Mariana, Santo Antão 🇨🇻

Já passou mais de um mês desde que, em lágrimas, caminhei para o barco tentando, sem sucesso, evitar olhar para trás e encurtando a distância que me separava de Portugal. Sabia, porém, que essa distância ainda era longa quando o coração tinha ficado uns passos atrás.

O Bilela (Sr.Manel) disse uma vez, “Eu gosto muito das palavras, não sei quais gosto mais”. Partilho do mesmo “problema” e, temo que, mesmo descobrindo as que mais gosto não compreendam a profundidade de cada dia que, ao longo de três semanas, passei em Santo Antão.

Em setembro de 2019 decidi dar o passo e realizar o sonho de fazer voluntariado internacional. África sempre me fascinou, a vontade de ir a Cabo Verde era grande, mas sem razão aparente, escolhi Santo Antão. Sei, agora, que não foi por acaso.

O bichinho pelo desconhecido desafiou-me a sair do meu conforto e a “sozinha” entrar no avião dia 1 de fevereiro de 2020. Não me assustam aventuras mas para quem gosta de ter tudo planeado parece difícil que o apanhem de surpresa.

Fui sem expectativas e com uma quantidade de borboletas (boas) na barriga. Só sabia que queria “dar” sem receber nada em troca. Consigo agora perceber que qualquer expectativa que tivesse criado seria insuficiente. Não imaginava que este desafio me faria crescer tanto em tão pouco tempo.

Lá, lembro-me de ouvir que fazemos a nossa própria sorte, mas, às vezes, não sabemos bem o que é ter sorte. Vim com a ideia de que sorte é conseguir estar pleno e em paz… é ser genuíno e não conseguir evitar soltar gargalhadas, contagiar sorrisos, acolher de braços abertos e sentir, durante o dia, que não poderia faltar mais nada. Foi assim que me senti e me fizeram sentir todos os dias: sortuda. As pessoas são felizes, cumprimentam-se na rua, os miúdos brincam e “andam à solta”… a simplicidade com que levam o dia a dia é extraordinária.

Os galos cantam, os cães ladram e começavam as manhãs em que, mesmo quando, pontualmente, não havia água na torneira e estava suao (calor seco), caminhar até ao Alto de São Tomé tornava-se cada dia mais fácil e a distância mais curta quando, os idosos, em troca de um “Bom dia, Tud dret? Dormiu bem?” nos recebiam com abraços apertados e mil beijinhos.

 É incrível como nos fazem sentir que pertencemos ali desde sempre. Mesmo nos dias em que se sentiam mais em baixo era fácil cativá-los com uma conversa e pouco a pouco iam confiando em nós para partilhar o que os incomodava. São todos diferentes, mas, em comum têm uma garra de viver e uma alegria contagiante, sempre com interesse pela mais banal atividade que tivéssemos para eles. Cada um, à sua maneira, foi capaz de me tocar cá dentro. Deles levo ensinamentos que não esquecerei.

As manhãs e os fins de tarde eram passados no Espaço Jovem. Com jogos, pinturas, desenhos e com música, que os miúdos eram capazes de fazer com todo o tipo de objetos. Brinquei e corri até as pernas quererem parar e descobri que afinal ainda há uma criança em mim!

Tenho sodade daqueles miúdos todos especiais e talentosos que me faziam sorrir todos os dias, de manhã à noite, e me enchiam de tanto mimo. De os ouvir brincar na rua e ir à janela. De gritarem “Ê MARíííaana” e dos toques à campainha.

Tive oportunidade de participar no início de um projeto para desenvolver os Centros Multiusos de outras localidades fora de Porto Novo. Ao visitar estes espaços vi uma evidente falta de materiais e condições, falta de apoio e de iniciativas para promover o desenvolvimento de atividades e para apoiar os jovens locais a diversos níveis. Mergulhei assim, no interior da ilha, abri os olhos e toquei de uma forma ainda mais profunda na consciência… Foi um misto de emoções. No meio das pessoas fantásticas que me acompanhavam e dos bons momentos que estas visitas me proporcionaram, apercebi-me que há sítios onde não há água e só há luz durante dia. Em que os transportes são escassos e as crianças caminham horas para chegar à escola. Em que a seca é uma realidade e alguns alimentos começam a faltar. Há, um dia para a batata e outro para o tomate (…). A água da torneira é desaconselhada, mas a engarrafada é um luxo. Uma caneta e um caderno não são bens banais.

