A experiência da Rafaela na Indonésia

A ideia de fazer voluntariado internacional já era desejada há muito tempo, no entanto, apenas este ano tive a oportunidade de me candidatar a um projeto na Indonésia.
Desde sempre que a Indonésia me fascinava, a cultura, as pessoas e o país repleto de uma vasta natureza incrível. Em Outubro do ano passado, decidi candidatar-me a um projeto na Indonésia, Semarang, ilha de Java, na vila de Tegalrejo, para cuidar e ajudar as crianças que vivem numa zona de prostituição e que têm alguma falta de atenção por parte dos pais.
Quando me candidatei a este projeto, não sabia ao certo, onde ficava Tegalrejo, sabia que ficava perto de Semarang, as atividades eram também desconhecidas assim como o lugar onde iria passar as duas semanas do projeto. Com o aproximar dos dias da partida, fui recebendo a informação de todas as atividades que iriamos fazer com as crianças da vila. Ao chegar a Semarang, senti um choque cultural, logo no aeroporto. A ilha de Java é maioritariamente muçulmana, como tal, praticamente todas as mulheres utilizam Hijab (lenço a tapar a cabeça), quando aterrei, senti-me uma estranha num país diferente, que me fez questionar até o que vestia, umas calças de ganga e uma t-shirt e só pensava como seria em Tegalrejo.
Quando cheguei à sede da organização, que era o nosso ponto de encontro, o meu coordenador disse-me que iríamos viver com uma família de acolhimento, no entanto, eu ainda não sabia quais as condições da casa, nunca criei expectativas sobre nada e sinceramente eu estava preparada para tudo. Demoramos cerca de 2 horas para chegar a Tegalrejo, numa carrinha amarela, com mais 3 Japoneses, num dia de muito calor.

A carrinha parou num pátio e algumas crianças corriam na nossa direção, com curiosidade para saber quem seriam os novos voluntários. No primeiro dia, ficamos a conhecer a casa, onde iríamos ficar durante duas semanas. Era uma casa, diferente da minha, sem o típico conforto que temos na nossa casa, sinceramente, não fiquei surpreendida com as condições, pois eu imaginava que iria ser assim e eu fui à procura daquilo, eram aquelas experiências que me fizeram candidatar-me a este projeto. Todos os dias a Ibu (mãe em indonésio) pedia desculpa pelas condições que a casa tinha, mas que eram as únicas condições que ela tinha para dar, mesmo não falando a mesma língua, eu sabia que ela se esforçava para nos dar o melhor. Em duas semanas, eu nunca me queixei numa única vez daquelas condições, estava feliz por estar ali. Nesse mesmo dia, fomos conhecer o local, onde iríamos fazer o voluntariado.

Era um local com muitas crianças, algumas meigas e outras um bocadinho agressivas, porque o ambiente em que vivem, muitas delas, não é fácil. Aquilo que me chocou, foram as casas de karaoke, que são centenas, na vila. Essas mesmas casas, não passam de casas de prostituição e as crianças que eu cuidava e educava eram fruto desses ambientes. No segundo dia, ensinamos as crianças a lavar os dentes e, infelizmente, haviam crianças que com 10 anos nunca tinham escovado os dentes, muitas delas tinham escova de dentes e pasta de dentes em casa mas não sabia ao certo como utilizar, o menino que estava comigo, nesse dia, lavou os dentes umas 3 vezes seguidas e só não lavou mais porque eu não deixei, porque por ele, ficava a manhã inteira a lavar os dentes. Era notório na dentição daquelas crianças, algumas tinham os dentes pretos, outras mais velhas, já não tinham dentição.

Durante duas semanas, fizemos imensas atividades com aquelas crianças, fomos à piscina, fizemos uns puzzles em cartão com fotografias nossas, cozinhamos para elas, ensinávamos jogos, mas sobretudo partilhávamos muito afeto com aquelas crianças que tanto precisam de carinho. Numa dessas atividades, fomos a uma escola, mal abri o portão da escola e centenas de crianças correram na minha direção para me abraçarem ou para me dar a mão. Este foi um dos momentos mais emocionantes neste projeto. Nesse dia, tentei ensinar algumas palavras em português a uma turma do 4º ano. Esse dia irá ficar na minha memória para sempre, tal como tantos outros pelos os quais passei. Tive a oportunidade de celebrar, o dia da Independência da Indonésia, no campo de voluntariado. Os indonésios dão muita importância a este dia, em muitos locais da vila, eram feitas competições consoante a faixa etária e para cada vencedor havia uma recompensa, esse dia foi um dia de muitos risos e de muita alegria, acabando com uma festa numa mesquita que havia perto da nossa casa, onde fomos convidados a estar.

No meu último dia, senti que tinha dado o meu melhor àquelas crianças, que pelo menos, durante duas semanas, consegui tentar abstraí-las do ambiente em que vivem e mesmo sem falar o mesmo idioma aprendi tanto com aquelas crianças. O voluntariado para aquelas crianças é tudo o que elas de bom podem ter, somos nós que, por vezes, ensinamos o que está certo e o que está errado, tentando que cresçam a fazer as melhores escolhas, numa zona tão propicia a más escolhas. Fomos sempre muito bem recebidos pelos locais, a casa onde estava, tinha um alpendre que todos os dias estava repleto de crianças, que queriam brincar connosco. Nós, enquanto voluntários, nunca estamos à espera de nenhum retorno financeiro do nosso trabalho, nem mesmo que seja reconhecido. O maior retorno que eu tive foi o carinho e o amor que aquelas crianças me transmitiram durante aquelas duas semanas.


Saí de lá com a esperança que tenham um futuro melhor que o presente e tentei transmitir-lhes esperança, mesmo quando as coisas não correrem bem, que nunca desistam de nada e que se esforcem sempre, para alcançar os seus sonhos e objetivos, mesmo que aos olhos dos outros sejam impossíveis.
Quero agradecer à organização Para Onde?, por todo o apoio que me deu, desde a data de candidatura até à chegada e por toda a vossa preocupação. Enquanto eu estava no voluntariado, sempre preocupadas em saber como estava, se precisava de alguma coisa, tive o melhor apoio possível de vocês. Obrigado por proporcionarem estas experiências inesquecíveis e não tenham medo ou receio, custa partir mas quando se está em campo, tudo vale a pena.