A experiência da Rita em Cabo Verde

E chega ao fim a minha viagem.

Já estou em Portugal, mas o meu coração ficou na Ilha de Santiago.

Assim que aterrei, tive essa certeza, e tantas outras. Tive a certeza que jamais esquecerei os olhos do Roni, o sorriso do Marquinhos, os abraços apertados da Vanessa, e os demorados da Silvania. As tranças da Solene, os presentes da Macieny e as cartas da Marlisa. As músicas da Carina, as danças do Ailton, o ritmo das Batucadeiras e os moves do Jasstom. Jamais esquecerei as aulas de crioulo da Romila e as fresquinhas da Lorry. Guardo comigo isso tudo.

Guardo todas as vezes que o Daniel pegava na minha mão para o ajudar a fazer os trabalhos de casa. Também não me vou esquecer disso. Nem das boleias do Michel ou das lágrimas da Jassica, na hora da despedida. Guardo comigo isso tudo.

A Ilha de Santiago levou-me o coração, também me levou a palma do pé, de jogar futebol descalça, os dedos das mãos, de fazer pulseiras e, os mil cabelos do entrançar das meninas, mas foi apenas isso. De resto, Santiago só me ofereceu. Ofereceu-me sítios incríveis. E ofereceu-me pessoas ainda mais incríveis.

A Ilha de Santiago

Tem corpinho de algodón

Saia de chita cu cordón

Um par de brinco roda pión.

Escrevo, ainda só passaram dez dias, e já sinto tantas saudades. Saudades que não terminam. Ainda não consigo ouvir a música da Ilha de Santiago, sem deixar cair uma lágrima. Guardo tão bem esta música.

Guardo esta música e tantas outras, guardo as danças, as paisagens, as cores, as frutas, os sabores. Guardo as conversas, os desabafos e as cartas escritas.

Guardo também o carinho, sim, o carinho que conseguiu com que não sentisse falta de casa. Obrigada por tudo, Cabo Verde. Obrigada, Delta Cultura, uma equipa incrível, que sempre me deu total liberdade de expressar o carinho pelas crianças.

Obrigada a todas as crianças. Obrigada pelos sorrisos, pelos olhares, pelos beijinhos e pelos abraços que são diferentes dos nossos.

Obrigada, essencialmente, pela generosidade. Obrigada pelas coisas simples, da forma mais simples. E assim, isto não foi apenas uma experiência, fazer voluntariado não foi somente ensinar ou dar o melhor de mim, foi muito mais, foi receber, foi absorver.

Aprendi e entendi tantas coisas, tanta cultura. Entendi o quão generosas podem ser, crianças de 4 anos. O quão rico pode ser um país pobre. Entendi que em todas as dificuldades por que atravessei, que tudo isto valeu a pena. Aprendi também, que um sorriso, apesar de muita tristeza por detrás, será sempre um sorriso.

Hoje, gratidão tem outro significado. Ah, e aprendi também que temos sempre alguma coisa a oferecer, nem seja a nossa presença. Se pensas em fazer voluntariado, não penses mais, segue apenas em frente. No fim tudo vale a pena. Tudo bate certo. Obrigada de coração, ParaOnde.