A Experiência da Mariana em Itália

Após dois meses recordo-me da minha experiência com tanta saudade e carinho que não consigo descrever. Foram 2 semanas de muita aprendizagem e de muito crescimento, fui para Itália totalmente sozinha, com muito medo e receio, mas hoje sei que foi a melhor decisão que tomei. Se têm medo acreditem que é totalmente normal, mas vão e arrisquem na mesma.

Estive em Genova com a associação Shanti Sahara que todos os verões acolhem 9 crianças refugiadas do Saara Ocidental. São crianças com doenças (como epilepsia) e que, infelizmente, vivem sem condições básicas que não os permitem evoluir tanto quanto poderiam. O grande objetivo, além de lhes proporcionar a melhor qualidade de vida possível, é também o de ajudar no tratamento e procurar por novas respostas para as suas doenças enquanto estão com a associação durante o verão.

Mal vi todas as crianças admito que fiquei totalmente apavorada e sem reação, porque acho mesmo que só me caiu a realidade quando os vi. Posso dizer que todo o tipo de sentimento de dúvida que senti naquele momento passou totalmente em dois dias. Aprendi a fazer tudo, desde a higiene e cuidados necessários a cada criança, necessidades especiais e carências de cada um, as melhores maneiras de cativa-los e de brincar/interagir com eles, até palavras árabes e italianas que permitiam uma melhor comunicação entre mim, as crianças e todos os outros voluntários. Os momentos que mais me fazem ter saudades e uma imensa vontade de voltar são aqueles abraços e beijinhos maravilhosos, todas as brincadeiras que tínhamos antes de dormir, a partilha de culturas e de experiências de vida com todos os voluntários, as canções de alegria que cantávamos quando sabíamos que íamos à praia e todas as vezes que lhes roubava comida do prato e a maior gargalhada era soltada por todos os que tomavam atenção.

Os voluntários da associação foram impecáveis! Ajudaram-me com tudo, deram imensas dicas do que fazer nos nossos tempos livres e mais importante que isso, faziam questão de saber que estávamos integrados e que nos sentíamos bem com o que estávamos a fazer. Estarei para sempre grata por todas as pessoas que conheci, por tudo o que aprendi e partilhei, e principalmente, por tudo o que aquelas crianças me proporcionaram e que eu espero ter proporcionado também. Deixei Genova com uma vontade enorme de ficar até ao final do verão e com uma promessa de que voltarei sempre que puder, porque em duas semanas senti que já estava em casa.

Deixo aqui um obrigada à Para Onde, que tanta paciência tiveram e apoio deram e que de uma maneira tão bonita e genuína nos encorajam a todos a fazer algo melhor para os outros e também para nós. Agradeço também à Joana, que tanto me ajudou com as barreiras da língua e que se tornou um grande pilar nesta grande aventura que vivemos juntas!

A experiência da Carolina em Caraíva

Acabada de chegar a Portugal, e já com uma vontade enorme de voltar.

Sem saber como exprimir por palavras uma vivência como esta, que digo com todas as certezas que foi a melhor e mais rica experiência da minha vida, garanto-vos que cada momento, cada pessoa, cada abraço, cada criança, cada lugar, cada sorriso… tudo valeu a pena!

Desde a primeira vez que pisei Caraíva percebi que este projeto tinha tudo para dar certo. Mal cheguei fui super bem recebida, tanto pela dona da casa em que fiquei durante aqueles dois meses, como pelas pessoas da vila, as professoras e as crianças da ONG. Todos nos tratavam tão bem que não tardou a sentir-me em casa. Tinha chegado, sem dúvida, a um lugar com uma energia e uma “magia” incrível.

Através deste projeto tive a oportunidade de conhecer o lugar mais maravilhoso em que já estive. Tive a oportunidade de conhecer um povo incrível, uma cultura totalmente diferente da minha e de ajudar crianças espetaculares. Todos os dias quando chegava à ONG e recebia aqueles abraços tão fortes e genuínos, quando via o sorriso daquelas crianças para nós, quando ouvia um “Carol, eu te amo”, “Não vá embora não!”, “Pode ficar em minha casa.”, “Eu gosto muito muito de você”, percebia o quão sortuda eu sou por estar a vivenciar uma experiência como esta.