Entre muitas coisas, compreendi que, quase inconscientemente, desvalorizamos e tomamos como garantida a vida que levamos. Construímos uma sociedade em que damos demasiada importância ao supérfluo. De cada vez que me deslocava à praia e via os miúdos chapinhar felizes na água, pensava: É mesmo preciso ter “mil fatos de banho” (ou até mesmo um) e uma toalha? A resposta era evidente quando os observava a vir da água para se deitarem na areia quente com um sorriso de satisfação nos lábios.

Ao mergulhar no coração da ilha, vi a beleza da terra e das suas gentes, uma imensidão de verde que só os olhos são capazes de captar. Senti a cultura, a transparência e a hospitalidade de um povo resiliente, pautado pela “firmeza” e pela “morabeza”. Foram tantas as pessoas que me marcaram e as amizades que levo para a vida que se quisesse agradecer-lhes não chegariam as palavras. A bondade que transborda nos seus corações é infinita. É tão bom saber que mesmo longe, esta paz e este amor caminham a meu lado neste coraçãozinho apertado.

Com o coração cheio sei que posso não ter mudado o mundo, mas como se diz “grão a grão enche a galinha ao papo”. Cada abraço e beijinho que dei, cada gargalhada que provoquei, cada vez que brinquei, sorri, corri e os carreguei ao colo ou às cavalitas por mais mínimo que pareça é valorizado e retribuído porque na verdade nós recebemos mais do que damos.

O Sr. Gregório dizia todos os dias, incansavelmente, “A vida é pa viver em vida” e eu sabia que estava ali a viver. O maior conselho que tenho é que não adiem os sonhos, vão sem medos, agarrem oportunidades.

Sem arrependimentos (a não ser ter ficado apenas 3 semanas) e grata por uma das melhores experiências da minha vida, sei que, encontrei, no voluntariado, uma nova forma de viajar, de me descobrir e de contribuir para um mundo melhor.

Com muita sodade tenho a certeza que voltarei a este pedacinho do céu 🙂

Sintanton é sab!

Maria Helena, Bárbara, Sara e Sofia, Guiné-Bissau 🇬🇼

Uma experiência de voluntariado internacional sempre fez parte dos nossos planos, queríamos algo que nos pudesse mostrar uma realidade completamente diferente, nos impactasse e pusesse à prova e ao mesmo tempo um sítio onde pudéssemos deixar de alguma forma um bocadinho daquilo que somos. A Guiné sem dúvida que nos marcou!

Viajamos para a Guiné no mês de Julho, mês de chuvas tropicais e grandes trovoadas. A nossa chegada a este país lindo já não foi fácil, nesse mesmo dia deparamo-nos com trovoadas que nenhuma de nós pensaria chegar algum dia a ver, não havia luz, e os mosquitos atacavam por todo o lado. Apesar de tudo isto a comunidade Guineense estava lá para nos receber, tanto no aeroporto como na casa dos voluntários, onde ficámos no chamado “Bairro Militar”. Os abraços que recebemos das crianças nessa noite foi o que nos encheu o coração, o modo como elas nos tocavam, como nos diziam os nomes e nos agarravam…

O primeiro dia na Guiné foi sem dúvida o mais chocante, o sair à rua e ver tudo aquilo que nos rodeava, a pobreza, as condições más em que a maioria das pessoas vivem, a falta de cuidados de saúde, a falta de condições na escola… foi todo um misto de emoções difícil de explicar. Uma coisa é certa, depois daquele momento nunca mais fomos as mesmas pessoas e tudo passou a ter um novo significado para nós.

