A experiência da Maria no Tarrafal

A vossa experiência são vocês que a vão fazer.” – ouvi a Marta dizer, na reunião de voluntários que fizemos antes de toda esta aventura começar. Desconfiei que fosse verdade, mas nunca imaginei que esta frase pudesse resumir tão bem os dois meses que passei em Cabo Verde. Menos imaginei que que esta viria a ser uma das lições mais importantes que já aprendi.

Antes, vivia como a maioria de nós: a fazer o que é suposto; o esperado. Vivi sempre com o amor da minha família. Fiz grandes amigos. Apaixonei-me algumas vezes. Fui sempre feliz, ou pelo menos achei que sim. Tive a sorte de poder escolher o que queria estudar e onde queria estudar. Tive boas notas. 23 anos, licenciatura e mestrado concluídos com bom aproveitamento. Indicadores de um futuro profissional risonho.  Sabia que estava a correr muito… mas estaria a correr no caminho certo? Esta pergunta não parava de assaltar a minha mente. E por isso decidi procurar respostas. Conhecer-me melhor. E conhecer melhor o mundo à minha volta.

Saí do suposto. Parei de olhar para o que estariam à espera que eu fizesse e decidi olhar para o que gostava eu de fazer. Acredito que só nos conhecemos a nós mesmos do outro lado do medo, e por isso, fiz as malas e decidi sair da minha zona de conforto. Porque é aí que a vida começa.

Escolhi este projeto depois de ter percebido a diversidade de atividades que esta instituição procura oferecer às crianças do Tarrafal. A forma apelativa como a informação se apresentava no website e a visão da instituição em relação à educação foram os grandes motivadores da minha escolha. 15 dias depois de enviar a minha candidatura, fui selecionada. Um misto de felicidade extrema e um pânico desmedido começaram a assaltar os meus dias. Milhares de perguntas e dúvidas sobre como tudo se processaria ou quais os passos a seguir. Não se preocupem demasiado! A Inês e Marta vão ser as vossas mães ao longo de todo o processo. E como mães carinhosas que são não vão deixar que se sintam sozinhos(as) desde o primeiro minuto até ao fim do vosso tempo de voluntariado. É mesmo de sublinhar a simpatia, a preocupação e o acompanhamento da equipa Para Onde. Inigualáveis.

Os dias passaram calmos e tranquilos até chegar o dia da partida. Faltou o ar. Os olhos incharam. As perguntas gelaram a minha mente entre os corredores do aeroporto.. “Não conheço ninguém, não sei como são as pessoas lá, não sei o que posso comer, mosquitos, doenças e repelentes. Bahhhh. “E se eu não fosse?” – Mentia se dissesse não o ter pensado. “Mas afinal o que é que eu faço sozinha dentro de um avião a caminho de África?” – escrevi no meu diário, já dentro do avião.

Mesmo passados dois meses, continua a ser muito difícil descrever o que encontrei. Procuro palavras. Não encontro. Lá onde as casas são cimento por acabar de construir, há mais cores do que as que alguma vez vi. Falando de condições, não há internet, água potável, televisão nem carro. E a única pressa que há é a de ser feliz.

A minha experiência neste projeto não foi sempre boa, ao contrário do que se possa pensar. Dias bipolares, de rir até doer a barriga e dias cinzentos, com nós no estômago e algumas lágrimas. Existem uma série de constrangimentos que dificultaram desde o início o meu trabalho com as crianças. Em primeiro lugar, existe uma visível desorganização e desacordo em relação aos ideais de educação entre os funcionários do projeto, o que levou a que nem sempre existissem respostas coerentes e homogéneas para os problemas das crianças. Aqui é muito fácil encontrar crianças que sofrem de maus tratos psicológicos e físicos em casa e na escola, crianças que são negligenciadas, batidas, abandonadas, abusadas. A necessidade de um Psicólogo(a) é por estas e outras razões evidente e muito urgente e apesar de eu ter levado comigo algumas ideias e atividades propostas nem sempre foi fácil colocá-las em prática, uma vez que tinha que ficar a maior parte do tempo na Sala de Artes a desenvolver atividades artísticas com as crianças. O trabalho na sala de Artes foi muito cansativo e difícil no início, mas muito recompensador depois de as voluntárias se unirem para tentar que as crianças respeitassem algumas regras básicas de convivência, que até então não eram utilizadas aqui. Falando de coisas menos boas, é bem provável que a frustração venha a fazer parte dos teus dias, se iniciares este caminho. Ver os pikinotes chegarem com as marcas da pancada no corpo e com um sorriso (sempre com um sorriso) na cara é algo muito difícil de digerir. Eu senti-me impotente e de mãos e pés atados muitas vezes.

Sem saber o que haveria a fazer, percebi que as mudanças, se existirem, são milimétricas. Mas por isso não são menos importantes. Fomos devagar, consegui pôr os meus pikinotes a falarem sobre o que os deixa felizes e tristes, quando se zangam e de que têm medo. Uma vitória que faz valer cada segundo que passei no Tarrafal.

Estes meninos têm muito menos razões para sorrir que tu, e, no entanto, são mestres na arte da felicidade. Limpei as lágrimas a alguns, e eles ensinaram-me a viver com o coração. São eles que vão fazer valer cada segundo que aqui estiveres, cada noite mal dormida, cada dia em que vais sair do projeto sujo(a) e a cheirar mal. São eles, e só eles, os mestres aqui. São eles que te vão guiar enquanto cá estás. São eles que te vão fazer rir até doer a barriga. São eles que te vão ensinar a viver sem nunca perder a esperança. Serão eles o porquê de nunca conseguires desistir de nada, mesmo quando à tua volta tudo puxa para que o faças. Serão eles o motivo do teu cansaço e das tuas lágrimas. Mas serão eles também, o teu maior motivo de orgulho, a partir de agora.

A agradecer, agradeço-lhes a eles. O olhar da Kenyra e o sorriso do Leo. Os beijinhos da Darlene. Aas mãos dadas com a Diva e as gargalhadas com a Vanessa. O carinho da Marcília e a energia da Larissa. A esperança do Oliver e o amor da Taíssa.