As crianças brincam na rua, sobem as árvores por diversos motivos: para pegar fruta, para se esconderem quando estão a brincar ou simplesmente porque querem, porque é assim que elas vivem e é assim que são felizes. Elas correm até nós em troca de um abraço, de um colo e/ou de um carinho, e nós fazíamos exatamente o mesmo. Todas eram diferentes umas das outras: umas mais rebeldes, outras mais sossegadas, umas mais tímidas e outras mais extrovertidas, mas todas, sem exceção, têm um coração enorme, cheio de amor pronto para dar e para receber.

Quando me meti neste projeto nunca tinha ouvido falar de Caraíva, pelo que não fazia ideia para onde é que ia, mas hoje sei que a melhor coisa que fiz foi aceitar este desafio. Fui de coração aberto, pronta para dar tudo o que fosse preciso e para receber tudo o que me esperava. Naqueles dois meses aprendi e recebi tanta coisa, incluindo que a frase “Voluntariado mais que dar é receber” é o clichê mais verdadeiro que existe. Aprendi que um simples “Bom dia!” seguido de um sorriso de alguém que não conheço pode alegrar o nosso dia. (Re)aprendi a valorizar as mais pequenas coisas da vida, a ser ainda mais grata por tudo o que tenho e a aproveitar cada momento como se fosse o último. Ensinaram-me também que quanto mais simples é a vida, mais fácil é o riso e mais leve é a alma e ainda que “quanto mais salgada a água, mais doce é a vida!”.

Caraíva é tudo isto, é alegria constante, é o pé na areia, é o coração tranquilo, é podermos ser nós mesmos sem preocupação. Caraíva é o céu estrelado, é o pôr-do-sol no rio que a cada dia que passa fica ainda mais bonito que o anterior. Caraíva é as ruas em areia, é ter o pé preto desde as 7h da manhã, é o nascer da lua no mar e o “Bom dia!” de toda a gente e o sorriso contagiante. É a energia ir abaixo e não sabermos quando há de voltar. É descobrir frutas e animais novos todos os dias. É não ter regra e deixarmo-nos pura e simplesmente confiar no que há por vir. Caraíva é uma terra bem pequenina, mas repleta de gente maravilhosa com um coração gigante.

Esta vila preenche-nos com um monte de sentimentos que se misturam todos dentro de nós e a única certeza com que ficamos é que fizemos a escolha ao termos partido nesta aventura. E na hora de ir embora dá-se um aperto enorme no coração, pois a vontade de ficar toma proporções que já mais pensamos que fosse possível. Trago comigo memórias espetaculares, grata por todo o amor que recebi de cada criança e de cada pessoa que conheci, incluindo dos voluntários que se tornam grandes amigos.

Inicialmente eu iria ficar apenas um mês, o que parece muito, mas quando já estava lá percebi que um mês é muito pouco para este tipo de voluntariado, para conhecer cada criança a fundo e para receber tudo aquilo que Caraíva e o seu povo têm para dar, de maneira que acabei por adiar o meu voo por mais um mês.

Naqueles dois meses fui genuinamente feliz a toda hora e só tenho a agradecer a cada pessoa que fez com que assim fosse, a cada pessoa que me fez sentir sempre em casa. Depois desta experiência tenho ainda mais a certeza de que o tempo pode assumir diversas dimensões e que voluntariado é ter a capacidade e a vontade de nos adaptarmos e descobrirmos o desconhecido e de nos entregarmos ao que está por vir, de alma e coração abertos. É preciso estarmos prontos para dar tudo de nós, mas é também muito importante sabermos receber, porque as crianças oferecem-nos um pouco de si e do seu amor a cada segundo.

Dar, receber, simplificar, sorrir, amar, aproveitar, (re)aprender, cativar, cantar, dançar, agradecer, descobrir, aventurar, encontrar, valorizar, confiar, surpreender… Estas são algumas das palavras que marcaram e que resumem esta inexplicável experiência!

Chegou ao fim e as lágrimas foram muitas, por um lado significavam tristeza mas por outro significam alegria. Tristeza pela tarefa mais difícil que já fiz: despedir-me de cada uma daquelas crianças, e alegria por ter a certeza de que esta foi a melhor experiência da minha vida. E agora o meu coração está a rebentar por tudo quanto é lado, devido às saudades, ao meu monte de memórias boas que trouxe comigo e também por não saber quando hei de voltar a ver as pessoas que se tornaram como uma segunda família.

Voltei a Portugal, mas prometi a mesma que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para voltar ao lugar que se tornou a minha segunda casa o mais rápido possível.