Aprendemos um novo conceito de felicidade, aliás, abraçámo-lo e vivemo-la todos os dias na Guiné porque abrimos o nosso coração e a deixámos entrar. As nossas melhores lembranças são lindos sorrisos rasgados e abraços calorosos que aquecem a alma.

Os melhores dias foram os mais banais e comuns, são esses que se acabam por tornar nos mais especiais… tardes passadas a falar e a rir, dançar ao som da música dos Calema que eles pediam sempre, sentir o ar fresquinho do fim da tarde enquanto as meninas nos enchiam o cabelo de tranças. Isto sim, levamos da Guiné, levamos de África.

Fomos para lá como professoras, de livros na mão e com a ideia de dar o melhor de nós. Saímos de lá como crianças, de lágrimas na cara e com a certeza que recebemos o melhor deles!

Ao chegar a Portugal só uma palavra fazia sentido: Voltar! Deixámos uma família na Guiné à nossa espera e agora só pensamos em voltar um dia para eles, com o coração apertado de saudades.

Obrigado Guiné por nos ensinares a deixar as coisas acontecer, a ter calma, a saber ouvir e melhor de tudo… a não ter medo de SENTIR!

Francisca, Arraial d’Ajuda 🇧🇷

É já em Portugal, mas com o coração e com a cabeça ainda em Arraial d’Ajuda, que reflito sobre a minha experiência como voluntária na Associação Filhos do Céu. Contudo, a verdade é que torna-se difícil descrever por palavras tudo aquilo que vivi enquanto lá estive mas se há coisa que posso certamente afirmar, é que foi sem dúvida uma das melhores, se não mesmo a melhor, experiência que já tive! 

Tudo começou como uma enorme vontade de ajudar quem mais precisa e de sair da minha zona de conforto. E assim foi! 

No dia 11 de fevereiro meti-me no avião com destino a Porto Seguro. Nesse dia, não sabia o que esperar desta experiência. Ia completamente sem expectativas, como assim me tinham dito para fazer. Mas foi assim que cheguei a Arraial d’Ajuda, que percebi a sorte que tinha por estar naquele lugar maravilhoso, que seria a minha casa durante 5 semanas!

Arraial, devido às suas cores, ruas, cultura, pessoas, etc., tem esta capacidade de nos fazer sentir bem, de nos fazer sentir em casa! 

No entanto, este sentimento de bem estar aumentou assim que cheguei à AFC devido a todo o carinho com que fui recebida desde o primeiro dia! 

Os abraços e beijinhos por parte das crianças rapidamente se tornaram rotina, assim com os pedidos constantes: “prof, hoje fica com nois?” ou “titia, hoje vem pra nossa sala”. Todos estes gestos tornaram os meus dias ainda melhores! Para além disso, tive a sorte de ajudar e passar por um pouco de tudo, desde a biblioteca às oficinas, passando pela creche e pelas várias turmas, o que contribuiu ainda mais para esta experiência pois tive a oportunidade de aprender um pouco com cada uma daquelas crianças! 

Ser voluntária na Associação Filhos dos Céu significa chegar de manhã e receber de braços abertos as crianças que correm para nos dar um abraço de bom dia, abraços estes que nos relembram todos os dias o porquê de estarmos ali! Implica também saber dizer que não quando necessário mas também dar atenção, colo e carinho! Implica ouvir “baby shark” várias vezes por dia mas sempre com o maior sorriso na cara ao ver a felicidade daquelas crianças enquanto dançam! Implica pôr de castigo mas também brincar! Implica ralhar e ser paciente. Mas mais do que isso, implica não só ensinar mas também aprender! 

Foram muitos dias a acordar cedo, muitos quilómetros percorridos durante o tempo que lá estive, muitas molhas, muitos dias de cansaço. Foram também muitos abraços, muitos beijinhos, muitos risos, muitas brincadeiras e principalmente, muita alegria! Foi muita coisa e tudo muito intenso mas também muito gratificante ao mesmo tempo! 

Esta experiência ensinou-me a dar ainda mais valor às mais pequenas coisas da vida e a ver o mundo com outros olhos! Deu-me a conhecer uma realidade que até à data desconhecia mas que todos os dias sinto saudades. Deu-me também novas amizades, que certamente se irão manter! 

