A experiência da Elodie em Cabo Verde

O momento mais difícil: a decisão. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido. Comigo, foi tudo muito espontâneo e a decisão não foi assim tão difícil. Confesso que não levava muitas expectativas na bagagem, mas sim cadernos, lápis, livros, algumas roupinhas para doar. Sabia que não ia ser fácil, mas também tinha a certeza que a experiência na ilha da Boa Vista me iria marcar para o resto da vida.

Num ambiente amplamente dísparo, entre os turistas provenientes dos resorts luxuosos e a situação precária de uma população com cerca de 6.000 habitantes a viver em condições nenhumas, o sorriso das crianças foi o meu grande aliado. Na verdade, foi pelas crianças que fui, é pelas crianças que continuarei ligada àquela terra.

A creche social do Bairro da Boa Esperança que acolhe diariamente, de Segunda a Sábado, cerca de 150 menininhos e menininhas dos 2 aos 5 anos, é fundamental para a contribuição de uma sociedade que se espera um pouco mais justa, informada e estruturada. O desafio foi esse mesmo, nos desligarmos de uma realidade confortável do mundo “ocidental” e nos adaptarmos, todos os dias, às características muito especiais daquele país, daquele bairro, daquela creche, daquelas pessoas. Tudo é vivido intensamente quando se faz voluntariado mas todos os minutos do projeto valeram a pena.

Ajudar uma criança a ir à casa de banho, é vitória. Ajudar uma criança a comer sozinha, é vitória. Ajudar uma criança a contar até 10, é vitória. Ajudar uma criança a saber dizer “Obrigado”, é vitória. Um passo de cada vez, pelas pequenas conquistas.

Um coração que volta a Portugal cheio de boas recordações, sorrisos sinceros e esperança no futuro.

A experiência da Raquel em S. Tomé

A Terra do Leve-Leve

Por onde começar? É sempre esta mesma pergunta que me vem à cabeça quando me pedem para contar como foi esta experiência… Começo pelas minhas dúvidas, pelas dificuldades que enfrentei, pelo amor e sorrisos que recebi, pelos cabelos em pé, pelas saudades que tenho, pelo trabalho que estive a desenvolver, pelas maravilhosas praias e paisagens, pelas pessoas incríveis?! Bem, a verdade é que há muito para contar!

Hoje vou começar por contar como fui parar a São Tomé… Para ser sincera, fui ter à terra do “Levi-Levi” completamente por acaso. Sempre fiz diversas actividades de voluntariado a nível nacional, como Banco Alimentar, Refood, etc, mas a nível internacional nunca tinha feito nada e já desde há muito que queria ter essa experiência. Com o fim do mestrado a aproximar-se e com o medo de enfrentar a “vida real”, decidi que era a oportunidade ideal para embarcar nesta aventura. As únicas coisas que eu sabia era que queria fazer actividades com crianças e num país de língua portuguesa (pois achei ser mais fácil de me relacionar com as crianças e ter um impacto positivo). Portanto, Brasil ou África eram as opções… E para além da língua ser a mesma, estes locais também me fascinavam pela energia, animação e alegria contagiante daqueles povos. (Tenho pena de não vos conseguir mostrar um vídeo deles a dançar agora)

Durante a minha pesquisa dei logo com o Para Onde?, que por ser dos sites mais organizados que encontrei e o mais apelativo, juntamente com a amabilidade e rapidez da Marta e da Inês a responderem aos emails com todas as minhas mil perguntas, me chamou atenção. Dei uma vista de olhos e como queria ir antes do final do ano (2017), o projecto de São Tomé até tinha sido à primeira descartado pois só estava disponível em 2018. Entretanto, senti que estava a querer fazer tudo muito à pressa e não estava a encontrar um projecto “ideal” dentro do meu budget então pensei: “E porque não ir em Janeiro?” A minha preocupação, pois está claro, era começar a procurar muito tarde trabalho (tinha acabado o mestrado em Outubro)… “E depois fico os meses antes de ir a fazer o quê?” E depois quando voltar já vai ter tudo emprego e eu não?” Bem todas as dúvidas normais de quem está a decidir entre continuar no rumo “normal” da vida (isto na nossa realidade) ou sair da zona de conforto. Acho que já perceberam que decidi arriscar e então comecei a olhar para os projectos disponíveis em Janeiro. No entanto, as perguntas continuavam na minha cabeça, então decidi que queria ir apenas um mês… Tótó! Sim, eu sei, agora sei… pois um mês passou demasiado rápido, mais pareceu uma semana e, portanto, se estiverem a considerar quanto tempo deverão ir e se um mês é muito, digo-vos já que é pouco. Se puderem, vão mais do que um mês, vai valer a pena! Mas pronto, talvez se não tivesse decidido isto não tinha ido parar a São Tomé. Pois foram as únicas razões pelas quais fui para lá: podia ir durante um mês apenas e era um país de Língua Portuguesa. E disso não me arrependo, nem uma única vez. E assim ficou decidido o destino, agora era tratar de tudo… Passaporte, consulta do viajante, vacinas, visto, roupa, repelentes, preparação de actividades, recolha de materiais, etc… Lembram-se da pergunta que fiz a mim mesma do que é que ia ficar a fazer aqueles meses todos entre Outubro e Janeiro, aqui está a resposta! Toda a preparação necessária para quem vai sair pela primeira vez da Europa. Ah, ainda não vos tinha dito?! Pois, sim, para além de nunca ter feito voluntariado internacional, nunca tinha saído da Europa e, apesar de estar habituada a trabalhar com crianças (dei treinos de Patinagem Artística), nunca com crianças naquelas situações (em que muitas delas não têm famílias e as que têm só as estão juntas nas férias escolares). Por isso, ia ser tudo novo!

