aventura.

Quando cheguei à ilha estava muito nervosa. Foi um misto de entusiasmo pelo caminho que ali tinha começado e do medo do desconhecido.

O nosso querido amigo Maxi, que estava logo à minha espera no aeroporto para me encaminhar, levou-me à casa dos voluntários. Aí conheci as outras voluntárias, que me receberam com grandes sorrisos na cara e me mostraram a casa, que tinha condições melhores do que eu esperava.

A partir daí, começou uma jornada incrível, uma maratona de emoções, das experiências mais bonitas da minha vida. Fizemos parte das atividades do projeto “Nô Bai” do Espaço Jovem, onde ajudámos as pessoas da comunidade, pintando casas e cuidando das crianças. As crianças eram bastante receptivas a todas as atividades que propúnhamos, corriam todas as manhas para saltar para cima de nós com abraços e beijinhos, e eram muito espertalhonas. Ensinámos-lhes muitas coisas- organizámos atividades diversas como workshops de inglês, formação de primeiros socorros, jogos de geografia, matemática e português, onde ouviam, atentamente, com os olhinhos a brilhar e muito concentrados. Para meu espanto, eles também me ensinaram muitas coisas. Fizeram-me refletir sobre a vida, sobre a minha infância, e ensinaram-me o quão fácil o amor e o carinho se pode tornar.

Aprendi a ser feliz com coisas simples, com momentos, com sorrisos. Aprendi a viver a vida com mais calma, com mais ternura e carinho pelos outros. Quando voltei a Portugal, com a cabeça nas nuvens e o coração cheio, já não estava habituada ao ritmo de vida e à falta de “morabeza”. Estava plena e mais relaxada que nunca, cheia de amor para dar e paz interior.

Todas as pessoas nos receberam bem. Só tenho a agradecer a toda a gente: desde ao Espaço Jovem, à Para Onde, às pessoas incríveis que nos ajudaram e às crianças. Tivemos também a oportunidade de conhecer a lindíssima ilha de Santo Antão, que fica a 40 minutos de barco do Mindelo, onde fomos igualmente bem recebidas pelos voluntários da Para Onde que lá se encontravam e demos passeios muito bonitos.

Às vezes era difícil, não vou mentir. Concretizámos tarefas trabalhosas, onde nos era exigida muita dedicação e paciência. Vão sempre existir, onde quer que se esteja no mundo, crianças mais complicadas que outras, e nesta situação cabe-nos a nós tentar compreendê-las e manter as turmas organizadas, com um bom ambiente de trabalho. Há dias em que temos de ser mais duros, e outros em que corre tudo às mil maravilhas, mas no final tudo compensa, tudo melhora ao ver a felicidade das crianças, e torna-se muito gratificante quando vemos progressos na sua aprendizagem.

Recomendo altamente esta experiência a qualquer pessoa que tenha a oportunidade, proporcionou-me um grande sentido de concretização e vai ajudar qualquer um a encontrar-se na vida.

Tenho muitas saudades de todos os amigos que lá fizemos, das crianças, do trabalho, daquelas praias lindas e do incomparável estilo de vida de Soncent. Esta ilha terá sempre um lugar muito especial no meu coração. Eternamente apaixonada!

Rafaela, São Vicente 🇨🇻

Posso dizer que não havia melhor forma de começar 2020, senão realizando a minha vontade de participar num voluntariado internacional. Parti para uma derradeira aventura e assim cheguei à ilha de São Vicente, apercebi-me que era ali que começava a minha oportunidade de fazer a diferença, era ali que começava a experiência da minha vida!

Foi um mês intenso tornando-se quase impossível de descrever o que ali vivi, apenas quem tem oportunidade de experienciar algo tão inexplicável é capaz de compreender todos os momentos que passei que me alimentaram a alma e os cincos sentidos que regressaram a Portugal mais ricos, com novos sabores, sons, cheiros, texturas e paisagens.