No entanto, tudo isto não seria possível sem aquelas crianças, sem aqueles educadores e sem a “Para Onde?” e, por isso, agradeço a todas estas pessoas por terem tornado esta experiência ainda melhor do que alguma vez imaginei! 

Hoje, sinto-me bastante agradecida por tudo o que experienciei enquanto estive em Arraial e tenho a certeza que um dia irei voltar! 

Catarina, Santo Antão 🇨🇻

A nossa maior capacidade é a capacidade de escolha, sem dúvida a escolha de embarcar para Santo Antão foi das melhores que tomei. Voluntariado é não saber muito bem o que vamos enfrentar, é um desafio para nós próprios e é receber sem dar nada em troca aquelas crianças incríveis, aos idosos e aos jovens e, por isso agradeço cada sorriso, abraço e beijinho, não há melhor sensação do que voltar de coração cheio. Soded !

Fábio, Santo Antão 🇨🇻

A minha chegada a Santo Antão ficou marcada pela receção carnavalesca totalmente inesperada. Duas horas depois de chegar estava eu a pintar o corpo todo de preto, com pó de carvão, e a vestir uma saia de corda para entrar no desfile da Mendinga. Acabei por conhecer já alguns dos meninos com quem iria estar durante a semana, e que bem que soube eles já saberem o meu nome na primeira vez que se dirigiram a mim, foi uma sensação tão boa!

A primeira experiência que tive com os idosos foi muito boa, ainda um pouco tímido, a analisar toda aquela novidade, mas sempre muito bem recebido. Todos eles emanam alegria, dão-nos um sorriso por qualquer motivo. Seguiu-se o Espaço Jovem e o convívio com as crianças.

É incrível a forma como elas nos recebem, como se já nos conhecessem há anos. Timidez não é uma palavra usada naquele local. A forma como nos dão a mão e nos chamam para brincar deixa-nos de coração cheio, quase sem saber como reagir.

Levei um jogo para eles, de atividade física, e foi muito reconfortante ver o sorriso e a vontade de jogar deles, era novidade, e só o olhar deles nos dá toda a vontade deste mundo de viver.

Treinámos também Karaté, sendo já uma das ideias que levei para o projeto. Quando lá cheguei, alguns já sabiam que eu fazia Karaté, e como era de esperar, super curiosos a pedir para que lhes ensinasse. Esse dia chegou, e o ar de estupefação na cara deles foi impagável. Não porque era difícil, pelo contrário, mas pela novidade em si. Foi muito reconfortante ir embora e ver o entusiasmo que eles tinham a treinar os exercícios uns com os outros na rua, no passeio, na praia. Sentir que lhes passei alguma coisa, por pouco que fosse, que lhes trouxesse alegria.

Tive ainda a oportunidade de ir a alguns dos centros Multiusos, fora de Porto Novo, mais para o interior da ilha. E que realidade! Perceber a falta de iniciativa que há para com os jovens nestas localidades e pelos responsáveis dos espaços; perceber que há crianças que andam todos os dias 1 hora a pé para chegar à escola; perceber que há centros que apenas dispõem de mesas, sofás e uma televisão, sendo poucos ou nenhuns os materiais educativos e didáticos; perceber que a falta de água nestas zonas implica ter mais ou menos comida na mesa no final do dia; perceber que apesar de todas estas dificuldades elas são felizes, e para descrever isto não há palavras.

Atrevo-me a dizer que este pedacinho de terra é único, nas suas paisagens, nas suas gentes e na sua cultura. O facto de toda a gente nos dizer bom dia na rua transporta-nos para uma realidade diferente, estranha inicialmente, e tão reconfortante finalmente. Olhar para estes meninos, ver como se divertem na praia, como são tão felizes sem uns calções de banho e uma toalha, e perceber que nós, ocidentais, ao invés, valorizamos tanto esse ponto. Perceber a humildade deles, sabendo que mesmo precisando de mais (seja dinheiro ou comida), não pedem, não enganam, e não mentem. Perceber que existe ainda esperança na bondade, sinceridade e transparência das pessoas daquela terra. Ficar feliz por poder ter contribuído para ver um sorriso a mais na cara deles, um abraço a mais, um miminho a mais. O único erro que cometi foi ter ficado apenas 15 dias, tão pouco, passou a voar. Trago na memória as caras de todos eles, e venho com a esperança de ter sido uma mais valia na vida de todos eles, esperando um dia voltar.