Os meus pikinotes, levo-os a todos tatuados na minha alma, um a um. Têm que inventar mais cores lá onde eu moro para que as pessoas os consigam imaginar, porque todas as cores do arco íris nunca hão de chegar para os descrever. Por mais que eu tente. Parte do amor que lhes tenho vai comigo. O que resta fica com eles, na esperança que o plantem como uma pequena semente que gostava que crescesse tão alto como as árvores que os vejo subir todos os dias.

A experiência da Inês em Arraial d’Ajuda

Este é um testemunho sobre quando a vida nos troca as voltas, quando nos tira e nos devolve.

Começo por me apresentar, sou a Inês, tenho 25 anos, e estudei Psicologia Social e das Organizações. Trabalhei quase três anos nos Recursos Humanos de uma consultora, e senti que, a dada altura da minha vida precisava de mudar. Então mudei. Foram tempos de luta por sonhos e objetivos perdidos no tempo.

Tomamos uma decisão, o momento de preparar a mala é a confirmação da nossa decisão e depois começa a magia. Comecei esta aventura desprovida de expectativas mas com uma enorme ânsia de viver e criar impacto numa realidade que não conhecia.

Ao longo da minha experiência em Arraial d’Ajuda, escrevi sobre todos os dias que lá vivi. Faz hoje uma semana que cheguei. Não tenho conseguido expressar o que tenho vivido porque, de facto, acho que é indescritível. Em uma semana, a sensação já era de transbordar emoções difíceis de exprimir.

Resumir estes 2 meses em palavras soa-me incrivelmente minúsculo e redutor. Não que as palavras o sejam mas porque grandes experiências e aventuras não cabem dentro delas. Como explicar aquela genuinidade e simplicidade? Uma felicidade fácil que só se sente e não se explica. E por outro lado, como explicar a densidade de problemáticas ali presentes? Uma pobreza e falta de condições derivada de um sistema corrupto e despreocupado.

É como ter numa mão a bondade e noutra mão a crueldade. Uma brutal desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar de outra forma senão pela corrupção ou atividades ilegais. É sentir um Brasil inquieto, secreto. Com lados paralelos e uma injustiça social bem vincada.

No meio desta disparidade existe a Associação Filhos do Céu. A AFC faz um trabalho incrível no Bairro de S. Pedro, e poder pertencer a esta família foi para mim um privilégio. Desde a alimentação de todas as crianças, ao desenvolvimento de atividades educativas. Naquela Associação são transmitidos valores e poder. Poder para a mudança do Mundo aos poucos, começando pela nossa família, a nossa escola, o nosso bairro, a nossa região, o nosso país. É incutido nas crianças a importância do pensamento crítico que um dia, acredito com certezas, conduz à mudança.

As crianças e jovens que frequentam a AFC são carinhosas, de riso fácil e ensinam-nos muito mais do que algum dia imaginamos quando partimos numa aventura deste género. Posso dizer com certeza que criei ali laços para a vida, que nunca esquecerei aqueles olhares e sorrisos. Os abraços e o amor que dei e recebi.

A família que nos acolheu revelou-se um apoio fundamental neste percurso. Para além de serem pessoas incríveis, ajudaram-me em muitas questões de vida que tinha. Obrigada por todas as práticas de yoga e meditação. Pela oportunidade de saborear os pratos vegan da Bárbara, poder ler os livros do Max ou de dançar funk com a India. Por ter aprendido a conviver melhor com a natureza e com os recursos que ela nos oferece.

Trago comigo todas aquelas cores garridas – da Praça da Igreja; os cheiros – dos caminhos de terra batida molhada; os sabores – especialmente do acarajé; as músicas – de funk, samba, forró…; as danças – aquelas aulas de Afro e Capoeira. Os sorrisos, a serenidade, as gargalhadas, os olhares, os abraços, e uma vontade de voltar imensa.

Não poderia estar mais grata. Obrigada à Inês e Marta do Para Onde, pois sem elas não teria seria possível. Às minhas queridas companheiras Alice e Andreia. À AFC. À Bárbara, Max e India. Agradeço o apoio de todos os que me amam, amigos, família e dos que passaram por mim neste caminho e deixaram um pouco de si, levando um pouco de mim.

Esta experiência foi a certeza de que quando damos, recebemos a dobrar. Acredito que uma gota num oceano é de extrema importância. Por isso, se algum dia alguém te disser que não podes mudar o Mundo, não acredites!

Inês Nunes

A experiência da Tatiana na Tailândia

Hoje abandono mais uma aventura. Uma aventura diferente. Ainda não me fui embora do país, mas já sonho voltar para aquela ilha.

Estou diferente. Nunca pensei querer deixar tudo só para ficar um pouco mais; e nunca mais irei ver a palavra Felicidade da mesma forma…

Todas as crianças com o seu brilho único e especial: desde a Apeng ao Kamphee, passando pelo Abdul e o Akim, seguindo para a dançarina Fahana e para a Yemma de franja, pela pequena Angun, o Mix e o Ko-Ta, e claro, pelo Pao-San. Não esquecendo da mimada Tui!!

Mais crescidos, vou lembrar-me do dia em que ensinei a escrever as cores à Leila, a Fittah, ao Assan que não achava muita piada a estar sentado, ao Arun, à Area, Akim e Sim. Ainda os mais velhos (os quais eu tive menos contacto), recordo-me da Dogmai a tentar descrever o ambiente à sua volta.

Mas especialmente levo comigo a minha artista Chompu e o meu cabeleireiro Lui, que marcaram estas minhas semanas.

Iniciei a jornada com uma sala coberta de aranhas, baratas, lagartos, formigas e um rato, passei a descobrir a casa de banho e por fim o meu chuveiro improvisado. Fiquei… ? Não sei bem como descrever!!

No entanto tudo foi esquecido quando já na manhã seguinte fui acordada por risinhos e gargalhadas vindas do lado de fora, e ainda mais quando conhecemos as pestinhas pela primeira vez, numa visita guiada (por eles) à ilha.

A vida é tão simples. Nunca ninguém vai sentir tanta felicidade só por saltar por um caminho insuflável até à praia, nem nunca ninguém vai perceber que uma verdadeira cascata é realmente um tubo coberto de folhagem com um fio de água a correr por ele. E é claro, ninguém vai entender a piada de fazer um círculo à volta de um escaravelho para tentar acertar-lhe com uma caneta.

