Sérgio, Ilha do Maio 🇨🇻

Eu tive um sonho de realizar uma missão de voluntariado em África, em Moçambique. Teria de ser um voluntariado de longa duração para melhor me inteirar das necessidades da comunidade e de toda a envolvente. Quando me reformei, comecei a compreender que esse sonho seria possível. Com a ajuda da minha sobrinha Catarina Vieira – a Caty, para mim -, que fez voluntariado em Zanzibar, na Tanzânia, inscrevi-me num programa de longa duração em Moçambique. Acontece que, devido à especificidade do projeto, não pude dar o meu contributo. Queria retribuir de uma maneira singela tudo o quanto esse país maravilhoso me deu nesses dezassete anos inolvidáveis em que vivi toda a minha infância e adolescência.

A Para Onde? – Voluntariado Internacional, reconhecendo a minha grande paixão por África, orientou-me para Cabo Verde. E, assim, aderi ao programa das tartarugas marinhas, na Ilha do Maio. Este novo projeto, que a Para Onde abraçou, teve início a 15 de junho e vai terminar em novembro. Inscrevi-me para os meses de junho a agosto, num total de sessenta dias.

Quando chego à Ilha do Maio, a 19 de junho, a FMB – Fundação Maio Biodiversidade, levou-me até à aldeia do Morro, a cerca de cinco quilómetros da Cidade de Porto Inglês, mais conhecida por Vila. Era aqui, no Morro, na casa dos meus pais adotivos, o Paulo e a Vanda, que iria morar até agosto, numa experiência que se revelou memorável.

Uma hora depois da chegada, o Edinho, um dos guardas marítimos, foi à minha casa e perguntou-me se pretendia ir com ele fazer o censo que estava previsto iniciar-se, dali a minutos, nas praias do Morro e que teria uma duração de hora e meia. Assim começou uma amizade para a vida.

O 1º censo com o Edinho no dia da chegada
O primeiro rasto a 20 de junho

A época das patrulhas noturnas para a monitorização das tartarugas marinhas, foi inaugurada a 30 de junho e vai decorrer até ao final de novembro. O horário das patrulhas é das 20h às 6 da manhã. Mas, normalmente, terminam pelas sete ou oito horas. É muito tempo a patrulhar e torna-se demasiado cansativo. Mas é reconfortante todo aquele convívio e camaradagem que se instala em cada um de nós quando a noite cai. O silêncio do luar, a agitação do mar e a espuma das ondas que nos afaga a alma, convida- nos à introspeção. São momentos únicos que a noite nos transporta para além de nós próprios.

A primeira desova, a 23 de junho

À medida que ia melhorando a minha experiência com as tartarugas, ia-se acentuando o desejo de conhecer todas as pessoas do Morro. Queria entrar em cada uma das casas e conhecer as famílias, os seus nomes de igreja e de casa, as suas idades, a escolaridade e as suas profissões. Ver o seu modo de vida, para melhor perceber das suas carências, das suas dificuldades. Trazia uma mala cheia de coisas úteis que a Paula, a minha esposa, fez ao longo de um mês para oferecer às pessoas da aldeia onde ficasse a morar. Na outra mala, a minha roupa era para deixar a quem mais necessitasse. Regressaria apenas com a roupa do corpo e uma muda. Nada mais! E assim foi.

Por isso, para que a distribuição das malas fosse destinada aos mais carenciados, idealizei um censo às pessoas do Morro. Comecei por fotografar as ruas e cada uma das casas, dando-lhes números para as melhor identificar. Depois, fui tocando a cada porta e passei a conhecer o seu interior, as suas vidas. Este projeto teve o apoio dos meus pais adotivos – a Vanda e o Paulo – e contou com a ajuda de várias pessoas, entre locais e voluntárias, com especial evidência para a Ana Rosário. Todos, e cada um à sua maneira, colaboraram para o edificar deste projeto que me encheu de orgulho. Pedi a todas as voluntárias portuguesas que passaram pela nossa casa para contribuírem para o avolumar da mala. E todas deixaram roupas que tornaram felizes mais pessoas do Morro. Obrigado a todas.

O que começou por ser uma missão de voluntariado para trabalhar com as tartarugas, tornou-se numa missão de conhecimento das pessoas do Morro. Esta metamorfose que se foi construindo, transformou-me sobremaneira. As tartarugas são importantes. Mas, mais importante, são as pessoas. As pessoas da minha aldeia. As pessoas do Morro. Chamar as pessoas pelo seu nome passou a ser uma obstinação. Conheci as cento e oitenta e duas pessoas. Sinto que cumpri uma missão para com essas pessoas. Fui um deles. Sou um deles!