Mafalda, São Tomé 🇸🇹

Tenho andado a adiar escrever o meu testemunho, para organizar os meus sentimentos e traduzi-los em palavras que façam jus ao que vivi, estes dois meses em São Tomé. Há coisas que sentimos que são difíceis de contar, mas acho que vos consigo deixar uma ideia do que se passa no meu coração.

Comecemos pelo início, que aventura! Cheguei lá sem saber bem o que me esperava, mas no fim do primeiro dia tinha os mais pequeninos a bater à porta do meu quarto para um beijinho de boa-noite. E, aí, soube que estava em casa. Mexeu logo comigo como os miúdos me receberam de braços abertos, como os abraços, os risos, os jogos surgiam de forma natural. Alguns dos mais velhos foram mais desafiantes, mas aos poucos fomos construindo uma boa amizade. E é tão bom, que no final custa deixar todos, sem exceção.

Lá em casa vivem 14 “piquenos”, dos 7 aos 17 anos. O dia-a-dia lá na Fundação tem o seu ritmo, desde o acordar cedíssimo com a música no terraço à história antes de ir dormir. As rotinas deles que passaram a ser minhas, mesmo as que custavam um bocadinho mais, deixam uma saudade tão grande. Como vivemos lá, acabamos por passar todo o dia com eles e mesmo quando há folgas, acabam quando chegamos a casa. Isso tanto tem as suas vantagens, como desvantagens. Significa que estão sempre a bater à porta de casa, mesmo que seja só por curiosidade para saber o que estavas a fazer, significa que lá estás quando estão doentes, quando têm um mau dia na escola, que lá estás quando é para brincar e quando é para estudar. Todos eles, individualmente com as suas histórias, com a sua maneira de ser, tocaram o meu coração. Porque se aos pequeninos a alegria sai gratuitamente, aos mais velhos sai o serviço. E até aqueles que são mais difíceis às vezes, desafiam-nos sempre a ser melhores, porque nos testam e, por isso, ajudaram-me a crescer. Todos eles, à sua maneira, puxaram por mim e fizeram-me melhor. E as amizades vão surgindo naturalmente, todas únicas e especiais, com cada um deles. Deixam saudades os “Mafalda piquinina”, os “qué quoi?”, os “upa a gentxi” e os “deixa traxar oxê”, desde que acordava até que eles se iam deitar.

Tenho de falar de São Tomé, no geral, também: que paraíso! A beleza natural do país deixou-me todos os dias a pensar a sorte que tinha em viver ali, sentir-me agradecida pelo mundo em que vivemos, que é tão bonito! As praias, as roças, as pessoas! No nosso ritmo acelerado europeu esquecemo-nos muitas vezes de que a Humanidade é o nosso maior tesouro. É a amizade, a alegria, a gentileza, a disponibilidade, a simpatia, a humildade e o entusiasmo dos santomenses que desperta este sentimento de “isto sim é ser humano!”, no verdadeiro sentido da palavra. E é bom sabermos que nós somos capazes de viver assim, descentrados de nós próprios e dos nossos problemas e vivendo disponíveis para os outros e atentos ao que está à nossa volta.

Durante estes meses, tanto com o que ia vivendo na Fundação, como com a própria vivência na ilha, aprendi muitas coisas. Aprendi coisas sobre mim, sobre o mundo, sobre os outros. Acredito que, agora que já estou em casa, continuo a aprender, porque há coisas que vivemos que só processamos depois e que nos continuam a transformar. Mas aprendi a amar todos os dias mais um pouco. E que quando achava que já não cabia mais amor e mais alegria no coração, estava enganada. Aprende-se a dar valor aquilo que temos, a ser mais agradecidos, a viver com um olhar mais atento, a dar importância ao que é realmente importante.