Bem, era dia 31 de Dezembro de 2017, chegou o dia, chegou o tão esperado dia! E eu nem sabia bem o que estava a sentir, medo não era e era tanta a curiosidade e adrenalina que nesse dia nem dúvidas tinha, só queria ir. Então lá fui, eu e a minha companheira desta aventura, Catarina Soares. Fomos as duas na passagem de ano ter com pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que nos ofereceram casa para os primeiros dias, pois a ARCAR (instituição onde íamos fazer voluntariado) só nos podia acolher dia 2 de Janeiro e os voos eram mais baratos antes. Então pensámos porque não juntar mais aventura a esta experiência e assim temos uma passagem de ano diferente. E foi uma óptima decisão! Correu tudo bem, passámos a PDA com calor em vez de frio e chuva e, ainda, conhecemos pessoas fantásticas nesses primeiros dias.

Após a recuperação da passagem de ano e de já conhecer um bocadinho da ilha chegou a altura de ir para ARCAR, onde fomos recebidas de braços abertos e com direito a muitos abracinhos dos meninos. Ao contrário da maioria dos projectos, nós ficávamos a dormir na instituição juntamente com os meninos, o que tornou esta experiência ainda mais especial. A ARCAR é a casa deles e nós passámos a fazer, não só, parte da casa deles como da sua família.

Os meninos só saiam de “casa” para ir à escola (uns de manhã e outros de tarde), ah, e claro, para ir ao mato também. O resto do tempo era passado na ARCAR, onde tinham uma hora de apoio escolar (também de manhã ou de tarde de acordo com o horário da escola) e depois era tempo livre. E era aí que nós entrávamos… entre ajudar nos trabalhos de casa, estudar, jogar futebol (sempre que havia a mínima oportunidade lá iam eles), saltar à corda, jogar à apanhada, dançar, fazer desenhos e ver filmes, assim se passavam os nossos dias com estes principezinhos.

Uma das actividades que fizemos com eles passou pela sensibilização para o lixo nas ruas, pois foi um dos problemas com o qual nos deparámos lá. Criámos com eles caixotes de lixo, mostrámos vídeos, fizemos debates e em apenas um mês eu consegui ver evolução no que diz respeito a este assunto. Quando lá chegámos era um hábito deitar o lixo para o chão ou para o outro lado do muro, quando fui embora já muitos deitavam o lixo no caixote e os que às vezes não o faziam, deitavam, pelo menos, quando nos viam por perto. Por isso, se num mês houve esta mudança imaginem um, dois ou 5 anos! As crianças são o futuro e cada um de nós pode fazer a diferença no presente e ajudar a definir o futuro destas crianças.

Como é normal, nem sempre tudo vai ser bom, as vezes vai ser tudo demasiado leve-leve e há coisas que, certamente, te vão “fazer comichão”. Mas, como a Marta e a Inês te vão avisar logo desde inicio, nós não vamos lá mudar mentalidades num mês, não dá, é impossível. No entanto, a nossa contribuição é muito valiosa! Não será certamente num mês, nem dois, nem três meses que vamos conseguir melhorar tudo, mas aos poucos e poucos vai-se construindo a mudança. No entanto, no meio das adversidades vai haver sempre pequenos momentos que te vão encher o coração e fazer-te esquecer todos os problemas. Lembro-me do primeiro dia em que ajudei o Edu a fazer os trabalhos de matemática e, no dia a seguir, ele volta da escola todo contente a dizer: “Conseguimos Raquel! Estava tudo certo e recebi uma recompensa!”. Aquele brilho nos olhos, aquele sorriso e aquela felicidade são coisas que nunca vou esquecer e que me marcaram. E vão ser momentos tão simples quanto este que vão fazer valer a pena cada dia que lá vais estar.

“Não é sobre tudo o que o seu dinheiro é capaz de comprar, e sim sobre cada momento e sorriso a se compartilhar, também não é sobre correr contra o tempo para ter sempre mais porque é quando menos se espera a vida já ficou para trás…Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe para perto de mim” (“Trem-Bala” – Ana Vilela). Ouvi esta música pela primeira vez em São Tomé e, é a melhor maneira de descrever tudo o que senti e trouxe comigo daquele lugar. Cada sorriso, cada brincadeira, cada traquinice, cada briga, cada desenho e mensagem que me escreveram, cada um daqueles 47 principezinhos, trago-os todos comigo.

Se estão com dúvidas em relação a fazer voluntariado internacional, o que vos tenho a dizer é “Façam! Saiam da vossa zona de conforto e façam! Arrisquem! Vai valer a pena!”