A Experiência da Inês em Itália

Participar no workcamp ” Cittá dell’Utopia” um projeto da SCI Italia em Roma foi uma experiência incrível que me tirou constantemente da zona de conforto por varias razões.
Tive a a oportunidade  de experienciar como é viver em comunidade e trabalhar para a comunidade, pude ver de perto o trabalho que exige manter uma casa que acolhe várias pessoas que trabalham em projetos não só de apoio à comunidade local mas também projetos de cidadania activa. Ganhei ainda mais consciência da importância de promover um estilo de vida que promove a interculturalidade e sustentabilidade do planeta.
O tema do nosso workcamp foi sobre o Yoga como estilo de vida, aprendi imenso com as aulas de Yoga facilitadas pelo Salvatore, uma pessoa muito inspiradora com quem aprendemos ferramentas valiosas para levar uma vida mais equilibrada e feliz.
Estou grata por esta experiência e por ter conhecido pessoas incríveis durante estes dias.

A Experiência da Francisca na Guiné

Por semanas compridas mas nunca iguais, por um calor insuportável a todas as horas do dia. Por uma casa que é só paredes e teto e pelo crioulo que não percebia. Pela água que não sai da torneira mas que cai do céu à maluca e pelo atum que já não posso ver à frente. Por tudo o que não tive durante este mês e por tudo o que percebi que não faz falta nenhuma.

Por um quinze de setembro sem as minhas pessoas, por formas diferentes de pensar e ensinar, pela lei da selva que é isto tudo e por aquilo que tentámos mudar.

Pelos mini sustos que apanhei e por voltar viva e inteira, por uma grande amiga que alinhou nesta loucura e por outra que ganhei pelo meio. Por termos feito tudo o que estava ao nosso alcance e pela certeza de que ficamos neles para sempre.

Pelo sentido de família desta gente, por olhos que brilham com um presente e por miúdos que não mereciam viver assim.

Pelos que querem ser pilotos de aviões para ir dar um saltinho a Lisboa e pelas que querem ser doutoras para curar este mundo maluco que anda a passar mal.

Pelo que perdi por ter vindo, pelo que ganhei quando vim, pelo semestre que já parece perdido e pelas saudades que tenho da minha terrinha.

Por ter sido o início de qualquer coisa e por ter percebido que quero ver mais mundo.

Pelos que choraram e me puseram a chorar, mesmo sabendo que quem vem quase nunca é para ficar.

Pelos onze que aparecem aqui e por todos os outros que não couberam.

Por isto e por tudo o que falta contar, fica a promessa, querida Guiné: um dia hei de voltar.

A Experiência da Leonor no Quénia

Decidi embarcar neste projeto pouco mais de um mês antes de ir. De uma vontade de há alguns anos, senti que seria a altura indicada para concretizar este meu sonho. Assim foi… de mochila às costas, sem saber exatamente com o que contar, enfrentei os meus medos e descurei o conforto para viver uma experiência de uma vida.

Como foi tudo muito rápido e sempre tive o apoio incondicional do “Para Onde?”, durante as preparações da minha ida, só caí em mim quando entrei no aeroporto. Obviamente, aterrorizada com a minha decisão, só queria dar meia volta e voltar para o conforto de casa. Ainda bem que não o fiz.

Já tinha ido ao Quénia, há 13 anos atrás, em contexto diferente, e prometi à minha mãe que “quando fosse crescida iria voltar para ajudar”. Em agosto, cumpri a promessa.

Tudo era diferente, tudo

era difícil, tudo era, como se diz em swahili “pole pole” (em português, significa lento) no entanto, havia sempre algo que te incentivava a fazer mais e melhor.

Apesar das condições de higiene e de conforto serem muito básicas, havia sempre uma força maior para fazer mais e melhor. Não sei se pelo espírito de grupo, em geral, se pela força pessoal, se pelo motivo principal de irmos para lá: ajudar e dar.

Durante todo o projeto elaborámos várias atividades com as crianças e com os mais velhos, ajudámos na reconstrução da escola de Kiburanga e participámos no projeto iniciado pela Catarina, uma antiga voluntária, chamado Simba Children’s Project, de que eu tenho um extremo orgulho em ter participado.

Tínhamos os fins de semana livres, onde aproveitávamos para recarregar as energias para a semana seguinte.

Aconselho, do fundo do cora

ção, a toda a gente a ter uma experiência de voluntariado, a sair da sua zona de conforto e, por mais difícil que o momento seja (provavelmente, será), aproveitar ao máximo. É uma experiência de uma vida que muda, para sempre, qualquer um. Um mês que valeu pelos 20 anos de existência.

