A experiência da Liliana na Ilha da Boavista

Os meus 20 anos: Gostaria de fazer voluntariado, assim que nem Bucket List… dos 20 aos 30… a  vida tem tanto com que te consumir, um dia a seguir ao outro fazem anos e os 30 chegaram! Que ando eu a fazer? Siga, é agora! Depois de ser possível a nível pessoal e profissional, isto está encaminhado. O Para Onde extremamente apelativo na internet… está decidido. Agora…. destino? África não, África não! … Porquê? Porque a minha vida é organizada, com regras e neste continente falta estrutura. Idealizar, idealizar… bem, mas será que vou ter a oportunidade de fazer isto outra vez na vida? Será? Não sei. Vá, contraria-te! África, go! Agora, país? … que seja PALOP…depois do recrutamento, Cabo Verde escolhido, ilha da Boa Vista a sentença.

Lá chego a esta ilha árida e de muitos poucos recursos e vou conhecer o bairro onde passarei os tempos que se avizinham…conhecido por “Barraca”;  cordialmente, socialmente e politicamente nomeado de Boa Esperança….mas que bonito, muito português….só para começares a aprender, esquece lá isso…contraria-te lembras-te? …de português, só mesmo o nome.

Não encontro palavras nem fotos que descrevam o que vi, crianças a brincar com paus e pedras como se do último modelo da playstation se tratasse; crianças a passearem de cestos na cabeça a imitarem as mães, feitas umas vendedoras ambulantes, como se fosse o último modelo da barbie…..águas paradas, cheiros maus devido à falta de saneamento, “casas” em mau estado de conservação…ou será que na realidade nunca foram finalizadas? , parece que passou por aqui o terramoto de 1755!…..feridas, muitas feridas me ficam na memória, seja das crianças ou dos animais, que são todos mais que muitos, e que vivem  a uns escassos centímetros uns dos outros……mas onde me vim enfiar? Começas logo ali a projectar “soluções”…mas calma, ainda não estás no “local de trabalho”, espera!

Primeiro dia na creche o Xururuca, ainda mal tenho um pé la dentro que aproximadamente 150 crianças estão a trepar pelo corpo acima, a dar beijos e abraços como se não houvesse amanhã e a chamar-te de “tia”….ora essa? Tia? Mas porquê? Eu ainda não te dei nada, porque me chamas de “tia”? Porque sim, porque é assim, porque basta existires para estas crianças gostarem de ti.

Mas como é possível? Porque sim. Porque são valores básicos da vida que nos meses seguintes me fizeram questão de relembrar.  A vida na creche não são rosas…os sentimentos ambíguos e duros.  Vais ali feita que nem instrutora de letras e números como se disso tudo fosse feita a vida e estas crianças respondem-te com um olhar sobre um bairro onde as oportunidades são escassas e onde ser correcto te leva mais longe do que o abecedário. …Porquê? Porque ser bem amado, numa terra de tão pouca oportunidade, te pode abrir portas. E como é que estas crianças sabem disso? Não sabem! É inerente, está nelas, a bondade habita aqueles corpos. Na realidade o que os fará perder o norte serão os anos que se seguem, os anos da conquista do seu lugar ou da perda dele, os anos do caminho fácil onde a maioria daquele bairro se refugia…a falta de trabalho… os caminhos errantes. Então mas que ando aqui a fazer afinal? Isto é um bairro de nome antagónico…. calma, pés na terra…contraria-te lembras-te? A esperança é a última a morrer. Então como encontrar o meu lugar aqui? O que posso eu realmente fazer? Pensa, pensa…..qual é a base de tudo? O ponto de partida seja para o que for? É a motivação. Mas como é que esta se aguenta ao longo do tempo? O que a faz aguentar? É o amor….o amor por alguém, por alguma coisa, pelo que fazes….ok, muito bem…e como explicas isto a crianças dos 2 aos 5 anos? Na realidade não sei, não tenho truques na manga….mas o que é que sabes? Sei que me sinto bem quando faço bem ao próximo… sei que a vida mesmo quando corre mal, se a enfrentares com positividade parece que a espiral se torna crescente. Ok, muito bem…já que estas crianças sofrem tanto, seja pela falta de condições habitacionais ou financeiras… que atingem níveis catastróficos… distribui carinho, faz-lhes o dia! E realmente tinha razão, a espiral é crescente, quantos mais beijos dás … mais recebes…perdi a conta aos obrigados e abraços que recebi por cada penso que fiz… como se o meu ato, o meu cuidado… atingisse mais aquele pequeno coração do que ajudasse no processo de cicatrização da pele.

Refugiei-me então no meu sonho para conseguir viver esta dura realidade. Refugiei-me na ideia que os meus carinhos  vão ter  futuro, que estas crianças vão querer se agarrar ao que é bom de agarrar e de guardar apenas o que é bom de guardar, que um mimo meu ficará guardado em alguma “caixa da memória” destas cabeças e que os fará o querer devolver a alguém. Que algum abraço ou beijo meu se torne numa promessa de bondade e determinação.

É preciso dar tempo ao tempo e nesta terra de “No Stress”, onde este mesmo atinge exponenciais superiores, é de acreditar que a esperança média de resolução deste bairro se adivinha longa e a perseverança pode fazer a diferença. Quero acreditar que estas crianças quando crescerem, farão por si e pelos outros, que compreenderão que ser bom é positivo para ti, para o próximo e para todos. Afinal não é toa que se lhe chama “Boa Esperança…depois do voluntariado feito, percebi que esta se encontra nestas numerosas crianças. Consegui afinal, depois de viver com elas, encontrar o altruísmo do nome do bairro que me falhou ao primeiro olhar.

E o que recebi? Por cada beijo que dei … recebi a perder a conta, recebi abraços, recebi risos, recebi amigos novos….porque voltando aos básicos, a vida só faz sentido quando partilhada…e a partilha…essa não falta numa experiência destas.  De coração e espírito abertos, o que recebi paga a experiência e ainda trago o “troco” para o meu horizonte.