Fui recebida com todo o carinho pelas pessoas do Espaço Jovem e pelas minhas colegas, mas confesso que o medo de falhar, de não marcar a diferença e de ser apenas mais uma estavam então presentes, fizeram parte das mil e uma emoções que ali vivi. Tornaram-se paixão, partilha e amor assim que, conheci aquelas crianças que tornam tudo o que experienciamos mais bonito com os seus beijinhos de bom dia, a alegria estampada no rosto de cada um deles quando chegávamos pela manhã, a gratidão e confiança dos pais e a proatividade que levei comigo.

Desenvolvemos inúmeras atividades nos três centros do Espaço Jovem como quando preparámos umas máscaras para o Carnaval, ou quando viemos para a rua fazer corridas de batata e jogos tradicionais. O que importou foi tornar a aprendizagem destes meninos mais divertida e motivadora.

Contudo era importantíssimo para mim partilhar noções básicas de saúde, visto ser esta a minha formação, tendo então realizado o workshop “SOS o que fazer?”, tendo superado as minhas expectativas pela adesão de toda a comunidade.

Com esta experiência aprendi a por em prática o lema deles Depos de sab, morrê ka nada, aproveitando cada momento, devagarinho e a relativizar os nossos problemas, porque na verdade, aquela gente é tão melhor que nós, oferecem o que têm, um ombro amigo, um beijinho, um sorriso, sem pedir nada em troca, sendo felizes como o pouco que têm.

Fiquei com um bocadinho de cada pessoa com quem me cruzei, mas tenho a certeza que cada um deles também ficou com um bocadinho meu. É disso que é feito o voluntariado, de partilha, de amor, que com pouco podemos fazer muito, que os bens materiais são aquilo que menos importa, porque não nos definem, mas sim a intenção e a dedicação que colocamos em cada coisa que fazemos.

Escrever este testemunho é estar com lágrimas nos olhos e um nó na garganta com a tamanha Sodade de Soncent, uma Terra Sab que conquista o coração de qualquer um.

Juliana, Ilha do Maio 🇨🇻

O meu nome é Juliana, Ju para os amigos e Jô para amigos que fiz no Maio.

Andava à procura de uma aventura, à procura de algo que me pudesse fazer crescer, tanto a nível pessoal, como a nível profissional. Estava a acabar o meu curso e precisava de uma aventura. Fiz algumas pesquisas na internet e encontrei a “Para Onde” e o Programa de Proteção de Tartarugas Marinhas, na Ilha do Maio. Não precisei de procurar mais, tinha encontrado exatamente o que procurava.

Quando embarquei nesta aventura, não embarquei sozinha, fui com a Inês, colega da faculdade e amiga para o resto da vida. Preparámos a viagem com a antecedência necessária. E, em outubro de 2019, viajámos rumo à Ilha do Maio. Minutos depois de chegarmos ao Maio, esperava-nos um imenso tubarão baleia, que nadava perto do local em que desembarcámos. Não poderíamos ter sido recebidas de melhor forma. Percebemos, desde logo, que o Maio era especial.

Ficámos instaladas na casa de uma família local, no Morro. Tivemos imensa sorte com a família que nos acolheu. As condições não são, definitivamente, iguais às que temos em Portugal, no conforto das nossas casas. No entanto, os encontros inesperados com ratinhos, baratas e lagartos do tamanho de crocodilos são hoje histórias hilariantes para contar. O facto de sermos recebidos pelas famílias locais é, sem dúvida, uma das mais-valias deste programa, uma vez que nos permite perceber realmente como é que as pessoas vivem e em que condições.

Quanto ao trabalho de voluntariado em si, quando chegámos à época de desova já tinha terminado, apesar de nos terem criado a ilusão de que ainda poderíamos ver uma ou outra tartaruga a desovar, assumimos logo que isso não iria acontecer. Apesar de termos ficado um pouco desiludidas, decidimos ir na mesma. E, o que tenho para vos dizer, é que não me arrependo nada desta decisão.

