A experiência da Bia e do Afonso no Tarrafal

Antes de mais, gostaríamos de realçar que para nós, Bia e Afonso a experiência de voluntariado foi diferente do que muitos perspetivam, incluindo para nós mesmos numa fase inicial. Frequentemente, o voluntariado é associado a situações e contextos de pobreza e falta de condições sociais, económicas e políticas. Claro que tudo isto está presente na maioria dos casos, incluindo no Tarrafal, onde estivemos dois meses.

Por forma a adaptarmo-nos ao que a associação (Delta Cultura) investe todos os dias e depois de indentificarmos as principais necessidades – nas quais seria possível atuar e deixar uma “marca” – no período em que iamos estar em Cabo Verde, podemos concluir que o nosso foco principal não foi combater essas fragilidades, mas sim, contribuir para a educação formal e informal das crianças e adolescentes com quem tivemos contacto.

A Delta Cultura é uma associação que promove a educação de crianças e adolescentes de uma forma não tradicional, que parte de pressupostos assentes na liberdade e criatividade pessoais, em que os fundamentos principais se baseiam numa ideologia em que as crianças e o jovens devem, desde cedo, ser motivados e responsabilizados pelas decisões que tomam e pelo rumo que pretendem dar à sua vida. Como tal, desde o primeiro dia, os voluntários são criteriosamente direcionados para abraçar tais ideologias e atuar nesse sentido. No que toca ao funcionamento da instituição e dado que a escolaridade é obrigatória, as crianças frequentam a instuituição mediante os seus horários escolares, ou seja, as que têm aulas da parte da manhã frequentam a DC da parte da tarde e vice-versa, o que resulta numa orientação cuidada dos procedimentos para dois grupos distintos.

A DC está dividida em diversos espaços e salas, cada um direcionado a determinadas atividades; conta com salas de música, artes, informática, de estudos, línguas e ainda com uma zona livre (o recreio), um campo de futebol patrocinado pela FIFA na campanha Futebol para o Desenvolvimento Social (Football for Hope Center). No nosso
ponto de vista, no que diz respeito às condições oferecidas, a DC é um espaço que não carece de recursos necessários ao desenvolvimento das mais variadas atividades.

Assim sendo tivemos sempre muita liberdade para desenvolver atividades, só precisámos de proatividade, criatidade e motivação! A forma como toda a família Delta Cultura nos deixou à vontade para atuarmos, de acordo com o que cada um trazia de melhor para oferecer, ajudou imenso a aproveitarmos ao máximo o tempo de voluntariado. Dedicámos especial atenção à Sala de Estudos, pois identificámos que o contacto com a língua portuguesa e o aprumo escolar eram insuficientes e precisavam de um apoio constante que não existiria de outra forma.

Demos aulas de português, fizemos jogos educativos onde o intuito era frisar a importância dos sentimentos e da cooperação, desenvolvemos atividades em grupo para dar a entender que uma conduta correta é o caminho para o futuro, apoiámos diversos projetos desenvolvidos na sala de artes, fizemos palestras ajustadas ao contexto das crianças sobre as nossas experiências pessoais e as nossas profissões e também sobre igualdade de género que era o tema do mês na associação, organizámos torneios de futebol, e cooperámos nas aulas de música. Ainda assim, podemos dizer que demos pouco comparativamente ao que recebemos e ao que nos ensinaram!

Relativamente à experiência na DC o balanço é, sem quaisquer dúvidas, fenomenal! Desde logo que a recetividade foi espantosa, mais do que esperado até. No momento da chegada é avassalador o carinho, a atenção, todos os colos, os abraços, a alegria, a ingenuidade, os sorrisos desdentados recebidos pelas crianças, sendo nós apenas mais uns voluntários que ainda nem tínhamos dado nada e já tínhamos recebido tanto! Pensamos que tudo isto terá sido fruto de todos os resultados positivos que voluntários, que lá estiveram em momentos anteriores, atingiram e claro, também, pela deficiência de afeto que estas crianças têm em casa, na escola e no seu dia-a- dia.

As crianças da DC aprenderam que nós (voluntários) somos recursos humanos que elas têm a seu dispôr, não só para lhes perspetivarmos formas de uma educação mais sólidas, que estão na base das nossas experiências vividas do sítio de onde viemos, como também de lhes retribuirmos todos estes afetos. Isto foi um excelente ponto de partida para nós, que facilitou muito a nossa integração na associação e no estabelecimento rápido de uma relação sólida com as crianças. Ficou assim provado que trazer experiências e culturas diferentes (voluntários), em específico para associações como esta, faz todo o sentido e só se traduz em ganhos para os dois lados – para quem vai e para quem está.

Daí em diante, tudo se desenrolou com uma familiar naturalidade, como se ali pertencêssemos e tivéssemos formado uma grande família, que ansiávamos ver todas as manhãs e todas tardes. Conseguimos, através da relação que estabelecemos com as diferentes crianças contrabalançar quase na perfeição, não só os momentos tão desejados em que reinava a diversão e a brincadeira, como também os tão importantes e necessários momentos lúdicos e educativos. Com uma crescente confiança mútua, conseguia eficazmente distinguir-se e ter a noção de que existiam momentos para tudo e, que era possível realizar tudo aquilo a que nos comprometêssemos.