A experiência da Ana Margarida na Tailândia

Faz hoje um mês que acabou o meu voluntariado na Tailândia. Um mês!! Nem posso acreditar… Já passou mais tempo desde que voltei do que o tempo que lá estive. Mas ainda estou lá. Ainda estou naqueles sorrisos, naqueles abraços, naquelas palavras que nunca compreendi. Para mim, para a Paula, para a Íris e para o Yago esta foi uma experiência muito especial. Mergulhámos de cabeça numa cultura maravilhosa e fomos tão felizes nela…

Fomos recebidos no aeroporto pela nossa coordenadora da DaLaa (a associação que nos recebeu), pela Diretora da Escola Watphothawat e por uma das suas professoras. Desde o primeiro momento que as palavras foram de inclusão e gratidão como nunca vimos, que os sorrisos foram luminosos e que os seus braços estiveram sempre abertos para nós.

Quando chegámos à escola fomos recebidos por gritos de excitação das crianças pela presença de “farangs” – nunca antes vistos naquela zona da Tailândia. “Farang”: é esse o nome que nos dão. Aos brancos. E em momento algum sentimos que era uma palavra feia ou depreciativa. Muito pelo contrário – era uma palavra que descrevia pessoas “boas” que tinham vindo de longe para os ajudar. Sempre olharam para nós desta forma: com uma admiração da qual nunca nos achámos merecedores. Como estavam eles enganados quando pensaram que éramos nós as pessoas especiais que os iríamos ajudar! Não fazem ideia do quanto nos ajudaram a nós!! Não fazem ideia do quanto nos tornaram pessoas mais sensíveis e humanas, mais felizes e mais gratas.

Fomos para a Watphothawat School para dar aulas de Inglês. E demos!!! Mas recebemos tão tão mais… Mostraram-nos tudo: de dentro para fora, como se quer. Mostraram-nos os seus corações e a força da qual são feitos. Depois de nos conquistarem com o que são, mostraram-nos o que têm: as comidas, as paisagens, as tradições…

Ensinaram-nos a curvar perante Buda, ensinaram-nos a comer frutas que não sabíamos sequer os nomes, ensinaram-nos a entoação correta ao dizermos “Sawadee kah” (olá). Ensinaram-nos que as mesas servem para pousar os objetos porque onde se come é no chão!! Ensinaram-nos que não se toca nas cabeças das outras pessoas em sinal de respeito mas que se abraça com o corpo todo! Ensinaram-nos que mais importante que as palavras que dizemos, é a forma como as dizemos…

Nunca entendemos nada do que aquelas crianças disseram. Mas sabemos que gostam de nós como só as crianças sabem gostar. Nunca soubemos dizer aos “velhos” da aldeia a admiração e o respeito que por eles temos. Mas não temos a mínima dúvida que eles o sabem, que o sentem e que o vão sempre recordar.

A Tailândia é um mundo diferente – as pessoas são diferentes, a energia é diferente. Na Tailândia as pessoas são felizes com Nada! São felizes de pés descalços e roupas velhas. São felizes sem telemóveis de última geração e 300 canais de televisão. São felizes mesmo quando chove porque sabem que logo de seguida vai fazer sol!! São MESMO felizes!! E sinto que nós trouxemos essa felicidade connosco.

Nós fomos muito felizes na Tailândia!! E enquanto soubermos viver a Tailândia dentro de nós, sei que vamos sempre olhar para as nossas vidas com uma perspectiva diferente, com uma gratidão diferente. Eles mudaram as nossas vidas, com aquela forma simples de ser e de amar as suas próprias vidas.

Ainda hoje recebemos mensagens daqueles miúdos – e graúdos – todos os dias a dizer “I Love You” – há lá coisa mais importante para se ensinar alguém a dizer?! – e sabemos que ficámos lá. Ficámos nos corações e nas memórias daquelas pessoas. Sabemos que também os tocámos de uma forma muito especial e que de alguma forma, fizemos a diferença!

Já se passou um mês e ainda lá estamos. Sei que vamos lá ficar enquanto aquelas pessoas lá estiverem.

Fomos de Lisboa para Phatthalung para dar aulas de Inglês. E demos!! Mas eles deram-nos muito mais…

A experiência da Madalena na Bélgica

Olá, eu sou a Madalena e participei num campo de voluntariado na Bélgica. O campo decorreu em Agosto de 2017 e durou uma semana, que infelizmente passou rápido de mais. Na altura tinha 17 anos e era a primeira vez que estava a viajar sozinha para outro país, penso que a minha mãe estava mais nervosa do que eu mas após implorar consegui que ela me deixasse ir.

Contudo não havia muita razão para preocupações, foram-me dadas todas as indicações sobre o que eu devia fazer quando chegasse ao país até que me foram buscar a uma estação de comboio. Durante o campo estive a ajudar a organizar um evento, uma caminhada cujos lucros revertem para a organização Oxfam que os utiliza para combater a pobreza e ajudar os mais necessitados.

Neste campo foi necessário movimentarmo-nos de instalações frequentemente por isso, para quem quiser participar neste campo, recomendo que levem bagagem fácil de transportar. Durante a semana tivemos tempo de trabalho mas também tempo para conhecer os outros voluntários, conheci pessoas de diversas nacionalidades e até partilhámos doces e jogos típicos dos países (levados pelos participantes).

