A Experiência da Rosarlette na Guiné

Guiné-Bissau, lugar por onde entrei pela primeira vez na África, num espaço sonhado e pintado de forma intuitiva em meus quadros. Lugar onde se tem acolhida sincera, consideração e respeito, troca de afeto, simplicidade e de onde trago saudade de tudo e de todos.

A Guiné, como a África, vai além do que livros, noticiários ou informações de terceiros possam dar. A África tem que ser vivida para depois ser narrada e sentida dentro de quem tiver essa oportunidade de vivenciá-la.

É um bombardeio de imagens, reflexões, conhecimento e reconhecimento que nos deixam atordoados, quando retornamos para nossos lares fora desse continente misterioso, místico e que guarda tantas interrogações, tantas carências, tanta riqueza cultural e natural.

Me senti na Bahia em alguns momentos, é um povo que se sente irmanado com o Brasil e tem todos os motivos para assim sentir.

Guiné-Bissau, guarda muitos problemas sociais e políticos, mas é constituída de um povo forte, resistente, resiliente, que apesar de todas as adversidades tem sempre um sorriso estampado no rosto, crianças que brincam de ser crianças, apesar das referências negativas dos meios de comunicação e de alguns adultos com formação desestruturada socialmente.

Como artista plástica e professora, tive o prazer e a oportunidade de dar aulas de pintura e desenho para os adolescentes e de desfrutar momentos interessantes de arte com as crianças, que sempre estiveram à nossa volta trazendo seu carinho e alegria.

Desfrutar dessa experiência foi muito mais interessante por estar acompanhada de voluntárias muito queridas, parceiras que agora fazem parte da minha história de vida, como também acolher amizades guineenses que marcaram momentos importantes durante esse voluntariado e que também ficarão eternizadas comigo.

Se valeu a pena? Claro, sem dúvida!!!!! Agora só fica muita saudade e a vontade de fazer tudo outra vez.

A experiência do Guilherme em Zanzibar

No dia 8 de Junho, meti a mochila às costas e embarquei numa longa jornada até à ilha de Zanzibar, tendo a minha estadia durado cerca de 3 semanas. Durante este tempo, tinha como missão ajudar a preservar o ecossistema plantando mangais e ensinar inglês a crianças, tendo ainda havido tempo para limpar uma praia.

Assim que se sai do aeroporto, deparamo-nos com a maior qualidade desta ilha: a simpatia das pessoas. Fui recebido com um “Hakuna Matata, welcome to Zanzibar”. E toda esta amabilidade se prolongou por toda a minha estadia. Sem exceção, todas as pessoas com que interagi tiveram uma simpatia extrema, fazendo com que me sentisse em casa, mas o que mais me tocou no coração foi durante as minhas viagens de bicicleta haver imensas crianças a dizer-me “hello”. 

Um dos meus objetivos pessoais para esta aventura era apreender uma cultura completamente nova, e sem sombra de dúvidas este foi cumprido! Fui acolhido por uma família em sua casa e aí fiquei hospedado durante as 3 semanas, portanto tive contacto permanente com a cultura local 24/7. O primeiro choque que temos é na comida, especialmente para quem está habituado a comer carne, pois as refeições eram maioritariamente arroz com feijão, fruta e chá. No entanto, foi extremamente enriquecedor aprender mais sobre a religião muçulmana e poder conhecer os seus hábitos diários e conhecer a riquíssima história da ilha e todos os povos que influenciaram a sua cultura: árabe, inglês, francês, indiano e português.

Relativamente à minha missão enquanto voluntário, começando pela proteção do ecossistema, estou muito satisfeito com o trabalho desenvolvido e com os objetivos atingidos: foram plantados cerca de 200 mangais por dia!! Quanto às aulas de inglês, sinto que fiz o meu melhor ao desempenhar o papel de professor e transmitir conhecimentos às crianças sobre a língua inglesa. Nos dias que foram dedicados à limpeza da praia, foi extremamente reconfortante olhar para um sítio que outrora estava cheio de garrafas, latas, etc, e neste momento ser um areal limpo.

