A experiência da Sara no Japão

Lembro-me bem daquele dia em que deixei Portugal para trás. Era um misto de felicidade e receio profundos. De alegria e medo. Era eu, no meu estado mais genuíno. Lembro-me de olhar para as minhas malas, para as minhas fotografias e o meu passaporte. Estava vazio, cheirava a novo. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido, assim aconteceu. Parti sozinha para o outro lado do mundo, com duas malas carregadas de expectativas e prontas para acolher as melhores memórias.

3 voos, 2 autocarros, um comboio e muitos contratempos inesperados. Não havia motivos para preocupações, tinha todas as indicações sobre o que fazer quando chegasse ao país, a única indicação que não me tinha sido dada era o facto da grande maioria das pessoas não falarem inglês, as dificuldades começaram aí.

Hiroshima Airport – Hiroshima station – Hamada station – Odashi station era o roteiro, fácil de perceber para mim, mas difícil de explicar a quem não fala nem compreende inglês, com muitos gestos e recurso ao google tradutor a barreira linguística foi sendo desmontada.

Estas duas semanas construíram-se sob o ritmo do dia-a-dia, andar numa carrinha de caixa aberta com destino a uma floresta, cortar árvores era o plano. Rumo a Mt. Sanbe cortar ervas com uma foicinha para mais tarde fazer vassouras. Limpar o templo Rakan-ji com direito a pausa para beber café em lata. Ajudar um grupo de homens de meia idade a cortar e limpar bambu para construírem um novo telhado da sua barraca de armazenamento de utensílios agrícolas. Visitar uma escola primária e dar a conhecer um pouco da cultura do meu país, a pergunta que tomou lugar naquele espaço foi exactamente “Have you ever met Cristiano Ronaldo?”. Visitar um jardim de infância, aprender a fazer sushi e Origami, jogar à apanhada e ao macaquinho do chinês, até já não ter energia suficiente para correr atrás das crianças.

Conviver com uma cultura tão diferente é sinónimo de adotar determinados hábitos. Na ida ao Santuário de Izumo-Taisha, coração de todos os outros santuários na área de Izumo e local onde todos os deuses xintoístas se reúnem, foram-me ensinadas as formas de culto que passei a fazer todas as vezes que ia a um templo budista ou a um santuário xintoísta. Assisti a um casamento japonês, onde a noiva usa um quimono chamado Shiromuku e pode usar dois tipos de chapéus designados por Wataboshi ou Tsunokakushi, respetivamente.

Aprendi Shodō, considerada uma arte e uma disciplina ensinada às crianças japonesas durante o seu percurso na escola primária. O Shodō pratica a escrita dos caracteres japoneses hiragana e katakana e kanji. Assisti a uma representação de Kagura, uma forma de teatro e dança características do Xintoísmo.

Pouco tempo passou desde o regresso, mas eu ainda lá estou. Desde os sorrisos, aos abraços, ao Yuta que falava muito pouco inglês, mas disse que vinha estudar para Portugal, à comida que comi e não fazia a mínima ideia do que era, à energia matinal do JD que gritava “let’s work” todos os dias às 8h da manhã, às noites mal dormidas, aos dias a cozinhar 3 refeições para 9 pessoas, ao Yoshiki que falava espanhol, às fotos que tive de tirar com pessoas  desconhecidas por ser tão diferente, aos dias a lavar pilhas de loiça com a Mei, ao quarto que partilhei com a Haruno e que parecia uma estufa porque nos esquecíamos de desligar o aquecimento durante a noite e às palavras que nunca compreendi, mas que transmitiam o maior carinho do mundo.