Apesar de todo o receio inicial, foi das melhores experiências que já tive e tenho consciência de que amadureci durante o campo. Para quem está indeciso em fazer voluntariado fora do país, apenas tenho a dizer que recomendo. 😊

A experiência do Pedro na Boavista

01 Janeiro 2018 – Portugal
As dúvidas começam a surgir. Sempre quis fazer voluntariado com crianças mas será que estou preparado? Nunca tive experiência com crianças o que será que lhes vou ensinar? A cidade é segura? E se ficar doente? E se não me adaptar? E se…

02-31 Janeiro 2018 – Ilha Boavista
Todas as duvidas anteriores desapareceram mal o avião aterrou na ilha. Foi como se tratasse de um “clique” e tudo passou a fazer sentido. Todas as inseguranças anteriores deram lugar a uma ansiedade e motivação como poucas vezes se sente na vida.

Mas vamos por partes. Não vou falar da beleza da ilha, das praias maravilhosas, do mar brilhante e do por-do-sol fantástico. Nem vou falar de como a ilha é pobre, das desigualdades sociais que existem, da inexistência de saneamento no bairro aliados à prostituição e crime existentes. Estas informações encontramos todos na Internet e nem precisamos de nos levantar da frente do computador não é? Bem, vamos então falar do que não se transmite através da navegação online.

Chegou o primeiro dia de “infantário”. Ao aproximarmo-nos ouvimos o barulho de dezenas de crianças no recreio. Para chegar até lá temos uns curtos degraus para subir. Coragem, é para isso que aqui estamos não é?
Bem, o que aconteceu nos minutos a seguir não é possível descrever através de palavras, vídeos ou imagens. Cada um de nós foi engolido num mar de abraços, beijos, sorrisos e gargalhadas. Bastou baixarmo-nos durante uns breves segundos e já tínhamos crianças a “trepar” por cima de nós para subirem para as nossas cavalitas. Tudo era alvo de brincadeira, desde os pelos das pernas, ao cabelo, passando pelos piercings e tatuagens. Mas de onde vem tanta felicidade se estas crianças mal têm o que comer, estão cobertas de feridas (desde feridas de rua até violência familiar) e não têm o mínimo de saneamento exigível?!

É hora de lanchar. Há crianças que trouxeram alguma comida de casa, outras nem por isso. Bem esta na hora de irmos à cozinha buscar o leite que sobrou da manhã para darmos às crianças que não têm o que comer certo?
Errado! Alguém teve a sorte te ter na mochila 2 iogurtes? Vai comer 1 e guardar o outro para a noite talvez … ou simplesmente por iniciativa própria e sem praticamente ninguém se aperceber vai ter com o colega que não tem lanche e oferece-lhe o iogurte. Bem talvez seja um caso isolado pensei eu… olho para o lado e não podia estar mais enganado. Dezenas de crianças a partilhar o lanche com as que não tinham nada… mais um momento que não se descreve nem se encontra em testemunhos, blogs ou fotos!


Mas afinal venho aqui para aprender ou ensinar? Como é que miúdos dos 2 aos 5 anos que vivem na miséria, já aprenderam os valores mais importantes da vida como a partilha, a amizade, a ajuda ao próximo e a felicidade genuína?

A partir daí tudo o que tentei ensinar passou a ser secundário, pois as bases e os principais valores já estão lá. Obviamente que o “a e i o u”, as cores, os números, as regras da boa educação como por a mão antes de falar, pedir licença para ir à casa de banho etc são fundamentais sem duvida. Mas os principais valores da vida… esses estão todos lá!

Mas não nos vamos iludir nem ser hipócritas. Todas as crianças com quem brinquei e me abraçaram vezes sem conta durante todos os dias em que lá estive vão ser postas à prova dentro de poucos anos. Toda a felicidade pura e ajuda ao próximo vai ser colocada em jogo quando surgirem as propostas para a “má vida”. E não vai ser preciso esperar muitos anos…


Custa sentir que as meninas que peguei ao colo podem cair na rede de prostituição. Custa saber que os meninos com quem fiz imensas brincadeiras podem levar uma vida de crime e/ou droga. Custa ainda mais saber que ao acontecer isto, só prova que a vida não dá a mesma oportunidade a todos, pois quem esteve lá pode garantir que até aos 5 anos não havia maldade existente em nenhuma daquelas crianças.

Mas estas crianças são guerreiras. Estão habituadas a lutar desde o dia que nasceram. Podem cair durante o recreio, fazer “galos”, sangrar que não choram. Pelo contrário, ainda ficam todos orgulhosos quando a nossa enfermeira voluntária lhes colocava um penso e vinham a nossa beira mostrar como se de um troféu se tratasse. Soubessem eles que o “ti-tio Pedro” que para eles era muito forte pois “mandava-os ao ar” com 5 anos mal visse sangue começava a chorar…

Nunca foi o meu objetivo mudar a mentalidade de Cabo Verde em apenas 1 mês. E se for o vosso, aconselho que retirem essa expectativa. Apenas tentem dar o vosso melhor e ajudar o máximo que vocês que conseguirem… apenas o facto de já estarem la é um motivo de sorrisos para dezenas de crianças. E acreditem, não vão conseguir contar todas as vezes que fazem sorrir as crianças por dia. Vale uma aposta?

