A experiência do Miguel no Tarrafal, Cabo Verde

O meu nome é Miguel Ramos, e aos 19 anos participei, durante 1 mês, numa ação de voluntariado em Cabo Verde, no Tarrafal, que tomei conhecimento através do “Para Onde?”.

O feedback que tiro desta experiência foi muito positivo, e é de salientar não só aquilo que pude ensinar, mas, principalmente, aquilo que aprendi num país e numa cultura completamente diferentes. As paisagens, a comida, o tempo que insiste em não passar, mas acima de tudo as pessoas, as crianças, e o valor que elas dão às coisas mais simples da vida são aquilo que vai deixar mais saudade desta experiência incrível.

Na minha opinião, o Tarrafal devido à sua segurança e às amizades que lá se fazem é um sítio indicado para se realizar esta missão. Espero um dia lá voltar e recomendo a todos que o façam.

Por fim, agradeço muito ao “Para Onde?” pela viagem que me proporcionou.

A experiência da Ana Sofia na Finlândia

Passou um mês desde que regressei do meu campo de voluntariado em Helsínquia, na Finlândia. O desafio começou mesmo antes de partir: o nervosismo de viajar sozinha pela primeira vez, de estar num país diferente, de não conhecer os outros voluntários… Todos estes “medos” foram dissipados assim que entrei no avião e me apercebi que não poderia ter tomado uma melhor decisão – ir, arriscar. Ao chegar, senti como se fossemos parte de uma família, onde todos partilhávamos, bem, tudo!

O nosso campo (“Food not Bombs”) consistia na promoção da paz mundial através da reutilização de “waste food” que recolhíamos de supermercados todas as manhãs, cozinhávamos e distribuíamos gratuitamente em eventos organizados por toda a cidade. Surpreendeu-me a realidade que não esperava, tanta gente à espera de comida, tanta gente com necessidade de receber uma refeição gratuita. Os nossos eventos chegaram a alimentar 200 pessoas! Aliado a isto, pude ainda participar em movimentos de apoio a refugiados que decorriam pela cidade. Para além de tudo, restou ainda muito tempo para explorar a cidade e conhecer sítios incríveis! Esta experiência mudou-me: a minha forma de encarar o mundo, de lidar com situações inesperadas e de me adaptar a elas, de me relacionar com pessoas completamente diferentes… A caixa de boas memórias transborda!

O apoio e entusiasmo​​​​ que senti por parte da “Para Onde?” durante todo o processo fez-me sentir confortável e com ainda mais vontade de viajar e conhecer o Mundo dando um bocadinho de mim e contribuindo para o transformar num lugar melhor! Espero ansiosamente pela próxima aventura! Obrigada por tudo!

A experiência da Mariana na Croácia

Numa ilha do Mar Adriático, em Supetar, Brač na Croácia, tive a minha primeira experiência de voluntariado internacional. Apesar de ter sido de apenas 10 dias, não podia ter sido melhor. No total éramos 7 voluntários, de um pouco por toda a Europa, e com a mesma vontade de fazer outras pessoas felizes. A nossa tarefa foi de organizar atividades lúdicas ou simplesmente divertidas para que crianças desfavorecidas da instituição em que vivem pudessem ter um verão diferente e inesquecível.

Todos os dias íamos à praia, ensinámos as crianças a nadar e, na hora de secar, jogávamos voleibol, fazíamos pequenas competições, pintávamos pedras ou fazíamos colares e pulseiras, entre muitas outras coisas. Todos os dias eram diferentes e a diversão autêntica.

Ao fim do dia, após o jantar, tínhamos outras atividades, que tentávamos desenvolver durante o dia. Organizamos um Peddy-Paper, uma caça ao tesouro, aulas de inglês, todos fizemos uma apresentação sobre o nosso país de origem assim como aulas de dança.

A dança, ensinada por mim, tinha o principal objetivo de dar-lhes a aprender uma coreografia e, no final do workcamp, apresentá-la na praia, junto de todos. Para minha surpresa, houve um grande envolvimento de todos, quer rapazes, quer raparigas, e de todas as idades.

Quando chegou a hora de apresentar, entre nervosismos e ansiedade, todos saímos satisfeitos. Foi incrível.

