A experiência da Mariana na Ilha da Boavista

Vários meses passaram desde o dia em que aterrei na Ilha da Boavista.

Lembro-me de estar tão nervosa antes de ir, de tentar fazer o máximo para me sentir o mais bem preparada possível para aquela experiência, mas nada parecia suficiente… Entrei no avião cheia de dúvidas, medos e o pensamento de: “Em que raio me fui eu meter?”. Nunca na vida tinha feito nada assim e estava mesmo muito assustada.

Mal saí do avião e senti o calor da ilha e de todas aquelas pessoas incríveis foi como se todas as minhas dúvidas se dissipassem e de repente, senti-me calma e segura. Esta sensação só aumentou com a receção fantástica das pessoas, principalmente dos nossos pequenotes no jardim, diariamente.

A primeira visita ao Bairro da Boa Esperança (ou como lhe chamam na ilha, a Barraca) chocou-me. Como se diz: “A realidade supera a ficção” e foi como um soco no estômago perceber que há pessoas a viverem naquelas condições, que sítios assim existem mesmo, que não é só nos filmes. Quando se vê de perto dói mesmo muito e nada nos prepara para isso. Mas, o mais surpreendente foi que essas mesmas pessoas nos cumprimentavam com os maiores sorrisos do mundo, que todas as manhãs as crianças chegavam com uma alegria do tamanho do mundo e  gargalhadas a combinar com ela. Tudo isto no meio daquelas condições miseráveis.

Trabalhar com aqueles miúdos foi incrível, muito cansativo, mas muito gratificante. Aqueles pequenotes elétricos conseguiam deixar-nos com os cabelos em pé ao não estarem cinco minutos concentrados para, de seguida, nos deixarem com o coração derretido e de sorriso comovido com os seus pequenos, grandes atos generosos e brincalhões.

Apesar de tudo, a vida no bairro não é nada fácil mesmo, para além das condições miseráveis, os vícios e os perigos espreitam por todo o lado (o álcool, as drogas, a prostituição e a violência doméstica). Os próximos anos não vão ser nada fáceis para os nossos pequenotes e eu só espero conseguir ajudar, nem que seja um pouquinho, para que eles tenham um futuro melhor e para que a vida se endireite para eles. Eles merecem tudo de bom, merecem o mundo inteiro, mas infelizmente não têm quase nada.

Que continuem com essas risadas e alegria, nós vamos estar atentos e tentar fazer o máximo para ajudar a melhorar a situação. Vários meses passaram desde o dia em que eu aterrei da ilha da Boavista, mas eu não vos esqueço, juro.