A experiência da Marisa na Tailândia

Quando decidi que a minha vida não tomaria o rumo normal daquilo a que estou habituada a ver em meu redor, resolvi que teria de sair da minha zono de conforto. Fiz uma pesquisa exaustiva sobre voluntariado e campos de voluntariado e tomei outra importante decisão: escolhi ver aquilo que de bom as pessoas têm para dar, escolhi ver os sorrisos, ver as cores do mundo. Por isso, escolhi voluntariar-me para o Had Samran Workshop and Music Festival.

A chegada à Tailândia foi uma agradável surpresa. Fui para a Tailândia sem expectativas em relação ao que poderia encontrar. Fui apenas de mente e coração abertos para que pudesse absorver o máximo que os lugares e as pessoas tinham para oferecer. Assumi uma posição neutra, de não esperar nada, apenas receber aquilo que me estivesse destinado. Este plano de viagem ajudou-me imenso na adaptação ao novo contexto. Porque quando nada esperamos, quando apenas vivemos o presente e conseguimos apreciar, no momento, aquilo que nos rodeia, torna-se tudo mais fácil.

Estamos tão habituados ao quotidiano frenético e metódico, que nos esquecemos de sentir a calma que nos rodeia. Esquecemo-nos de apreciar as cores, os cheiros, as formas, as texturas. Aqui, no nosso país, a maioria de nós não está desperto para o essencial. Não sabemos como apreciá-lo, como reagir perante aquilo que realmente importa. Na verdade, estamos tão focados no trabalho, nas discussões, no futebol, na política, que nem sabemos o que é importante. Na Tailândia eu consegui sentir o essencial, e contrariamente ao que diz o Principezinho, ele pode ser visível aos olhos. Foi precisamente no primeiro dia no campo de voluntariado, ao pôr-do-sol na praia, quando observava um grupo de crianças e adultos a correr na areia, com sorrisos e gargalhadas contagiantes que percebi que é aquilo e só aquilo que realmente importa.

Foi o 2º ano que este festival foi organizado. Esta ideia nasceu da vontade de alguns locais em levar dinamismo aquela comunidade, de levar mais jovens para Had Samran, uma vez que é uma região tão rica em recursos, mas que os jovens estão a abandonar para viver nas grandes cidades. À semelhança daquilo que acontece no nosso país quando a população jovem abandona o interior para morar nas grandes metrópoles em busca de uma vida melhor.

Os voluntários chegaram de todo o mundo (Brasil, Portugal, Mongólia, França, Austrália, EUA, Tailândia), de mochila às costas, sorriso no rosto e energia radiante. Cada um dos voluntários teve algo a dar a este festival. Entre todos, surgiram ideias maravilhosas no que respeita à decoração do espaço e à organização de workshops. Fomos nós, voluntários, que organizamos as actividades e workshops. Todos contribuíram com aquilo que sabiam para trazer algo de diferente e dinâmico. O workshop que eu organizei foi mais voltado para as crianças. Resolvi pegar em elementos que facilmente estão disponíveis como as conchas que apanhei na praia e folhas das árvores para que as pessoas pudessem usar a sua imaginação e fazer colagens. Tivemos muita adesão e todo o processo foi surpreendente. O resultado final foi maravilhoso.

Para além do workshop, ajudei em tudo aquilo que pude, fazia de tudo um pouco, deste cortar bambu para as decorações, a ajudar na cozinha. Achei surpreendente fazer uma imagem de Poseidon, rei dos mares, com talvez uns 5/6 metros de altura, apenas com bambu na sua estrutura. O resultado final foi grandioso e tornou-se numa das principais atrações do festival. Mas eu acabei por me apaixonar pela cozinha, aprendi a cozinhar comida Tailandesa com um cozinheiro de seu nome P Yu, que depositava amor em todos os seus pratos, e isso para mim foi uma aprendizagem que irá ficar no meu coração por toda a minha vida.

Noutras partes da Tailândia as coisas podem funcionar de forma diferente, mas aquilo que eu vivi no seio desta comunidade foi algo completamente diferente daquele conforto a que estamos habituados no nosso país. Aqui os sapatos não entram dentro das casas, não existem chuveiros sofisticados a que estamos acostumados. Enchemos uma taça com água que tiramos de uma pia e tomamos banho assim. Aqui, apesar de haver mesas e cadeiras, podemos por vezes comer no chão e seja qual for a comida, dispomos apenas de uma colher, não há grafos nem facas. A cozinha foi feita de improviso na rua, e não foi apenas por ser algo temporário para os voluntários porque, ao lado, onde viviam as famílias da comunidade, também eles tinham lavavam a loiça na rua em alguidares.

Mas nada disto importa, porque aqui há pés descalços e sorrisos rasgados. Há corridas na praia e gargalhadas ao pôr-do-sol. Aqui, a forma como tomamos banho não importa, que há amor que paira no ar. Aqui não se limpa o chão, porque o chão faz-nos sentir seguros e a sua energia não pode ser quebrada por lixivia. Aqui as aranhas e as suas teias podem estar por toda a casa, porque o que importa realmente é estar conectado com a natureza e aceitar tudo o que dela vem. Tudo o que importa está dentro de nós. Tudo o que é importante vem da energia do mar, do céu, das árvores. Tudo aquilo que é verdadeiro vem da energia dos sorrisos, dos gestos, dos olhares.

É incrível o que pode mudar dentro de nós em tão pouco tempo. É incrível a adaptação do ser humano a novos contextos. Os dias passaram tão rápido mas aconteceu tanta coisa, mas tanta coisa que todos os momentos foram vividos tão intensamente que os tenho gravados na minha memória e tatuados sob a minha pele. Consigo voltar a sentir tudo intensamente, só de recordar. Todas as palavras do mundo não chegariam para descrever a intensidade das emoções e sentimentos a fervilhar no meu coração.

Trago comigo um pedacinho de todas as pessoas que conheci. Estas pessoas mudaram a minha vida. Sinto-me uma felizarda por ter usufruído desta experiência, por ter feito parte de uma evento com um sentido grandioso, não só de diversão mas com um propósito por trás que apela a uma união interior, que só se sente quando vivemos em comunidade e partilhamos objectivos comuns.

A vivência na Tailândia foi maravilhosa, repleta de magia, paz e um bem-estar interior que muito dificilmente voltarei a encontrar. A Tailândia mostrou-me que, pensamento positivo, sorriso no rosto, paz no coração e sentir intensamente tudo o que nos rodeia é o que basta para sermos felizes. Para ficarmos curados de tudo aquilo que bloqueia a nossa energia. Vou voltar com toda a certeza!

A experiência do voluntariado internacional, onde tudo é diferente e fora da nossa zona de conforto, faz-nos crescer, amadurecer… Torna-nos mais fortes, mais sábios… Inspirem-se, sonhem, e vão sem medos!

Obrigada Para Onde!

Marisa Ramalho