A Leonor e o Nelito (na foto), a escolherem a praia para a limpeza, no Sábado. É uma das atividades mais importantes na Ilha do Maio. A sensibilização das pessoas, faz-se porta-a-porta, e as comunidades locais são chamadas a ajudar na limpeza para se consciencializarem dos perigos que o amontoar de resíduos nas areias das praias provoca no ecossistema das tartarugas marinhas. No período em que lá estive, deram à costa três tartarugas mortas. Duas fêmeas e um macho. Tinham engolido corda de sisal e ficado asfixiadas. É uma pena que ainda haja tanta falta de cuidado e, porque não dizê-lo, tanta falta de respeito!

Participei no projeto da Rota Gastronómica, da Ilha do Maio, que teve a liderança da Ana Rosário, voluntária portuguesa, e do João Varela, o Eco Guia da FMB. Foi gratificante saber que, no final de Agosto, já será possível realizar esta rota turística de primordial importância para o Maio.

Ajudei a FMB no carregamento de dados da observação de pássaros nas áreas protegidas, dos anos de 2017 e 2018. Era o mínimo que poderia fazer, quando a Sara me fez o pedido para a atualização dos dados observados. Agora, já será possível o estudo analítico e estatístico da evolução dos pássaros nas áreas protegidas da Ilha do Maio.

O João Varela com um peixe acabado de pescar
Praiona, uma das bonitas praias da ilha

O grupo GAS Tagus – a Rosa, a Ana, a Lúria, o Dani, a Maria e o guia Agostinho – que há quatro anos faz atividades sociais na aldeia do Morro, sabendo da minha pretensão de subir ao ponto mais alto da Ilha, convidou-me para ver o nascer do sol do alto do Monte Penoso. Obrigado por esse domingo maravilhoso.

Pôr-do-sol no Morro, visto do terraço da minha casa
A lagoa do Morro
Nascer-do-sol na subida ao ponto mais alto da ilha
O início da parte final da subida ao Monte Penoso

Comecei a escrever um diário em 2 de outubro de 2018, com a minha candidatura ao voluntariado de Moçambique. Depois de vicissitudes várias, recebo, finalmente, a 31 de outubro, a confirmação da FMB de que fui aceite no programa de longa duração para a Ilha do Maio, em Cabo Verde.

Para que não me esquecesse de nada, ia anotando os acontecimentos mais relevantes que antecederam a partida para Cabo Verde. Durante a missão de voluntariado, todos os dias atualizava o meu bloco A5. Agora, ao relê-lo, sinto que foi uma experiência a todos os títulos notável. Quantas lágrimas já caíram por momentos tão sublimes. E as que ainda irão cair…!

Pela experiência sentida, como voluntário sénior, digo que é importante a vivência e a convivência com outros voluntários mais jovens. Esta simbiose entre a experiência, a maturidade e a sabedoria, por um lado, e a audácia, jovialidade e a irreverência, por outro, fazem o equilíbrio que muitas vezes é necessário nas mais variadas situações de voluntariado.

Estas sete semanas proporcionaram o convívio com seis voluntárias, sendo uma delas cabo-verdiana e as outras portuguesas. Todas elas jovens e cada uma com a sua personalidade. Umas mais senhoras de si, outras mais carentes mas, todas elas, empreendedoras e dispostas a tudo fazer para se integrarem no seio da comunidade, de modo a cumprirem com os objetivos do voluntariado a que se propuseram.

Como mais velho e com uma existência de mais de dezassete anos em Moçambique, penso que ajudei a que essa integração fosse mais facilitada. Era, no fundo, o mínimo que se me exigia.

No meu caso particular, a voz do voluntário sénior é mais compreendida, é mais alcançável e é mais aceite, quer junto das comunidades locais, quer junto dos outros voluntários mais jovens. A experiência vivida ao longo de quarenta e dois anos de trabalho e nas inúmeras viagens realizadas pelos cinco continentes, trouxeram uma espécie de liderança natural para a comunidade, com especial relevância para os guardas marítimos com quem tive o privilégio de trabalhar nas longas noites na proteção das tartarugas marinhas. Foram deles as maiores apreensões com as escalas e com as folgas. Foram deles as chamadas de atenção para as relações humanas que se deterioravam. Foram eles que elegeram a minha voz. Fiquei demasiado envolvido nas suas preocupações e estou-lhes grato por isso. A nada me refutei, nem poderia fazê-lo. Por isso a nossa relação foi tão especial. Afinal, passei a ser também um deles. Passei a ser também um guarda marítimo.