Foi uma aventura que me proporcionou novas experiências, conhecer uma nova realidade e uma nova cultura, mas principalmente, uma aventura que me fez crescer!

Quero agradecer ao Para Onde? que foi graças a eles que esta aventura se concretizou, à ZAYDO e a todos os amigos que fiz em Zanzibar pela forma que me trataram e me acolheram e aos meus amigos e família por todo o apoio e força que me deram!

Voltei de coração cheio!    

A Experiência da Michelle na Guatemala

Pouco mais de um mês depois do meu regresso, ganhei coragem para pôr por palavras (ou tentar, pelo menos) a experiência incrível que vivi em Maio de 2019. E que mês tão bonito que foi! Cheguei sozinha àquela pequenina aldeia de Chuinajtajuyup e sai com amigos novos, novas aprendizagens e, sobretudo, com o coração feliz e mais cheio que nunca. Entrei como uma estranha naquela aldeia e sai de lá cheia de amor, até porque desde o meu primeiro dia fui acolhida de uma forma super calorosa, pela clínica e por todos os habitantes locais. Pareceu tão fácil integrar-me lá que nem a barreira linguística foi um drama. Tudo se faz, com mais calma, sem esta azáfama louca do quotidiano a que estamos tão habituados.

Aprendi bastante, tanto a nível profissional como pessoal. Vi casos clínicos que provavelmente nunca veria em Portugal. Aprendi a ouvir mais, a compreender que o que não é um problema para mim pode ser uma dificuldade para o outro. Estive realmente a prestar cuidados na comunidade, como tanto falamos durante os nossos cursos. Conheci as famílias e já sabia os nomes das crianças. Soube o problema de cada um e tentei tratá-los com o melhor que posso dar de mim. Quem me ouvir falar sobre o projeto de voluntariado que integrei, vai concerteza pensar que foi perfeito, tanto pelo pelo amor com que atualmente recordo aquele lugar mágico como pela leveza das fotografias. Mas não foi. Não foi perfeito porque me deparei com situações que me deixaram triste e frustrada, porque chorei mesmo quando não podia,  porque o trabalho na comunidade não é tão fácil como muitos julgam. Vivemos dias sem eletricidade, encontramos insectos cujo nome nem sabia, gerimos todas as tarefas domésticas entre nós e o estilo de vida é completamente diferente ao qual eu estou tão habituada. Mas, no final de contas, só não foi perfeito porque não pude ficar lá mais tempo!

Independentemente de todas as adversidades, sorri todos os dias. Senti-me uma pessoa livre. Senti-me tão, mas tão realizada por ter provocado algum impacto e mudança, mesmo que tenha sido em mínimos pormenores, aqueles que, normalmente, nem reparamos por estarmos tão fechados na nossa própria bolha. Nunca lhes vou conseguir agradecer o facto de me terem ajudado a tornar uma melhor enfermeira e, sobretudo, uma melhor pessoa. De resto, as paisagens lindas que vi, as reflexões que fiz, tudo o que aquela comunidade me ensinou, mesmo sem se aperceberem, vou guardar em mim para sempre. Sinto que este texto não reflete nem metade do que vivi, mas realmente há coisas que são inexplicáveis por palavras.
No final disto, acredito que tenha mudado a vida de alguém. Mas não fui só eu, a Guatemala também mudou a minha vida, sem dúvida.

A experiência da Sofia na ilha de Santo Antão

Olá a tod@s!

Quando cheguei a Portugal e toda a gente me perguntava “Então? Gostaste? Como correu?” a minha resposta era sempre a mesma: “Nem sei por onde começar…!”. Por isso, começo este testemunho dizendo que as palavras são poucas, muito poucas, para descrever cada momento vivido e emoção guardada.

Cheguei a Santo Antão de coração tranquilo, com vontade de aprender e de partilhar. Queria conhecer um pouco da cultura local, e desde cedo percebi que a cultura cabo-verdiana se sente a toda a hora: na simpatia e bem receber de todas as pessoas que conheci, no calor do tempo e dos abraços, na música e dança em cada esquina, no criolo que lentamente fui “apanhando”, nos banhos de mar revitalizantes, nos sabores diferentes mas ao mesmo tempo tão familiares… em todo o lado fui recebida de braços abertos, e rapidamente me senti em casa!