Sinceramente nem todas aquelas crianças têm que conseguir estudar ate ao 12º ano, ir para a universidade, ou serem doutores, advogados, engenheiros etc. Se com as dificuldades da vida que vão ter, conseguirem conservar os pilares que já adquiriram para mim são uns heróis.

E saber que apenas por um breve instante posso ter “ajudado” a conservar esses pilares faz-me dormir bem! Por outro lado saber que pode não ter sido suficiente faz-me sentir inútil e perceber como a vida é injusta … mas bem eu confio neles!

#maywemeetagain

A experiência da Cláudia na Palestina

Naquelas duas semanas no West Bank, houve imensos confrontos entre israelitas e palestinianos. Os piores em Jerusalém, mas também em Belém, Hebron, Gaza. Sempre Gaza. Não mencionei nunca nenhum para não preocupar corações distantes e, provavelmente, esses corações também não ouviram falar deles porque não mereceram destaque nas notícias.

Naquelas duas semanas estive em Jerusalém, em Belém e em Hebron e, felizmente, não assisti a qualquer confronto porque não calhou. Mas assisti a demasiados atos de violência. Vivi rodeada de arames farpados capazes de romper gargantas de revolta. Ouvi histórias de medo em vozes infantis. Vi os drones e os soldados armados até aos dentes com armas apontadas a cada passo em falso. Acordei de manhã bem cedo com o som das máquinas que constroem a pressão dos bairros em redor. Percorri todos os dias um novo caminho, contornei um novo buraco, saltei um novo calhau no meio da estrada bloqueada. Contei cada gota de água que gastei porque a única que há vem da chuva e aqui quase não chove. Vi um pôr do sol a cada dia mais bonito que no dia anterior a tapar de luz a ocupação de cimento e check points. Pus as mãos num muro alto e frio que divide famílias. Bebi chá servido por quem continua a abrir lojas em ruas desertas e proibidas todas as manhãs. Baloicei-me empurrada pelo vento que se ouve naquele lugar de paz e resiliência. Corri caminhos onde pequenas árvores tentam ocupar as raízes das centenas que dali foram arrancadas. Cantei muito alto para que a alegria daquela música fizesse eco lá longe. Tremi com o som das sirenes e gelei com esta guerra fria que se respira no West Bank.

Sorri com quem me sorriu tão sincero, com tanta esperança de que tudo vai ser diferente um dia. Abracei braços que não baixam, e senti-lhes a força e a atitude pacífica de todos os dias para que aqueles lugares não se venham a tornar mais uma Faixa de Gaza. Era tão fácil. Foram 15 dias. Para eles é a vida toda.

E ao fim de duas semanas é a sinceridade e a pureza delas que me desarmam. Elas que, a cada dia, procuram as caras que o instinto já reconhece e as faz sentir mais seguras. Elas que correm para ti porque é ao teu lado que se sentem estrelas brilhantes. Mostro-lhes sempre que são. E são elas que me abraçam e dizem como gostam de mim, porque gostar é assim simples. Gostar são as brincadeiras, os abraços, as histórias, a curiosidade tão inocente, a beleza que vêem nos pormenores, a confiança que cresce todos os dias um bocadinho. Gostar é mostrar sem medo. São as horas que perdem a tentar fazer-me falar árabe perfeitamente, as jóias com que me enfeitam, os desenhos que levo, os cuidados que nos confiam. Gostar é ter saudades e são as lágrimas espontâneas, confusas entre a euforia que festejamos e sentimos por igual.

São elas, as crianças, o mais bonito e o motivo para vir sempre. O motivo para ir sempre melhor. Ao fim de duas semanas tão duras e tão intensas, partir é acreditar que o futuro vai cuidar delas e dos seus sonhos por mim. Que vai fazer deste gostar uma liberdade mais completa.

A experiência da Maria Inês na Tailândia

De Portugal à Tailândia – a rotina de uma ilha

 

Fora da rede, um barco transporta 12 novos voluntários, para a terra onde o tempo pára e a beleza das pequenas coisas prevalece. São 7 horas e desperto para uma nova realidade para encontrar o desconhecido, um paraíso no meio do Índico que mascara uma vivência dura sobre o pacífico isolamento.

O dia começa na escola com o tilintar do sino patriota, somos surpreendidos por um grupo de crianças dos 3 aos 15 e ambos tentamos uma tímida aproximação. A rotina da religião muçulmana, pausada pelas horas da refeição e da aprendizagem.

 

A primeira semana constrói-se sob o ritmo do dia-a-dia, o beber da cultura de uma comunidade em que nada se perde e tudo se transforma. Cada objecto não é apenas uma forma física, representa algo muito maior, um sapato não é um sapato, um sorriso não é o mesmo se não o desfrutarmos com as pessoas a quem cuidamos e com as quais aprendemos.

O balanço da sala de aula e das lições de inglês, começa a tomar forma. Ao princípio foi complicado conquistar a confiança dos membros da escola, contornar os momentos de impotência perante situações nas quais os professores não dão o devido acompanhamento às crianças e por vezes não facilitam a nossa intervenção. A barreira linguística que dificulta o confronto com outras maneiras de estar e lidar com os problemas sociais e ambientais.

