A experiência da Inês em Arraial d’Ajuda

Este é um testemunho sobre quando a vida nos troca as voltas, quando nos tira e nos devolve.

Começo por me apresentar, sou a Inês, tenho 25 anos, e estudei Psicologia Social e das Organizações. Trabalhei quase três anos nos Recursos Humanos de uma consultora, e senti que, a dada altura da minha vida precisava de mudar. Então mudei. Foram tempos de luta por sonhos e objetivos perdidos no tempo.

Tomamos uma decisão, o momento de preparar a mala é a confirmação da nossa decisão e depois começa a magia. Comecei esta aventura desprovida de expectativas mas com uma enorme ânsia de viver e criar impacto numa realidade que não conhecia.

Ao longo da minha experiência em Arraial d’Ajuda, escrevi sobre todos os dias que lá vivi. Faz hoje uma semana que cheguei. Não tenho conseguido expressar o que tenho vivido porque, de facto, acho que é indescritível. Em uma semana, a sensação já era de transbordar emoções difíceis de exprimir.

Resumir estes 2 meses em palavras soa-me incrivelmente minúsculo e redutor. Não que as palavras o sejam mas porque grandes experiências e aventuras não cabem dentro delas. Como explicar aquela genuinidade e simplicidade? Uma felicidade fácil que só se sente e não se explica. E por outro lado, como explicar a densidade de problemáticas ali presentes? Uma pobreza e falta de condições derivada de um sistema corrupto e despreocupado.

É como ter numa mão a bondade e noutra mão a crueldade. Uma brutal desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar de outra forma senão pela corrupção ou atividades ilegais. É sentir um Brasil inquieto, secreto. Com lados paralelos e uma injustiça social bem vincada.

No meio desta disparidade existe a Associação Filhos do Céu. A AFC faz um trabalho incrível no Bairro de S. Pedro, e poder pertencer a esta família foi para mim um privilégio. Desde a alimentação de todas as crianças, ao desenvolvimento de atividades educativas. Naquela Associação são transmitidos valores e poder. Poder para a mudança do Mundo aos poucos, começando pela nossa família, a nossa escola, o nosso bairro, a nossa região, o nosso país. É incutido nas crianças a importância do pensamento crítico que um dia, acredito com certezas, conduz à mudança.

As crianças e jovens que frequentam a AFC são carinhosas, de riso fácil e ensinam-nos muito mais do que algum dia imaginamos quando partimos numa aventura deste género. Posso dizer com certeza que criei ali laços para a vida, que nunca esquecerei aqueles olhares e sorrisos. Os abraços e o amor que dei e recebi.

A família que nos acolheu revelou-se um apoio fundamental neste percurso. Para além de serem pessoas incríveis, ajudaram-me em muitas questões de vida que tinha. Obrigada por todas as práticas de yoga e meditação. Pela oportunidade de saborear os pratos vegan da Bárbara, poder ler os livros do Max ou de dançar funk com a India. Por ter aprendido a conviver melhor com a natureza e com os recursos que ela nos oferece.

Trago comigo todas aquelas cores garridas – da Praça da Igreja; os cheiros – dos caminhos de terra batida molhada; os sabores – especialmente do acarajé; as músicas – de funk, samba, forró…; as danças – aquelas aulas de Afro e Capoeira. Os sorrisos, a serenidade, as gargalhadas, os olhares, os abraços, e uma vontade de voltar imensa.

Não poderia estar mais grata. Obrigada à Inês e Marta do Para Onde, pois sem elas não teria seria possível. Às minhas queridas companheiras Alice e Andreia. À AFC. À Bárbara, Max e India. Agradeço o apoio de todos os que me amam, amigos, família e dos que passaram por mim neste caminho e deixaram um pouco de si, levando um pouco de mim.

Esta experiência foi a certeza de que quando damos, recebemos a dobrar. Acredito que uma gota num oceano é de extrema importância. Por isso, se algum dia alguém te disser que não podes mudar o Mundo, não acredites!

Inês Nunes