A experiência da Leonor em Cabo Verde

Carrego no botão de desbloqueio do telemóvel e a foto de fundo enche-me o coração cada vez que a vejo. Mas hoje, invade-me com uma pontada de saudade incurável. Rebobino memórias enquanto vejo o rolo de fotos de um país colorido de sentimento e alma. Vejo as crianças a correrem para me abraçar como todos os dias faziam e que com os seus beijos e braços me envolviam.

Pegávamos nas suas pequenas mãos e caminhávamos para o Centro da Ribeira da Craquinha onde nunca sabia bem o que me esperava nesse dia, uma turma de 12 alunos ou apenas um rapaz ou rapariga que precisava de mais ajuda no estudo. E quando saía nem sempre tinha a sensação de ter ensinado o que estava proposto, mas às vezes ser um par de ouvidos atento a corações inquietos já ajuda a abrir um caminho para a aprendizagem.

Primeira missão do dia cumprida, fazia um caminho repleto de boas tardes, de sorrisos, de conversas espontâneas e de sol até chegar ao segundo centro, o Centro da Pedra Rolada.

Um verdadeiro desafio. Aí, sabia com quem contava mas não com o que contava. O Delvis podia chatear-se por ter perdido material, a Daniella podia estar nos seus dias sensíveis, a Michelle podia estar no modo diabinho, ou podiam estar todos a levantar-se e a falar ao mesmo tempo até que um raspanete os fizesse sossegar por 2 minutos. E é com carinho que guardo os dias de mar bravo porque com eles veio a acalmia. Fiquei a saber o que estava por detrás de todos esses dias menos bons e com isso tentei torná-los um bocadinho melhores. E com essa pequena vitória vinham outras tantas que todos os dias alcançávamos juntos enquanto, em cada um, ficava com o coração mais cheio pelo que via. O amor e paciência que tinham uns com os outros ao explicar um exercício sem nunca gozarem, a vontade que tinham em aprender, o não virar as costas quando não percebiam, o não desvalorizarem ninguém e o trabalho em equipa, a qual sem reservas me deixaram integrar desde o primeiro dia.

O amor desta terra apresenta-se de todas as formas e feitios. Pude sentir a morabeza em todos os convites para jantares, pude conhecer a melhor cachupa que há “aquela que é feita em casa, com amor”, fui integrada em conversas inesperadas nas ruas, pude sentir a constante prestabilidade para guiar raparigas perdidas. Era um calor que me envolvia a cada passo.

Mas como todos os voluntariados em África, nem tudo foram mares de rosas, o que ainda me possibilitou uma aprendizagem ainda maior. Soube o que é viver dias sem água canalizada, algo com que muitas pessoas lidam desde o dia em que nasceram, ficar sem luz, fazer palestras com o PowerPoint a ser transmitido diretamente do pequeno ecrã do computador, ficar com conjuntivite por causa do constante pó e vento, ficar com dores de barriga por causa da água, experenciar dificuldades de organização… e no entanto, foi tudo tão bom. Aprendi a dar ainda mais importância à água, aprendi que o mais importante para cativar é a maneira como se fala e a confiança que se transmite, aprendi a ser mais tolerante e tantos outros incontáveis e indescritíveis valores que agradeço sem fim por terem sido integrados na minha vida.De volta a casa, sei já não pertenço a um só lugar e sei que um dia voltarei. Até aí, contento-me a olhar para a Lua, a Lua de Cabo Verde.