A experiência da Catarina e da Patrícia na Alemanha

A decisão de fazer voluntariado internacional não era um sonho de longa data. Para dizer a verdade, achamos que o que sempre pautou a nossa amizade foram as decisões impulsivas, espontâneas, mas que de uma maneira ou de outra acabam sempre por trazer sentido à nossa vida. Por isso, lá decidimos nós que queríamos fazer voluntariado fora de Portugal, por nenhum motivo em especial, foi algo que se enquadra mais num “porque não?”.

Para selecionarmos o campo de voluntariado que queríamos tivemos em conta 4 aspetos: o custo, o tema, a duração e as datas. Para nós tinha sentido fazer voluntariado na Europa, uma vez que na maioria dos campos não tínhamos que pagar nem alojamento, nem alimentação e também porque os bilhetes de avião acabavam por ser mais baratos do que viajar para outro continente. Tínhamos um desejo enorme de fazer voluntariado, mas também sabíamos que se fosse para gastar mais dinheiro do que o necessário, que nos seria impossível concretizar esse desejo. Quanto ao tema, decidimos juntar a vontade de fazer algo relacionado com o ambiente (Catarina) com a componente social (Patrícia). A duração teria de ser aquela que mais se aproximava de 1 mês, pois queríamos aproveitar ao máximo a experiência e teria que ser no mês de agosto, uma vez que estivemos a trabalhar no mês de julho.

Percorremos a base de dados do SCI no site do Para Onde até encontrarmos o campo perfeito, aliás aquele que se tornaria o campo de voluntariado perfeito. Esse campo de código 7. 21 Berge que no início não nos dizia nada, mal sabíamos o impacto que teria e o carinho com que o guardaríamos no coração. Deparámo-nos com este campo que basicamente tinha a descrição de desenvolver atividades ecológicas com adolescentes que se encontravam no centro Jugendhof, em Berge (Brandenburg, Alemanha), em prol da sua reintegração na sociedade.

Depois de tratarmos de todos os aspetos logísticos, sempre muito bem acompanhadas pela equipa do Para Onde, restávamo-nos esperar para embarcar numa nova aventura a 6 de Agosto.
Chegámos a Berlim por volta das 12h do dia 6 de agosto, apanhámos um comboio para Nauen e daí um autocarro para Berge, uma vila extraordinária, devemos ter passado a viagem toda de autocarro grudadas à janela, completamente deslumbradas com a imensidão da natureza.
Assim que colocámos pé em terra, apercebemo-nos que tínhamos feito a viagem toda de autocarro com uma voluntária do campo, a Mesi que vinha da Hungria. Lá fomos as três em direção ao centro, onde a meio caminho encontrámos a Leonie, uma das nossas líderes, e depois sim, conhecemos o resto da nossa equipa: a Sarah (outra líder), a Alba (de Espanha), a Arzu e o Rizvan (do Azerbaijão), a Sasha (da Rússia) e, mais ao final do dia, o Jonas (de Taiwan).
O dia de chegada foi um dia de apresentações, tentar quebrar o gelo, conhecer aquela que seria a nossa casa por 18 dias.
O centro de Jugendhof tem 100 hectares, 5 casas e variados espaços para criação de animais, atividades com madeira, andar a cavalo, imensas árvores de fruto (em especial ameixieiras), grandes espaços verdes. Três das casas do centro são para os adolescentes, que por algum infortúnio se tiveram de separar das suas famílias. Não sabemos ao certo a situação de cada um dos 15 adolescentes que viviam no centro, sabemos que alguns estavam lá há 2 semanas e outros há 4 anos, mas que a média de permanência costuma ser 1 ano. Sabemos que alguns tiveram dificuldades com drogas e álcool, que apresentavam cortes nos braços e que tinham problemas do foro psicológico. No entanto, aquilo que melhor sabemos, é que nenhum deles foi desrespeitoso ou antipático, que todos nos fizeram sentir em casa, que de uma maneira ou de outra, o que eles mais ansiavam era alguém que lhes desse um pouco de atenção.
A quarta casa foi onde os rapazes do grupo de voluntariado permaneceram. Por fim, a quinta casa a que chamamos de edifício principal foi onde nós dormimos, acabava por ser a “casa dos voluntários”, mas, na realidade, era de toda a gente daquele centro.