Tive ainda oportunidade de conhecer um pouco a ilha e os seus contrastes, desde o seu verde tropical, às paisagens mais áridas. Mas a beleza de Santo Antão está na simplicidade das coisas, na vida leve e alegre, no viver tranquilo com muito pouco e com muito pouco fazer festa!

Como profissional da área social e comunitária, o contacto com contextos de pobreza não era novidade para mim. Contudo, as diferenças culturais que encontrei foram reveladoras de uma forma de estar e de viver completamente diferente daquilo que conhecia, mesmo do meu contexto profissional. 

Um dia “normal” de voluntariado no Projeto SYnergia Cabo Verde começava com atividades de manhã, com os idosos do Centro de Dia do Alto de São Tomé. Confesso que este foi a valência do projeto que mais me surpreendeu: desde a receção calorosa por parte dos idosos, à disponibilidade para participar, partilhar as suas histórias, memórias e batalhas. Tocaram-me o coração. 

Depois de uma pausa longa de almoço, que por vezes é preenchida a preparar atividades, outras vezes com uma breve visita ao mar, da parte da tarde recebíamos as crianças e jovens no Espaço Jovem. É aqui que deixamos toda a nossa energia e paciência! É também aqui que recebemos os sorrisos mais sinceros, os abraços mais apertados, os risos mais espontâneos e verdadeiros.

Além das atividades habituais, tive a oportunidade de desenvolver um pequeno projeto fotográfico com base na metodologia photovoice, com um grupo de crianças em risco. O objetivo foi dar voz às crianças, através da fotografia, e partilhar com a comunidade os seus desejos de mudança. Foi maravilhoso ver a exposição fotográfica montada, mas o que mais me encheu o coração foi saber que todo o processo foi construído por estas crianças, detentoras de um potencial (artístico e pessoal) incrível!

Fui ainda “desafiada” pela Câmara Municipal de Porto Novo a dinamizar três workshops: um sobre sexualidade e violência no namoro para alunos do 7º ano; outro sobre direitos humanos para alunos do 12º; e um sobre igualdade de género e violência baseada no género dirigida a mulheres da comunidade. Destaco isto, porque não posso deixar de dar os parabéns ao projeto SYnergia, e a todos os voluntários enviados pelo Para Onde, pelo trabalho desenvolvido e pela confiança construída junto das instituições. Algumas iniciativas e ideias dos voluntários só são concretizadas e bem-sucedidas se houver o apoio e compromisso do poder local, e os laços visivelmente já criados com a comunidade. É bom perceber que toda a gente conhece o projeto, e reconhece e valoriza o trabalho desenvolvido pelos voluntários!

Senti, em cada atividade que desenvolvi, que aquilo estava de facto a ser uma mais-valia para alguém. Recebi sorrisos, abraços, atenção e reconhecimento. Não há pagamento para isso!

Foi pouco o tempo que estive em Santo Antão. Fiz voluntariado duas semanas, foi o tempo possível, tendo em conta os constrangimentos de conciliar este sonho antigo com um trabalho que encaro com muita dedicação e responsabilidade. Ainda assim, foi possível contribuir de alguma forma, dar um pouco de mim, e receber muito da experiência!

Acredito que voltei um ser humano um pouco melhor. Trouxe comigo aprendizagens, memórias, amigos e até novas rotinas.

Queridas pessoas que sentem este desejo que se aventurarem no voluntariado internacional: juntem-se a nós! Nunca é tarde. E se não conseguirem fazer exatamente o que querem ou como querem (seja pelo período de tempo, pelo sítio, o orçamento, etc.), adaptem, peçam ajuda ao Para Onde para encontrar a melhor alternativa, deixem as desculpas e medos de lado. Acreditem, poderá não ser perfeito, mas vai certamente ser compensador e transformador. 

Sodade de Sintanton

A experiência da Joana no Camboja

Cheguei num Domingo a Portugal com a sensação de missão cumprida. As minhas últimas duas semanas foram a experiência mais incrível que já tive na minha vida. Não irei esquecer aquilo que fiz. Decidi ir para o Camboja ensinar inglês a crianças e jovens que pouco ou nada têm. 

