A Experiência da Michelle na Guatemala

Pouco mais de um mês depois do meu regresso, ganhei coragem para pôr por palavras (ou tentar, pelo menos) a experiência incrível que vivi em Maio de 2019. E que mês tão bonito que foi! Cheguei sozinha àquela pequenina aldeia de Chuinajtajuyup e sai com amigos novos, novas aprendizagens e, sobretudo, com o coração feliz e mais cheio que nunca. Entrei como uma estranha naquela aldeia e sai de lá cheia de amor, até porque desde o meu primeiro dia fui acolhida de uma forma super calorosa, pela clínica e por todos os habitantes locais. Pareceu tão fácil integrar-me lá que nem a barreira linguística foi um drama. Tudo se faz, com mais calma, sem esta azáfama louca do quotidiano a que estamos tão habituados.

Aprendi bastante, tanto a nível profissional como pessoal. Vi casos clínicos que provavelmente nunca veria em Portugal. Aprendi a ouvir mais, a compreender que o que não é um problema para mim pode ser uma dificuldade para o outro. Estive realmente a prestar cuidados na comunidade, como tanto falamos durante os nossos cursos. Conheci as famílias e já sabia os nomes das crianças. Soube o problema de cada um e tentei tratá-los com o melhor que posso dar de mim. Quem me ouvir falar sobre o projeto de voluntariado que integrei, vai concerteza pensar que foi perfeito, tanto pelo pelo amor com que atualmente recordo aquele lugar mágico como pela leveza das fotografias. Mas não foi. Não foi perfeito porque me deparei com situações que me deixaram triste e frustrada, porque chorei mesmo quando não podia,  porque o trabalho na comunidade não é tão fácil como muitos julgam. Vivemos dias sem eletricidade, encontramos insectos cujo nome nem sabia, gerimos todas as tarefas domésticas entre nós e o estilo de vida é completamente diferente ao qual eu estou tão habituada. Mas, no final de contas, só não foi perfeito porque não pude ficar lá mais tempo!

Independentemente de todas as adversidades, sorri todos os dias. Senti-me uma pessoa livre. Senti-me tão, mas tão realizada por ter provocado algum impacto e mudança, mesmo que tenha sido em mínimos pormenores, aqueles que, normalmente, nem reparamos por estarmos tão fechados na nossa própria bolha. Nunca lhes vou conseguir agradecer o facto de me terem ajudado a tornar uma melhor enfermeira e, sobretudo, uma melhor pessoa. De resto, as paisagens lindas que vi, as reflexões que fiz, tudo o que aquela comunidade me ensinou, mesmo sem se aperceberem, vou guardar em mim para sempre. Sinto que este texto não reflete nem metade do que vivi, mas realmente há coisas que são inexplicáveis por palavras.
No final disto, acredito que tenha mudado a vida de alguém. Mas não fui só eu, a Guatemala também mudou a minha vida, sem dúvida.