A equipa de voluntários foi fenomenal e estou muito grata por os ter conhecido a todos. Facilmente deixamos de ser conhecidos e passamos a ser amigos. Acredito mesmo que os levo para a vida e que um dia, quando nos encontrarmos outra vez, tudo estará onde deixamos.

Num abrir e fechar de olhos, chegamos ao último dia. A despedida foi difícil e muito emocionante. É impossível conter as lágrimas quando todas as crianças estão a chorar e a abraçar-nos sem parar de repetir “hvala, thank you”. Uma experiência que nunca vou esquecer, uma das melhores da minha vida. Mesmo com pouco, sei que fiz a diferença na vida de alguém e isso encheu-me o coração.

 

A experiência da Marisa na Holanda

Embarquei nesta missão a 22 de Julho de 2017, mas já a esperava há alguns meses. É difícil expressar o que sinto. Por um lado, um imenso vazio, como que uma ausência permanente, por outro, cheia de boas memórias que me fazem concluir que não cabe em mim felicidade maior do que alguma vez ter vivido esta experiência.

Este foi o meu primeiro campo de voluntariado e não poderia estar mais grata pelo projeto que escolhi e pela excelente equipa de voluntários que Deus pôs no meu caminho. Foram 2 semanas em Emmen, Holanda, num centro de acolhimento de refugiados. Não, não eram refugiados sírios. E sim, eu também desconhecia esta realidade até me deparar com ela. Famílias de vários locais do Mundo tais como o Kongo, Nigéria, Iraque, entre outros, esperam ali pelo dia em que voltarão para os seus países ou em que terão autorização para poder ficar na Holanda pois a maioria tem filhos já ali nascidos há cerca de 10 anos. Poucas sabiam a sua origem, apenas sabiam que os pais não queriam voltar para casa, por exemplo porque “lá não há comida”, como dizia a Debby que nos apoiou de forma incansável e responsável no que respeita à tradução, pois falava corretamente inglês.

As horas com as crianças passavam a correr e eram tão intensas que as chamávamos de zombies quando tentávamos almoçar e tínhamos as janelas cobertas de meninos e meninas à nossa espera.

Acampados pertinho do centro de acolhimento, deslocávamo-nos de bicicleta para todo o lado. O dia começava por volta das 08h30 com o pequeno almoço, seguido de atividades com as crianças até cerca das 15h30 e terminava por volta das 22h00, hora a que concluíamos as atividades com a equipa de voluntários e maioritariamente nos deitávamos, exaustos. Pelo meio tratávamos de idealizar e preparar as refeições bem como pensar na atividade do dia seguinte, havendo também tempo para descontrair em grupo e passear na cidade.

Dias repletos de aprendizagem, de partilha, de muitos miminhos e de muita diversão. Já disse miminhos? No que me diz respeito, esta foi a parte na qual mais me envolvi e o melhor é que eles deixavam. Muitos beijinhos, centenas de abraços e milhares de carinhosos olhares cruzados. O Joseph, um menino de 3 anos que batizei de Koala por me agarrar fervorosamente, é um dos meninos que jamais esquecerei e pelo qual tenho um carinho inexplicável. Criamos empatia logo nos primeiros dias quando começamos a jogar ao “Cucu”. Foi incrível como comunicámos tanto sem realmente falar!

Quanto à equipa de voluntários, esta foi claramente uma grande bênção! Os melhores companheiros que poderia ter tido, na sua maioria amigos que levo para a vida. Muita troca de experiências, muito trabalho de equipa, muita compreensão e a cima de tudo muita cumplicidade com alguém que conhecia há meia dúzia de dias. Espero por eles em breve em Portugal.

Tentar deixar o Mundo um pouco melhor do que o encontrei é um lema de vida que desde cedo me acompanha e que todos os dias tento concretizar. Desta vez foi em Emmen mas quero muito que não fique por aqui!

 

 

A experiência do Miguel na Sérvia

Este foi o meu primeiro campo de voluntariado internacional. Decidi então ir 2 semanas para uma vila chamada Sremski Karlovci no meio da Sérvia, e este foi um país que me surpreendeu muitíssimo.

A nossa tarefa principal consistia em cortar e apanhar troncos e ramos do Parque Natural Kovilj–Petrovaradin de forma a limpar a área e criar caminhos pedestres. Tudo isto com o objetivo final de desenvolver a oferta de ecoturismo de Sremski Karlovci. sem dúvida, um trabalho desafiante também devido ao facto de a hora para acordar ser todos os dias às 5.30h.