Os primeiros três dias resumiram-se a jogos educativos durante a tarde, onde percebi que a Chompu e o Lui iam ser a parte sombreada da minha história (Nunca mais tive descanso quando eles andavam por perto).

Sempre soube que a língua ia ser um entrave; mas acreditem que quando o ser humano quer, ele arranja maneira de ser compreendido.

Terminámos a volta dos jogos educativos para finalmente podermos passar para as aulas.

 

Este foi outro dos momentos que mais me marcou, porque nunca vi tanta vontade, tanto carinho, tanta felicidade e brincadeira junta. Gratificante, no mínimo!!!!

Todos os dias as crianças usam uniformes diferentes. No último dia, fui acompanhada pelas minhas duas flores de fato de treino laranja numa última tarefa em grupo (limpeza da praia), para terminarmos na brincadeira (mais rodas, mais corridas, mais tentativas de me pendurar nos postes com eles). Nunca me senti tão bem acolhida fora de casa… nem nunca vi uma felicidade tão fácil de se atingir.

Para uma despedida, fizemos uma pequena festa onde jantamos todos juntos e fizemos coreografias de músicas. Não consigo descrever o que senti quando vi uma boneca chinesa a correr na minha direção, juntamente com uma voz a chamar o meu nome. Nunca vi dançarinos tão lindos..

A dedicação e diversão dessa noite voltam comigo para casa: crianças felizes, a rir e a dançar com tudo e todos..

Volto uma pessoa mais livre e muito mais sortuda. Trago comigo todos, um por um, mas num lugar especial guardo as minhas duas estrelinhas constantemente a gritaram pelo meu nome..

Nunca ninguém irá entender o que é ser verdadeiramente feliz… com tão pouco!!

A experiência da Alice em Arraial d’Ajuda

Aquele momento em que tu estás a ajudar a mudar a vida de outras pessoas e, sem te aperceberes, estás a mudar a tua…

Cheguei a Arraial d’Ajuda despida de tudo aquilo que me moldava e definia enquanto pessoa. Estava fora da minha zona de conforto, por isso cada lugar, pessoa, sabor ou cheiro eram absorvidos de uma forma única. Na Bahia não há pressa, a vida desenrola-se lentamente, com muitos sorrisos e boa disposição à mistura – “Sorria, você está na Bahia”. Na rua toda a gente se cumprimenta e ricos e pobres confundem-se no ambiente descontraído e despreocupado deste pequeno paraíso.

Arraial D’Ajuda é conhecida como a esquina do mundo, onde há uma mistura de europeus, indígenas e descendentes africanos. E é nesta esquina que surge um cantinho chamado bairro de São Pedro, onde, no largo da igreja, nos cruzamos com as crianças a caminho da Associação Filhos do Céu.

Eu, a Inês e a Andreia fomos recebidas com beijos e abraços, como se nos conhecessem desde sempre, como se já fizéssemos parte desta grande família! Logo no primeiro dia colocarem-nos a par do contexto social destas 150 crianças que integram a associação. Favela, racismo, tráfico de droga, tráfico de mulheres e prostituição – um murro no estômago, que nos fez abrir o coração para abraçar estas crianças!

Amor, gratidão e gentileza são as palavras de ordem e os maiores valores que são transmitidos a estas crianças. Em cada mês é abordado um tema diferente, e em dois meses tivemos oportunidade de trabalhar o tema “Criança” e respetivos direitos e deveres, e o tema “Consciência Negra” na luta contra o racismo e divulgação da cultura negra. As atividades desenvolvidas para explorarem estes temas passam por uma parte mais criativa, com desenhos, pinturas, músicas e peças de teatro, mas também por uma parte de desenvolvimento crítico, com análise de textos, vídeos e discussão, em conjunto, naquilo a que eles chamavam de “Roda de Diálogo”. É notável que o objetivo da associação seja formar jovens conscientes dos seus direitos e capazes de lutar contra um sistema corrupto. É com o empoderamento que dão e incentivam a estas crianças, que se cria a esperança de um futuro melhor para o Brasil.

 

E eram estas crianças que nos vinham receber, todos os dias, à entrada da associação, com um abraço e um sorriso rasgado! Não há sensação melhor neste mundo do que o amor e carinho que uma criança nos pode dar. Entre brincadeiras e muitos sorrisos contribuímos para os ajudar a conhecer melhor as suas raízes e a desafiá-los a abrir novos horizontes, mostrando que tudo é possível – a mudança está nas nossas mãos, nas mãos deles e de quem quer fazer a diferença.

Sem dúvida, que esta é a melhor forma de nos desconstruir e de valorizar tudo aquilo que sempre demos por garantido. Sem me aperceber, também eu mudei, também eu conheci melhor as minhas origens, também eu alarguei os meus horizontes. Foi inevitável o regresso à infância, voltar a pintar, desenhar, fazer caretas, saltar à corda e jogar à macaca. E tudo isso nos dá uma visão mais simples, mais sensata e mais genuína do mundo.

À Associação Filhos do Céu só posso agradecer por todo o carinho, atenção e dedicação que nos deram e que dão todos os dias, sem hesitar, a estas crianças. Às sempre presentes e incansáveis, Inês e Marta do Para Onde, que permitiram que esta aventura se tornasse real, um muito obrigado. Às minhas queridas companheiras Andreia e Inês, com as quais partilhei momentos inesquecíveis e à nossa família adotiva Barbara, Max e India, o maior agradecimento do mundo!

 

A experiência da Beatriz no Tarrafal

Oi, modi qui bu sta?? Vou começar por me apresentar: sou a Beatriz, tenho 22 anos, sou licenciada numa coisa a que lhe chamam de Economia. Esta minha grande aventura começou quando decidi deixar o mestrado que estava a fazer, em estudos africanos, e decidi procurar algo que me desse a conhecer melhor o continente africano e me ajudasse a perceber se me adaptaria bem à realidade africana e se futuramente poderia ter um papel importante no desenvolvimento económico e social no país que fosse.