Agora partilho convosco todas estas coisas boas, porque é o que fica a ecoar no coração, mas claro que há dias difíceis, há muitos desafios, há dias em que nos testam a paciência e tudo o que houver para testar. Mas há duas coisas que estavam sempre presentes: 1) dias maus há sempre, mas quando se tem a certeza de que se está no sítio certo, com o coração no lugar, sabemos que estamos a caminhar bem e que esses dias também nos estão a fazer crescer; 2) não estava sozinha. E focando-me nesse segundo ponto, também não podia deixar de mencionar a amizade tão bonita que se forma com os outros voluntários e tão importante que é para viver esta missão sem perder o foco.

Regresso com a sensação de que lá deixei pedacinhos do meu coração, mas a sensação de que venho com o coração cheio! Porque se lá deixei alguns, também os trago a eles comigo e com o coração a transbordar de amor, alegria e gratidão. E a certeza que estes meses em São Tomé serão sempre, para mim, o recordar de que a vida com amor e partilha é muito melhor!

Sofia, São Vicente 🇨🇻

Querido futuro voluntário,

Não estava a ser fácil passar para o papel tudo o que vivi em São Vicente. Tudo o que aprendi e experienciei durante estes dois meses.

Como é que seria possível explicar a intensidade com que se vive cada dia? Explicar a felicidade que nos invade assim que saímos do avião?

Logo quando acordamos e vamos para o voluntariado somos recebidos de braços abertos e um sorriso tão genuíno que nos contagia até ao fim da tarde, altura em que nos despedimos de todos com a certeza que vamos voltar no dia a seguir prontos para darmos tudo de nós outra vez. De repente, darmos tudo de nós todos os dias é a única opção que faz sentido. E, o engraçado, é que isto acontece de uma forma tão natural e despreocupada que nem nos apercebemos ao início. É incrível.

E este é mais um dos efeitos que São Vicente tem sobre nós. Onde quer que vamos e com quem quer que nos cruzemos acabamos sempre por ficar com uma família. Desde a família dos voluntários, à família da coordenação, à família dos amigos que vamos fazendo, à família dos cafés onde vamos, à família das crianças que nos vão considerando seus amigos.

E é por termos a possibilidade de criarmos estas relações tão únicas e especiais com cada um que sentimos sempre que a única opção que temos é dar tudo de nós. Ajudarmos sempre no que sabemos e, na maior parte das vezes, no que não sabemos e vamos aprendendo.

E garanto-vos, não queria nada recorrer a clichês mas este é mesmo verdade, por mais que nós demos o que recebemos é sempre três vezes maior. Tudo o que dei recebi a triplicar.

Passei dois meses em São Vicente e nesta pequena ilha no meio do Atlântico encontrei a minha segunda casa. Foi uma experiência tão única e tão intensa que por mais que escreva nunca vou conseguir encontrar palavras que façam justiça ao incrível e bonito que foi a minha experiência de voluntariado em Soncent.

Se estiverem na dúvida, por favor não hesitem, prometo que não se vão arrepender. Volto com o coração cheio e com a certeza que hei de voltar e visitar a minha segunda casa.

Obrigada por tudo Soncent 💛 até já 👋

Ana Luíza, Tailândia 🇹🇭

Há muito tempo, venho acompanhando a Para Onde procurando um espacinho na minha vida para tirar um tempo e, principalmente, a coragem para se entregar de olhos fechados à uma aventura!

E foi assim; apareceu uma oportunidade e eu me entreguei! Abracei a ideia e fui! E se posso te dizer de imediato: foi incrível! Eu fui ensinar, e no fim, fui eu quem aprendi. 

Eu fui para o sul da Tailândia, em uma pequena cidade, dar aula de inglês para crianças em uma escola comunitária. Um lugarzinho bem simples! Uma escola que beira à precariedade, mas é cheia de amor para dar.

