A experiência da Márcia na Colômbia e no Perú

Passaram exactamente duas semanas desde o meu regresso a Portugal e alguns dias desde o pedido da Inês e da Marta para testemunhar aquela que veio a ser, até à data, a experiência mais gratificante da minha vida. Confesso que custa assentar, ideias, sentimentos, e até mesmo diria, por vezes, digerir estas novas memórias. Se há alguma certeza que tenho sobre todo este turbilhão de informações, é que todas as pessoas deveriam ter oportunidade de embarcar num projecto assim pelo menos uma vez na vida. Seríamos todos muito mais felizes e descomplicados. E a todos os que me perguntam se valeu a pena, tenho uma e sempre a mesma resposta: ‘só me arrependo de ter comprado a viagem de volta’.

No início desta aventura (nada planeada, mas muito desejada) tinha uma vaga ideia que esta me iria marcar e transformar de algum modo. Tinha uma vaga ideia de que iria transpor fronteiras e atravessar um oceano, para abraçar projectos em outros países, num outro continente. Só não sabia ainda que abraçaria projectos e pessoas para a vida. Aprendi que até os ‘abraços’ tem naturalidade. E nós, Portugueses de ginja, que abraçamos à nossa forma ocidental, estranhamos aquando os primeiros abraços interculturais, mas entranhamos rapidamente os mesmos, e arrisco-me a dizer que dificilmente vamos querer de novo ‘abraços’ pela metade.

Foi na Colômbia que tive o prazer de ter este ‘primeiro choque’ cultural, aquando apenas após umas horas da minha primeira viagem sozinha, num outro continente, me senti estranhamente confortável e tranquila. Optei por viajar uns dias mais cedo antes do início do programa de voluntariado. Não queria perder a oportunidade de conhecer a capital, e não poderia ter tomado melhor decisão. Foram importante estes primeiros dias de contacto comigo mesma, e com um outro país, com uma outra língua na qual não estava ainda tão à vontade. É importante sairmos da nossa zona de conforto, ainda que o sugira sempre de forma consciente e minimamente programada. Nunca me senti insegura, muito menos sozinha. Desde o primeiro momento em que aterrei na América do Sul, que senti que era bem recebida. Os Colombianos são pessoas simples, gentis e de conversa fácil, e isso baixa qualquer defesa. Conheci também outras pessoas que viajam, ora sós ora em grupo, que gratuitamente partilharam as suas experiências e o seu tempo. Após estes primeiros dias em Bogotá, viajei então para Pereira onde me juntei à organização de acolhimento por 15 dias.

Se no geral os Colombianos são bons anfitriões e sabem levar os dias com um sorriso e alegria contagiante, conheci no Staff da organização uma genuinidade ímpar. Cada um à sua maneira, mas todos fazem questão que nos sintamos bem e que desfrutemos tudo o que lhes for possível. Chinchina é uma localidade grande o suficiente para nos desarmar num piscar de olhos. Faz parte da Paisagem Cultural Cafeteira, mas apesar de nos confrontar com um cenário quase idílico, a realidade é contra-natura. Num meio onde estamos rodeados por montanhas e pela natureza no seu estado mais puro, sentimo-nos pequenos, ainda que o nosso rosto e coração estejam a fervilhar em grande. Quer pelo calor que se faz sentir (quase sempre) ainda nas primeiras horas da manhã, quer pela rajada de emoções que se experimentam ao constatarmos que o nos rodeia é maioritariamente um conjunto de casas e infraestruturas inacabadas, quase sempre sem telhados e onde a pobreza é a palavra de ordem.

A minha experiência incidiu sobretudo sobre o ainda recente Programa de Educação Especial, o qual tive privilégio de ajudar a estruturar. Aqui tive oportunidade de conviver de forma muito próxima com a comunidade local e de aprender (tanto), quer a nível pessoal como profissional. Conheci o dia a dia da instituição e da deliciosa história da sua fundadora, a quem sou muito grata pela forma como me recebeu e integrou. É bom ser consciente, que embora tenhamos uma missão, não somos cavaleiros andantes de mochila às costas cheios de boas intenções e prontos a salvar o mundo. Acredito sermos mais meros (sortudos) observadores daqueles que nos abrem as portas das suas casas/vidas e nos deixam entrar. Nos deixam ser mais do que uns corpos presentes de estadia fugaz. E isso não tem valor. Abaixo o retrato de instantes muito felizes, em algumas das actividades desenvolvidas com a única instituição da localidade que está preparada para acolher e educar crianças e jovens com necessidades educativas especiais, mas onde são visíveis a olho nú todas as suas carências. Ainda assim, é a alegria que reina nesta casa, e são os risos contagiantes que tomamos como banda sonora.

