A experiência da Andreia na Colômbia

Eu tinha dois sonhos: um, viajar sozinha, outro, fazer voluntariado. Encontrei o Para Onde, e com a minha curiosidade pela América Latina, embarquei para Chinchiná, Colômbia.Os meus desafios começaram logo de início, mas já me sentia feliz por estar a ter a coragem de ir em frente na minha vontade de fazer algo diferente na minha vida. Tratei de todos os assuntos burocráticos, fiz a mala, e com alguma ansiedade fui para o aeroporto de Lisboa. Quase 48 horas depois estava à minha espera a minha querida Inês, outra voluntária portuguesa que já lá estava, e o Ed da Mingahouse. Estava muito cansada pois perdi um voo de ligação, e o tempo de viagem duplicou, mas o sentimento de ser bem-recebida não me foi tirado. Eles estavam felizes, e eu também. Cheguei a Chinchiná, e tinha um jantar especial preparado para mim de boas vindas. Nessa noite recebi tantos abraços sinceros e longos, que desde esse dia, senti-me em casa. E pode parecer cliché, eu sei, mas não há como dizer de outra forma, eu realmente ganhei uma nova família. A Dani, o Stiven, o Jaidiber, o Glen e a morita (gata) da minga, e todos os outros voluntários. Durante as 3 semanas seguintes entrei numa viagem sem fim, na viagem mais importante que fiz até hoje.

A minha primeira paixão foi a Minga, depois no dia seguinte a energia que senti.

Acredito em energias, e a zona rural da Colômbia tem uma energia incrível. É um país lindo, o mais lindo que visitei até hoje. De uma natureza singela, verde, bruta, sem artefactos. A todos os segundos que olhava à minha volta e sentia aquele fresco da mãe natureza, sentia-me feliz, sentia amor. Puro. A caminho dos nossos campos de voluntariado, eu e a Inês, a minha amiga e companheira portuguesa de viagem que tanto adoro, dávamos a nossa risada de alegria. Eu acrescentava o meu suspiro de amor. A Inês sempre ria do meu suspiro. É impossível não nos sentirmos acolhidos neste país. Impossível!

A minha terceira paixão foram as pessoas que atravessavam as ruas, que me sorriam. As pessoas a quem medicamentos dei, e as pessoas que me deram café.

Acredito que o caminho do ser humano está no aceitarmos que somos um todo, e não pessoas separadas por países, religiões, culturas, e todas essas diferenças. E se eu achava que éramos parecidos com os povos latinos, percebi que nós portugueses somos mais parecidos com os americanos. E porque digo isto? Porque tive com voluntários americanos, e as nossas parecenças diárias são muito maiores, somos pessoas que vivemos com o fenómeno da escassez cristalizado, e que não temos assim tanta escassez. E os Colombianos vivem com o fenómeno da abundância, e que não têm assim tanta abundância. Financeira. Falo apenas da financeira.

Neste apaixonante canto do mundo, as pessoas deram-me muitos abraços, agradeceram de coração a minha presença. Acho que para eles bastava eu estar ali, mais nada. Não precisava de explicar-lhes como tomar os medicamentos, não precisava de falar espanhol, eles apenas agradeciam a minha presença. Agradeciam à nossa equipa de médicos, farmacêuticas, pre-med, pela ida às vilas deles, tão afastadas de tudo. Eu dispensava os medicamentos, explicava como tomar, escrevia, e eles agradeciam o meu carinho. Mas ficavam ainda mais felizes quando no final, eu lhes dava as vitaminas. Foi tão engraçado e surpreendente para mim ver como umas vitaminas faziam uma pessoa feliz. E eles querem vitaminas, porque eles querem viver mais tempo!

Depois da consulta, cada um deles permanecia ali mais tempo, junto de nós. A fazer perguntas, curiosos, a conversar entre eles. Estava sempre rodeada de cães simpáticos, e de crianças curiosas. Crianças a querer aprender onde ficava Portugal, como se falava português, a querer que lhe ensinasse qualquer coisa. Outras também queriam ensinar-me, e ensinaram-me as várias pronúncias do país, falaram-me do ensino deles, o que queriam estudar. Memórias boas e inesquecíveis. Sorrisos inesquecíveis de crianças livres, felizes, curiosas. Memórias de adultos preocupados com os seus filhos, família e comunidade. Memórias de idosos que querem viver mais tempo. Memórias de animais mais simpáticos do que habitual. Memórias de pessoas carinhosas, que me tocavam nas mãos com amor, e que queriam ter a certeza que eu não tinha fome, ou vontade de beber café.

E para terminar volto a falar da outra parte do voluntariado que foi na família Mingahouse, e a eles também queria deixar umas palavras de um grande obrigado. Sempre preocupados se estava bem, ou precisava de alguma coisa. Não me vou esquecer de nenhum deles. Nenhum!

E foi quando recebi uma notícia triste de Portugal que eles me tocaram mais no coração. Um dos riscos quando nos afastamos da nossa casa é sermos apanhados desprevenidos e não podermos fazer nada. Nesse dia triste, em que recebi a notícia que a minha amiga de 4 patas de longa data tinha partido, nesse dia, eu percebi o quanto as pessoas não se atropelam ali. O quanto as pessoas respeitam os sentimentos dos outros, e os seus. O quanto aceitam a transitoriedade da vida, e o quanto isso os faz ser diferentes.

Foi um país que me abraçou de forma quentinha, honesta, calorosa. Bem longe ficou a ideia de que a Colômbia é um país inseguro. Bem perto ficaram eles todos de mim, e no meu coração.

Até um dia. Bem breve.

E um grande obrigado a vocês, Marta e Inês. O vosso cuidado e carinho foram indispensáveis neste processo.