A Experiência da Sofia no Tarrafal

Quando decidi fazer voluntariado internacional, nunca pensei escrever um texto a falar sobre minha experiência, porque achei que as pessoas que não viveram o que nós voluntários vivemos, não iam entender o porquê de nos envolvermos e gostarmos tanto. No entanto, foi tudo vivido de uma forma tão genuína e intensa, que vale a tentativa de transcrever para palavras o que eu senti. Espero que sirva como um incentivo às pessoas que sempre quiseram ter uma experiência como esta, mas que, por alguma razão, falta-lhes a coragem.

Foram 2 meses e para quem nunca fez algo do género, parece muito tempo, mas na verdade, é pouquíssimo. Sabe a tanto e a tão pouco ao mesmo tempo, que no fim só existem duas opções: ficar mais tempo ou lá voltar um dia.

O receio inicial é inevitável, o medo do desconhecido é uma caraterística comum a qualquer ser humano. Medo dos desafios que vamos enfrentar, medo de não se adaptar, de não se conseguir relacionar, medo de que o nosso trabalho não tenha o impacto que pretendemos e outros mais medos que vão surgindo à medida que o dia de ir se aproxima. São pensamentos que passam pela cabeça de quem embarca numa aventura como esta pela primeira vez.

Claro que não é tudo fácil, mas são os desafios que ajudam a experiência a ser inesquecível. O coração dói cada vez que nos deparamos com algumas condições em que algumas crianças vivem e é frustrante ver que muitas pessoas lutam para ter uma vida melhor, mas não conseguem porque não têm meios para isso. Pior ainda, é saber que por mais que queiras ajudar, não consegues fazer muito mais do que já fazes.

No entanto é isso que os torna diferentes de qualquer outro povo, são muito felizes com o pouco que têm e mesmo assim são os primeiros a ajudar os outros. Aquele espírito incomparável de entreajuda e de dar sem estar à espera de receber, faz-me admirá-los imenso. Dizem que as pessoas que fazem voluntariado recebem mais do que aquilo que dão, e eu não entendia bem o que queriam dizer com isto, até ter ido para Cabo Verde disposta a dar 100% de mim, e mesmo assim, acabei por receber muito mais do que aquilo que dei.

A palavra ‘Morabeza’ descreve bem o povo Cabo Verdiano, descreve a sua simplicidade, a sua gentileza e a sua pureza no modo de viver. São pessoas muito simples e é uma simplicidade tão bonita que te muda sem tu te aperceberes. Acho que qualquer pessoa que faça voluntariado em Cabo Verde, traz parte daquele povo em si. Nunca me senti tão bem recebida e posso, sem dúvida, dizer que o Tarrafal se tornou na minha segunda casa.

Cada minuto passado com as crianças e com os locais vale ouro, e quando voltas à realidade, percebes quão extraordinário e marcante foi conviver com eles. Ainda nem passaram 48 horas desde que voltei e já tenho saudades de estar com as crianças, de as ouvir a cantar e dançar, de fingir que estava chateada numa tentativa de os fazer comportar-se, da dores de cabeça por eles causadas, das atividades organizadas, dos fins-de-semana na praia, das jantaradas, da cachupa tradicional, da caipirinha com grogue, das pessoas, do país, de tudo.

Tive a sorte de embarcar nesta experiência com o Para Onde, que foram, desde o início, inigualáveis. Tive também a oportunidade de conhecer pessoas locais que não vou esquecer e outros voluntários que se tornaram numa família. Graças a todos eles a minha experiência alcançou um nível para além do incrível.

Voltei, mas parte de mim ficou no Tarrafal. Trouxe comigo as memórias no cérebro, as pessoas no coração e o espírito de Cabo Verde na forma como encaro a vida, e, mais que isso tudo, trouxe comigo o enorme desejo de voltar.