Depois de alguma pesquisa encontrei a associação Para Onde?, entrei em contacto e pus todas as minhas dúvidas, que como devem calcular eram bastantes. O que vou fazer? Para que associação vou? Qual é a missão e visão da associação? (É muito importante terem isso em conta), vou ter onde dormir? Posso levar computador? Entre muitas outras… E foi assim, escolhi ir para uma associação em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, mais especificamente no Tarrafal, cuja visão que prevalecia revelou-se, na minha opinião, não ser a melhor para o desenvolvimento das crianças, contudo não deixei que isso afetasse o trabalho que iria lá desempenhar, pois quando vais para uma missão destas, tu vais pelas crianças, tu vais para lhes dar carinho, sabedoria e a tua amizade, algo que em casa é muito difícil elas terem e que na verdade a inexistente transmissão destes sentimentos no dia-a-dia de cada uma, afeta-os na sua maneira de ser e no seu comportamento para com outros meninos.

Na organização de acolhimento há várias áreas que podes ajudar a desenvolver. Eu fiquei alocada aos treinos de futebol, às aulas de informática e ainda dava apoio na sala de estudo. Funcionava como género de ATL, onde as crianças antes ou depois das aulas iam lá estudar, jogar, fazer trabalhos manuais ou simplesmente brincar. Era como um refúgio à realidade em que viviam!

Quando lá chegámos muitos olhares curiosos permaneciam sobre nós, depois da boa tentativa de conhecer as instalações do projeto – pois muita coisa estava a acontecer ao mesmo tempo e tu, perante uma realidade nova, queres tentar assimilar tudo – começou então o nosso grande desafio!- o que vamos fazer para que cada uma destas crianças se sinta feliz e realizada, capaz de  ultrapassar qualquer obstáculo e perceber que o sucesso é conseguido através de tentativas e erros? Bem… tarefa bastante complicada, pois eles passam o dia todo a ouvir de pessoas mais velhas “ teni cabeça cansada, continua amanha” (isto passado uns 10 minutos de concentração) e depois eles próprios replicavam “nhm ka consigui más, cabeça sta cansada”, ou então, “hnm ka crê más” e deixavam o que estavam a fazer a meio. É um grande desafio quer para os voluntários quer para a restante equipa do projeto, pois são crianças com necessidades bastante peculiares, em que é necessária uma constante atenção, estímulo e acompanhamento individual.

O melhor desta experiência de voluntariado não foi de todo o trabalho que desenvolvi dentro do projeto, mas sim fora. Sinto que foi fora que consegui dar tudo de mim, de forma bastante natural e verdadeira.

Desde conhecer a Sofia, a Tairine e a Adi no caminho para o liceu, assistir às aulas delas e depois ajudá-las em casa com os TPC’s no final de tarde de cada dia, desde jogar à bola com o Liedson, o Preto, o pequenote Rafa e outros meninos na rua, até fazer de tudo para que as minhas pirralhitas (Edimara, Jéssica, Catty e Vanessa) saíssem de casa, ao fim de semana, brincar no parque ou ir à praia. Conhecer a Maria, a Mana, a Gregória e passar horas a falar de aventuras, da vida no Tarrafal e o que fazer para mudarmos o rumo desta grande pequena cidade. Todas estas vivências fizeram me ter um amor especial pelo Tarrafal que não deixarei desvanecer.

Esta experiência de voluntariado mudou o rumo da minha vida e, se tiveres o bichinho contigo, não o percas, independentemente do que as pessoas que te rodeiam digam ou pensam, porque vale bastante a pena, tu transformas a vida das pessoas para melhor e a tua sem mais nem menos muda. Um grande obrigada ao Para Onde?, Inês e Marta, bastante atenciosas e sempre preocupadas, obrigado pelo vosso esforço e dedicação a este grande projeto!

A experiência da Catarina no Quénia

Não foi fácil o primeiro impacto. Tudo era diferente do que conhecia até então: os cheiros, as ruas, as estradas, os edifícios, a temperatura, a forma como as pessoas se vestiam, o modo de comunicação entre as mesmas, a agitação da cidade. Era tudo tão diferente. A informação que recebi quando cheguei a Nairobi foi tanta que me limitei a seguir o director do projecto até ao autocarro que nos iria levar para o próximo destino, sem conseguir emitir uma única palavra. No caminho, fui observando os mercados à beira da estrada, as vacas a pastar, as crianças a ajudarem os pais no transporte de cargas, os cães deitados a apanharem sol e aquelas árvores magníficas que se erguiam no solo que, até então, só tinha visto nos documentários do National Geographic.

À medida que avançávamos em direcção ao sul, a densidade populacional ia diminuindo progressivamente até ter chegado a um sítio calmo e tranquilo que me aqueceu a alma – Kiburanga. Fui recebida pela minha “família temporária” e por algumas crianças e mulheres da comunidade que me deram as boas vindas recheadas de sorrisos curiosos, abraços envergonhados e danças felizes ao som do bater de um pau num simples balde com um ritmo estonteante que caracteriza aquele povo.

Depois de ter almoçado o maravilhoso arroz com feijão, cozinhado pela matriarca da família, MamaDeo, levaram-me a conhecer a escola construída através do projecto em vigor na comunidade – Kiburanga Woman – era uma escola simples, com o essencial para garantir o conforto dos seus alunos e professores (voluntários) e que acolhia também uma série de outros membros no seu amplo espaço exterior que, durante o dia, se juntavam para discutir assuntos em comum, jogar à bola, brincar às escondidas, fazer colares e pulseiras e uma série de outras atividades.

Na escola da comunidade tive o privilégio, juntamente com toda a equipa (composta pelo diretor Mike, pelo professor voluntário Silvestre, pela voluntária Marina e por um outro voluntário local Matiko) de participar em atividades de sensibilização sobre três dos principais temas que ali me levavam – Mutilação Genital Feminina, Nutrição Infantil e Higiene (como devem imaginar, foi extremamente interessante e enriquecedor o confronto entre a teoria que conhecemos e a cultura local :))

Foram várias as atividades desenvolvidas na área da saúde, desde visitas às famílias da comunidade com o objectivo de conhecer as diversas necessidades de cada uma, realização de jogos didácticos, à execução de uma “clínica móvel”.

Os tempos livres eram preenchidos com muita música, dança, alegria, boa energia e com os deliciosos abraços e miminhos com que os pequenos nos brindavam a toda a hora.

