Marisa, Alemanha 🇩🇪

Há exatamente 10 dias voltei de uma das experiências mais marcantes da minha vida e agora estou sentada em frente ao computador a tentar resumir tudo o que vivi, e tenho a dizer que não é fácil. Há sempre alguma coisa que fica por dizer e há sentimentos e sensações difíceis de expressar por palavras, parece que elas não fazem jus ao que vivi.
Mas vamos lá. No dia 22 de julho parti para Berlim. Tinha-me proposto passar os próximos 13 dias num Centro Social e Desportivo Feminino de seu nome Kreafithaus, e que eu dias mais tarde passaria a chamar “casa”. Éramos 10 voluntários, 9 nacionalidades diferentes e estávamos ali todos reunidos para apoiar um projeto cujo principal objetivo é derrubar a força dos estereótipos de género. O espaço acolhe raparigas e jovens adolescentes vindas de todos os contextos sociais e culturais, e é um lugar onde elas podem passar o seu tempo livre a realizar as mais diversas atividades, desenvolvendo tanto as suas capacidades desportivas como artísticas e mais importante ainda, um lugar onde elas podem ser aquilo que quiserem, independentemente das experiências passadas ou das ideias pré-concebidas já tão enraizadas na sociedade. É um sítio que as relembra que elas têm o seu valor, e que não há um género superior a outro, não há atividades designadas apenas para homens ou apenas para mulheres.
Por si só, revejo-me bastante nos ideais deste projeto e no momento da escolha do campo de voluntariado não tive dúvidas de que queria dar o meu contributo nesta área.

Estava preparada para arregaçar as mangas, e foi literalmente o que aconteceu. Como voluntários, o nosso papel na Kreafithaus era essencialmente dar uma nova vida ao espaço, torná-lo mais agradável para as jovens que passam ali os seus dias. As tarefas passavam pela reconstrução de uma área de lazer no jardim, pela renovação do local de compostagem e do local onde se encontrava a parede de escalada, e por último, pela elaboração de um hotel para insetos. Quando dei por mim, estava a cortar madeira, fazer buracos e aplicar pregos usando ferramentas que eu nunca me imaginei a utilizar, de forma a construir bancos de jardim. Muitas foram as vezes em que chegava ao final do dia completamente sarapintada de tinta verde fruto de manhãs a pintar cercas, ou com a cara cheia de pó e os braços cansados, resultado de tardes a carregar pás de terra. Mas de todas as vezes, quando me deitava na minha cama improvisada, estava feliz, muito feliz. E é engraçado estar a recordar estes momentos e sentir uma explosão de alegria vinda do peito.

Nos tempos livres aproveitávamos para explorar Berlim ao máximo, chegámos mesmo a participar no “Berlin Pride” e foi incrível estar a marchar ao lado de pessoas tão seguras de si e tão livres na expressão do seu ser.
Ficam ainda na memória os jantares prolongados, os serões de jogos, as melodias da guitarra nos fins de tarde, horas intermináveis a dançar, as conversas nos dormitórios, os passeios, as aventuras inesperadas e as gargalhadas que enchiam o nosso quotidiano, e que de certa forma nos tornavam mais cúmplices a cada dia. Foram dias de uma constante troca de ideias e aprendizagens, que travei com pessoas que carregam bagagens culturais e de vida diferentes das minhas, pessoas a que agora chamo de amigas e das quais foi tão difícil dizer um “até já”.

Já ansiava por uma experiência destas há muito tempo, e como não consigo desviar-me de frases cliché ao escrever este texto, atrevo-me a dizer que nunca me soube tão bem sair da minha zona de conforto.
Para concluir, quero dizer que a partir do momento em que se regressa a casa após uma experiência como esta, temos a certeza que vamos voltar a partir, mais tarde ou mais cedo, para embarcar numa outra aventura. Voltamos com o desejo de dar mais, aprender mais, conhecer mais e viver mais.