Agora, de coração a trans

bordar e de olhos “cheinhos” de lágrimas, agradeço por tudo o que me proporcionaram e guardo cada um para sempre no meu coração. Obrigada.

A experiência da Ana em Zanzibar

Chegou ao fim…

Voluntariado é ter capacidade de adaptação e vontade de descobrir. É assumir a aventura.  É perceber que o tempo pode ter várias dimensões e que é preciso estar disponível para dar, mas também para receber. É sair da zona de conforto – e perceber que até te dás bem por lá. É a possibilidade de te reinventares em situações desconhecidas. É perceber que é preciso pouco para fazer alguém sorrir – e nem é necessário falar a mesma língua. É estar rodeada de crianças que são de sorriso fácil e que agradecem o tempo que passas com elas. É saber aproveitar o aqui e agora – e também tu estares grata por isso. É querer aproveitar ao máximo, mas ao mesmo tempo praticar o desapego. É querer partilhar tudo isto com quem te incentivou a vir. É perceber que existem outras realidades, bem distantes das nossas. É adoptar o ritmo pole pole. É conhecer outros sons e outros sabores. É poder apreciar um céu estrelado e paisagens com novas cores. É fechar os olhos, sentir o vento a bater na cara e desfrutar de uma nova sensação de liberdade. É mambos e jambos, palmeiras e praias, coco, melancia e banana, chapatis e dala-dalas. É perceber que dentro do caos existe a organização e dentro da pobreza também é possível encontrar o paraíso.

Mas voluntariado também é ter de aprender rapidamente a gostar de novas comidas e conformar com o “arroz nosso de cada dia”. É ter de lavar a roupa à mão e os pratos no alguidar. É ter de levar a garrafa de água sempre que se quer lavar os dentes. É não descansar tanto quanto se gostaria. É viver com e como os locais. É ter dor nas costas causadas pelo colchão (ou pela ausência dele) e usar galochas todas as manhãs. É esperar numa fila de 8 para tomar banho (de água fria). É viajar num dala-dala com mais 30 pessoas. É conviver com outros hábitos e outras culturas – e ainda assim saber colocar os próprios limites. É fazer uma mala apenas com o essencial (e perceber que, ainda assim, mais coisas podiam ter ficado para trás). É simplificar. É preparar aulas e cativar os miúdos. É tentar não ser picuinhas. É perceber e valorizar o facto de, na tua sociedade, ser mulher não condiciona em nada a tua vida. É procurar o teu espaço e tempo no meio da confusão. É (re)aprender a todo o momento a dar valor às pequenas coisas da vida.

Mas, ao fim de 3 semanas, o voluntariado também traz consigo as saudades de casa e daqueles que ficaram do outro lado do mundo. É tempo de regressar – de coração bem cheio!
Obrigada Zanzibar!

A experiência do Nuno em Barcelona

Já há algum tempo que queria fazer voluntariado internacional e decidi juntar a essa experiência uma viagem de uma semana após o trabalho de voluntariado e por isso decidi ir para a Catalunha porque me pareceu o local ideal para a minha primeira viagem para o estrangeiro sozinho.

Cheguei a Barcelona dois dias antes do início do meu campo de voluntariado, para conhecer a cidade e visitar alguns amigos. Existem comboios diretos para a cidade onde fiquei durante duas semanas, Vilanova i La Geltru, e foi bastante fácil chegar ao nosso ponto de encontro.

Durante duas semanas, de segunda à sexta, tínhamos os pequenos almoços às 6h30min para depois seguirmos de autocarro para o local de trabalho, no outro lado da cidade. Eramos mais de uma dúzia de voluntário a dormir em quartos partilhados com boas condições e a comida era fornecida por uma empresa de catering, sendo que todos os dias diferentes voluntários eram responsáveis pelos lanches e pelo trabalho de cozinha e limpezas.

O trabalho realizava-se apenas durante as manhãs devido ao calor sendo que durante a tarde tínhamos tempo livre para ir para a praia, ao centro da cidade ou apenas descansar no relvado.

Apesar de ser um trabalho bastante cansativo todo o grupo estava sempre animado e mesmo nestes momentos criamos grandes memórias.

Na maioria dos dias tínhamos atividades ou workshops ao fim da tarde, todos bem organizados e que nos permitiu criar grandes momentos em grupo.