A realidade deles é tão diferente da minha que isso fez-me perceber que não é preciso muito para se ser feliz. A felicidade vem sem dúvida de dentro de cada um de nós. Não interessa a forma como nos vestimos, ou o que temos, apenas interessa estarmos bem. Foram dias de muita aprendizagem e de desenvolvimento pessoal. Nunca pensei vir tão mudada desta viagem, a verdade é que vim e sinto-me uma sortuda por ter vivido como eles e nas condições deles. O primeiro impacto é um choque, pois nada tem a ver com aquilo que estamos realmente habituados, no entanto no momento a seguir parece que já é uma realidade natural para nós. Ir sem expectativas é a melhor opção, afinal a vida consegue mesmo surpreender. Eu fui com a mente aberta e preparada para ver um pouco de tudo. E dei-me muito bem assim. Tive ainda a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas com grandes corações e tão apaixonadas pelo voluntariado como eu. Foi espectacular! Fazer amizades nunca foi tão fácil, afinal todos temos o mesmo propósito e todos queremos o mesmo, ajudar quem precisa.

Os dias nunca eram iguais. À sexta-feira fazíamos jogos com as crianças sobre a matéria que tinham aprendido durante a semana. Era sempre o dia mais esperado por eles. Outra das coisas que mais me marcou foi o respeito que as crianças tinham por nós voluntários. Sempre foram muito educados para connosco e eu admirei-os ainda mais por isso. 

Se tivesse que repetir a experiência, repetia sem qualquer dúvida. E aconselho a todas as pessoas a experienciar o voluntariado pelo menos uma vez na vida, não se irão arrepender. 

A Experiência da Lara na Ilha do Maio

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Eu cheguei na Ilha do Maio na tarde de uma segunda-feira ensolarada, depois do voo mais rápido da minha vida (12 minutos da Praia até o Maio). Cheguei com o coração aberto e cheia de vontade de fazer a diferença na vida de alguém. Eu não sabia que eles todos é que fariam a diferença na minha vida e na minha forma de ver o mundo. 

A Ilha do Maio foi pra mim a junção de todos os destinos de sonho e eu a escolhi porque eu queria dedicar o meu tempo e conhecimento em prol da conservação do meio ambiente e da cultura local. Eu queria entender mais sobre os costumes e a força do povo cabo-verdiano e viver de perto um pouquinho da realidade deles.

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Além das praias lindas – de areia branca, preta e mista -, do mar cristalino, das paisagens áridas de cortar a respiração, a ilha é o lugar mais calmo, sereno, tranquilo e seguro que eu já pisei. Não bastasse a beleza e simplicidade da ilha, as pessoas me receberam de braços abertos. Empatia, humildade, carisma, afeto, amizade, sorrisos e uma ilha inteira por descobrir.

Só faz dez dias que eu voltei do Maio e não houve um dia em que não sentisse saudades de lá.

Voltei com o coração transbordando de tanto amor e carinho. Pode ser o clichê que mais faz sentido agora. Fazer voluntariado é receber tanto, aprender, crescer, se adaptar e evoluir. Cabo Verde me acolheu, me abraçou, me testou, me desfez e me conquistou.

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Eu mudei os meus medos, meus receios, minhas dúvidas e meus julgamentos. Desacelerei meus pensamentos, elevei minha paz espiritual, acalmei minha ansiedade, parei de olhar o relógio, perdi a preguiça de acordar às 5h e ultrapassei limites que eu nem lembrava que tinha. Preciso dizer que os primeiros dias foram os mais difíceis, mesmo já estando preparada para as novas condições, é sempre um choque sair da nossa zona de conforto. E, com certeza, foi esse choque que também me tornou uma nova pessoa. Quando saímos da nossa zona de conforto por decisão própria, muitas vezes sabemos toda a teoria de como encarar as dificuldades. No entanto, tive que descobrir em mim novas formas de pensar e reagir, tive que aceitar as minhas limitações e precisei me comprometer a desatar os meus próprios nós. Agora dou risada de mim mesma.