Devido ao elevado número de crianças órfãs, decidimos complementar o projecto – Kiburanga Woman – com a construção de um orfanato que se encontra neste momento em processo de conclusão.

Agradeço muito ao Para Onde? por todo o apoio extraordinário, desde o momento em que enviei a minha candidatura até ao momento que regressei a Portugal e por me ter ajudado a concretizar este sonho. Obrigada Inês e Marta por serem as pessoas excepcionais que são!! Agradeço também, muito, a toda a família que me acolheu em Kiburanga e que aqueceu o meu coração.

O essencial é invisível aos olhos”…pela primeira vez tive perante condições de conforto mínimas e senti o meu coração mais preenchido do que nunca. Uma felicidade crua e pura como nunca tinha sentido na minha vida – por mais que tente, nunca conseguirei pôr por palavras a quantidade de amor que senti.

– Não há dia que não me lembre daqueles olhares doces e traquinas, daqueles abraços ternurentos, daquela terra mágica, da pureza daquele povo, das músicas alegres e daquele cheiro tão característico a terra molhada depois das chuvas – aconselho, mas só a quem tiver a coragem de se deixar sentir…de deixar um bocadinho de si em cada uma daquelas pessoas, em cada canto e recanto daquela terra, porque quando se vai, não se volta igual.

Muito obrigada:’)

A experiência da Rita em Moçambique

“Porque a felicidade só tem significado quando é partilhada”…

Recém-chegada a Portugal de uma das melhores e mais ricas experiências da minha vida e já cheia de saudades de tudo aquilo que vivi em Moçambique, deixo aqui um resumo da minha passagem por esse país mágico.

Não é por acaso que o projeto se chama Kutsaca. Na aldeia de Mahungo as pessoas vivem sem pressas e dizem “hei-de ir”, “hei-de fazer”. Quando dizes “Bom dia”, respondem-te com o melhor dos sorridos “Bom dia, Obrigado!”. As crianças brincam na rua e correm até ti em troca de um grande abraço. E na escola partilham tudo, são capazes de dividir a única bolacha que têm em 10 pedaçinhos para que todos os amigos provem. E os mais velhos, agradecem a nossa vinda ao seu país, dizendo “Estamos juntos” e face a qualquer obstáculo… “Não tem problema!”. Kutsaca significa “Estar Feliz” em changana, o dialecto local. Poderia ser em qualquer língua, pois aqui a felicidade é universal e aqui eu fui verdadeira e genuinamente feliz!

Na escolinha Kutsaca, juntamente com as voluntárias Mariana, Catarina e Diana, trabalhamos e auxiliamos as professoras locais – Júlia e Lolinha – com a sua turma de crianças dos 3 aos 5 anos. O principal objetivo é a promoção de habilidades pessoais e sociais destas crianças. A par deste grupo, foi recentemente construída uma nova escolinha que permitirá acompanhar as crianças dos 6 aos 9 anos, com atividades extracurriculares que apoiem o seu desenvolvimento.

Mesmo nos tempos mais livres, dada a sinergia, proatividade e bom trabalho de equipa que o nosso grupo de voluntárias criou, fizemos outros trabalhos em prol da escolinha e da comunidade. Desde criar o hino da escolinha, ajudar nas aulas de inglês da nossa voluntária Diana até às simples mas muito felizes tardes a pintar, dançar e cantar com as crianças que regularmente vinham ao nosso encontro.

Decidimos ainda dar continuidade ao programa Wasate (dedicado às mulheres da aldeia) e com a chegada da nossa médica e voluntária Carolina, pudemos também iniciar com a sensibilização de temas relacionados com a saúde e higiene. A par desta iniciativa, achámos importante fazer um exercício que permitisse promover a auto-estima destas mulheres e fazer com que tivessem um dia especialmente dedicado a elas – uma sessão fotográfica!

Resta-me agradecer ao Para Onde por me ter ajudado a concretizar um sonho desde há muito desejado; à Susana que fundou este magnifico projeto e às meninas que se voluntariaram comigo por tudo aquilo que vivemos nesta aldeia fantástica feita de pessoas maravilhosas!

Valeu totalmente a pena fazer parte deste projeto! Cheguei a Moçambique completamente sem expectativas e apenas de coração cheio. A partir daí foi uma aprendizagem incrível, onde sei que não mudei o mundo, mas espero ter contribuído para a mudança do mundo de alguém! O meu mudou de certeza, por isso kanimambo a todos!

A experiência da Carolina na Tailândia

É tempo de dizer adeus a este país tão maravilhoso: Tailândia! Aqui tive uma experiência que nunca me vou esquecer, que posso dizer uma das melhoras da minha vida. Sabia que tudo o que eu ia encontrar ia ser diferente do que estava habituada. A cultura, a língua, as condições e muito mais. Vi essa possibilidade como o maior desafio da minha vida e hoje consigo dizer que foi uma experiência verdadeiramente única, humana, desafiante, bonita e cheia de magia.

O projecto em que participei tinha como objectivo a organização de actividades lúdicas em inglês com crianças de várias escolas de duas ilhas: Koh Yao Yai e Koh Yao Noi. O desafio foi grande, pois era a primeira vez que ia dar aulas, numa língua que não era a minha e uma língua que também não era a deles. Foi nisso mesmo que senti uma das maiores dificuldades, sem dúvida uma barreira que encontrei logo nos primeiros dias.

No entanto são também esses obstáculos que tornam toda esta experiência mais excitante e enriquecedora! Ao nos depararmos com esta situação, a grande preocupação de toda equipa de voluntários, da nossa coordenadora e dos seus ajudantes, era o que poderíamos fazer para que essa barreira fosse ultrapassada e encontrar alguma forma de que a nossa missão fosse adiante com todas aquelas crianças que estavam ansiosas para estar ali connosco. O primeiro passo foi então fazer com que parássemos de ser ” seres estranhos” e criássemos alguma ligação com elas, fazendo jogos de “quebra-gelo”, jogos para sabermos os nomes de cada um e nos sentirmos todos mais unidos e descontraídos. O segundo passo foi planear diferentes tipos de aulas, com temas diferentes e inovadores, sempre com muitos jogos e dança à mistura! É sempre uma satisfação enorme quando é visível que o que estás a fazer está a contribuir, nem que seja um bocadinho, para o desenvolvimento de alguém, de uma escola, para que num futuro próximo estas crianças consigam comunicar de alguma forma com o mundo que as rodeia.