Não participámos nas patrulhas noturnas, uma vez que estas já tinham terminado, mas de resto, fizemos um pouco de tudo. Preparámos palestras e atividades para as crianças da comunidade sobre a importância de reutilizar os materiais, ajudámos a abrir os últimos ninhos do viveiro da Vila e aprendemos um bocadinho sobre aves, numa saída com o grupo responsável.

E querem que vos diga quando é que eu soube que valeu a pena? Quando, numa das primeiras ao viveiro da Vila, abrimos os ninhos e vi a primeira tartaruga bebé. Não sei descrever em palavras o que senti, mas foi mágico.

Passaram sensivelmente cinco meses desde que voltei e tenho muitas saudades do Maio. Saudades de ter como despertador as vacas a mugir, as galinhas a cacarejar e os porcos a correr pelas ruas. Saudades de chegar a casa e ter as crianças à espera para nos ensinarem mais um jogo ou canção. Saudades dos fins de tarde a ver as tartaruguinhas partirem em direção ao mar e, sobretudo, saudades da paz e calmaria que senti naquele pequeno paraíso.

O Maio é especial e trouxe de lá a certeza que quero voltar.

Marta, São Vicente 🇨🇻

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2020, 07:30.
Uma mala no limite de peso com mais material escolar do que roupa, uma mochila, um par de olheiras ainda não recuperadas de uma época de exames que terminou e um metro e meio de gente pronta para a aventura de uma vida. É assim que começa a história da experiência incrível que vivi durante 1 mês no Mindelo.

Como todos aqueles que procuram o voluntariado internacional, para além da paixão pela missão altruísta e nobre a que me proponha, também eu andava em busca daquela experiência que iria mudar a minha vida e que, de alguma forma mágica, iria indicar-me que direção seguir e como ser mais feliz. Se isso aconteceu? Honestamente, não sei mas muita coisa mudou.

A vida nas terras do Morabeza é simples. Tudo parece encaixar da forma mais certa e, em poucos dias, ir para o voluntariado para darmos o que temos e o que não temos, o que somos e o que não somos, o que conseguimos e o que não conseguimos é aquilo que é natural, que faz sentido e que faz todos os dias serem felizes. Isto porque, mais do que os clichés “abrir os olhos para outra realidade” e “aprender a viver com pouco”, o voluntariado em São Vicente ensinou-me a sentir, a entregar-me, a ouvir, a experienciar integralmente cada momento e a dedicar-me às coisas que me fazem sentir plena, de uma maneira que só uma aventura destas é capaz de ensinar.

Apesar do que a maioria dos testemunhos de voluntariado aparentam mostrar, nem todos os dias vão ser espetaculares. Na verdade, até houve muitos dias em que estive triste e cansada mas a energia dos miúdos e da comunidade tornaram impossível não levantar-me no dia seguinte com um sorriso na cara e com a certeza de que nunca me vou arrepender por ter escolhido fazer isto porque acredito que esta é, verdadeiramente, uma experiência única e inesquecível na sua essência repleta de amor, amizade, paciência, sonhos, lágrimas, muita areia e tinta.

A verdade é que volto para Lisboa tão confusa e perdida como quando parti, mas volto também mais crescida, mais velha, mais morena, mais feliz, mais focada e com a certeza de que quero continuar a tornar o mundo num lugar melhor. Pronta para tudo o que acontecer e pronta para a próxima.

Sandra, Santo Antão 🇨🇻

E é nestas alturas que parece que ficamos sem palavras, sem saber bem por onde começar, sem saber bem como descrever algo assim.

Parece que foi ontem que escrevi uma carta de motivação para ser aceite neste programa, e agora cá estou, de volta a casa a escrever um testemunho de como foi esta experiência.

