A experiência da Raquel em S. Tomé

A Terra do Leve-Leve

Por onde começar? É sempre esta mesma pergunta que me vem à cabeça quando me pedem para contar como foi esta experiência… Começo pelas minhas dúvidas, pelas dificuldades que enfrentei, pelo amor e sorrisos que recebi, pelos cabelos em pé, pelas saudades que tenho, pelo trabalho que estive a desenvolver, pelas maravilhosas praias e paisagens, pelas pessoas incríveis?! Bem, a verdade é que há muito para contar!

Hoje vou começar por contar como fui parar a São Tomé… Para ser sincera, fui ter à terra do “Levi-Levi” completamente por acaso. Sempre fiz diversas actividades de voluntariado a nível nacional, como Banco Alimentar, Refood, etc, mas a nível internacional nunca tinha feito nada e já desde há muito que queria ter essa experiência. Com o fim do mestrado a aproximar-se e com o medo de enfrentar a “vida real”, decidi que era a oportunidade ideal para embarcar nesta aventura. As únicas coisas que eu sabia era que queria fazer actividades com crianças e num país de língua portuguesa (pois achei ser mais fácil de me relacionar com as crianças e ter um impacto positivo). Portanto, Brasil ou África eram as opções… E para além da língua ser a mesma, estes locais também me fascinavam pela energia, animação e alegria contagiante daqueles povos. (Tenho pena de não vos conseguir mostrar um vídeo deles a dançar agora)

Durante a minha pesquisa dei logo com o Para Onde?, que por ser dos sites mais organizados que encontrei e o mais apelativo, juntamente com a amabilidade e rapidez da Marta e da Inês a responderem aos emails com todas as minhas mil perguntas, me chamou atenção. Dei uma vista de olhos e como queria ir antes do final do ano (2017), o projecto de São Tomé até tinha sido à primeira descartado pois só estava disponível em 2018. Entretanto, senti que estava a querer fazer tudo muito à pressa e não estava a encontrar um projecto “ideal” dentro do meu budget então pensei: “E porque não ir em Janeiro?” A minha preocupação, pois está claro, era começar a procurar muito tarde trabalho (tinha acabado o mestrado em Outubro)… “E depois fico os meses antes de ir a fazer o quê?” E depois quando voltar já vai ter tudo emprego e eu não?” Bem todas as dúvidas normais de quem está a decidir entre continuar no rumo “normal” da vida (isto na nossa realidade) ou sair da zona de conforto. Acho que já perceberam que decidi arriscar e então comecei a olhar para os projectos disponíveis em Janeiro. No entanto, as perguntas continuavam na minha cabeça, então decidi que queria ir apenas um mês… Tótó! Sim, eu sei, agora sei… pois um mês passou demasiado rápido, mais pareceu uma semana e, portanto, se estiverem a considerar quanto tempo deverão ir e se um mês é muito, digo-vos já que é pouco. Se puderem, vão mais do que um mês, vai valer a pena! Mas pronto, talvez se não tivesse decidido isto não tinha ido parar a São Tomé. Pois foram as únicas razões pelas quais fui para lá: podia ir durante um mês apenas e era um país de Língua Portuguesa. E disso não me arrependo, nem uma única vez. E assim ficou decidido o destino, agora era tratar de tudo… Passaporte, consulta do viajante, vacinas, visto, roupa, repelentes, preparação de actividades, recolha de materiais, etc… Lembram-se da pergunta que fiz a mim mesma do que é que ia ficar a fazer aqueles meses todos entre Outubro e Janeiro, aqui está a resposta! Toda a preparação necessária para quem vai sair pela primeira vez da Europa. Ah, ainda não vos tinha dito?! Pois, sim, para além de nunca ter feito voluntariado internacional, nunca tinha saído da Europa e, apesar de estar habituada a trabalhar com crianças (dei treinos de Patinagem Artística), nunca com crianças naquelas situações (em que muitas delas não têm famílias e as que têm só as estão juntas nas férias escolares). Por isso, ia ser tudo novo!