 

Um dos objetivos da organização era a nossa experiência pessoal e cultural pelo que tivemos vários dias repletos de atividades como uma caminhada num trilho até à cidade de Sitges, ida à Festa Major de Vilafranca de Penedés, visita ao Mosteiro de Montserrat, visita à cidade de Tarragona e muitas atividades culturais na cidade onde estávamos.

Após o término do trabalho segui por várias cidades em Espanha, terminando em Bilbau.

Realmente aconselho qualquer pessoa a fazer voluntariado internacional, sendo que em campos de voluntariado de curta duração se criam grandes amizades pelo facto de estarmos sempre em grupo, 24 horas por dia.

O ‘Para Onde’ foi uma grande ajuda para a organização da viagem e quiseram estar sempre a par do meu estado, muito obrigado!

A Experiência da Marta no Laos

Phoudingdaeng foi um desafio, quando cheguei, pelo choque cultural, entre mim e quem tem tão pouco, e quando me vim embora, por deixar um bocadinho do meu coração ali. E não há nada melhor do que saber que as vidas que ali habitam vão ter um futuro melhor, vão estar mais educadas, vão estar mais disponíveis para tudo o que o mundo tem para lhes dar, não por minha causa, mas pela continuidade de pessoas que chegam todas as semanas prontas para dar o melhor de si. Vang Vieng muda, não pelo bocadinho do meu coração que ali ficou, mas por todos os corações que já ali passaram. Este é o maior testemunho que posso dar, tudo o que resto seria um clichê. Se imaginarem cada uma destas crianças como uma casa, cada um de nós pode ser mais um tijolo.

A Experiência da Sandra no Quénia

Já há muito tempo que queria fazer voluntariado internacional, pareceu-me esta a melhor altura da minha vida para o fazer. De todos os programas de voluntariado disponíveis para o meu período de férias, houve um que me captou a atenção: Kiburanga. Sabia que ia ser difícil, cultura diferente, condições de conforto mínimas, mas, ainda assim, decidi arriscar. E ainda bem que o fiz. Quando cheguei a Nairobi (já com a minha companheira de viagem, a Leonor, também portuguesa mas que só conheci no Dubai enquanto fazíamos escala), pensei: “Sandra, no que te foste meter?’’. Nairobi é uma cidade muito confusa, muita gente, muito trânsito que nem sempre é controlado. Para Kiburanga, partimos na manhã seguinte. Foram 9h de viagem em que se via a densidade populacional a diminuir, e a beleza natural a aumentar. Quando chegámos a Kiburanga, estava muita gente da comunidade reunida junto à escola para nos receber, muitas crianças, e um grupo de pessoas já com alguma idade a com música e dança típicas da região, foi um bocadinho arrepiante. As crianças guiaram-nos até ao nosso campo. Assim que cheguei, encontrei a Catarina. A Catarina é uma autêntica rockstar. Esteve neste projeto em 2017 e decidiu criar uma associação em Portugal (Associação Simba – Children’s Rights) para que fosse possível construir um orfanato em Kiburanga. Uma das nossas atividades para o projeto acabou por ser ajudar na sua construção (quando viemos embora, já estava praticamente concluído).
Nos dias que se seguiram, além da construção do orfanato, as atividades passavam pela distribuição de roupas, fabrico de tijolos, atividades com crianças, pintura da escola, e visitas domicilárias (home visits), onde pudemos ver como as pessoas vivem, como são as suas casas e quais são as suas histórias. Realmente, Kiburanga é especial. A vida daquela terra, o ritmo que se ouve, a alegria que existe sempre, o pôr-do-sol mais bonito, o céu mais estrelado, aquela gente que precisa de tanto, mas que não sente falta de nada. É um sítio que nos deixa com um misto de sentimentos enorme, principalmente na hora da despedida.
Sentimos que fazemos pouco, que nunca vai ser suficiente. Mas como alguém muito experiente um dia me disse: “Por muito que nos custe não conseguiremos mudar o mundo. Apenas podemos dar pequenos, honrosos e valiosos contributos.” Kiburanga foi a experiência mais bonita que já tive, a parte difícil foi deixá-la.
(Na verdade, acho que nunca deixei.)

Distribuição de roupas

A experiência da Maria em Zanzibar

              Desde que me lembro de ser gente, que tenho uma inexplicável sede por me aventurar pelo desconhecido, recordo-me de girar o globo que havia no escritório dos meus pais, apontar para um lugar de olhos fechados e imaginar como seria esse local. À medida que fui crescendo, o voluntariado entrou na minha vida em diversos formatos, acabando por descobrir outra das minhas grandes paixões. 