Ficámos alojados no Ecocentro da vila com outro campo de voluntariado internacional, o que originou uma troca de culturas e ideias ainda mais diversificada. Ao todo estavam 10 nacionalidades representadas! Em vários temas de conversa era fácil identificar os diferentes ideias e pontos de vista de cada cultura e o saber discutir e aceitar estas diferenças é algo de muito positivo que trago destas semanas.

Almoçávamos sempre num restaurante da vila, e posso dizer que a comida sérvia é bem saborosa e só à base de carne, e ao jantar era atribuída a tarefa a alguns voluntários de o preparem, tal como acontecia com a limpeza do Ecocentro.

E este foi um campo de voluntariado muito completo, pelo que, além de vários jogos que fazíamos todos os dias, nos ofereceram vários Workshops sobre Desenvolvimento Sustentável e a fauna e flora da área, uma visita à cidade de Novi Sad, praia numa ilha no meio do rio Danúbio e até uma prova de vinhos da região!

No final organizámos algumas atividades de forma a dar a conhecer o nosso projeto aos cidadãos de Sremski, e nesta imagem estávamos a andar pela vila a chamar todas as pessoas que víssemos. No quadro está escrito “Juntem-se a nós no Jardim de vila!”.

Foi, seguramente, uma experiência que não vou esquecer e que superou todas as expectativas que tinha!

A experiência da Inês em Itália

Faz hoje cinco dias que deixei Pratoni del Vivaro e é o primeiro em que me proponho escrever sem lágrimas e letra tremida sobre tudo aquilo que experienciei durante duas semanas o que, ainda que paradoxalmente, é tão pouco mas representa tanto… tanto em significado, em carinho, em humor e em comida!

Choro porque sinto saudades todos os dias. Saudades da “luta livre” do Massimiliano, do “Aiuto” do Abate, da força do Simone, do “Gianni” a cada cinco minutos, da preocupação do Valerio, da pergunta meteorológica do Alpino, das discussões do Dino, da tempestividade do Gianluca, do barafustar do Francesco, de um Marco e um Alessio sempre prontos a jogar cartas e até do “non si rutta” do Simone.

Choro porque me faz falta o odor a “pasta, cece e pomodoro” e a presença dos cavalos. Faz-me falta o apoio da Claudia, dançar com a Elena, discutir com o Melo e desafiar o Marco na cozinha. Faz-me falta nadar no lago com a Lola e a Matilda, o espírito livre do Islam, a disponibilidade do Antonio, a boa disposição (não pela manhã!) do Paolo, a ternura do Daniele, o silêncio do Lourenço e os olhos da Paola… mas também as explicações da Clara, o abraço da Valeria, o sorriso da Barbara, a amizade do Fabio e o “buongiorno” do outro Fabio… e de uma Marta sempre lá, sempre presente, sempre compreensiva, sempre nossa – sempre mãe.

Choro porque já não preciso de arregalar os olhos à espera que as palavras se decifrem, de fazer experiências artísticas ou dar uma “passeggiata in el boschi”, já não preciso de traduzir italiano para inglês para um Sinisa, ou de cozinhar com uma Kseniya… já não desabafo com uma Giorgia ou falo sem parar com uma Elisa.

Choro, incrédula, com tudo o que consegui construir com eles, sem filtros, sem convenções – só eu e eles, só eu e o que era, o que sou e o que represento. E mesmo assim, senti-me em família, senti-me em casa, como nem sempre me sinto em Portugal e isso é tão grande, tão importante, diz-me tanto… que me diluo em lágrimas, sem saber o que fazer com isto, tão intimo e tão do mundo. Tão meu e deles mas também tão vosso (Para Onde).

Acreditem quando escrevo que nos dias que se seguiram não vi em Roma nada grande o suficiente para me deixar boquiaberta ou sem palavras como o que vivi em Ciampacavallo, nem mesmo um Panteão, uma Basilica di San Pietro ou uma Basilica di Santo Stefano Rotondo al Celio.

Por isso vai! Vai sem pensar! Vai sem mãos e sem pés… atira-te de cabeça porque o voluntariado é uma experiência sem largura ou comprimento, sem tamanho.

Grazie mille per tutto (e Buon appetito!)