Cabo Verde me ensinou a doar o meu tempo para ouvir as pessoas, sem pressa de querer falar, e me mostrou que criar laços de amizade e demonstrar afeto é transformador. 

Eu aprendi todos os dias, com todas as pessoas com quem convivi. E pude ter a certeza de que precisamos de muito pouco para ser feliz. Eu não perdi a esperança de que podemos ser o que a gente quiser. 

Um mês de voluntariado foi muito pouco e muito rápido, mas com certeza a experiência mais intensa e transformadora que eu poderia ter. Foi a melhor coisa que eu fiz na vida até hoje e agradeço a Para Onde? por tornar isto real. 

Obviamente, nada do que eu escreva será capaz de demonstrar a real importância e o impacto destes dias no meu ser e na minha forma de pensar. No entanto, eu espero que – pelo menos – as minhas palavras despertem em alguém a vontade de fazer a diferença por aí e descobrir que o mundo é muito maior quando partilhamos.

“Neste mundo que espera por pessoas que façam acontecer, eu aconteci graças a vocês. Muito obrigada!”

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A Experiência da Inês na Guiné-Bissau

A minha ida como voluntária para a Guiné, não foi só a realização de um sonho, foram vários sonhos realizados ao mesmo tempo.

Vi e aprendi tantas coisas, que nunca pensei experienciar ou vivenciar. Claro que boas e más. Os primeiros dias são de choque, um choque cultural e até físico, grande, não vou mentir, mas depois tudo se transforma, se torna hábito, ficando claro e bonito. 

Ainda assim, é uma realidade muito diferente, são muitas culturas, muitas etnias, muitas formas de viver e formas diferentes de utilizar objetos, palavras ou métodos, é uma língua própria, são crianças que brincam na rua, e não com os telemóveis, são crianças que nos abraçam, nos dão beijinhos e alguns até amor. A perfeição não existe e estas mesmas crianças também nos vêm como benfeitores, quase como se tivéssemos obrigação de lhes dar qualquer coisa, e há formas de pensar e viver em algumas etnias, que nem que me virasse ao contrário seria capaz de compreender, aceito claro mas compreender é difícil. Vi coisas que pensei já não existirem, vi a mulher ainda muito submissa, ouvi muitas teorias de dominação do homem, vi um país sem governo durante muitos meses, políticas e leis que não fazem sentido em pleno século XXI, vi greves todas as semanas, falta de luz durante dias seguidos, vi funerais que são festas de 3 dias com muita música e animação, vi comerciantes a tentar pedir mais dinheiro aos “brancos” por um produto, vi doentes num hospital a dormir no chão e as minhas refeições foram grande parte das vezes arroz trinca.

Mas… 

Voltava já hoje! É um misto de emoções, sensações e experiências, que ainda não tenho palavras e acho que não vou ter, porque só vivendo se torna possível perceber. 

Tudo o que falei em cima, se torna tão relativo, quando sentimos que os nossos alunos gostam realmente de nós, quando temos a perfeita noção que o pouco que ensinamos vale muito, que os materiais que levamos para as aulas nunca tinham sido vistos ou tocados, quando temos em sala um professor tão ou mais entusiasmado que os alunos naquilo que estamos a dizer, quando conseguimos ajudar uma família ou crianças em reais situações de pobreza ou incapacidade, muito para além daquelas roupas, brinquedos ou materiais que trazemos de Portugal, quando adultos nos pedem ajuda para projetos que querem fazer acontecer, quando conseguimos criar relações com a comunidade (relações essas que algumas tenho a certeza que vão ser para sempre), quando todas as pessoas são simpáticas e atenciosas connosco, e o mais importante, quando percebemos que ali temos valor, ali somos de facto uma mais-valia para alguém, para o mundo.

Essa sensação, meu Deus, é tão boa, que coloca tudo o que é mau de lado e faz com que nem questione se podia ter melhor experiência de vida que esta. É indiscritível, mesmo. 