No entanto esta experiência foi muito para além do ensinar, foi também uma grande aprendizagem. Aprendi algumas palavras da língua tailandesa, sentindo uma satisfação enorme ver na cara de todas as pessoas quando pelo menos tentamos falar a língua deles. Que estamos aqui e nos importamos, somos estranhos, mas queremos viver a cultura deles, o máximo que podermos. Aprendi as suas tradições, o seu estilo de vida, no que acreditam, e até aprendi a cozinhar pratos típicos daquelas comunidades!! Aprendi também que há um mundo completamente diferente do que estamos habituados, uma realidade às vezes dura de ver, e que a vida daquelas crianças nem sempre é tão fácil como foi a nossa… Mas aprendi que com um sorriso na cara, com uma energia positiva tão grande, se pode ser tão feliz com tão pouco!

Um grande grande obrigada a toda a equipa de voluntários que foi fantástica e estou tão grata por vos ter conhecido a todos, acredito que vos levo comigo e que um dia nos iremos cruzar e tudo será tão especial como foi. Levo comigo a minha maravilhosa coordenadora, com uma energia tão boa que me ensinou mas também me ouviu. Levo também comigo todas aquelas crianças, os seus sorrisos, a sua gratidão, a sua bonita cultura, toda a comunidade e a sua bondade. Um especial obrigada ao Para onde? e à associação tailandesa que criou todo este projecto, que incentiva não só a educação alternativa, como a sensibilização para a mente voluntária e participação de toda a comunidade nas actividades e ainda o desenvolvimento da aprendizagem e intercâmbio multicultural. O lema que vai sempre ficar comigo “Living, Learning, Working Together”.

Definitivamente um país que levo comigo para toda a vida e uma experiência, que por mais pequena tenha sido a diferença que fiz, me encheu coração para sempre. O voluntariado é sem dúvida um acto que nos oferece paz e um sentimento de profunda felicidade. É gigante o que se recebe. Parece pequenino o que se deixa. Mas fica. Para sempre.

A experiência da Rita no Laos

Adoro escrever, ajuda-me a imortalizar cada momentozinho vivido nesta linda aventura, ao mesmo tempo que reflito sobre os mesmos. Estou no aeroporto de Pakse (sul de Laos), vou embarcar para Hanoi, onde me vou encontrar com amigos (e que saudades tenho de os abraçar, bolas!). Mas estar aqui sentada neste banco duro a escrever e a ouvir as senhoras lá fora a conversar (o aeroporto é mínimo) significa que a minha estadia em Laos chegou ao fim e está a custar-me muito ir embora, as lágrimas caem-me pelo rosto… Neste país realizei um sonho de miúda: fazer voluntariado com crianças e o facto de ter sido na Ásia parece mesmo obra do universo, por mais voltas que dê ao mundo, acabo sempre na Ásia, a energia asiática tem em mim um efeito íman.

Tenho 31 anos e a minha vida nos últimos meses deu uma volta de tal forma que fui “forçada” a agir e tomar decisões em total concordância com o que sinto e não com aquilo que a minha cabeça ou “envolvência” dizem que devo sentir. Só encontramos aquilo que realmente procuramos com o coração – e não me enganei.

Aproveitando o facto de ir de férias para a Indonésia, senti que queria ficar mais tempo na Ásia (obrigada Joana Sabido pelo empurrão e Score Consulting pela licença sem vencimento). Falei com a “Para Onde” e tinham um projeto em Laos nas datas que eu queria: BINGO!

Não vou mentir, apesar de saber que queria muito isto, tive medo, mas fui com medo. É como saltar de uma rocha, no início dá aquele frio na barriga mas depois SABE TÃO BEM!!

Comecei a vacilar quando tive de preencher formulários e escrever carta de motivação: “Quais são os teus skills? Como achas que podes ajudar? Porque optaste por este projeto? O que te motiva a fazer voluntariado?”
O que me motiva é fácil, mas de que forma é que posso ajudar é que me tramou. Será que vou conseguir ajudar devidamente as crianças em Laos? Adoro dançar e música, mas não sou professora de dança nem sei tocar nenhum instrumento; adoro fazer yoga e desporto, mas não dou aulas; tenho bom inglês, mas não é perfeito e, mais uma vez, não tenho experiência na área de ensino. Agora é que me tramei, pensei eu!!

Bem, resolvi ser sincera: “Tenho skills e experiência em gestão de produto e de projeto (em diversas áreas, mas acho que não vale a pena especificar quais), sou comunicativa, tipicamente tenho facilidade em criar empatia com crianças, sou de riso fácil e, acima de tudo, quero muito isto.” WHAT, RITA? Riso fácil? Quanto muito é uma característica, agora um skill? Vou só ali cortar os pulsos e já volto. Senti-me um bocado ridícula, confesso, as crianças em Laos não vão pensar em processos ou em produto, não vão querer alinhar shapes no PPT ou fazer vlookup no Excel, não vão criar histórias no jira ou trabalhar com designers e developers, não vão trabalhar em SAP. Enfim, sou o que sou e fui sincera. Pode ser que tenham um site desorganizado e precisem de alguém que ponha a casa em ordem.

Estava tão enganada, gostaram de mim assim e em ordem puseram-me eles.

Laos é um país lindo de morrer, muito verde, com muitas montanhas e possibilidade de se fazer muito desporto, é encantador e especial. O projeto de longa duração para onde fui no Laos, o qual abracei e onde fiquei a dormir/viver em comunidade (perto de Vang Vieng), também é igualmente lindo, sem grandes luxos, claro, mas lindo.
Conheci voluntários de Laos, França (imensos), Espanha, Bélgica, México, Alemanha, Peru e eu (primeira e única portuguesa no projeto). Bem, miúda, vê se deixas boa imagem do teu país.