A experiência da Marta na Alemanha

Life-changing é o que define esta experiência. Neste campo de voluntariado em Berlim explorámos com especial enfoque os campos de trabalho forçado, uma realidade que muitos desconhecem, já que os campos de concentração são muitas vezes os únicos a ser abordados. O projeto foi desenvolvimento num antigo campo de trabalho forçado, que hoje está transformado num espaço documental/ memorial, com exposições sobre a vida no mesmo, biografias de pessoas que por lá passaram etc. Acompanhados de uma historiadora, percorremos dezenas de lugares associados a toda esta questão, em diferentes pontos da cidade, lemos biografias, visualizamos documentários da temática, tiramos fotografias nos diferentes locais e acima de tudo: debatemos. O debate foi parte essencial, havendo sempre lugar para conhecer e compreender novas perspectivas. Em conjunto com uma fotógrafa profissional, tivemos vários workshops de fotografia, que nos permitiram aperfeiçoar as nossas técnicas e no final do campo, criar uma exposição com as nossas melhores fotografias e reflexões sobre esta temática.

Este não foi o meu primeiro projeto de voluntariado, e não será definitivamente o último, mas foi tremendamente especial. Foi o primeiro na Europa e o primeiro com pessoas de diferentes nacionalidades. Só a convivência com pessoas com backgrounds culturais tão díspares é absolutamente enriquecedora. Todos os dias foram feitos de aprendizagens novas, de partilhas de conhecimento e de novas descobertas. Todos os dias trouxeram novos desafios, novas realidades e abordagens com que nunca me havia deparado. 

Para terminar em beleza partilhei o meu aniversario com um grupo incrível de novos amigos que me cantaram os parabéns em 8 línguas diferentes! 

A experiência da Ana Sofia na Catalunha

Embarquei, nesta aventura até à Catalunha, com o entusiasmo e ansiedade de quem tem pela frente o desconhecido, mas consciente da responsabilidade do que é ser voluntária. Agora, restam-me as memórias de duas semanas incríveis. Da rotina ali vivida. Do despertar bem cedo para preparar o dia para as nossas crianças que, a cada manhã, chegavam à escola com energia para dar e vender, diziam-nos, a alto e bom som, “bon dia” ou “buenos dias” e logo queriam fazer mil e uma coisas em simultâneo.

Recordo, todos os puzzles, recortes, pinturas e “obras de arte” que fizemos em conjunto, mas, também, as idas à piscina, as gincanas ou os jogos no parque que já não me entretinham desde a minha infância. Era cansativo, de facto. Mas tudo compensava com os seus sorrisos e abraços. O final do dia, já sem crianças, reservávamo-lo para o nosso convívio entre voluntários. Cada um com a sua nacionalidade e com muito para partilhar, desde costumes, idiomas, receitas. Em grupo, descobrimos a cidade de Girona, o seu centro histórico, as tradições, os restaurantes e bares e, sobretudo, o orgulho que se fazia sentir pelos habitantes locais. Viajámos, também, até às agradáveis praias de Costa Brava e a, já conhecida, Barcelona.

Enfim, levo desta aventura o carinho de cada membro da minha equipa, os momentos fantásticos que compartilhamos e, acima de tudo, a alegria de todas as meninas e meninos que conheci e de quem já tenho muuuitas saudades. Com certeza, muitos mais voluntariados esperam-me por esse mundo fora!

 

A experiência da Juliana na Dinamarca

Estas 2 semanas, passadas com uma comunidade auto-sustentável, na região de Fyn na Dinamarca foram incríveis!
Pela primeira vez viajei completamente sozinha, pela primeira vez não criei expectativas, queria ir e ver, ir para conhecer, para ajudar e principalmente para aprender e consegui fazer tudo isso!

Durante as 2 semanas (que passaram a voar) houve tempo para fazer de tudo. O dia começava em grupo, sempre com uma alegre banda sonora por volta das 7:20h para o trabalho começar por volta das 8:30h. Estivemos a reconstruir a casa comum de uma comunidade auto-sustentável, casa esta do séc. XVIII. Desde telhados, paredes, madeiras, limpezas, pinturas o nosso grupo ajudou em tudo o que conseguia. Havia trabalhos na horta e arranjamos também uma vedação para as ovelhas. Trabalhávamos até às 15:30h e todos os dias havia 2 voluntários a ajudar na cozinha, já que o jantar era feito em conjunto com a comunidade, tarefa muito divertida.

