A Experiência da Raquel em São Vicente, Cabo Verde

Durante dois meses da minha vida dividi o meu tempo entre os Espaços Jovem da Craquinha, Pedra Rolada e as ruas de São Vicente. Cheguei a Cabo Verde com 26 anos e sem qualquer experiência em voluntariado internacional… Voltei com 27, muito mais rica espiritualmente e com vontade de fazer parte de mais projetos deste cariz.

Foi em outubro de 2018 que lá aterrei, meia à deriva, no entanto, a integração foi muito fácil… É que São Vicente é morabeza com todas as santas letras! Soncent é terra sab, com povo tcheu sab! As gentes desta terra têm muito a ensinar ao mundo moderno, porque são pobres, mas felizes! E por muito pouco que tenham, partilham sempre com o próximo! Pobres de bens, ricos de espírito! Vivem a um ritmo lento, tranquilo: No stress, como dizem… E mesmo que a vida se mostre difícil muitas vezes, conseguem esboçar sempre um sorriso e manter o otimismo.

Quanto às crianças com que trabalhei… São intensas! Mas como não serem? Muitas vezes já têm responsabilidades que não seriam supostas… Carregam garrafões de água pesados, vão às compras, fazem as mais diversas tarefas em casa… Quando têm tempo de ir para os centros, por vezes nem têm nada no estômago. Como pedir a uma criança com fome que se concentre e se comporte? No entanto, mesmo que por vezes expressem o desagrado com a vida de uma forma mais violenta, conseguem sempre mostrar o amor que têm dentro delas. Quando nos vêm, correm para nós com uma alegria genuína e têm sempre um abraço sincero para nos dar. E são estas pequenas coisas que fazem valer a pena, mesmo que às vezes tenhamos saído dos centros com dores de cabeça, tal era o barulho, ou frustrados e cansados física e psicologicamente, por tentarmos fazer algo e não conseguirmos, tal era a desordem ou desconcentração…

Sem dúvida alguma que com esta experiência desenvolvi o meu sentido de responsabilidade, trabalho de equipa, empatia… Apurei ainda o meu conhecimento: Para já, relembrei algumas matérias já esquecidas, e depois lidei com pessoas muito sábias, que me ensinaram muito… Sobre diversos temas e sobre a vida! Não só aprendi com as voluntárias tuguesas e zuca que me acompanharam nesta missão, como também aprendi com os voluntários locais, com as crianças dos centros e com outras pessoas com quem tive a sorte e privilégio de me cruzar, pelo acaso do destino, por alguma rua de São Vicente. Sou grata por tudo o que vivi durante estes 2 meses. Sou grata por toda a partilha… Por todos os momentos, por todo o conhecimento, por todas aquelas pessoas… Desde as crianças aos adultos. Sou grata por ter partilhado esta experiência com pessoas tão puras, que só me souberam transmitir boas energias…

Mas as boas energias, essas… Estavam por todo o lado! Até no céu! Não é que um dia estava eu na Laginha, a aproveitar mais um pôr-do-sol, quando olho para trás e vejo um coração desenhado nas nuvens… Coincidência? Naaaaaa! O universo estava a mostrar-me o que era São Vicente e toda aquela experiência: Amor. Tranquilidade. Dar. Receber. Sorrir. Aceitar. Ser humilde. Ser simples. Ser feliz… 

Ser voluntário é ser parte ativa da mudança. E ser isso faz bem à alma, portanto, se tu estás na dúvida de ir ou ficar… Vai! – “SONHA. FAZ. FEITO.” – a resposta é muito simples, clara e óbvia! Ainda aqui estás?

Glossário: Morabeza – Amabilidade, bem receber; Soncent – São Vicente; Sab – Bom(a); Tcheu – Muito; Tuguesas – Portuguesas; Zuca – Brasileira.