A experiência da Filipa no Japão

Andei a pesquisar por voluntariados de curta duração para fazer nas férias do meu trabalho e na minha pesquisa encontrei, felizmente, o Para Onde.

Já fiz vários voluntariados internacionais, mas esta foi a minha primeira experiência com esta organização portuguesa. Fiquei um pouco cética pelo facto de ter que me deslocar para a formação pré-partida, a 300 kms de distância num dia de semana de trabalho. Mas fui na mesma e não me arrependi. Pelo contrário. Encontrei pessoal jovem com muitos conselhos realmente úteis para me dar e sinto que os casos práticos me fizeram refletir acerca de certas situações que já me tinham acontecido em experiências anteriores. Algo que não aconteceu nas formações pré-partida que fiz com outras associações portuguesas.

Agora foquemo-nos no projeto.

Estive uma semana e meia numa aldeia no Japão, onde foram precisas duas horas e pouco a caminhar pela montanha acima, para conseguir lá chegar com toda a nossa bagagem às contas.

Fui com uma voluntária polaca e outra mexicana descobrir como vive de forma ecológica a comunidade de Maki. Onde as casas são feitas de madeira com telhados de colmo e os quartos são idênticos aos do Nobita (sim, dormi num colchão tripartido no chão). Todos deixamos os sapatos à porta, comemos sentados de joelhos no chão. Aguentei 3 segundos naquela posição (em que eles aguentavam 3 horas). Todos muito quietinhos e silenciosos comem em todas as refeições a típica sopa japonesa e uma taça de arroz. Como seria de esperar, apenas usamos pauzinhos para comer.

As nossas tarefas diárias passaram por cuidar dos animais, por colher e plantar alimentos da época, cortar lenha, apanhar colmo e ajudar na cozinha. Os horários eram muito precisos. De segunda a sábado os dias começavam às 5h45 com trabalho mais leve, como cuidar dos animais. Às 7h30 depois de alguém ler a passagem da Bíblia do dia, tomamos o esperado pequeno-almoço e temos a primeira reunião do dia. Recomeçamos o trabalho às 8h45. Ouvimos o toque de chamada para um break a meio da manhã para recarregar energias com chá e bolachinhas. Almoçamos às 12h antes da segunda reunião do dia e retomamos às 13h45 o trabalho. É aqui que podemos ter uns minutos (quase uma hora) de tempo livre para fazermos o que quisermos. Temos outro pequeno break para chá à tarde e jantamos às 18h com a última reunião que encerra o dia. Aos domingos apenas cuidamos dos animais antes do pequeno-almoço e ficamos com o dia completamente livre. Aproveitámos para visitar a civilização mais próxima, a cidade de Hakuba, com um voluntário japonês – uma das 3/4 únicas pessoas que sabiam alguma coisa de inglês na comunidade.

Esta comunidade é a coisa mais pacífica e tranquila que existe. Nunca nos apercebemos quando começam as reuniões, pois falam tão baixinho que nem sei como conseguem fazer-se ouvir numa sala com 20 pessoas. Falavam como se fosse um diálogo, de um para um.

Ali todos participam nas reuniões e todos trabalham. O autista e o que tem trissomia 21 também trabalham, sem distinção. O senhor que tem paralisia cerebral tem mais responsabilidade nas tarefas agrícolas que um jovem saudável de 24 anos. É impressionante ver de perto estas situações. É incrível.

Nestas duas semanas em que estive no Japão recebi muito mais do que dei. Tudo bem que fui uma ajuda na recolha de colmo e na plantação de muitas futuras cebolas ou na apanha de muitos feijões. Também sinto que consegui mostrar o que é Portugal, o Algarve e transmitir muita alegria e boa disposição. Mas apenas o consegui fazer da maneira mais natural, graças à maneira calorosa como aquela comunidade me recebeu, à receptividade de cada um deles, e muito graças à grande paz de espírito que aquela pequena aldeia nos consegue dar. Completamente livre de poluição – do ar e sonora. A paisagem, o cheiro, os sons.

Um grande agradecimento profundo à associação Para Onde que me proporcionou esta experiência e pelo excelente apoio ao longo de toda a viagem.