Mas para que esta experiência se tornasse tão positiva, foi muito importante ir com algumas dicas, alguns avisos ou alertas que nos foram passados pela Associação “Para Onde?” porque, é apenas a minha opinião, devemos sempre refletir bem antes de partir para um programa de voluntariado… há muita coisa no mundo diferente daquilo a que estamos habituados, que ainda não vimos ou conhecemos, não estamos preparados, existem diferentes pessoas e formas de gerir emoções, que nem sempre são fáceis de gerir, por isso, devemos ir preparados, muito preparados.

Em suma, a minha experiência na Guiné foi incrível, quase mágica, tornando claramente uma pessoa diferente e muito mais humana, com muito mais noção das disparidades do mundo, no bom e no mau sentido e, acima de tudo, com uma noção evidente que ainda há tanta coisa por fazer… Eu irei voltar e aconselho todo o mundo a participar num programa deste tipo, a arriscar e fazer a diferença, porque o que trazemos é tão enriquecedor que até o dinheiro gasto no programa, não custa nada!

A experiência da Marta e do Samuel em Santo Antão

A nossa lua de mel: o mais importante não é o destino, mas “a viagem”!

Somos pessoas do mundo e das viagens, adoramos explorar outras culturas e ver o mundo de perto, tal e qual como ele é. E para a nossa lua de mel? Uma lua de mel “normal” sempre esteve fora de questão. Não sabemos bem como surgiu esta ideia, mas de repente decidimos “trocar os resorts de pulseira por uma experiência com tudo incluído”.

Escolhemos o tema do nosso casamento com base nas semanas que estaríamos em Santo Antão: Multiplicar Sorrisos. Envolvemos os nossos amigos e familiares nesta aventura e conseguimos levar para Cabo Verde duas malas cheias de material escolar.

Chegámos a Santo Antão pelo mar, sem um mar de expectativas. Chegámos e fomos procurando assimilar tudo o que nos iam oferecendo.

Todos os dias de manhã, os idosos do Centro de Dia do Alto de São Tomé aguardavam a nossa chegada. O calor e o amor com que nos recebiam tornou-se cada vez mais quente ao longo dos dias. Os voluntários tentam proporcionar diariamente a estes idosos algum tempo de qualidade e descontração, mas somos nós que saímos mais ricos, quando ouvimos as suas histórias de vida e quando nos mostram que a beleza está na simplicidade das coisas.

O ambiente em casa aos poucos foi-se tornando familiar. Ao jantar, reunidos à mesa, cada um “dava graças” a três coisas que tivessem acontecido durante o dia. Um hábito maravilhoso que trouxemos connosco para a nossa vida. É incrível como até mesmo em dias mais calmos, há sempre algo a agradecer. Mas neste dia a dia na ilha era fácil, era a vida a acontecer e muito a agradecer.

Os dias corriam entre a visita aos idosos, a preparação de todas as actividades e por vezes um mergulho no mar da Praia do Armazém. Posto isto, todos os dias às 17h30 vinha o maior desafio, desenvolver e aplicar actividades lúdico-pedagógicas para crianças entre os 3 e os 14 anos. Um dos objetivos atuais da Synergia Cabo Verde é atrair mais adolescentes e jovens (a partir dos 14 anos), uma vez que actualmente são as crianças que dominam o espaço e o nosso coração.

Criar e desenvolver actividades para crianças com idades tão díspares não é fácil, mas com calma e alma, fica mais fácil. No Espaço Jovem há aulas de karaté (parceria com uma pessoa local), há jogos tradicionais, há o “jogo da latinha”, há a fila para saltar à corda, há muitas “folias” para fazer desenhos, podemos “brincar” com pasta de papel, moldar plasticina e dar asas à imaginação num teatro de sombras. A praia é destino para brincadeira na areia e jogos à beira-mar. No Espaço Jovem procuramos promover a leitura através do desenvolvimento constante do espaço comum de leitura, a nossa biblioteca. Houve pintura de t-shirts, aquela que viria a ser “a t-shirt do Espaço Jovem”. Todos os dias havia um novo desafio, uma nova conquista. Todos os dias levamos um sorriso novo para casa. Na maior parte dos dias somos surpreendidos, por um abraço, por um “esculpa” (desculpa), por uma flor, por palavras que nos comovem e por gestos que não esperamos.