 

O tempo livre era isso mesmo, mas nós escolhíamos passá-lo em grupo, a partilhar experiências e costumes, a jogar a conversar ou até ir à praia de bicicleta, as paisagens eram maravilhosas assim como todos os voluntários! Estranho como um grupo de desconhecidos que vêm desde a Correia do Sul, Taiwan, passando por toda a Europa e acabando nos Estados Unidos, em alguns dias partilham opiniões, ajudam-se uns aos outros e acima de tudo se tornam amigos. Foi assim!!

Agora ficam todas as histórias para contar, todos os amigos do mundo que quero visitar e toda a vontade de repetir!

 

A experiência do Tiago na Tailândia

Hoje sou grato ao caminho que tenho percorrido, por me trazer mais uma oportunidade em que me pude encontrar com a beleza mais um pouco. Gratidão por aqueles momentos. Por ter estado ali, pelo ar que se respira, pelos grilos que se escutam, pelos pirilampos que acendem a escuridão, pelas pessoas com quem nos conectamos e se abrem a nós, pelo céu e pela lua, ao sol.

Chega-se a Kok Sai por caminhos asfaltados no meio da deusa selva que se impõe por todos os recantos, avistam-se montanhas que nos rodeiam e tudo o resto é verde. Entramos na vila e logo somos acolhidos em Amor, com um simples sorriso que se sente no olhar de cada criança e cada velho aldeão.

A vida é Bela… “Life is Beautiful!”, é o Lema deste Campo de voluntariado. Estas palavras que recebo do coordenador deste campo, foram uma das primeiras interações que teve comigo. Agora enquanto escrevo já à noite, diz-me que teria sido eu a proferir tais palavras, a inspirá-los através da minha carta de motivação. Já nem me lembrava muito bem, e ele mostra-me a inscrição do lema nas costas da sua T-shirt. Incrível! Lindo! que honra, que gratidão.

Somos acolhidos como libertadores, salvadores, homens e mulheres de honra. Em casa do chefe da vila dão-nos as boas vindas com um convite para nos sentarmos e pormos a mão na massa literalmente. Não é uma ajuda, não é um ensinamento, não é uma actividade organizada e planeada, é apenas a partilha de um momento tão normal nos dias destas gentes, e tão tão especial para nós voluntários de várias partes do mundo. Em círculo e à volta das mulheres aprendemos a fazer Kanom-Ta, um doce tradicional de côco, farinha de arroz pegajoso e açúcar de cana. Enrola-se numa folha de bananeira e vai ao fogo de uma fogareiro de barro a coser. Mãos na massa, dedos no óleo e enrola-se com todo o jeitinho e amor.

A comunicação com as crianças não é fácil para nós voluntários porque a barreira linguística é imensa. No entanto o som, a presença e a expressão corporal, em cada gesto a força da intenção para fazer chegar a mensagem, sorriso a acompanhar e o espírito da brincadeira, são elementos essenciais para que a comunicação seja eficaz. É maravilhoso como cada gesto e som os cativa com naturalidade. Querem mais e mais e não se cansam.

Energia, energia e mais energia, sente-se! Dá-se! Partilha-se! Cresce, cresce e é insaciável. Deste sentir de que começará sempre um novo dia, uma nova hora, um novo segundo, chega Amor. Somos mais simples, mais puros, mais conectados, mais sentimentalistas, mais espiritualistas, mais verdadeiros, mais saudáveis. Aqui dá-se sem querer em troca. Tendo-se pouco dá-se do coração, e não é o que se tem fora mas o que se leva dentro para todo o lado. E não se está à espera que os outros recebam, dá-se, oferece-se, uma vez e outra, insiste-se, porque se quer tanto. E levam dentro o futebol, a terra, as águas, as cascatas e as fontes de água quente, as motos e os amigos, os dons, esses, são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

Quem passa já nos sorri, já nos acolhe. Uma casa cheia de crianças, nem por acaso a casa de uma tal senhora que já me havia pedido para a ir visitar, e a uma das crianças, um rapaz especial, uma criança a qual uma grande parte do mundo a vê como portadora de uma deficiência. Pão de forma, leite condensado e assim vai alimentando com amor as 7 ou 8 crianças que por ali em volta brincam juntas. Brincam a jogar à bola. O menino especial, brinca sozinho ou com o seu irmão mais novo que o desafia. Ele sorri, e sorri profundamente com o seu olhar doce, mas a magia acontece quando embarca em gargalhadas que percorrem o seu corpo dos pés à cabeça e o faziam olhar o céu com esta felicidade.