A relação entre o grupo de voluntários foi feita de altos e baixos, devido às diferentes noções de entrega que cada membro tinha para com o projecto. O que importa retirar é a simbiose da experiência, o coabitar com o outro e o respeito pela tradição. A partilha no ensino e na aprendizagem para que no momento de entrega à comunidade, todas as dúvidas e inquietudes se reduzam a pó perante a simplicidade dos sorrisos e o contribuir para a evolução das crianças.

 

Compreender um sistema de ensino com muitas falhas mas ter a capacidade para acreditar na mudança de atitudes e perspectivas, a importância que duas semanas têm e podem ecoar para que muitos momentos como este se possam repetir. Por mais que o trabalho feito seja importante na mente dos voluntários que regressam , nunca vai ser suficiente para quem fica.

Todos os pedaços da ilha me lembram saudade, desde a beleza das pequenas coisas, aos momentos de caricatos de convivência com a fauna e a flora, entre folhas de côco e dragões do komodo. Os cheiros coloridos, o arroz três vezes por dia, as canções em inglês, som da vida em cada gargalhada no recreio.

Por estas razões e muitas mais um grande, Kop-Kun-Kah (obrigada)

– A-NGHUN, A-PENG, NOYNA, MIX, FAHANA

YEMMA, PAUSSAN, KAMPEEH, ATUI, Daniela, Tatiana, MOOI e tantos outros…

A experiência da Maria no Tarrafal

A vossa experiência são vocês que a vão fazer.” – ouvi a Marta dizer, na reunião de voluntários que fizemos antes de toda esta aventura começar. Desconfiei que fosse verdade, mas nunca imaginei que esta frase pudesse resumir tão bem os dois meses que passei em Cabo Verde. Menos imaginei que que esta viria a ser uma das lições mais importantes que já aprendi.

Antes, vivia como a maioria de nós: a fazer o que é suposto; o esperado. Vivi sempre com o amor da minha família. Fiz grandes amigos. Apaixonei-me algumas vezes. Fui sempre feliz, ou pelo menos achei que sim. Tive a sorte de poder escolher o que queria estudar e onde queria estudar. Tive boas notas. 23 anos, licenciatura e mestrado concluídos com bom aproveitamento. Indicadores de um futuro profissional risonho.  Sabia que estava a correr muito… mas estaria a correr no caminho certo? Esta pergunta não parava de assaltar a minha mente. E por isso decidi procurar respostas. Conhecer-me melhor. E conhecer melhor o mundo à minha volta.

Saí do suposto. Parei de olhar para o que estariam à espera que eu fizesse e decidi olhar para o que gostava eu de fazer. Acredito que só nos conhecemos a nós mesmos do outro lado do medo, e por isso, fiz as malas e decidi sair da minha zona de conforto. Porque é aí que a vida começa.

Escolhi este projeto depois de ter percebido a diversidade de atividades que esta instituição procura oferecer às crianças do Tarrafal. A forma apelativa como a informação se apresentava no website e a visão da instituição em relação à educação foram os grandes motivadores da minha escolha. 15 dias depois de enviar a minha candidatura, fui selecionada. Um misto de felicidade extrema e um pânico desmedido começaram a assaltar os meus dias. Milhares de perguntas e dúvidas sobre como tudo se processaria ou quais os passos a seguir. Não se preocupem demasiado! A Inês e Marta vão ser as vossas mães ao longo de todo o processo. E como mães carinhosas que são não vão deixar que se sintam sozinhos(as) desde o primeiro minuto até ao fim do vosso tempo de voluntariado. É mesmo de sublinhar a simpatia, a preocupação e o acompanhamento da equipa Para Onde. Inigualáveis.

Os dias passaram calmos e tranquilos até chegar o dia da partida. Faltou o ar. Os olhos incharam. As perguntas gelaram a minha mente entre os corredores do aeroporto.. “Não conheço ninguém, não sei como são as pessoas lá, não sei o que posso comer, mosquitos, doenças e repelentes. Bahhhh. “E se eu não fosse?” – Mentia se dissesse não o ter pensado. “Mas afinal o que é que eu faço sozinha dentro de um avião a caminho de África?” – escrevi no meu diário, já dentro do avião.

Mesmo passados dois meses, continua a ser muito difícil descrever o que encontrei. Procuro palavras. Não encontro. Lá onde as casas são cimento por acabar de construir, há mais cores do que as que alguma vez vi. Falando de condições, não há internet, água potável, televisão nem carro. E a única pressa que há é a de ser feliz.

