Mafalda, São Tomé 🇸🇹

Tenho andado a adiar escrever o meu testemunho, para organizar os meus sentimentos e traduzi-los em palavras que façam jus ao que vivi, estes dois meses em São Tomé. Há coisas que sentimos que são difíceis de contar, mas acho que vos consigo deixar uma ideia do que se passa no meu coração.

Comecemos pelo início, que aventura! Cheguei lá sem saber bem o que me esperava, mas no fim do primeiro dia tinha os mais pequeninos a bater à porta do meu quarto para um beijinho de boa-noite. E, aí, soube que estava em casa. Mexeu logo comigo como os miúdos me receberam de braços abertos, como os abraços, os risos, os jogos surgiam de forma natural. Alguns dos mais velhos foram mais desafiantes, mas aos poucos fomos construindo uma boa amizade. E é tão bom, que no final custa deixar todos, sem exceção.

Lá em casa vivem 14 “piquenos”, dos 7 aos 17 anos. O dia-a-dia lá na Fundação tem o seu ritmo, desde o acordar cedíssimo com a música no terraço à história antes de ir dormir. As rotinas deles que passaram a ser minhas, mesmo as que custavam um bocadinho mais, deixam uma saudade tão grande. Como vivemos lá, acabamos por passar todo o dia com eles e mesmo quando há folgas, acabam quando chegamos a casa. Isso tanto tem as suas vantagens, como desvantagens. Significa que estão sempre a bater à porta de casa, mesmo que seja só por curiosidade para saber o que estavas a fazer, significa que lá estás quando estão doentes, quando têm um mau dia na escola, que lá estás quando é para brincar e quando é para estudar. Todos eles, individualmente com as suas histórias, com a sua maneira de ser, tocaram o meu coração. Porque se aos pequeninos a alegria sai gratuitamente, aos mais velhos sai o serviço. E até aqueles que são mais difíceis às vezes, desafiam-nos sempre a ser melhores, porque nos testam e, por isso, ajudaram-me a crescer. Todos eles, à sua maneira, puxaram por mim e fizeram-me melhor. E as amizades vão surgindo naturalmente, todas únicas e especiais, com cada um deles. Deixam saudades os “Mafalda piquinina”, os “qué quoi?”, os “upa a gentxi” e os “deixa traxar oxê”, desde que acordava até que eles se iam deitar.

Tenho de falar de São Tomé, no geral, também: que paraíso! A beleza natural do país deixou-me todos os dias a pensar a sorte que tinha em viver ali, sentir-me agradecida pelo mundo em que vivemos, que é tão bonito! As praias, as roças, as pessoas! No nosso ritmo acelerado europeu esquecemo-nos muitas vezes de que a Humanidade é o nosso maior tesouro. É a amizade, a alegria, a gentileza, a disponibilidade, a simpatia, a humildade e o entusiasmo dos santomenses que desperta este sentimento de “isto sim é ser humano!”, no verdadeiro sentido da palavra. E é bom sabermos que nós somos capazes de viver assim, descentrados de nós próprios e dos nossos problemas e vivendo disponíveis para os outros e atentos ao que está à nossa volta.

Durante estes meses, tanto com o que ia vivendo na Fundação, como com a própria vivência na ilha, aprendi muitas coisas. Aprendi coisas sobre mim, sobre o mundo, sobre os outros. Acredito que, agora que já estou em casa, continuo a aprender, porque há coisas que vivemos que só processamos depois e que nos continuam a transformar. Mas aprendi a amar todos os dias mais um pouco. E que quando achava que já não cabia mais amor e mais alegria no coração, estava enganada. Aprende-se a dar valor aquilo que temos, a ser mais agradecidos, a viver com um olhar mais atento, a dar importância ao que é realmente importante.

Agora partilho convosco todas estas coisas boas, porque é o que fica a ecoar no coração, mas claro que há dias difíceis, há muitos desafios, há dias em que nos testam a paciência e tudo o que houver para testar. Mas há duas coisas que estavam sempre presentes: 1) dias maus há sempre, mas quando se tem a certeza de que se está no sítio certo, com o coração no lugar, sabemos que estamos a caminhar bem e que esses dias também nos estão a fazer crescer; 2) não estava sozinha. E focando-me nesse segundo ponto, também não podia deixar de mencionar a amizade tão bonita que se forma com os outros voluntários e tão importante que é para viver esta missão sem perder o foco.

Regresso com a sensação de que lá deixei pedacinhos do meu coração, mas a sensação de que venho com o coração cheio! Porque se lá deixei alguns, também os trago a eles comigo e com o coração a transbordar de amor, alegria e gratidão. E a certeza que estes meses em São Tomé serão sempre, para mim, o recordar de que a vida com amor e partilha é muito melhor!