A experiência da Maria em Zanzibar

              Desde que me lembro de ser gente, que tenho uma inexplicável sede por me aventurar pelo desconhecido, recordo-me de girar o globo que havia no escritório dos meus pais, apontar para um lugar de olhos fechados e imaginar como seria esse local. À medida que fui crescendo, o voluntariado entrou na minha vida em diversos formatos, acabando por descobrir outra das minhas grandes paixões. 

              Este ano decidi dar “o passo” e misturei as minhas duas grandes paixões – partir rumo à descoberta e ajudar com o meu contributo quem necessita. E assim foi, em Julho parti de mochila às costas para a África Oriental, mais concretamente para uma ilha pertencente à Tanzânia e banhada pelo oceano Índico, Zanzibar.

              Costumam dizer que o início custa sempre, mas este não foi o meu caso, rapidamente me senti acolhida em família e a fazer parte de uma comunidade, que aos poucos fui conhecendo e compreendendo melhor a sua cultura, as pessoas e o seu modo de vida. Estando num país maioritariamente muçulmano, onde todas as mulheres usam hijab, onde a mulher é bastante inferiorizada relativamente ao homem, onde ainda se acredita em bruxaria e feitiçaria e onde a pena de morte ainda persiste, existem regras culturais que tive que seguir e compreender, de modo a respeitar e ser aceite pela comunidade, tal como evitar usar roupas que mostrassem os ombros e as pernas, ou até mesmo evitar fazer ruído nas horas de oração.

              Numa experiência destas nem tudo é bonito e muitas vezes senti alguma frustração e impotência pelo facto de certos pontos de vista e crenças serem mal aceites e incompreendidos por esta cultura, como por exemplo a igualdade de direitos entre géneros, que é algo completamente absurdo para estas pessoas. Crenças e pontos de vista como este são difíceis de se mudar, e ainda mais quando são questões culturais enraizadas na própria educação destas pessoas desde cedo, mas penso que se falarmos neles aos poucos, e cada vez mais, existe a hipótese de transformarmos (nem que seja só um pouco) algumas mentes, e quem sabe, deixar uma “semente” que conduzirá à mudança.

              No entanto, estas inúmeras divergências culturais com que me deparei foram apenas mais um fator de interesse para explorar melhor, pois quando nos permitimos conhecer genuinamente o outro, pomos de lado as nossas defesas/barreiras, abrimos as nossas mentes e abraçamos o próximo, independentemente da cor da pele, religião, crenças ou género, abrimos espaço para amizades improváveis, que nos fazem crescer e que vão marcar para sempre a nossa vida com lições de tolerância, respeito e amor.

              Para mim Tanzânia foi viver de intensamente cada momento, foi ver sorrisos e gargalhadas no meio de pobreza, foi andar de pé descalço e de espírito leve, foi dançar ao som de “bongo flavour” com os vizinhos, foi encontrar uma mama, um papa e três irmãs África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi ficar deslumbrada com a beleza natural de Zanzibar, foi aprender e dar “calinadas” no suaíli, foi perceber que a educação salva vidas, foi conhecer-me melhor, foi fazer amigos verdadeiros nas pessoas menos prováveis, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos (como ter água quente para tomar banho), foi andar à boleia em carrinhas de comércio local, foi conhecer histórias de vida que jamais irei esquecer, foi ser criança outra vez, foi dizer “porque não?” mais vezes do que era suposto, foi rir até doer a barriga e é ter uma vontade enorme de voltar já e agora. 

Com esta oportunidade, foi possível aperceber-me melhor das desigualdades que ainda existem neste mundo, em coisas tão simples como fazer o caminho para a escola em segurança. Pois é, em Zanzibar todos os anos existem mortes e ferimentos em crianças que simplesmente estão a ir para a escola, porque não existe segurança rodoviária ou qualquer tipo de educação nesse sentido, sendo este o foco da organização de acolhimento – lutar para que seja possível que todas as crianças em Zanzibar cheguem ao local de ensino em segurança. Situações como esta e similares que pude testemunhar fizeram-me abrir os olhos e ver que ainda existe uma luta muito maior do que imaginava, para que todos tenham oportunidade de viver com dignidade. Somos apenas um grão de areia cada um de nós, mas se formos muitos, conseguimos ser uma praia ou uma montanha de grãos de areia, e aí, fazer a diferença.

              Queria muito conseguir dizer o que senti nestes 2 meses em Zanzibar, mas há coisas que não se conseguem explicar, só quem viveu a experiência consegue compreender, por isso, o melhor remédio é mesmo ir. Volto com o coração a rebentar pelas costuras, por não saber quando (ou se) voltarei a ver a minha segunda família e amigos, que deixei do outro lado do mundo, mas volto também com um sorriso gigante por ter desfrutado ao máximo desta oportunidade única. Posso apenas prometer a mim própria, que um dia hei de lá voltar