A experiência da Inês na Colômbia

Demora algum tempo para assentar a experiência de voluntariado internacional, escrever sobre a mesma implica aceitar que já terminou. Toda a aventura que se desenvolve em torno dessa experiência, transforma-nos um bocadinho. Mas, se de facto o objetivo desta partilha é esse mesmo – partilhar -, vou começar pelo princípio.

Nunca questionei muito a decisão tomada de ir, e o tempo foi passando sem pensar muito no assunto. A Inês e a Marta sempre estiveram disponíveis (desde o inicio ao fim) e isso tornou tudo bem mais confortável. Na verdade, não há nada a apontar e, desde o nosso primeiro contacto, que eu recomendo a toda a gente que quer passar pela mesma experiência, que entre em contacto com elas.

O dia de ir é sem dúvida o mais desafiante, o dia em que se tem dúvidas, medos e ansiedades. Para combater esses males todos, bastou ter duas pessoas incríveis ao meu lado, que nunca na vida me iriam deixar desistir. Aquele momento no aeroporto, em que é ou não é, é determinante.

As (aproximadamente) 24h que me separaram desde casa, até Chinchiná, foram um pânico e uma ansiedade intensa. Chegar ao destino é sempre um alívio, e vou começar a partir daí.

As minhas seis semanas de voluntariado foram um processo de descoberta pessoal muito grande – aprender a dar, mas a dar com o coração. Tentar não perder a noção de qual o papel e de como devemos entrar na vida das pessoas. Saber gerir um conjunto enorme de emoções. Aprender a receber o que os outros nos dão. Aceitar que ninguém é igual a nós próprios. Partilhar muito espaço pessoal com outras pessoas. Deixar que os outros nos vejam tal como somos.

Desenvolvi várias atividades, e dificilmente poderei escolher uma preferida. Torna-se vago relatar tudo o que vivi, acho que só mesmo estando lá é que é possível sentir o impacto que uma experiência destas tem. Estive com os bombeiros de Chinchiná, num lar, numa casa de acolhimento, numa escola, várias fundações, visitei várias aldeias, juntamente com uma médica. Cada uma dessas experiências me mostrou o mundo de uma forma diferente. Tudo o que temos e não damos valor, tudo o que somos e nem nos damos conta, tudo o que podemos fazer e nem sequer temos consciência das oportunidades à nossa volta. Tudo isso se torna claro e, às vezes esta experiência, torna-se mais enriquecedora para nós próprios, do que para as pessoas com quem lidamos.

A grande surpresa foi a simplicidade que encontrei nas pessoas todas com quem contactei, no sorriso fácil, nos abraços verdadeiros. É muito fácil acreditarmos que fazemos tão pouco, quando estamos perante pessoas assim. E, mais uma vez, acredito que ganhamos mais, nós que somos voluntários, do que as pessoas com quem passamos os nossos dias.

Quanto à organização de acolhimento, os agradecimentos são os maiores do mundo. A sensação de nunca estar sozinha e ter sempre alguém com quem contar, é incrível. A minha experiência aproximou-me mais do Stiven e da Dani, que são pessoas que eu jamais irei esquecer, mas todos foram sempre disponíveis, prestáveis e atenciosos. O Glen, que é uma pessoa super corajosa e altruísta, sem esquecer o Bart, que ficará para sempre no meu coração, por tudo o que dá os outros. E por esta razão, para mim, a partir de hoje, todas as boas referências a trabalho voluntário estarão associadas a eles, porque deixa de haver palavras para o valor do trabalho que fazem.

Tenho também a agradecer a todos os outros voluntários com quem tive o imenso prazer de partilhar esta experiência, especialmente à Andreia e ao Tom, à Liz, à Valentina e a todos os outros, que seria difícil enumerar.

A prova de que não há limites para o que uma experiência destas pode oferecer, é a sorte de poder regressar com o coração a explodir de felicidade, agradecimento e amor. Amor pelos outros, um amor especial.

Ter atravessado o mundo para conhecer uma das pessoas mais alucinadas, no bom sentido, de sempre, mostra que nunca sabemos quando seremos surpreendidos (sim, Andreia és tu). Metade da minha experiência de voluntariado foi passada com uma voluntária portuguesa, que apenas conheci na Colômbia. É verdade que não é nada fácil conviver com a mesma pessoa 24h por dia, mas não é menos verdade que a surpresa foi enorme, e que terás um lugar muito muito especial no meu coração. Sei que às vezes eu falava e tu nem me ouvias, acho que faz parte do processo de tentar manter a sanidade mental. Juntas vivemos aventuras que dificilmente partilharei com outra pessoa, conhecemos lugares lindos e talvez, pela primeira vez nada vida, vivi contigo no momento presente, porque tu me ensinaste, isso não tem preço nem validade!

Claramente, o maior desafio, para mim, foi sair do meu espaço, da minha zona de conforto e de tudo aquilo que gosto e me faz sentir protegida. Assim, há um agradecimento gigante para todas as pessoas que ficaram cá, para me ouvirem e ajudarem nos piores momentos. E por piores, quero dizer os mais frágeis. Obrigada G. e Fi, por estarem sempre disponíveis para um pouco de loucura e medo.

Na realidade, seis semanas passaram a correr. Olho para trás e parece que voaram, mas deixaram uma marca muito importante no meu coração.

Tenho ainda a acrescentar que esta experiência única, terminou com duas semanas de férias inacreditáveis. A companhia, obviamente ajudou, mas numa país tão lindo como a Colômbia é muito fácil ficar encantado. Sendo sem dúvida, um dos países que, a partir de agora, mais irei recomendar. Falaram-me muitas vezes de como a Colômbia pode ser um país perigoso, de muitos riscos. O único mesmo é querer ficar, como diz a publicidade.

Por fim, e mais uma vez, queria realçar o papel da Inês e da Marta, o esforço continuo em estarem sempre presentes, o carinho demonstrando, a preocupação. Assim, por todas as razões e mais alguma, espero que esta não seja a minha única experiência de voluntariado internacional!