Bem, era dia 31 de Dezembro de 2017, chegou o dia, chegou o tão esperado dia! E eu nem sabia bem o que estava a sentir, medo não era e era tanta a curiosidade e adrenalina que nesse dia nem dúvidas tinha, só queria ir. Então lá fui, eu e a minha companheira desta aventura, Catarina Soares. Fomos as duas na passagem de ano ter com pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que nos ofereceram casa para os primeiros dias, pois a ARCAR (instituição onde íamos fazer voluntariado) só nos podia acolher dia 2 de Janeiro e os voos eram mais baratos antes. Então pensámos porque não juntar mais aventura a esta experiência e assim temos uma passagem de ano diferente. E foi uma óptima decisão! Correu tudo bem, passámos a PDA com calor em vez de frio e chuva e, ainda, conhecemos pessoas fantásticas nesses primeiros dias.

Após a recuperação da passagem de ano e de já conhecer um bocadinho da ilha chegou a altura de ir para ARCAR, onde fomos recebidas de braços abertos e com direito a muitos abracinhos dos meninos. Ao contrário da maioria dos projectos, nós ficávamos a dormir na instituição juntamente com os meninos, o que tornou esta experiência ainda mais especial. A ARCAR é a casa deles e nós passámos a fazer, não só, parte da casa deles como da sua família.

Os meninos só saiam de “casa” para ir à escola (uns de manhã e outros de tarde), ah, e claro, para ir ao mato também. O resto do tempo era passado na ARCAR, onde tinham uma hora de apoio escolar (também de manhã ou de tarde de acordo com o horário da escola) e depois era tempo livre. E era aí que nós entrávamos… entre ajudar nos trabalhos de casa, estudar, jogar futebol (sempre que havia a mínima oportunidade lá iam eles), saltar à corda, jogar à apanhada, dançar, fazer desenhos e ver filmes, assim se passavam os nossos dias com estes principezinhos.

Uma das actividades que fizemos com eles passou pela sensibilização para o lixo nas ruas, pois foi um dos problemas com o qual nos deparámos lá. Criámos com eles caixotes de lixo, mostrámos vídeos, fizemos debates e em apenas um mês eu consegui ver evolução no que diz respeito a este assunto. Quando lá chegámos era um hábito deitar o lixo para o chão ou para o outro lado do muro, quando fui embora já muitos deitavam o lixo no caixote e os que às vezes não o faziam, deitavam, pelo menos, quando nos viam por perto. Por isso, se num mês houve esta mudança imaginem um, dois ou 5 anos! As crianças são o futuro e cada um de nós pode fazer a diferença no presente e ajudar a definir o futuro destas crianças.

Como é normal, nem sempre tudo vai ser bom, as vezes vai ser tudo demasiado leve-leve e há coisas que, certamente, te vão “fazer comichão”. Mas, como a Marta e a Inês te vão avisar logo desde inicio, nós não vamos lá mudar mentalidades num mês, não dá, é impossível. No entanto, a nossa contribuição é muito valiosa! Não será certamente num mês, nem dois, nem três meses que vamos conseguir melhorar tudo, mas aos poucos e poucos vai-se construindo a mudança. No entanto, no meio das adversidades vai haver sempre pequenos momentos que te vão encher o coração e fazer-te esquecer todos os problemas. Lembro-me do primeiro dia em que ajudei o Edu a fazer os trabalhos de matemática e, no dia a seguir, ele volta da escola todo contente a dizer: “Conseguimos Raquel! Estava tudo certo e recebi uma recompensa!”. Aquele brilho nos olhos, aquele sorriso e aquela felicidade são coisas que nunca vou esquecer e que me marcaram. E vão ser momentos tão simples quanto este que vão fazer valer a pena cada dia que lá vais estar.

“Não é sobre tudo o que o seu dinheiro é capaz de comprar, e sim sobre cada momento e sorriso a se compartilhar, também não é sobre correr contra o tempo para ter sempre mais porque é quando menos se espera a vida já ficou para trás…Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe para perto de mim” (“Trem-Bala” – Ana Vilela). Ouvi esta música pela primeira vez em São Tomé e, é a melhor maneira de descrever tudo o que senti e trouxe comigo daquele lugar. Cada sorriso, cada brincadeira, cada traquinice, cada briga, cada desenho e mensagem que me escreveram, cada um daqueles 47 principezinhos, trago-os todos comigo.

Se estão com dúvidas em relação a fazer voluntariado internacional, o que vos tenho a dizer é “Façam! Saiam da vossa zona de conforto e façam! Arrisquem! Vai valer a pena!”