Mafalda, Guatemala 🇬🇹

Em setembro de 2021 cumpri um sonho antigo e fui em missão de voluntariado médico na Guatemala, graças à “ParaOnde?”. A ONG que me acolheu chama-se Health and Help e tem duas clínicas: uma na Guatemala e outra na Nicarágua. Fui durante um mês para a clínica da Guatemala. Lá, as acomodações são adjacentes à clínica, pelo que se torna muito prático pois as deslocações são mínimas.

A clínica localiza-se numa zona rural, no meio da montanha, onde não há estradas alcatroadas e a cidade mais próxima é Momostenango. Daí, há que apanhar um género de táxi 4×4 para chegar às instalações. A população residente no local, está assim, deslocada dos centros urbanos, sendo mais difícil o acesso às estruturas de saúde. Nesse sentido, a existência da clínica naquela localização faz a diferença para dezenas de pessoas diariamente. 

Durante a maioria do tempo que estive na clínica, a equipa era eu com mais duas colegas médicas: de nacionalidade argentina – que tinha acabado a faculdade de medicina há poucos meses -, e russa – que estava no 1º ano do internato de infecciologia. Estas colegas estavam na clínica há 3 meses e foi mesmo importante terem-me acolhido tão bem e explicado tudo sobre as particularidade do trabalho no local. A restante equipa era constituída por 4 enfermeiros: o Bruno, a Mariana, a Beatriz (enfermeiros portugueses) e o José (técnico de enfermagem guatemalteco). A coordenadora da clínica e a administrativa eram ambas russas. A equipa foi sempre muito unida, com um forte espírito de entre-ajuda. Cabia a uma pessoa por dia a confeção das refeições e a outra pessoa a lavagem da loiça. As tarefas domésticas eram repartidas por todos e uma vez por semana íamos ao mercado comprar comida, sempre vegetariana. 

Um dia normal na clínica consistia em: pelas 7h30 tomávamos o pequeno-almoço que era bem reforçado, para dar energia para uma manhã de trabalho. Variava entre papas de aveia, frijoles, pão e ovos, com algumas variantes dependendo da apetência culinária dos voluntários. Às 8h abria a clínica, os enfermeiros entregavam as senhas por ordem de chegada e faziam a triagem, questionando os sintomas e registando os sinais vitais. Nós, médicas, atendíamos os doentes por ordem de triagem. Os exames de diagnóstico eram escassos, pelo que a história clínica e a anamnese eram as nossas principais armas diagnósticas. Tínhamos suficiente medicação disponível, pois todos os voluntários levam 16 quilos de medicação necessária, a pedido da ONG. Por volta das 12h almoçávamos em equipa. Às 13h retomávamos os atendimentos, até às 16h. Fora desse horário só se atendiam urgências. O resto da tarde dedicavamo-nos a fazer algo que fosse necessário pela clínica (bricolage, limpezas, organizar medicação…) e por duas vezes organizámos atividades de promoção para a saúde: uma palestra sobre sexualidade com adolescentes de uma escola e uma atividade de primeiros socorros dirigida ao staff de uma piscina da comunidade.

Pelas 19h jantávamos e ao serão privilegiávamos o convívio. Os momentos das refeições e de convívio foram marcantes pela partilha de experiências entre todos, o apoio que dávamos uns aos outros ao discutir casos que nos tinham marcado mais. Houve muitos casos que me marcaram, mas o que mais me marcou foi o pequeno Brandon, de 6 anos, que foi trazido a meio da noite pelos pais porque tinha caído e fez uma ferida grande na testa. Suturei, com a ajuda da Beatriz, e o menino, apesar de assustado, manteve-se sempre imóvel e muito colaborante. A coragem do Brandon tocou-me muito. Reparámos que ele tinha uma postura assimétrica e observei a escoliose mais grave que vi em toda a minha vida profissional. Os pais disseram que o menino tinha sido seguido em pediatria num médico privado mas que lhe tinha sido dada alta com a indicação de que para se curar deveria ser operado nos Estados Unidos e os pais recusaram pois não tinham capacidade económica para tal. Senti-me determinada em ajudar o menino e tentei mobilizar recursos, junto com a Beatriz e restantes colegas. Contudo, os pais não mostraram recetividade em colaborar conosco para ajudar a resolver a situação, pelo que tivemos que respeitar e aceitar. Custou-me bastante ver um menino de 6 anos com uma doença que no nosso país seria facilmente tratável, com todo o tratamento comparticipado pelo Estado e com apoios para os pais cuidarem dele na sua recuperação, assim como tratamentos de fisioterapia e acompanhamento a longo prazo. As desigualdades entre países são notórias e isso é mais um motivo para dedicar o nosso trabalho durante o tempo que é possível a estas populações carenciadas.

Noutras situações foi possível verdadeiramente fazer a diferença: como num caso de um rapaz de 19 anos que recorreu por diarreia com sangue e que, após uma difícil marcha diagnóstica, se concluiu que afinal era uma leucemia. Foi internado no Hospital e recebeu tratamento. Há poucos dias soube que tinha tido alta e fiquei verdadeiramente feliz com a notícia. 

Na área médica, sabemos que a nossa expectativa tem que se limitar a dar o nosso melhor, sem mais expectativas, pois nem sempre os resultados dependem só de nós. E dando o nosso melhor conseguimos fazer a diferença com alguns doentes. Guardo com muito carinho e saudade todos os momentos que vivi. A entre-ajuda, as aprendizagens com os colegas, a partilha de experiências, a reflexão em equipa e o contacto com as pessoas de uma cultura totalmente distinta. Aprender a aceitar a diferença; a respeitar aspetos culturais que muitas vezes interferem com os cuidados médicos; a promover a saúde em vez de focar só na doença, pois esses ensinos são os que no futuro farão a diferença. E finalmente, os sorrisos de agradecimento no final da consulta – esses ficam para sempre. 

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