A minha experiência neste projeto não foi sempre boa, ao contrário do que se possa pensar. Dias bipolares, de rir até doer a barriga e dias cinzentos, com nós no estômago e algumas lágrimas. Existem uma série de constrangimentos que dificultaram desde o início o meu trabalho com as crianças. Em primeiro lugar, existe uma visível desorganização e desacordo em relação aos ideais de educação entre os funcionários do projeto, o que levou a que nem sempre existissem respostas coerentes e homogéneas para os problemas das crianças. Aqui é muito fácil encontrar crianças que sofrem de maus tratos psicológicos e físicos em casa e na escola, crianças que são negligenciadas, batidas, abandonadas, abusadas. A necessidade de um Psicólogo(a) é por estas e outras razões evidente e muito urgente e apesar de eu ter levado comigo algumas ideias e atividades propostas nem sempre foi fácil colocá-las em prática, uma vez que tinha que ficar a maior parte do tempo na Sala de Artes a desenvolver atividades artísticas com as crianças. O trabalho na sala de Artes foi muito cansativo e difícil no início, mas muito recompensador depois de as voluntárias se unirem para tentar que as crianças respeitassem algumas regras básicas de convivência, que até então não eram utilizadas aqui. Falando de coisas menos boas, é bem provável que a frustração venha a fazer parte dos teus dias, se iniciares este caminho. Ver os pikinotes chegarem com as marcas da pancada no corpo e com um sorriso (sempre com um sorriso) na cara é algo muito difícil de digerir. Eu senti-me impotente e de mãos e pés atados muitas vezes.

Sem saber o que haveria a fazer, percebi que as mudanças, se existirem, são milimétricas. Mas por isso não são menos importantes. Fomos devagar, consegui pôr os meus pikinotes a falarem sobre o que os deixa felizes e tristes, quando se zangam e de que têm medo. Uma vitória que faz valer cada segundo que passei no Tarrafal.

Estes meninos têm muito menos razões para sorrir que tu, e, no entanto, são mestres na arte da felicidade. Limpei as lágrimas a alguns, e eles ensinaram-me a viver com o coração. São eles que vão fazer valer cada segundo que aqui estiveres, cada noite mal dormida, cada dia em que vais sair do projeto sujo(a) e a cheirar mal. São eles, e só eles, os mestres aqui. São eles que te vão guiar enquanto cá estás. São eles que te vão fazer rir até doer a barriga. São eles que te vão ensinar a viver sem nunca perder a esperança. Serão eles o porquê de nunca conseguires desistir de nada, mesmo quando à tua volta tudo puxa para que o faças. Serão eles o motivo do teu cansaço e das tuas lágrimas. Mas serão eles também, o teu maior motivo de orgulho, a partir de agora.

A agradecer, agradeço-lhes a eles. O olhar da Kenyra e o sorriso do Leo. Os beijinhos da Darlene. Aas mãos dadas com a Diva e as gargalhadas com a Vanessa. O carinho da Marcília e a energia da Larissa. A esperança do Oliver e o amor da Taíssa.

Os meus pikinotes, levo-os a todos tatuados na minha alma, um a um. Têm que inventar mais cores lá onde eu moro para que as pessoas os consigam imaginar, porque todas as cores do arco íris nunca hão de chegar para os descrever. Por mais que eu tente. Parte do amor que lhes tenho vai comigo. O que resta fica com eles, na esperança que o plantem como uma pequena semente que gostava que crescesse tão alto como as árvores que os vejo subir todos os dias.

A experiência da Inês em Arraial d’Ajuda

Este é um testemunho sobre quando a vida nos troca as voltas, quando nos tira e nos devolve.

Começo por me apresentar, sou a Inês, tenho 25 anos, e estudei Psicologia Social e das Organizações. Trabalhei quase três anos nos Recursos Humanos de uma consultora, e senti que, a dada altura da minha vida precisava de mudar. Então mudei. Foram tempos de luta por sonhos e objetivos perdidos no tempo.

Tomamos uma decisão, o momento de preparar a mala é a confirmação da nossa decisão e depois começa a magia. Comecei esta aventura desprovida de expectativas mas com uma enorme ânsia de viver e criar impacto numa realidade que não conhecia.

Ao longo da minha experiência em Arraial d’Ajuda, escrevi sobre todos os dias que lá vivi. Faz hoje uma semana que cheguei. Não tenho conseguido expressar o que tenho vivido porque, de facto, acho que é indescritível. Em uma semana, a sensação já era de transbordar emoções difíceis de exprimir.

Resumir estes 2 meses em palavras soa-me incrivelmente minúsculo e redutor. Não que as palavras o sejam mas porque grandes experiências e aventuras não cabem dentro delas. Como explicar aquela genuinidade e simplicidade? Uma felicidade fácil que só se sente e não se explica. E por outro lado, como explicar a densidade de problemáticas ali presentes? Uma pobreza e falta de condições derivada de um sistema corrupto e despreocupado.

É como ter numa mão a bondade e noutra mão a crueldade. Uma brutal desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar de outra forma senão pela corrupção ou atividades ilegais. É sentir um Brasil inquieto, secreto. Com lados paralelos e uma injustiça social bem vincada.

No meio desta disparidade existe a Associação Filhos do Céu. A AFC faz um trabalho incrível no Bairro de S. Pedro, e poder pertencer a esta família foi para mim um privilégio. Desde a alimentação de todas as crianças, ao desenvolvimento de atividades educativas. Naquela Associação são transmitidos valores e poder. Poder para a mudança do Mundo aos poucos, começando pela nossa família, a nossa escola, o nosso bairro, a nossa região, o nosso país. É incutido nas crianças a importância do pensamento crítico que um dia, acredito com certezas, conduz à mudança.

As crianças e jovens que frequentam a AFC são carinhosas, de riso fácil e ensinam-nos muito mais do que algum dia imaginamos quando partimos numa aventura deste género. Posso dizer com certeza que criei ali laços para a vida, que nunca esquecerei aqueles olhares e sorrisos. Os abraços e o amor que dei e recebi.

