A experiência da Patrícia em Santo Antão

Falar da minha experiência em Santo Antão… Enfim, como começar? Quando o nosso maior arrependimento é ter comprado uma viagem de regresso para Portugal, torna-se claro que a experiência não só foi magnífica e marcante mas também das mais felizes que tive na vida.

Os meus dias como voluntária consistiam nas manhãs passadas no Centro de Dia do Alto de S.Tomé, nas ocasionais idas ao ICCA (Instituto Caboverdiano da Criança e dos Adolescente) e nos finais de tarde com as crianças do Espaço Jovem. Levo um pouco de todas as pessoas que conheci nestas valências. Apenas uma semana passou e já sinto falta: do «Tud Drêt?» do senhor José, sempre bem-disposto, todas as manhãs; do jeito natural do senhor Victor para dançar, pintar, enfim, para tudo!; da Dona Ana que nunca se quer juntar às nossas atividades mas, no final, participa sempre em tudo com muita alegria; da delicadeza enorme do senhor Germano; do sorriso da Dona Isidra; das gargalhadas marotas da Nininha; etc.

Pelas tardes, parece que ainda oiço ao longe as correrias do nosso vizinho pequenino, o Karamu, sempre com os seus braços a balançar; as gargalhadas agudas da Sandji e da Edilana; as músicas a tocar na coluna do Ailton; os gritos «Oh Tiiita» do Alai ou os chamamentos queridos do Gerson. Cabo Verde deixa “sodade”. Guardo em mim memórias que não esquecerei. Tudo, sempre, com muita morabeza, uma amabilidade tão genuína e característica do povo caboverdiano.

De resto, que mais posso acrescentar? Escolhi o mês de Junho para ter esta experiência. Que decisão tão acertada! Nos voluntários de junho encontrei uma família. Dou graças todos os dias por ter conhecido a Sofia, o Eduardo, a Rute, a Paula e a nossa grande coordenadora, a Matilde, que se tornaram não só companheiros incansáveis de toda a experiência de voluntariado, como também amigos divertidos que certamente levarei para a vida toda. Para além disso, tive o privilégio de viver o «Son Jon», a época festiva mais esperada do ano inteiro, e vivenciar toda a cultura, desfiles, procissões e festas típicas deste São João de Santo Antão.

E o crioulo? Um dialecto tão doce e tão «sab»! Em Sintanton (nome que se dá a Santo Antão) aprendi uma expressão que levarei para a vida: «N’ crê ligria dum vida vivid» que significa «Eu quero alegria de uma vida vivida». E esta frase caracteriza tão bem a cultura caboverdiana e a sua maneira tão própria de viver. A arte de bem receber e bem tratar são típicas em Santo Antão. Nunca conheci um povo tão feliz e que faz a festa com tão pouco. Faz-nos refletir que o mais importante nas nossas vidas não são coisas materiais nem posses mas sim as experiências, os sentimentos, as pessoas que conhecemos e que nos são especiais.

Por fim, considero-me uma sortuda por tudo o que me aconteceu e tudo o que vivenciei. É bem verdade que recebi bem mais do que aquilo que dei e fica em mim um enorme desejo de voltar e ajudar quem realmente precisa e agradece por isso. <3