Partimos mais ricos, levamos connosco uma experiência de vida que nos vai marcar para sempre. Tivemos o privilégio de conhecer o coração de Cabo Verde, a essência dos cabo-verdianos e uma cultura autêntica e única. Passaram cerca de duas semanas depois de termos deixado a nossa ilha, os nossos miúdos, os nossos idosos e a nossa família de “Sintanton”. Guardamos cada um deles num lugar muito especial e assim conseguimos trazê-los connosco para a nossa vida, para os nossos dias.

Costumamos entrar em tudo o que fazemos com todo o nosso coração, e por isso, o nosso coração ficou na Ilha de Santo Antão.

A Experiência da Beatriz em S. Vicente

O sonho de fazer voluntariado já existia há́ algum tempo até que finalmente o consegui concretizar. Entre aulas, estudos e sem muito tempo livre, lá consegui um mês para ir para Cabo Verde, para a ilha de São Vicente. Porquê Cabo Verde? Nem sei bem, a única coisa que sei é que nada acontece por acaso. Foi aí que tudo começou… e se soubesse que a experiência ia ser tão incrível como foi, nem teria pensado duas vezes em ir mais tempo, porque VALE MESMO A PENA!

Ao início é tudo um misto de emoções, em que mil e uma perguntas nos invadem a cabeça. “Como será́ que vai ser?”, “Será́ que vai correr bem?”, “Como será́ com os voluntários?” de facto tudo isso influencia a nossa estadia e por isso o melhor é ir sem expectativas e assim tudo o que vier é ganho! Não podia ter tido melhores companheiras nesta viagem, pessoas incríveis que levo comigo para a vida, voluntárias como estas tornam a experiência melhor ao pormenor.

Entre um misto enorme de emoções lá fui eu, sozinha até São Vicente.

Assim que cheguei fui logo muito bem recebida! Esperámos que chegassem as outras voluntárias e foi como se houvesse um “clique” na minha cabeça que dizia “tudo é impossível até acontecer” e ali estava eu a realizar um dos meus maiores sonhos.

E tu que estás a ler isto, do que estás à espera para ir? Não penses mais nisso! Se tens oportunidade de fazer voluntariado vai! Arrisca!

Com tudo isto já́ passou 1 semana e pouco desde que voltei e as saudades são imensas, são saudades boas, saudades de quem lá fica, saudades das crianças, dos centros, da comunidade, da comida, de tudo! Dou por mim vezes sem conta a reviver momentos na minha cabeça e a ver de novo vídeos e fotografias que capturámos ao longo do mês! Foi uma experiência que nem um adjetivo consigo encontrar para a descrever! Parece clichê, mas a verdade é que vamos com o objetivo de dar, de oferecer, mas não há dúvidas que quem recebe mais somos nós, os voluntários, parece que damos tão pouco comparado com o IMENSO QUE RECEBEMOS. E nem me estou a referir aqueles abraços e beijinhos que recebíamos todos os dias pela manhã, não me refiro às mil ajudas que a comunidade nos ofereceu. Refiro-me ao que ganhamos com tudo isto, ganhamos tanto, que dito assim até parece pouco!

É UM GANHO GIGANTE DE FELICIDADE, DE AMOR, DE AJUDA, DE PARTILHA. Tantas coisas… mas se queres saber mais vai descobrir por ti, garanto- te que sais de lá feliz! Como nunca sentiste! É um sentimento de gratidão, é ser feliz! É ser feliz a sério. Vai ver com os teus próprios olhos o que de verdade importa, vai ver o que é ser feliz, SER FELIZ DE VERDADE! Não te vais arrepender!

Tudo é ganho! E eu ganhei tanto por conhecer cada pessoa… por ter visto cada sorriso e cada gesto!

Um obrigado GIGANTE às companheiras desta viagem – Miriam, Beni, Inês e Rosa, obrigada aos voluntários e amigos locais, às crianças, ao Para Onde? e a todos os que lá estiveram para tornar esta experiência melhor cada dia! A verdade é que, assim que saímos da nossa zona de conforto é quando começa a verdadeira aventura, aventura essa que ainda agora começou!