Começou pela simples ideia de fazer voluntariado, ideia essa que já pairava na minha cabeça à muito tempo, no entanto faltava o dito “timing” certo. Procurei informações, procurei associações, informei-me com quem já o tinha feito anteriormente e quando surgiu oportunidade, embarquei nesta aventura. 

Tive bastante receio de como ia conseguir lidar com tudo isto, como ia enfrentar uma realidade que não estava habituada, como ia conseguir não chorar quando algo me tocasse no coração, aquele que considero o meu ponto fraco. Mas parece que todos esses medos desapareceram mal desembarquei naquele lugar, a incrível ilha de Santo Antão, que tem tanto de beleza como de cultura. 

Cheguei sozinha mas rápido percebi que isso não ia durar muito tempo. Estava cansada, tinha tido um dia desesperante em torno de viagens mas a vontade de conhecer as crianças com quem íamos trabalhar era bem superior a qualquer cansaço. 

Lá fomos nós e aí começou um dos melhores meses da minha vida. Um mês repleto de abraços apertados, de carinho, de energia contagiante, de experiências arrepiantes. Desde os jogos e brincadeiras alegres com os miúdos até às atividades cheias de ternura com os idosos, tudo foi especial e único. 

Não posso dizer que achei fácil, inicialmente senti-me perdida, parecia que as ideias não surgiam, queria ajudar em todo o lado mas não conseguia perceber como o fazer. Até que quando se entra na rotina percebe-se que só a nossa presença já os torna felizes, porque Santo Antão é isso, não precisam de muito para viver bem. E isso acaba por entrar em nós, acabamos por perceber que a realidade que nós vivemos não é a realidade do mundo; aprendemos a desconsiderar aquilo que nós chamávamos de problemas, percebemos que estamos longe de saber o que é ter problemas na vida. 

Aprendemos a dar valor ao que realmente importa, percebemos que eles só adoram estar no nosso colo, só adoram abraçar-nos, só adoram que estejamos lá a ouvir o que eles tem para dizer. E é tão bom receber isso, é tão bom perceber que eles gostam que estejas ali, que dão valor ao que estás a fazer e eu não podia estar mais grata por isso! Porque por mais que te sintas impotente, quando eles te abraçam ganhas as energias todas de volta para dares o melhor de ti! 

Parti com vontade de ficar, vontade de os trazer comigo, vontade de fazer mais e sem dúvida alguma vontade de repetir a experiência. 

Um obrigada a Santo Antão, um obrigada ao Synergia, um obrigada à Para Onde? e um obrigada especial ao Allan e à Elci, que me acolheram tão bem neste lugar! 

Uma aventura guardada na memória e no coração, para toda a vida! 

Mariana, Santo Antão 🇨🇻

Já passou mais de um mês desde que, em lágrimas, caminhei para o barco tentando, sem sucesso, evitar olhar para trás e encurtando a distância que me separava de Portugal. Sabia, porém, que essa distância ainda era longa quando o coração tinha ficado uns passos atrás.

O Bilela (Sr.Manel) disse uma vez, “Eu gosto muito das palavras, não sei quais gosto mais”. Partilho do mesmo “problema” e, temo que, mesmo descobrindo as que mais gosto não compreendam a profundidade de cada dia que, ao longo de três semanas, passei em Santo Antão.

Em setembro de 2019 decidi dar o passo e realizar o sonho de fazer voluntariado internacional. África sempre me fascinou, a vontade de ir a Cabo Verde era grande, mas sem razão aparente, escolhi Santo Antão. Sei, agora, que não foi por acaso.

O bichinho pelo desconhecido desafiou-me a sair do meu conforto e a “sozinha” entrar no avião dia 1 de fevereiro de 2020. Não me assustam aventuras mas para quem gosta de ter tudo planeado parece difícil que o apanhem de surpresa.

Fui sem expectativas e com uma quantidade de borboletas (boas) na barriga. Só sabia que queria “dar” sem receber nada em troca. Consigo agora perceber que qualquer expectativa que tivesse criado seria insuficiente. Não imaginava que este desafio me faria crescer tanto em tão pouco tempo.