Através de contactos vários com a FMB, fui dando conta de algumas situações que se estavam a passar com a líder e os guardas marítimos. Eu próprio fui testemunha de algumas delas e também suportei a sua sobranceria e a falta de respeito. Por isso, abandonei o programa das tartarugas mais cedo que o previsto. Foi pena. A FMB fez algumas reuniões e as relações humanas foi uma das vertentes que mais melhorou. Não consegui diluir todos os problemas, mas a minha persistência contribuiu para uma progressiva melhoria no relacionamento entre todos os que fazíamos patrulhas.

Para que conste, não guardo mágoa alguma. O sonho concretizou-se. A experiência tornou-se inolvidável. Daquelas que reservarei para sempre num lugar distinto das minhas memórias. Foram os cinquenta dias mais importantes da minha vida. Venho diferente. Diria mesmo, muito diferente. Para melhor. Passei a dar mais valor às coisas que são realmente importantes. Nós, por aqui, continuamos nas nossas superficialidades que não nos levam a lugar algum. Até para o ano, no Morro.

Os preparativos, na véspera, para a despedida, com o Boba, o Edinho e o Gilson

Em prol da grande amizade que se construiu entre nós, os guardas marítimos fizeram-me uma festa de despedida na praia, durante todo o dia. Mas a festa começou no dia anterior, à noite, quando me pediram que fizesse uma última patrulha com eles para assim passarem a noite comigo. Não tenho palavras para descrever esses maravilhosos dias de cinco e seis de agosto, véspera da minha partida. Brincámos, mergulhámos, nadámos, comemos, bebemos, cantámos, dançámos e também chorámos. Chorei muito. Nunca assisti a uma demonstração de amizade como esta.

Os grandes mentores da festa: o Boba, a Inês (tesoureira), o Edinho e o Gilson

Queria agradecer às pessoas responsáveis do FMB e a toda a sua estrutura, todo o apoio que me proporcionaram nesta missão de voluntariado. São elas: O Leno, a Andreia e a Janete, na foto, e ainda, a Sara, a Raquel, a Jocelina, o Jairson, o Denis, o Nelito e o João Varela. A todos o meu muito obrigado.

O pequeno-almoço na praia, a ser preparado com todo o requinte, pelo Edinho

Obrigado Edinho. O maior de todos. A amizade que temos vai perdurar pela vida. Agarrou- me a 19 de junho e só me largou a 7 de agosto, na minha partida. Levei-te comigo e sei que continuo aí presente. Os momentos que passámos juntos nas patrulhas foram tão tocantes que jamais os esquecerei.

O Boba e a caipirinha improvisada

Obrigado Boba, muito falador mas amigo do peito. Obrigado Gilson, sempre bem-disposto e pronto a ajudar. Obrigado Omar, o benjamim dos guardas. Obrigado David. Obrigado Diego. Obrigado Dino. Todos foram importantes nestas sete semanas. Sem vocês, nada disto seria possível. Nada disto fazia sentido. Eternamente grato.

A cachupa, na praia, confecionada pela Vanda

A Vanda, ou melhor, a Cândida, de seu nome de igreja, a minha mãe adotiva, prontificou-se a confecionar a cachupa para o almoço na praia. Os seus dotes de cozinheira ficaram bem patentes na limpeza da grande panela que serviu o repasto.

A esta hora da tarde, o discernimento já não era muito
Na nossa casa, com os meus pais adotivos, a Vanda e o Paulo

Obrigado Vanda. Obrigado Paulo. Os meus papás adotivos, no Morro. Estas sete semanas serão guardadas num cantinho muito especial do meu coração. Obrigado por tudo. Para o ano, cá estarei.

Acima, fica o testemunho da grande camaradagem que permanentemente vivemos entre nós. Numa camisola que guardarei para sempre, os guardas marítimos e algumas das pessoas que mais me foram queridas nestas sete semanas, escreveram o seu nome.

A alma esvazia-se, o corpo levita e o coração esvai-se. Obrigado por estes 50 dias maravilhosos.