A Experiência do Luís na Guiné


A Guiné-Bissau é um pequeno País com cerca de 1.800.000 habitantes que após uma guerra de libertação com o colonialismo Português conquistou a independência, em Setembro de 1974. Desde então, inúmeras vicissitudes têm contribuído para o enorme atraso económico e social que a sua população vive nos dias de hoje.

A instabilidade política e governativa consequência de 20 golpes de estado desde a data de independência, sendo que dezasseis deles não foram bem sucedidos, são a principal causa dos graves problemas que hoje grassam no País colocando-o entre os mais pobres do Mundo.

Grande parte da população, cerca de 26%, sofre grave situação de insegurança alimentar e desnutrição e, desde 2017, este valor tem tendência para aumentar. Como consequência  existem fortes índices de anemia nas mulheres em idade reprodutiva e nas crianças com efeitos directos no atraso do desenvolvimento.

O Plano Nacional de Desenvolvimento Sanitário III prevê que 90% do orçamento da saúde seja financiado por apoio externo e população não confia no sistema.  Patologias como a tuberculose, malária e febre amarela contribuem para que a esperança de vida não ultrapasse os 58,2 anos.

A corrupção é uma doença endémica que atinge os governantes, o funcionalismo público e as autoridades policiais colocando a Guiné na posição 170 entre os 180 países mais corruptos do Mundo o que acentua a pobreza instalada, agrava as desigualdades, atinge os direitos humanos e fragiliza as instituições do Estado.

A Educação no ensino básico é em grande parte garantida pela iniciativa de privados e não sendo obrigatória 23% das crianças estão fora do sistema educativo. No ensino estatal a falta de pagamento aos professores que passam meses sem receber dá origem a greves ininterruptas que originam que das quinze unidades curriculares previstas no ensino básico, apenas três ou quatro são cumpridas.

Apesar de ter decorrido em Abril último em Bubaque o  V Congresso da Educação Ambiental dos PALOP e Galiza, actualmente  mais de 90% dos guineenses cozinham a carvão, a recolha do lixo é limitada e a sua eliminação é feita por incineração sem qualquer tratamento provocando enorme poluição ambiental.

O corte ilegal de árvores e a destruição da floresta determinam alterações climáticas significativas reduzindo em volume e tempo a época das chuvas com consequências negativas na produção agrícola.

A actividade piscatória está controlada por embarcações estrangeiras que através do arrasto selvagem delapidam os recursos piscícolas do País.

Neste cenário, um povo maravilhoso, resiliente e solidário tem de sobreviver e conhecendo as suas dificuldades e dos seus irmãos partilham com generosidade o arroz da refeição familiar com qualquer um que chegue mesmo se desconhecido.

Os mais jovens, inspirados pelo sociólogo guineense Miguel Barros, têm consciência critica dos problemas do País e dialogam sobre as suas origens e como ultrapassa-los, outros já sem esperança optam pela viagem da emigração, por vezes uma aventura fatal.

No dia a dia têm de se divertir. A festa é um lenitivo que os anima para o dia seguinte e os faz esquecer as dificuldades por isso gostam de brincar, conviver e arranjar pretexto para soltar a alegria que reside muito no fundo dos seus corações.

Aos voluntários cabe a grande responsabilidade de lhes levar o que mais falta lhes faz e não são apenas bens materiais.

É necessário transmitir aos Guineenses uma mensagem inspiradora e de confiança no seu potencial, incentivá-los a não descurarem a educação que é única via que os libertará e a garantia do seu futuro, a terem orgulho na Pátria que libertaram e capacidade para fazerem dela um lar confortável para a família Guineense.

Cabe aos voluntários dar um exemplo de trabalho, organização e rigor e transmitir aos guineenses que sem estes valores e sem o empenho pessoal de todos eles os seus objectivos nunca serão atingidos.

Foi para isto que fui voluntário na Guiné-Bissau, pois acredito no potencial e capacidades dos Guineenses, na sua generosidade, na sua alegria que pode transformar um trabalho árduo num divertimento.

Com humanidade, solidariedade e um grande sorriso é mais fácil transformar o Mundo.

Se fosse fácil, não seriamos corajosamente voluntários, seriamos apenas turistas.