A experiência da Sofia na ilha de Santo Antão

Olá a tod@s!

Quando cheguei a Portugal e toda a gente me perguntava “Então? Gostaste? Como correu?” a minha resposta era sempre a mesma: “Nem sei por onde começar…!”. Por isso, começo este testemunho dizendo que as palavras são poucas, muito poucas, para descrever cada momento vivido e emoção guardada.

Cheguei a Santo Antão de coração tranquilo, com vontade de aprender e de partilhar. Queria conhecer um pouco da cultura local, e desde cedo percebi que a cultura cabo-verdiana se sente a toda a hora: na simpatia e bem receber de todas as pessoas que conheci, no calor do tempo e dos abraços, na música e dança em cada esquina, no criolo que lentamente fui “apanhando”, nos banhos de mar revitalizantes, nos sabores diferentes mas ao mesmo tempo tão familiares… em todo o lado fui recebida de braços abertos, e rapidamente me senti em casa!

Tive ainda oportunidade de conhecer um pouco a ilha e os seus contrastes, desde o seu verde tropical, às paisagens mais áridas. Mas a beleza de Santo Antão está na simplicidade das coisas, na vida leve e alegre, no viver tranquilo com muito pouco e com muito pouco fazer festa!

Como profissional da área social e comunitária, o contacto com contextos de pobreza não era novidade para mim. Contudo, as diferenças culturais que encontrei foram reveladoras de uma forma de estar e de viver completamente diferente daquilo que conhecia, mesmo do meu contexto profissional. 

Um dia “normal” de voluntariado no Projeto SYnergia Cabo Verde começava com atividades de manhã, com os idosos do Centro de Dia do Alto de São Tomé. Confesso que este foi a valência do projeto que mais me surpreendeu: desde a receção calorosa por parte dos idosos, à disponibilidade para participar, partilhar as suas histórias, memórias e batalhas. Tocaram-me o coração. 

Depois de uma pausa longa de almoço, que por vezes é preenchida a preparar atividades, outras vezes com uma breve visita ao mar, da parte da tarde recebíamos as crianças e jovens no Espaço Jovem. É aqui que deixamos toda a nossa energia e paciência! É também aqui que recebemos os sorrisos mais sinceros, os abraços mais apertados, os risos mais espontâneos e verdadeiros.

Além das atividades habituais, tive a oportunidade de desenvolver um pequeno projeto fotográfico com base na metodologia photovoice, com um grupo de crianças em risco. O objetivo foi dar voz às crianças, através da fotografia, e partilhar com a comunidade os seus desejos de mudança. Foi maravilhoso ver a exposição fotográfica montada, mas o que mais me encheu o coração foi saber que todo o processo foi construído por estas crianças, detentoras de um potencial (artístico e pessoal) incrível!

Fui ainda “desafiada” pela Câmara Municipal de Porto Novo a dinamizar três workshops: um sobre sexualidade e violência no namoro para alunos do 7º ano; outro sobre direitos humanos para alunos do 12º; e um sobre igualdade de género e violência baseada no género dirigida a mulheres da comunidade. Destaco isto, porque não posso deixar de dar os parabéns ao projeto SYnergia, e a todos os voluntários enviados pelo Para Onde, pelo trabalho desenvolvido e pela confiança construída junto das instituições. Algumas iniciativas e ideias dos voluntários só são concretizadas e bem-sucedidas se houver o apoio e compromisso do poder local, e os laços visivelmente já criados com a comunidade. É bom perceber que toda a gente conhece o projeto, e reconhece e valoriza o trabalho desenvolvido pelos voluntários!

Senti, em cada atividade que desenvolvi, que aquilo estava de facto a ser uma mais-valia para alguém. Recebi sorrisos, abraços, atenção e reconhecimento. Não há pagamento para isso!

Foi pouco o tempo que estive em Santo Antão. Fiz voluntariado duas semanas, foi o tempo possível, tendo em conta os constrangimentos de conciliar este sonho antigo com um trabalho que encaro com muita dedicação e responsabilidade. Ainda assim, foi possível contribuir de alguma forma, dar um pouco de mim, e receber muito da experiência!

Acredito que voltei um ser humano um pouco melhor. Trouxe comigo aprendizagens, memórias, amigos e até novas rotinas.

Queridas pessoas que sentem este desejo que se aventurarem no voluntariado internacional: juntem-se a nós! Nunca é tarde. E se não conseguirem fazer exatamente o que querem ou como querem (seja pelo período de tempo, pelo sítio, o orçamento, etc.), adaptem, peçam ajuda ao Para Onde para encontrar a melhor alternativa, deixem as desculpas e medos de lado. Acreditem, poderá não ser perfeito, mas vai certamente ser compensador e transformador. 

Sodade de Sintanton