Ana, Arraial d’Ajuda 🇧🇷

Olhando para trás e refletindo acerca da minha experiência como voluntaria na Associação Filhos do Céu (AFC), em Arraial D’Ajuda, um cantinho maravilhoso da Bahia, é difícil expressar tudo aquilo que vi e senti. Como é que posso descrever por palavras os sorrisos doces das crianças? Ou os abraços calorosos dos colaboradores que me trataram como se fizesse parte da família? Como descrever o sabor maravilhoso da comida que lá era confecionada com tanto amor? Ou do leite condensado nas tapiocas e nos churros? Como expressar o cansaço que sentíamos acumulado à sexta feira e a alegria de voltar à segunda (sem parar uma hora no fim de semana)? Como explicar que em poucos dias já nos sentíamos em casa a passear na rua da Broadway ou do Mucugê? Ou que andávamos de mototaxi com as compras como verdadeiras locais?

Esta aventura marcou-me definitivamente e não foi devido à falta de eletricidade ou de água, não foi pelos mais diversos bichos que me visitaram no quarto, não foi pela chuva que fazia do percurso que percorria a pé para a organização um riacho lamacento e muito menos pelas dezenas de picadas de insetos que tinha pelo corpo. Esta aventura marcou-me pela (dura) realidade em que estas crianças vivem e por, mesmo assim, serem capazes de amar, perdoar, ajudar o próximo e, sem saberem, ensinar todos aqueles que por lá passam.

Ser voluntária na AFC é ser educadora, árbitra em jogos de futebol e de “queimado”, é cortar legumes, limpar as salas, dar castigos, ralhar e dizer que não. É sujar-se, matar baratas e separar brigas. Ser voluntária na AFC é dar amor, ouvir, aconselhar, abraçar. É dar mimo e colo, é ser paciente, imaginativo, otimista e nunca desistir. É estar presente e atenta. É fazer de tudo para que cada criança se sinta única e especial. Porque efetivamente, cada uma das 150 crianças que por lá passam diariamente o são, à sua maneira.

Diariamente fui presenteada com uma nova história, com uma nova aventura. Todos os dias recebia abraços, beijos e pequenas mensagens que me faziam sentir em casa. Que me mostravam, mesmo sem querer, que era ali o meu lugar. Que não havia nenhum outro sítio onde eu pudesse ou quisesse estar.

Esta experiência tornou-se ainda mais completa a partir do momento em que conheci mais 4 maravilhosos seres humanos que, tal como eu, decidiram embarcar rumo a Arraial. Não podia pedir melhores companheiras nesta viagem. Foram dias e noites onde rimos, conversamos, cozinhamos, dançamos (ou tentámos) e nos aventuramos por quilómetros e quilómetros de praias paradisíacas sem fim. Criamos histórias e memórias para a vida, as quais – por ser melhor não as partilhar neste testemunho – estão guardadas num cantinho muito especial do meu coração.

Hoje, sinto-me grata. Sou uma sortuda por ter vivido esta experiência e me ter cruzado com todas estas pessoas que me marcaram e levam um pouco de mim. Venho embora com já com saudade e com uma imensa vontade de voltar um dia.