As coisas começaram a fluir, comecei a dar aulas de Inglês às crianças e a trabalhar em divesas atividades no projeto. Como projeto, acabei por recuperar/reformular uma zona de churrasco desabitada e destruída. Com a ideia definida, uma excelente equipa e muita boa disposição, conseguimos criar um espaço útil e acolhedor para a comunidade. Final do dia, dei aulas de Inglês aos níveis 1, 2 e 4 e foi, sem dúvida, umas das experiências que mais gostei. Crianças e adolescentes que querem muito aprender inglês, trabalham e estudam arduamente para atingir esse objetivo. São os primeiros a chegar à sala de aula, os primeiros a mostrarem o homework feito, sentam-se sempre na linha da frente. São muito tímidos, mas têm uma vontade imensa de chegar longe, chamam-nos “teacher” e querem muito saber o que se passa com a nossa vida.

Numa das aulas, estava eu a dar o present continuous, o CHANG interrompe, pensava eu para tirar uma dúvida, e diz com o seu sotaque engraçado: “Hey teacher, are you married?!” – Teve muita graça, todos se riram exceto a Song que lhe deu um caldo e eu que me tentei controlar para não ter ataque de riso ali. Toda aquela partilha me dava um prazer imenso, adorava cada aula, mesmo cansada, saía sempre das aulas com sorriso gigante. Queria mais. Queria saber da vida daqueles miúdos.

Às vezes, desviávamos as mesas e ficávamos ali, em roda, a conversar e partilhar culturas. Dava aulas descalça, saia comprida, ombros tapados, cabelo preso e sem brincos. É uma questão cultural, mas não só, é um meio para atingir um fim. Algumas escolas são em zonas de prostituição e as crianças olham para as mães, irmãs, primas com roupas mais ousadas, baton vermelho e como crianças seguem o seu exemplo. É aí que este projeto se quer distinguir, pretendem que as crianças não sigam o exemplo da prostituição, mas sim o da educação e nós, professores, somos essa possível ponte.

Apesar de entender, esta parte para mim não foi fácil de lidar: as miúdas apareciam de baton vermelho, os rapazes de calções e eu não podia deixá-los entrar assim na aula. Os olhos deles quase que se enchiam de lágrimas e ficavam mesmo cabisbaixos (eles e eu), mas são as regras (sempre detestei regras, até lá isso era evidente em mim). As regras são importantes, claro, mas há que ter ginástica na sua aplicação. Como diz uma pessoa que gosto muito: “Quem nunca pisou um traço contínuo?”

Como forma de solucionar, pedia às meninas para limparem o baton, lá esfregavam muito rápido, mas baton vermelho não sai assim, ficavam todas borradas, mas desta forma conseguia que frequentassem as aulas e aprendiam a lição. Ninguém gosta de estar borrada, parece sangue ou um beijo mais forte, remédio santo: aula seguinte estavam IMPEC.

Outro factor difícil para mim foi o não poder criar ligação física com as crianças, isto é, abraços, beijinhos, colo, cavalitas – TUDO PROIBíDO. Os voluntários vêm e vão e os miúdos apegam-se e sofrem muito. E mais, em casa os pais não têm esse género de comportamento com os filhos e, segundo o projeto, crianças sofrem mais quando perdem um voluntário (e tudo o que lhe está associado) do que com a ausência de uma carinho que desconhecem de todo. Aqui não concordo muito, amor nunca é demais na minha opinião. E mais: falamos de ligação física, certo? Mas a ligação emocional/psicológica é muito mais forte e difícil de controlar e essa foi criada. Não acredito que se consiga “chegar” ao outro sem previamente ser criada uma ligação afetiva.

Eu estou ligada aos meus míudos (com limites claro), já sofro um pouco por saber que dificilmente vou estar com eles novamente, tenho saudades dos seus sorrisos e olhos brilhantes. Mas sofro ainda mais por não saber que futuro vão ter (ou melhor no fundo eu sei e isso dói). Mas também tive consciência que não dá para mudar o mundo, por isso temos de ter a capacidade e aprender a transformar as situações, dar o melhor de nós em cada situação e receber o melhor também. O “pouco” que achamos que damos e recebemos já é muito, é imenso, é gigante!

Estas crianças acordam às 5h da manhã, estão na escola “dita normal” das 8h às 16h e às 17h começam o Inglês connosco, terminamos perto das 20h e lá vão eles a pé para casa sozinhos e no meio da escuridão, mas não vão tristes. Não sei como fazem, mas nunca parecem tristes.

Nós também íamos para casa fazer o jantar juntamente com as pessoas de Laos, Kee, Pho and Pha. Eu conduzia o “camião” e lá seguíamos todos contentes, numa estrada cheia de buracos, sem luz e com vacas no meio. O contacto com os locais também me vai ficar na memória principalmente com o Kee, um miúdo de 20 anos com um humor e expressão muito engraçadas. Pedia-me conselhos quando escrevia mensagens às raparigas no Facebook, não queria dar erros no flirt: “Look Rita, so many!”, só janelas apitar. Disse-lhe que só o ajudava quando escolhesse apenas uma, com tantas não é certo e fico confusa. Ele dizia: “Oh RITÁAAAA, no no no no no!” e ria que nem um perdido, o safado.

Usava uns chinelos 3 números acima do número real dele e todos gastos. Antes de me ir embora, ofereci-lhe uns novos e com o número adequado e disse para ele colocar os velhos no lixo. Ele fez-me um ar sério e disse: “No RitÁ, I will save the old flip flop´s. Pho or Pha could need them” – até vibrei por dentro, palavras para quê? Claro, Kee <3 Tenho uma infinidade de histórias por contar, outras que não quero contar, são minhas, ficarão comigo, dentro de mim, para sempre!

Saio daqui uma pessoa nova, percebi que não tenho só skills de gestão, mas que esses skills me ajudaram e muito a resolver e contornar uma série de situações ocorridas. Faz parte de mim também, está sempre presente. Por isso, já não preciso de cortar os pulsos, mas sim arregaçar as mangas e lançar-me com garra ao trabalho. Mas, por outro lado, adoro o contacto com as pessoas, falar e ouvir, comunicar e partilhar. Faz-me imensamente feliz, por dentro e por fora. Temos uma imensidão de skills dentro de nós, todos nós, só que muitas vezes não são trabalhados ou potenciados. E pode acontecer que esses skills menos explorados sejam mesmo o nosso tesouro, o caminho para sermos mais felizes e completos e arriscaria mesmo a dizer, pessoas melhores.