A família que nos acolheu revelou-se um apoio fundamental neste percurso. Para além de serem pessoas incríveis, ajudaram-me em muitas questões de vida que tinha. Obrigada por todas as práticas de yoga e meditação. Pela oportunidade de saborear os pratos vegan da Bárbara, poder ler os livros do Max ou de dançar funk com a India. Por ter aprendido a conviver melhor com a natureza e com os recursos que ela nos oferece.

Trago comigo todas aquelas cores garridas – da Praça da Igreja; os cheiros – dos caminhos de terra batida molhada; os sabores – especialmente do acarajé; as músicas – de funk, samba, forró…; as danças – aquelas aulas de Afro e Capoeira. Os sorrisos, a serenidade, as gargalhadas, os olhares, os abraços, e uma vontade de voltar imensa.

Não poderia estar mais grata. Obrigada à Inês e Marta do Para Onde, pois sem elas não teria seria possível. Às minhas queridas companheiras Alice e Andreia. À AFC. À Bárbara, Max e India. Agradeço o apoio de todos os que me amam, amigos, família e dos que passaram por mim neste caminho e deixaram um pouco de si, levando um pouco de mim.

Esta experiência foi a certeza de que quando damos, recebemos a dobrar. Acredito que uma gota num oceano é de extrema importância. Por isso, se algum dia alguém te disser que não podes mudar o Mundo, não acredites!

Inês Nunes

A experiência da Tatiana na Tailândia

Hoje abandono mais uma aventura. Uma aventura diferente. Ainda não me fui embora do país, mas já sonho voltar para aquela ilha.

Estou diferente. Nunca pensei querer deixar tudo só para ficar um pouco mais; e nunca mais irei ver a palavra Felicidade da mesma forma…

Todas as crianças com o seu brilho único e especial: desde a Apeng ao Kamphee, passando pelo Abdul e o Akim, seguindo para a dançarina Fahana e para a Yemma de franja, pela pequena Angun, o Mix e o Ko-Ta, e claro, pelo Pao-San. Não esquecendo da mimada Tui!!

Mais crescidos, vou lembrar-me do dia em que ensinei a escrever as cores à Leila, a Fittah, ao Assan que não achava muita piada a estar sentado, ao Arun, à Area, Akim e Sim. Ainda os mais velhos (os quais eu tive menos contacto), recordo-me da Dogmai a tentar descrever o ambiente à sua volta.

Mas especialmente levo comigo a minha artista Chompu e o meu cabeleireiro Lui, que marcaram estas minhas semanas.

Iniciei a jornada com uma sala coberta de aranhas, baratas, lagartos, formigas e um rato, passei a descobrir a casa de banho e por fim o meu chuveiro improvisado. Fiquei… ? Não sei bem como descrever!!

No entanto tudo foi esquecido quando já na manhã seguinte fui acordada por risinhos e gargalhadas vindas do lado de fora, e ainda mais quando conhecemos as pestinhas pela primeira vez, numa visita guiada (por eles) à ilha.

A vida é tão simples. Nunca ninguém vai sentir tanta felicidade só por saltar por um caminho insuflável até à praia, nem nunca ninguém vai perceber que uma verdadeira cascata é realmente um tubo coberto de folhagem com um fio de água a correr por ele. E é claro, ninguém vai entender a piada de fazer um círculo à volta de um escaravelho para tentar acertar-lhe com uma caneta.

Os primeiros três dias resumiram-se a jogos educativos durante a tarde, onde percebi que a Chompu e o Lui iam ser a parte sombreada da minha história (Nunca mais tive descanso quando eles andavam por perto).

Sempre soube que a língua ia ser um entrave; mas acreditem que quando o ser humano quer, ele arranja maneira de ser compreendido.

Terminámos a volta dos jogos educativos para finalmente podermos passar para as aulas.

 

Este foi outro dos momentos que mais me marcou, porque nunca vi tanta vontade, tanto carinho, tanta felicidade e brincadeira junta. Gratificante, no mínimo!!!!

Todos os dias as crianças usam uniformes diferentes. No último dia, fui acompanhada pelas minhas duas flores de fato de treino laranja numa última tarefa em grupo (limpeza da praia), para terminarmos na brincadeira (mais rodas, mais corridas, mais tentativas de me pendurar nos postes com eles). Nunca me senti tão bem acolhida fora de casa… nem nunca vi uma felicidade tão fácil de se atingir.

Para uma despedida, fizemos uma pequena festa onde jantamos todos juntos e fizemos coreografias de músicas. Não consigo descrever o que senti quando vi uma boneca chinesa a correr na minha direção, juntamente com uma voz a chamar o meu nome. Nunca vi dançarinos tão lindos..

A dedicação e diversão dessa noite voltam comigo para casa: crianças felizes, a rir e a dançar com tudo e todos..

Volto uma pessoa mais livre e muito mais sortuda. Trago comigo todos, um por um, mas num lugar especial guardo as minhas duas estrelinhas constantemente a gritaram pelo meu nome..

Nunca ninguém irá entender o que é ser verdadeiramente feliz… com tão pouco!!