Acordávamos todos os dias de manhã bem cedinho e para já um banho gelado da água que vinha do rio! O dia começava já com várias crianças à porta esperando para dar um ‘good morning teacher’! Antes de entrarmos na sala de aula, já estavam todos com um grande sorriso no rosto! Eu nunca tinha visto um amor e uma vontade tão grande em aprender!

Os primeiros dias foram regados a lágrimas em ver o quão gratos eles eram simplesmente por ter a oportunidade de ter aulas connosco! E quando faltava um professor, as crianças vinham correndo pedir para um de nós dar mais uma aula! Chega a ser lindo de se ver!

Além das crianças, preciso dizer o quanto me apaixonei pelos tailandeses!
Eles não precisam nem saber o seu nome, mesmo assim fazem tudo por você.

Empatia. Amizade. Generosidade. São três características que representam essa cultura tão envolvente. E no futuro, espero que sejamos assim, como os Tailandeses; quem sabe, assim o mundo não seja mais florido!

Em relação à comunidade: era tudo muito simples, mas ao mesmo tempo era mais do que suficiente! E me fez perceber o quanto o simples é bonito. Talvez este tenha sido o meu grande aprendizado. Seja simples! Simplifique! E grandes passos serão dados!

Por fim, eu deixei um grande amor para trás! Uma comunidade que me ergueu valores, me encheu de amor, e me deixou cheia de saudades! Não há um dia em que eu não pense neles! Serei eternamente grata por me ensinarem algo que lugar nenhum me ensinou. Espero que seja sempre assim, simples! Espero que nossa vida seja como Phatthalung! Seja simples, mas seja amor!

Ana Margarida, Guiné (Norte) 🇬🇼

Oohh São Domingos sabi!

2019 desenrolou-se um ano de carreira particularmente desagradável, até surgir a oportunidade certa para me inscrever num programa de voluntariado que há tanto tempo desejava fazer. A Guiné era um país que queria conhecer há algum tempo e quando vi que a “Para Onde” tinha programas para este país, não pesquisei mais nada.

Apesar de já ter uma experiência alargada de viagens a África, nunca tinha feito voluntariado internacional nem sabia muito bem como seria todo este processo. No fundo, sabia que queria ajudar no que fosse preciso mas não fazia ideia no que me estava a meter.

Quando me contactaram e me disseram que tinham vagas abertas para São Domingos ainda em 2019, não hesitei e o meu “SIM” foi imediato.

Quando recebi o email a dizer “aceite” fiquei tão feliz que ao mesmo tempo não sabia o que fazer. Comecei a questionar-me que atividades poderia eu fazer, como é que iriam ser as aulas quando a minha área nem sequer é educação, como é que eu iria ter imaginação para um mês inteiro com crianças, como é que eu iria ser recebida, etc. Um turbilhão de questões, pensamentos e sentimentos sem resposta.

Na chegada à Guiné tudo isso se desvaneceu. Foi tão fácil e natural lidar com tudo e com todos logo no primeiro dia em Bissau que não existem palavras suficientes para descrever.

Quando cheguei a São Domingos toda a gente me olhava a pensar o que estaria eu ali a fazer. Fui sendo apresentada e conhecendo tanta gente que em poucos dias toda a gente sabia o meu nome, todos me cumprimentavam e se metiam comigo por onde eu passasse. Fazíamos paródias na rua que punham outros tantos a olhar e a rir.

O povo guineense é sem dúvida dos povos mais amáveis e prestáveis que alguma vez conheci.

Na escola, todos os dias de manhã brincávamos no recreio e aprendíamos nas aulas, eu com eles e eles comigo.

Da parte da tarde tínhamos as aulas de apoio que eram muito importantes, não só para reforçar a aprendizagem dos alunos como para existir uma maior interação entre estas crianças, em vez de estarem em casa.

Foram dias muito cansativos e de desafios difíceis, principalmente pela falta de meios existentes no país. Mas no fim, é tão gratificante sentir que todos eles querem aprender connosco e que ensinamos alguma coisa que, por muito pouco que pareça, faz uma diferença enorme em todos eles.

