A experiência da Bia e do Afonso no Tarrafal

Antes de mais, gostaríamos de realçar que para nós, Bia e Afonso a experiência de voluntariado foi diferente do que muitos perspetivam, incluindo para nós mesmos numa fase inicial. Frequentemente, o voluntariado é associado a situações e contextos de pobreza e falta de condições sociais, económicas e políticas. Claro que tudo isto está presente na maioria dos casos, incluindo no Tarrafal, onde estivemos dois meses.

Por forma a adaptarmo-nos ao que a associação (Delta Cultura) investe todos os dias e depois de indentificarmos as principais necessidades – nas quais seria possível atuar e deixar uma “marca” – no período em que iamos estar em Cabo Verde, podemos concluir que o nosso foco principal não foi combater essas fragilidades, mas sim, contribuir para a educação formal e informal das crianças e adolescentes com quem tivemos contacto.

A Delta Cultura é uma associação que promove a educação de crianças e adolescentes de uma forma não tradicional, que parte de pressupostos assentes na liberdade e criatividade pessoais, em que os fundamentos principais se baseiam numa ideologia em que as crianças e o jovens devem, desde cedo, ser motivados e responsabilizados pelas decisões que tomam e pelo rumo que pretendem dar à sua vida. Como tal, desde o primeiro dia, os voluntários são criteriosamente direcionados para abraçar tais ideologias e atuar nesse sentido. No que toca ao funcionamento da instituição e dado que a escolaridade é obrigatória, as crianças frequentam a instuituição mediante os seus horários escolares, ou seja, as que têm aulas da parte da manhã frequentam a DC da parte da tarde e vice-versa, o que resulta numa orientação cuidada dos procedimentos para dois grupos distintos.

A DC está dividida em diversos espaços e salas, cada um direcionado a determinadas atividades; conta com salas de música, artes, informática, de estudos, línguas e ainda com uma zona livre (o recreio), um campo de futebol patrocinado pela FIFA na campanha Futebol para o Desenvolvimento Social (Football for Hope Center). No nosso
ponto de vista, no que diz respeito às condições oferecidas, a DC é um espaço que não carece de recursos necessários ao desenvolvimento das mais variadas atividades.

Assim sendo tivemos sempre muita liberdade para desenvolver atividades, só precisámos de proatividade, criatidade e motivação! A forma como toda a família Delta Cultura nos deixou à vontade para atuarmos, de acordo com o que cada um trazia de melhor para oferecer, ajudou imenso a aproveitarmos ao máximo o tempo de voluntariado. Dedicámos especial atenção à Sala de Estudos, pois identificámos que o contacto com a língua portuguesa e o aprumo escolar eram insuficientes e precisavam de um apoio constante que não existiria de outra forma.

Demos aulas de português, fizemos jogos educativos onde o intuito era frisar a importância dos sentimentos e da cooperação, desenvolvemos atividades em grupo para dar a entender que uma conduta correta é o caminho para o futuro, apoiámos diversos projetos desenvolvidos na sala de artes, fizemos palestras ajustadas ao contexto das crianças sobre as nossas experiências pessoais e as nossas profissões e também sobre igualdade de género que era o tema do mês na associação, organizámos torneios de futebol, e cooperámos nas aulas de música. Ainda assim, podemos dizer que demos pouco comparativamente ao que recebemos e ao que nos ensinaram!

Relativamente à experiência na DC o balanço é, sem quaisquer dúvidas, fenomenal! Desde logo que a recetividade foi espantosa, mais do que esperado até. No momento da chegada é avassalador o carinho, a atenção, todos os colos, os abraços, a alegria, a ingenuidade, os sorrisos desdentados recebidos pelas crianças, sendo nós apenas mais uns voluntários que ainda nem tínhamos dado nada e já tínhamos recebido tanto! Pensamos que tudo isto terá sido fruto de todos os resultados positivos que voluntários, que lá estiveram em momentos anteriores, atingiram e claro, também, pela deficiência de afeto que estas crianças têm em casa, na escola e no seu dia-a- dia.

As crianças da DC aprenderam que nós (voluntários) somos recursos humanos que elas têm a seu dispôr, não só para lhes perspetivarmos formas de uma educação mais sólidas, que estão na base das nossas experiências vividas do sítio de onde viemos, como também de lhes retribuirmos todos estes afetos. Isto foi um excelente ponto de partida para nós, que facilitou muito a nossa integração na associação e no estabelecimento rápido de uma relação sólida com as crianças. Ficou assim provado que trazer experiências e culturas diferentes (voluntários), em específico para associações como esta, faz todo o sentido e só se traduz em ganhos para os dois lados – para quem vai e para quem está.

Daí em diante, tudo se desenrolou com uma familiar naturalidade, como se ali pertencêssemos e tivéssemos formado uma grande família, que ansiávamos ver todas as manhãs e todas tardes. Conseguimos, através da relação que estabelecemos com as diferentes crianças contrabalançar quase na perfeição, não só os momentos tão desejados em que reinava a diversão e a brincadeira, como também os tão importantes e necessários momentos lúdicos e educativos. Com uma crescente confiança mútua, conseguia eficazmente distinguir-se e ter a noção de que existiam momentos para tudo e, que era possível realizar tudo aquilo a que nos comprometêssemos.

Dos aspetos mais incríveis foi observar como as crianças eram flexíveis e moldáveis, o que fez com que todos os dias sem excepção sentíssemos que tudo aquilo que tínhamos para lhes proporcionar era importante e realmente significativo. O prazer de acompanhar o dia-a- dia de uma criança numa fase de desenvolvimento tão evidente é
incalculável e nunca, de forma alguma, nos sentimos “inúteis”, pois aquelas crianças eram de facto corações abertos e recetivos à nossa pessoa e aos nossos sentimentos.

Na nossa opinião e, remetendo para o início deste testemunho as condições de vida destas crianças não são o que mais “salta à vista” ou o que realmente foi prioritário na nossa ação, porque elas são de facto, crianças normais, como em qualquer outra parte do mundo, provavelmente têm prioridades diferentes porque estão adaptadas ao estilo de vida que levam. Aprendemos que a sua ingenuidade boa e em estado puro é que possibilita o desenvolvimento de um trabalho completo e positivo, porque no final de contas aquele é o ambiente delas, é a “terra” delas e, ainda que para nós seja diferente, temos de abraçar essa assimilaridade que nos distancia e que de certa forma, pode aliciar ao preconceito.

Aprendemos que quem vai tem inevitavelmente que deixar apaixonar-se pela cultura e pelo modo de estar das crianças e de toda comunidade e percebemos que o que realmente importa é a interação das duas partes em que cada uma dá e recebe. Fomentando o “cliché” nós acabamos por receber muito mais do que damos e do que imaginamos alguma vez ser possível antes de partirmos numa aventura como esta.

Ao fim ao cabo, juntamente com todo o amor que recebemos que é totalmente inesquecível, deixámo-nos aliciar pela Morabezza, pelo calor, pelo oceano, pelas mornas, pelos sabores, pelos cheiros, pelas paisagens que ajudam e contribuem para um gosto inestimável pelo trabalho que foi desenvolvido ao longo destes dois meses, que nunca nos sairão da memória e que se traduziram, sem dúvida, numa das melhores experiências das nossas vidas.

Mais que um testemunho, uma vivência repleta de memórias, que custam deixar para trás, mas que levaremos sempre junto ao nosso coração. No momento da despedida, as lágrimas teimam em escorrer pelas caras abaixo – nas nossas e nas das crianças – mas a alma vai quente e preenchida para sempre!