Se tivesse de traduzir esta experiência numa palavra diria TRANSFORMAÇÃO. Por isso transforma-te, vai com medo, vai com amor, vai com tudo o que és (ou até mesmo com o que ainda não sabes que és), mas vai! Há por aí muitos mais Kee´s espalhados pelo mundo e vale muito a pena conhecê-los.

CHOP QUAI INCREDIBLE LAOS, EXTREMELY THANKFUL!

Rita

A experiência da Rita e do João na Mongólia

Olá, os nossos nomes são João e Rita, temos 22 e 21 anos, respetivamente, somos ambos de Lisboa e estivemos este verão num programa de voluntariado através da organização Para Onde, durante duas semanas na Mongólia. Aqui fica um resumo, ou pelo menos uma tentativa de tentar pôr em palavras aquilo que muitas vezes transbordou do coração.

Há uma frase que gostamos muito que fala de como na vida, tantas e tantas vezes, estamos aborrecidos e tão absorvidos no nosso canto que nem nos preocupamos em levantar a cabeça do que quer que tomemos como sendo inadiável, e olhar à volta e perceber que é preciso “mexer a colher dentro do copo, porque muitas vezes o açúcar está no fundo”.

Por meio de conversas e um bocadinho desta necessidade de experimentar um verão um bocadinho diferente do habitual, decidimos embarcar numa viagem a um país do qual pouco ou nada sabiamos -Mongólia. Por meio de pequenas burocracias pusemo-nos em contacto com a organização do ParaOnde, e tendo falado com a Inês e com a Marta, que foram umas segundas mães durante umas boas semanas, partimos a uma aventura para a qual não tínhamos qualquer expectativa.

Honestamente, quando chegamos a UlaanBaatar, a capital da Mongólia, ficamos reticentes quanto ao quão “desligado” poderia efectivamente ser o voluntariado. Sem qualquer informação sobre que tipo de crianças seriam, qual seria o tipo de voluntariado que íamos fazer, e só sabendo que iríamos trabalhar e participar em atividades de verão para crianças que não pudessem pagá-las em circunstâncias normais, o nervoso miudinho aumentava quando nos aproximávamos do campo já com todos os voluntários.

Tão rápido como começou, também acabou por passar, esta sensação de nó no estômago, sendo que assim que chegamos ao campo fomos recebidos de sorriso na cara e braços abertos por crianças desde as mais pequenas até algumas adolescentes, que não falavam a nossa língua nem alguma em que conseguíssemos comunicar, mas cheias de amor para dar.

O campo estava organizado como uma casa de verão para crianças que durante o ano estavam num orfanato por várias razões. Todos tinham tarefas que eram feitas com o maior dos gostos, porque todos tinham prazer em ajudar (-nos) fosse de que maneira fosse. As condições eram pobres, mas não descuidadas, querendo dizer que o que havia estava bem cuidado e em uso.

Dormíamos todos numa sala comum o que facilitava muito o convívio entre voluntários e as crianças dormiam numa outra casa onde estavam divididos por idades. Fazíamos as refeições todos na mesma sala ainda que a horas diferentes e todas as noites, antes da hora de dormir das crianças cantávamos uma “Goodnight Song” em Mongol, com as crianças – um “beijinho de boa noite” muito especial, principalmente para nós.

Um dia normal começava por volta das oito e meia, em que tomávamos o pequeno almoço e éramos divididos em grupos com actividades diferentes como ensinar inglês a crianças mais pequenas, aos adolescentes, fazer desportos, ajudar na cozinha, ajudar a pintar infraestruturas dentro do campo ou fazer jogos didáticos que de alguma maneira pudessem ter impacto de várias maneiras.

Muitas vezes perguntavam-nos se a barreira linguística não era um entrave à comunicação e na verdade, o que sentimos durante essas duas semanas foi que isso nunca sequer existiu. A verdade é que nenhuma das crianças falava, nem aprendeu connosco ou com outros voluntários, inglês suficiente para ter uma conversa, mas o facto de saberem dizer “Goodnight”, “Goodmorning”, “Thank You” e “I Love You”, chegava para tudo o que fazíamos com eles; quer fosse a ensinar números até cem, as cores ou só a brincar à apanhada, tudo se fez porque o coração falou sempre mais alto.

Acho que quando dizemos que algo nunca nos marcou tanto como isto, não é de todo um exagero porque toda a experiência, desde o termos chegado sem qualquer expectativa, até ao facto de quarto palavras terem servido para conseguirmos criar laços reais com estas crianças foram coisas absolutamente extraordinárias. Desde de termos tido ajuda, eu, Rita, quando queria lavar o cabelo na mangueira que havia na colina do campo e ter uma turma de crianças que vinha de bom grado ajudar-me, a mim, João, ter tido ajuda quando tentei montar uma espécie de estrutura para um chuveiro – não podíamos estar mais satisfeitos e mais felizes por termos, para além de nos sentido úteis e realizados, termos podido perceber que mesmo não tendo muito, há tanta coisa que ainda podemos partilhar uns com os outros, sejam quais forem as nossas circunstâncias.

O dia em que nos viemos embora do campo foi também um dia muito emotivo. Mesmo não tendo tido experiências disso o dia todo, todas as crianças com quem estivemos e principalmente as com quem criámos maior ligação ficaram, assim como nós, muito ligadas a tudo o que vivemos lá. Sair de pulseiras oferecidas e feitas pelas crianças, com cartas escritas em Mongol e traduzidas pela coordenadora fantástica que tínhamos no campo, e fazer tudo isto sem lágrimas nos olhos não é uma tarefa fácil.

É muito complicado deixar um lugar onde já fomos muito felizes e as pessoas que nos fizeram felizes nesse lugar.

Como resumo deste testemunho, fica não só o conselho de partirem a fazer algo parecido, mas principalmente, a partilha de que o que achamos que trouxemos de maior de lá foi na verdade a convicção de que não precisamos de ter nada para poder dar tudo a quem está ao nosso lado, que não precisamos sempre de falar para criar relações inesquecíveis e que muitas vezes, os atos mais pequenos são aqueles que mais marcam, mesmo que não só individualmente, mas como num conjunto – e que muitas vezes é mesmo preciso ir ao fundo buscar o açúcar que ficou esquecido no fundo do copo.