Ensinei a escrever letras corretamente, ensinei jogos e músicas, fizemos desporto, desenvolvemos ações de limpeza na escola que sei que todas estas pequenas coisas ficaram com eles e que de alguma forma não se esquecerão de mim.

Muito me ensinaram estas crianças, estes professores, este povo! Um ensinamento que estará comigo para a vida.

A Guiné tornou-se uma segunda casa que vou continuar a visitar e a ajudar. São mais que amigos, são a minha família guineense. Só quem vai entende!

Guiné nha terra!

Rita, Santo Antão 🇨🇻

O novo ano ainda agora começou e não posso deixar passar em branco aquilo que foi o melhor do meu 2019. Já passaram 5 meses desde a minha experiência em Santo Antão e não há um único dia em que não pense naquelas pessoas e em tudo o que vivi.

Ir foi a melhor coisa que fiz na vida. O meu sonho de há tantos anos foi realizado em julho e escrevi o meu testemunho com atraso porque tenho tentado arranjar palavras para descrever tudo aquilo que senti e simplesmente não consigo, nem dá.

Em Santo Antão tive o melhor dos dois mundos: o voluntariado foi, sem dúvida, aquele que mais me encheu o coração, mas fico ainda mais feliz por saber que aproveitei cada minuto do meu tempo livre para passear e conhecer a ilha.

Uma das perguntas que mais me fizeram após voltar foi “Não te meteu impressão ver tanta pobreza?”. Não, na verdade eu não consegui ter pena nenhuma porque as pessoas lá são tão felizes com aquilo que têm. Aquelas pessoas levam a vida com uma simplicidade brutal, aproveitando tudo e mais alguma coisa para sorrir.

Os dias, apesar de nem todos terem sido fáceis, tinham sempre momentos que nos faziam sentir por inteiro: começávamos todas as manhãs pelo Centro de Dia do Alto de São Tomé, onde os idosos dançavam, faziam ginástica, pintavam, faziam pulseiras; por vezes íamos realizar depois atividades com as crianças do ICCA (Instituto Cabo-Verdiano de Apoio à Criança e Adolescente), que eram mais difíceis de conquistar mas que tinham uma mente muito aberta; e as tardes eram passadas no Espaço Jovem, onde parecia que tudo era possível.

A minha maior surpresa foram os idosos. Eu achava que só iriamos estar com eles uma ou duas vezes por semana, mas acabámos por estar todas as manhãs… e tão bom que foi. Eu nunca tinha visto aquela força de viver em lado nenhum. Eles fazem tudo e têm tanto gosto por aprender que não há explicação. Relembro-me bem de como era acordar e sentir aqueles abraços apertadinhos cheios de “Dormiram bem?”, “Os mosquitos picaram muito durante a noite?” assim que chegávamos ao pé deles.

Das coisas que me fazem mais falta é o barulho das crianças na rua, o estar em casa e ouvi-los a brincar, sabendo que a qualquer momento podem tocar à campainha ou gritar por nós à janela.

Avisam-nos desde cedo de que não vale a pena irmos para lá a achar que “vamos mudar o mundo” porque isso é impossível, e é mesmo, mas compensa tanto saber que lhes proporcionámos momentos que farão diferença na vida deles. No entanto, há outra coisa inegável: nós recebemos muito mais do que aquilo que damos. Aprendemos a relativizar os problemas, a viver com calma, a agradecer por tudo o que temos e a não termos imensas expectativas… tudo é melhor porque assim não há como desiludir.

É importante referir que o apoio da coordenadora, a Matilde, e da Para Onde foram essenciais para que tudo corresse bem e digo isto para nada temerem, caso estejam interessados em ir, mas com receio de alguma coisa. Antes, durante e após a viagem tivemos sempre a oportunidade de falar acerca do que achávamos estar certo e errado e todos se mostravam muito atenciosos.

Por fim, há histórias naquela ilha que nunca irei esquecer, momentos que vou continuar a sentir como se tivessem sido hoje e pessoas que nunca irão sair do meu coração. As despedidas, apesar de difíceis, foram despedidas felizes. Felizes e com a certeza de que um dia voltarei. É impossível não ser feliz ali.

Com muita sodade