Lá, lembro-me de ouvir que fazemos a nossa própria sorte, mas, às vezes, não sabemos bem o que é ter sorte. Vim com a ideia de que sorte é conseguir estar pleno e em paz… é ser genuíno e não conseguir evitar soltar gargalhadas, contagiar sorrisos, acolher de braços abertos e sentir, durante o dia, que não poderia faltar mais nada. Foi assim que me senti e me fizeram sentir todos os dias: sortuda. As pessoas são felizes, cumprimentam-se na rua, os miúdos brincam e “andam à solta”… a simplicidade com que levam o dia a dia é extraordinária.

Os galos cantam, os cães ladram e começavam as manhãs em que, mesmo quando, pontualmente, não havia água na torneira e estava suao (calor seco), caminhar até ao Alto de São Tomé tornava-se cada dia mais fácil e a distância mais curta quando, os idosos, em troca de um “Bom dia, Tud dret? Dormiu bem?” nos recebiam com abraços apertados e mil beijinhos.

 É incrível como nos fazem sentir que pertencemos ali desde sempre. Mesmo nos dias em que se sentiam mais em baixo era fácil cativá-los com uma conversa e pouco a pouco iam confiando em nós para partilhar o que os incomodava. São todos diferentes, mas, em comum têm uma garra de viver e uma alegria contagiante, sempre com interesse pela mais banal atividade que tivéssemos para eles. Cada um, à sua maneira, foi capaz de me tocar cá dentro. Deles levo ensinamentos que não esquecerei.

As manhãs e os fins de tarde eram passados no Espaço Jovem. Com jogos, pinturas, desenhos e com música, que os miúdos eram capazes de fazer com todo o tipo de objetos. Brinquei e corri até as pernas quererem parar e descobri que afinal ainda há uma criança em mim!

Tenho sodade daqueles miúdos todos especiais e talentosos que me faziam sorrir todos os dias, de manhã à noite, e me enchiam de tanto mimo. De os ouvir brincar na rua e ir à janela. De gritarem “Ê MARíííaana” e dos toques à campainha.

Tive oportunidade de participar no início de um projeto para desenvolver os Centros Multiusos de outras localidades fora de Porto Novo. Ao visitar estes espaços vi uma evidente falta de materiais e condições, falta de apoio e de iniciativas para promover o desenvolvimento de atividades e para apoiar os jovens locais a diversos níveis. Mergulhei assim, no interior da ilha, abri os olhos e toquei de uma forma ainda mais profunda na consciência… Foi um misto de emoções. No meio das pessoas fantásticas que me acompanhavam e dos bons momentos que estas visitas me proporcionaram, apercebi-me que há sítios onde não há água e só há luz durante dia. Em que os transportes são escassos e as crianças caminham horas para chegar à escola. Em que a seca é uma realidade e alguns alimentos começam a faltar. Há, um dia para a batata e outro para o tomate (…). A água da torneira é desaconselhada, mas a engarrafada é um luxo. Uma caneta e um caderno não são bens banais.

Entre muitas coisas, compreendi que, quase inconscientemente, desvalorizamos e tomamos como garantida a vida que levamos. Construímos uma sociedade em que damos demasiada importância ao supérfluo. De cada vez que me deslocava à praia e via os miúdos chapinhar felizes na água, pensava: É mesmo preciso ter “mil fatos de banho” (ou até mesmo um) e uma toalha? A resposta era evidente quando os observava a vir da água para se deitarem na areia quente com um sorriso de satisfação nos lábios.

Ao mergulhar no coração da ilha, vi a beleza da terra e das suas gentes, uma imensidão de verde que só os olhos são capazes de captar. Senti a cultura, a transparência e a hospitalidade de um povo resiliente, pautado pela “firmeza” e pela “morabeza”. Foram tantas as pessoas que me marcaram e as amizades que levo para a vida que se quisesse agradecer-lhes não chegariam as palavras. A bondade que transborda nos seus corações é infinita. É tão bom saber que mesmo longe, esta paz e este amor caminham a meu lado neste coraçãozinho apertado.

