A experiência da Matilde em Cabo Verde

Ainda não parece real. Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.
Foram os sessenta dias mais intensos e felizes da minha vida. Pensar que estava com dúvidas: se ia, se não ia, se ia um mês, ou se ia dois. Despedi-me, decidi ir dois meses e ainda bem que o fiz. Decisões acertadas.
No dia em que cheguei, cansada de autocarros, comboios e aviões, bastou-me o primeiro mar de abraços, para revitalizar corpo e mente. Vinham a correr na minha direcção, de braços abertos, com um sorriso tão grande que parecia transbordar.
As crianças abraçam-nos de uma forma que as palavras não conseguem fazer justiça. Enchem-nos de beijos, de risos, de lições de vida e histórias para contar. Partilham o pouco que têm (com a maior das naturalidades), aceitam a diferença e ao contrário de nós, não julgam. Aprendi todos os dias com eles. Mais do que eles poderão ter aprendido comigo.
Muitos não sabem ler nem escrever, falam em criolo e recusam-se a aprender português. Pequenas vitórias como conseguir captar a atenção do Mauro durante uma hora (mil beijos e abraços pelo meio), que o José escrevesse o nome dele sem copiar, ou que o Ravidson soubesse dez palavras começadas pela letra “M”. Mas, mais que a minha felicidade por tais vitórias, a deles a cada “mais cinco” que lhes dava, a cada certo e a cada “isso mesmo!”.
Explorei as ruelas todas, disse bom dia, boa tarde e boa noite a toda a gente. Distribuí sorrisos às senhoras que viam a vida passar pela janela e aos senhores que deixavam que o sol lhes aquecesse a alma, no banco por eles improvisado. Conheci os cantos e os recantos. A mercearia com o melhor pão, o sapateiro no virar da esquina, a costureira ao fundo da rua, como quem vai para Chã de Marinha. Vivi ao máximo, cada momento e cada pessoa. Senti-me da Ribeira da Craquinha, senti-me de São Vicente. Senti-me em casa.
Quando fui, sabia pouco sobre Cabo Verde, mas do que me diziam, era conhecido pela arte de saber receber. Realmente, as gentes desta Terra, têm o dom da amabilidade. “Morabeza”, dizem. Quantas vezes fui surpreendida pela gentileza das pessoas? Vivemos tão focados em nós próprios que nos esquecemos do mundo à nossa volta.

Foi uma aprendizagem constante. Desde o ser mais tolerante e flexível, ao poupar água, ao Criolo, aos passos de funaná, ao partilhar, ao viver o momento, aproveitar a vida e ser feliz com o que se tem. Não esquecendo o “no stress” característico.

Façam voluntariado, distribuam sorrisos e amor, dêem abraços e lembrem-se, não são os bens materiais que nos fazem felizes.

Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.