O nosso horário de trabalho era de segunda a quinta das 8h às 15h30, sendo que tínhamos sexta, sábado e domingo como dias livres. No entanto, para dizer a verdade, o horário foi tudo menos rigoroso. O que se sucedeu é que, principalmente, na primeira semana, estava tanto calor, que os trabalhadores extremamente amáveis preocupavam-se que nos pudéssemos sentir mal e por isso, apenas tínhamos trabalho de manhã. Na segunda e terceira semanas, já tínhamos que desenvolver atividades à tarde, mas não existia aquele sentimento de ter que cumprir um horário ou que eramos obrigados a estar lá, tudo era realizado à base de iniciativa própria e fomos sempre muito bem tratados. Tínhamos quatro opções de atividades a desenvolver: podíamos estar com a Thea e alimentar os animais e depois juntarmo-nos ao grupo do Steffen e ajudar a construir cercas, podíamos trabalhar com madeira e construir bancos no grupo do Andreas, ou ajudar na cozinha e trabalhar com o Dirk. Todos estes grupos incluíam a ajuda dos adolescentes, que não eram obrigados a participar, mas que eram fortemente incentivados para tal.

Durante a primeira semana, nós ficámos com o grupo da Thea e do Steffen e ajudámos a contruir uma cerca. Na segunda semana fomos para a cozinha com o Dirk e ficámos tão rendidas que decidimos permanecer lá na terceira semana.

Todos os dias começavam com a reunião do grupo de voluntários para alguns exercícios matinais para ficarmos mais acordados. Depois, íamos todos juntos para o local de reflexão, onde toda a gente do centro se reunia para registar as presenças e falar do plano diário. Após isto, tomávamos o pequeno-almoço em conjunto, cada um ia para os seus projetos, às 12h era o almoço, a seguir voltávamos para os projetos e às 15h30 íamos para o local de reflexão onde cada um contava como tinha corrido o seu dia.

No tempo livre era comum realizarmos atividades com os adolescentes, mesmo que alguns não soubessem falar inglês (algo que entendemos rapidamente é que a língua não é de todo um impedimento para se criarem ligações entre pessoas), essas atividades tanto podiam ser jogos de tabuleiro, como jogos inventados por nós/eles, jogar futebol, voleibol, enfim, tudo o que nos fizesse chegar mais perto deles.

Na primeira sexta-feira aproveitámos para ir a Berlim, onde permanecemos o dia todo, fizemos uma walking tour, visitámos os recantos da cidade e até fomos a um bar de karaoke. No domingo fomos ao Mauerpark Flea Market, um mercado típico de Berlim, com um pouco de tudo, coisas novas, velhas, boa música e até karaoke!

A segunda semana na cozinha foi extraordinária, criámos uma ligação tão grande com a nossa equipa, em especial com o chefe e um adolescente que também lá estava. Desenvolvíamos atividades de ajudantes, cortávamos vegetais, limpávamos a sala e a cozinha, sempre ao som da rádio e com um grande sorriso nos lábios. Gostámos tanto que repetimos na terceira semana.

À noite, nós (o grupo de voluntários) tínhamos de cozinhar o nosso jantar, onde aproveitávamos para nos conhecermos melhor, o que se notava de dia para dia. Tínhamos também algumas tarefas diárias, como limpar a cozinha, cozinhar, dar a comida aos porcos, tudo o necessário para que a nossa estadia corresse pelo melhor.

Quanto ao alojamento, as raparigas ficavam no edifício principal dividas entre dois quartos, onde dormíamos num saco de cama em divãs. Os duches eram no exterior em casinhas de madeira. Não temos qualquer razão de queixa, íamos com o espirito de voluntárias que não tinham expetativas de grandes condições, pelo que absolutamente nada nos desiludiu, pelo contrário até nos surpreendeu.

No segundo fim-de-semana visitámos Potsdam, uma cidade perto de Berlim, e fomos a uma piscina com alguns dos adolescentes.

No dia 23 de agosto, último dia antes da nossa partida, foi um dia de despedidas de todas as pessoas extraordinárias que nos receberam de braços abertos. Foi incrível perceber que tínhamos tocado no coração de alguns adolescentes, que vinham até nós dar-nos abraços calorosos de quem não nos quer ver partir.

O que nós podemos dizer é que este testemunho não faz jus àquilo que vivemos, que não representa nem 1/10 do que experienciámos, mas é por isso mesmo que o nosso conselho é que vão! Vão e experienciem por vós mesmos, seja na Alemanha, seja noutro sítio qualquer, porque acreditem que vos muda, que no fim não querem ir embora, que parece que ganham outra família, completamente internacional.

Aquela que foi uma decisão impulsiva acabou por nos fazer querer repetir a experiência por muitos mais anos e poder encher o coração de novo da forma que só o voluntariado consegue.