              Este ano decidi dar “o passo” e misturei as minhas duas grandes paixões – partir rumo à descoberta e ajudar com o meu contributo quem necessita. E assim foi, em Julho parti de mochila às costas para a África Oriental, mais concretamente para uma ilha pertencente à Tanzânia e banhada pelo oceano Índico, Zanzibar.

              Costumam dizer que o início custa sempre, mas este não foi o meu caso, rapidamente me senti acolhida em família e a fazer parte de uma comunidade, que aos poucos fui conhecendo e compreendendo melhor a sua cultura, as pessoas e o seu modo de vida. Estando num país maioritariamente muçulmano, onde todas as mulheres usam hijab, onde a mulher é bastante inferiorizada relativamente ao homem, onde ainda se acredita em bruxaria e feitiçaria e onde a pena de morte ainda persiste, existem regras culturais que tive que seguir e compreender, de modo a respeitar e ser aceite pela comunidade, tal como evitar usar roupas que mostrassem os ombros e as pernas, ou até mesmo evitar fazer ruído nas horas de oração.

              Numa experiência destas nem tudo é bonito e muitas vezes senti alguma frustração e impotência pelo facto de certos pontos de vista e crenças serem mal aceites e incompreendidos por esta cultura, como por exemplo a igualdade de direitos entre géneros, que é algo completamente absurdo para estas pessoas. Crenças e pontos de vista como este são difíceis de se mudar, e ainda mais quando são questões culturais enraizadas na própria educação destas pessoas desde cedo, mas penso que se falarmos neles aos poucos, e cada vez mais, existe a hipótese de transformarmos (nem que seja só um pouco) algumas mentes, e quem sabe, deixar uma “semente” que conduzirá à mudança.

              No entanto, estas inúmeras divergências culturais com que me deparei foram apenas mais um fator de interesse para explorar melhor, pois quando nos permitimos conhecer genuinamente o outro, pomos de lado as nossas defesas/barreiras, abrimos as nossas mentes e abraçamos o próximo, independentemente da cor da pele, religião, crenças ou género, abrimos espaço para amizades improváveis, que nos fazem crescer e que vão marcar para sempre a nossa vida com lições de tolerância, respeito e amor.

              Para mim Tanzânia foi viver de intensamente cada momento, foi ver sorrisos e gargalhadas no meio de pobreza, foi andar de pé descalço e de espírito leve, foi dançar ao som de “bongo flavour” com os vizinhos, foi encontrar uma mama, um papa e três irmãs África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi ficar deslumbrada com a beleza natural de Zanzibar, foi aprender e dar “calinadas” no suaíli, foi perceber que a educação salva vidas, foi conhecer-me melhor, foi fazer amigos verdadeiros nas pessoas menos prováveis, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos (como ter água quente para tomar banho), foi andar à boleia em carrinhas de comércio local, foi conhecer histórias de vida que jamais irei esquecer, foi ser criança outra vez, foi dizer “porque não?” mais vezes do que era suposto, foi rir até doer a barriga e é ter uma vontade enorme de voltar já e agora. 

Com esta oportunidade, foi possível aperceber-me melhor das desigualdades que ainda existem neste mundo, em coisas tão simples como fazer o caminho para a escola em segurança. Pois é, em Zanzibar todos os anos existem mortes e ferimentos em crianças que simplesmente estão a ir para a escola, porque não existe segurança rodoviária ou qualquer tipo de educação nesse sentido, sendo este o foco da organização de acolhimento – lutar para que seja possível que todas as crianças em Zanzibar cheguem ao local de ensino em segurança. Situações como esta e similares que pude testemunhar fizeram-me abrir os olhos e ver que ainda existe uma luta muito maior do que imaginava, para que todos tenham oportunidade de viver com dignidade. Somos apenas um grão de areia cada um de nós, mas se formos muitos, conseguimos ser uma praia ou uma montanha de grãos de areia, e aí, fazer a diferença.

              Queria muito conseguir dizer o que senti nestes 2 meses em Zanzibar, mas há coisas que não se conseguem explicar, só quem viveu a experiência consegue compreender, por isso, o melhor remédio é mesmo ir. Volto com o coração a rebentar pelas costuras, por não saber quando (ou se) voltarei a ver a minha segunda família e amigos, que deixei do outro lado do mundo, mas volto também com um sorriso gigante por ter desfrutado ao máximo desta oportunidade única. Posso apenas prometer a mim própria, que um dia hei de lá voltar