Com o coração cheio sei que posso não ter mudado o mundo, mas como se diz “grão a grão enche a galinha ao papo”. Cada abraço e beijinho que dei, cada gargalhada que provoquei, cada vez que brinquei, sorri, corri e os carreguei ao colo ou às cavalitas por mais mínimo que pareça é valorizado e retribuído porque na verdade nós recebemos mais do que damos.

O Sr. Gregório dizia todos os dias, incansavelmente, “A vida é pa viver em vida” e eu sabia que estava ali a viver. O maior conselho que tenho é que não adiem os sonhos, vão sem medos, agarrem oportunidades.

Sem arrependimentos (a não ser ter ficado apenas 3 semanas) e grata por uma das melhores experiências da minha vida, sei que, encontrei, no voluntariado, uma nova forma de viajar, de me descobrir e de contribuir para um mundo melhor.

Com muita sodade tenho a certeza que voltarei a este pedacinho do céu :)

Sintanton é sab!

Maria Helena, Bárbara, Sara e Sofia, Guiné-Bissau 🇬🇼

Uma experiência de voluntariado internacional sempre fez parte dos nossos planos, queríamos algo que nos pudesse mostrar uma realidade completamente diferente, nos impactasse e pusesse à prova e ao mesmo tempo um sítio onde pudéssemos deixar de alguma forma um bocadinho daquilo que somos. A Guiné sem dúvida que nos marcou!

Viajamos para a Guiné no mês de Julho, mês de chuvas tropicais e grandes trovoadas. A nossa chegada a este país lindo já não foi fácil, nesse mesmo dia deparamo-nos com trovoadas que nenhuma de nós pensaria chegar algum dia a ver, não havia luz, e os mosquitos atacavam por todo o lado. Apesar de tudo isto a comunidade Guineense estava lá para nos receber, tanto no aeroporto como na casa dos voluntários, onde ficámos no chamado “Bairro Militar”. Os abraços que recebemos das crianças nessa noite foi o que nos encheu o coração, o modo como elas nos tocavam, como nos diziam os nomes e nos agarravam…

O primeiro dia na Guiné foi sem dúvida o mais chocante, o sair à rua e ver tudo aquilo que nos rodeava, a pobreza, as condições más em que a maioria das pessoas vivem, a falta de cuidados de saúde, a falta de condições na escola… foi todo um misto de emoções difícil de explicar. Uma coisa é certa, depois daquele momento nunca mais fomos as mesmas pessoas e tudo passou a ter um novo significado para nós.

Aprendemos um novo conceito de felicidade, aliás, abraçámo-lo e vivemo-la todos os dias na Guiné porque abrimos o nosso coração e a deixámos entrar. As nossas melhores lembranças são lindos sorrisos rasgados e abraços calorosos que aquecem a alma.

Os melhores dias foram os mais banais e comuns, são esses que se acabam por tornar nos mais especiais… tardes passadas a falar e a rir, dançar ao som da música dos Calema que eles pediam sempre, sentir o ar fresquinho do fim da tarde enquanto as meninas nos enchiam o cabelo de tranças. Isto sim, levamos da Guiné, levamos de África.

Fomos para lá como professoras, de livros na mão e com a ideia de dar o melhor de nós. Saímos de lá como crianças, de lágrimas na cara e com a certeza que recebemos o melhor deles!

Ao chegar a Portugal só uma palavra fazia sentido: Voltar! Deixámos uma família na Guiné à nossa espera e agora só pensamos em voltar um dia para eles, com o coração apertado de saudades.

Obrigado Guiné por nos ensinares a deixar as coisas acontecer, a ter calma, a saber ouvir e melhor de tudo… a não ter medo de SENTIR!