A organização oferece porém um vasto leque de programas em diferentes áreas nas quais podemos participar. Presenteia-nos ainda com uma história que nos cativa desde o primeiro capítulo e nos dá vontade de acompanhar no seu desenrolar, ainda que à distância de alguns kms. É incrível todo o trabalho desenvolvido por um grupo de pessoas na sua maioria ainda muito jovens, mas com uma enorme capacidade de fazer acontecer. Não posso deixar de registar um obrigada especial ao Glen, Stiven, Ed., Daniela, Nestor e Hector. Ah! E claro ao grande companheiro de voluntariado Christian.

Como se tudo isto não fosse bom o suficiente, durante o tempo livre tive oportunidade de viajar pelas regiões próximas e de me envolver e apaixonar ainda mais com a cultura, gastronomia e paisagens únicas Colombianas! Não percam a excursão até Manizales e Salento. Da minha parte, fica a certeza de querer voltar.

Passado este tempo, segui novo rumo a Trujillo, no Peru.

Aqui permaneci um mês, no qual me dediquei a organizar e dinamizar aulas de inglês e tempo de qualidade para as mais de 300 crianças que tive a sorte de conhecer, de uma escola na localidade de Florencia de Mora. Cada dia foi diferente e especial. Esta é também uma escola muito especial. Com inúmeras necessidades. Fica sobre um deserto e facilmente nos apercebemos que as condições de apoio por vezes mais básicas perderam-se no tempo e no caminho até à mesma. Isso não tira no entanto o seu protagonismo. Nenhuma criança devia aprender neste contexto é certo, ainda assim, perto de 600 crianças sonham com o momento de voltar a cruzar os portões do espaço seguro que muitos conhecem como a única oportunidade para novas descobertas, ou onde podem brincar e correr como a sua idade sempre o devia ditar.

E nós também, regressamos todos os dias, porque ao chegar somos atropelados por braços abertos, como se de extraterrestres que trazem uma língua estrangeira fossemos, e tropeçamos nesta realidade, onde todos somos felizes com tudo e com tão pouco.

Foi um mês cheio, que passou demasiado rápido com a ajuda da Helena e do Tomás, os dois voluntários Portugueses que tive a oportunidade de me juntar e partilhar esta deliciosa aventura. Ainda não sei que fizemos para merecer tamanha bagagem. A única convicção, é que a desproporção entre o que nos ensinam e dão é gigante.

Durante este mesmo período, fomos tratados como ‘convidados de luxo’ pelo maravilhoso staff e amigos locais, que nos desafiaram a explorar e desfrutar tanto da cidade, como o norte e centro do Perú. Viajamos até Cajamarca e Huaraz. Conhecemos os Andes e a Cordilheira Branca, bem como a histórias dos seus primeiros povoadores. Perdi a conta ao número de trekkings e montanhas que subi ou às vezes que fiquei sem palavras pela biodiversidade única que encontramos neste País. Uma verdadeira caixa de surpresas que me fez ir muito mais além do que alguma vez previ. Agradeço vezes sem conta ao Micca, Juan e Rolly.

No final do projeto, guardei mais uns dias para viajar até Lima e Cusco, e conhecer mais maravilhas deste mundo. Aconselho vivamente!

Por fim, deixo um agradecimento muito especial à organização Para Onde, à Marta e à Inês. As quais admiro imenso pelo seu empreendedorismo, força de vontade e dedicação. Elogiei vezes sem conta o seu trabalho pelas diferentes partes onde passei nos últimos meses, de forma muito natural e até despercebida. Em troca de experiências com muitas das pessoas e outros viajantes que me cruzei, apercebi-me ainda mais da importância, do apoio e de toda a orientação que nos prestam pré, durante e após a partida. São o nosso elo com a realidade e a nossa certeza de segurança a vários níveis. Obrigada por tornaram todas as maravilhosas experiências que descrevi (e mais algumas) viáveis.