Caminha-se mais um pouco, sempre rodeado de crianças que vêm atrás de nós sem hesitar, que sabem que fazemos parte deles já, do seu mundo, e nos encantam a entrar, molha-se os pés no rio e mais à frente um simpático grupo de senhoras mais velhas que ali se juntavam numa pequena barraquinha de vender comida artesanal à beira estrada, ficam intrigadas na minha passagem. Como sempre o sorriso é fácil. Vendem banana frita e chaiang (chá com leite
condensado). Na mistura do encanto, simpatia e humildade, mas no despertar da sua curiosidade e pura inocência convidam-me a sentar, servem-me chaiang e banana frita, um saquinho cheio, e ficamos à “conversa”. Uma ou outra senhora sabem algumas palavras de inglês e eu tento aplicar e melhorar a pouca quantidade do tailandês que sei.

“Ting Plá!” gritam um pequeno grupo de rapazes. A tradução serve como “vamos atirar nos peixes”, e neste entusiasmo que cresce de me terem encontrado, querem juntar-se ao seu divertimento, que no fundo não é nada mais nada menos que caça submarina de uma forma muito ancestral, usando máscara de mergulho do tempo do Jaques Coustou e uns espigões de metal com um elástico numa das pontas que serve de fisga. E lá vamos nós tal e qual me recordo na minha infância e adolescência, 3 numa mesma moto, em busca de pescaria. Sem sequer pestanejar, desafio-me a tudo o que me propõem. Quero recordar e manter em mim essa sensação de liberdade, a paz e a energia inesgotável que se fortalece no brincar. Sempre dedicados a fazer algo acontecer.

À noite uma surpresa de perdurar o olhar. Estrelas que cintilam em plena terra, pisca-pisca sem parar no chão e nas copas das árvores. Pirilampos por todo o lado brindam-nos com a sua fantasia, como fadas espalham o seu pó mágico em cada recanto, e a paz vem sobre o sono de cada um.

Estou a aprender o verdadeiro sentido da palavra “Comunidade”. Num lugar onde não existe uma hierarquia definida. Existem líderes sim, homens de sabedoria e com experiência de vida que se juntam e discutem, partilham e formatam ideias para dar origem a acções conjuntas. Equipas de trabalho divididas pelas capacidades e cometerias de cada indivíduo. Segurança, construção educação (aqueles que se encarregam das crianças), as mulheres da casa ou homens da religião.

Jogos, pé descalço, jogar futebol no recreio à chuva, ficar molhado da cabeça as pés, sujar-me, cantar, valorizar e ser valorizado, criar sempre algo com um sorriso e deixar o sorriso no ar aconteça o que acontecer, ser, apenas ser, apenas a simplicidade de existir e deixar as emoções correrem e falarem, voltar a ser criança. É nesta simplicidade que todos deveríamos viver nas nossas vidas, em autenticidade, em respeito, em confiança, em partilha, em comunidade, em verdade, em Amor.

Será possível que sejamos todos músicos, cantando no caminho da vida? Cada qual com a sua voz, ou instrumento, com a sua nota ou tom, de cordas ou sopro, de ritmo ou melodia? E se sem quaisquer pautas ou partituras pudéssemos formar a mais linda harmonia, apenas sentindo o outro? Na mais pura conexão, na verdade, nessa mais pura energia de união que é o amor.

Talvez não tenhamos escolhido estar aqui. Talvez não se termine esta jornada assim. Talvez seja apenas mais um pedaço de caminho que se conecta com a alma em nós para que possamos sentir um pouco mais. Absorver e dar esse néctar de cada um a beber.

A Vida é Bela sim! mas é um Mistério. Quero sentir a beleza deste mistério. Quero partilhá-la com o mundo. Quero voltar a ser criança e sorrir a toda a hora, partir na aventura e descobrir, pé descalço e saltar de rocha em rocha, ser em comunhão com os outros, frágil e vulnerável ao mesmo tempo. Quero ouvir a música tocar. Grato por partilhar este pedaço de caminho com todos vós, meus queridos amigos voluntários, crianças, aldeões, velhos, homens e mulheres, partes de mim. Até já!