Dos aspetos mais incríveis foi observar como as crianças eram flexíveis e moldáveis, o que fez com que todos os dias sem excepção sentíssemos que tudo aquilo que tínhamos para lhes proporcionar era importante e realmente significativo. O prazer de acompanhar o dia-a- dia de uma criança numa fase de desenvolvimento tão evidente é
incalculável e nunca, de forma alguma, nos sentimos “inúteis”, pois aquelas crianças eram de facto corações abertos e recetivos à nossa pessoa e aos nossos sentimentos.

Na nossa opinião e, remetendo para o início deste testemunho as condições de vida destas crianças não são o que mais “salta à vista” ou o que realmente foi prioritário na nossa ação, porque elas são de facto, crianças normais, como em qualquer outra parte do mundo, provavelmente têm prioridades diferentes porque estão adaptadas ao estilo de vida que levam. Aprendemos que a sua ingenuidade boa e em estado puro é que possibilita o desenvolvimento de um trabalho completo e positivo, porque no final de contas aquele é o ambiente delas, é a “terra” delas e, ainda que para nós seja diferente, temos de abraçar essa assimilaridade que nos distancia e que de certa forma, pode aliciar ao preconceito.

Aprendemos que quem vai tem inevitavelmente que deixar apaixonar-se pela cultura e pelo modo de estar das crianças e de toda comunidade e percebemos que o que realmente importa é a interação das duas partes em que cada uma dá e recebe. Fomentando o “cliché” nós acabamos por receber muito mais do que damos e do que imaginamos alguma vez ser possível antes de partirmos numa aventura como esta.

Ao fim ao cabo, juntamente com todo o amor que recebemos que é totalmente inesquecível, deixámo-nos aliciar pela Morabezza, pelo calor, pelo oceano, pelas mornas, pelos sabores, pelos cheiros, pelas paisagens que ajudam e contribuem para um gosto inestimável pelo trabalho que foi desenvolvido ao longo destes dois meses, que nunca nos sairão da memória e que se traduziram, sem dúvida, numa das melhores experiências das nossas vidas.

Mais que um testemunho, uma vivência repleta de memórias, que custam deixar para trás, mas que levaremos sempre junto ao nosso coração. No momento da despedida, as lágrimas teimam em escorrer pelas caras abaixo – nas nossas e nas das crianças – mas a alma vai quente e preenchida para sempre!

 

A experiência da Sara no Japão

Lembro-me bem daquele dia em que deixei Portugal para trás. Era um misto de felicidade e receio profundos. De alegria e medo. Era eu, no meu estado mais genuíno. Lembro-me de olhar para as minhas malas, para as minhas fotografias e o meu passaporte. Estava vazio, cheirava a novo. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido, assim aconteceu. Parti sozinha para o outro lado do mundo, com duas malas carregadas de expectativas e prontas para acolher as melhores memórias.

3 voos, 2 autocarros, um comboio e muitos contratempos inesperados. Não havia motivos para preocupações, tinha todas as indicações sobre o que fazer quando chegasse ao país, a única indicação que não me tinha sido dada era o facto da grande maioria das pessoas não falarem inglês, as dificuldades começaram aí.

Hiroshima Airport – Hiroshima station – Hamada station – Odashi station era o roteiro, fácil de perceber para mim, mas difícil de explicar a quem não fala nem compreende inglês, com muitos gestos e recurso ao google tradutor a barreira linguística foi sendo desmontada.

Estas duas semanas construíram-se sob o ritmo do dia-a-dia, andar numa carrinha de caixa aberta com destino a uma floresta, cortar árvores era o plano. Rumo a Mt. Sanbe cortar ervas com uma foicinha para mais tarde fazer vassouras. Limpar o templo Rakan-ji com direito a pausa para beber café em lata. Ajudar um grupo de homens de meia idade a cortar e limpar bambu para construírem um novo telhado da sua barraca de armazenamento de utensílios agrícolas. Visitar uma escola primária e dar a conhecer um pouco da cultura do meu país, a pergunta que tomou lugar naquele espaço foi exactamente “Have you ever met Cristiano Ronaldo?”. Visitar um jardim de infância, aprender a fazer sushi e Origami, jogar à apanhada e ao macaquinho do chinês, até já não ter energia suficiente para correr atrás das crianças.

Conviver com uma cultura tão diferente é sinónimo de adotar determinados hábitos. Na ida ao Santuário de Izumo-Taisha, coração de todos os outros santuários na área de Izumo e local onde todos os deuses xintoístas se reúnem, foram-me ensinadas as formas de culto que passei a fazer todas as vezes que ia a um templo budista ou a um santuário xintoísta. Assisti a um casamento japonês, onde a noiva usa um quimono chamado Shiromuku e pode usar dois tipos de chapéus designados por Wataboshi ou Tsunokakushi, respetivamente.

Aprendi Shodō, considerada uma arte e uma disciplina ensinada às crianças japonesas durante o seu percurso na escola primária. O Shodō pratica a escrita dos caracteres japoneses hiragana e katakana e kanji. Assisti a uma representação de Kagura, uma forma de teatro e dança características do Xintoísmo.

Pouco tempo passou desde o regresso, mas eu ainda lá estou. Desde os sorrisos, aos abraços, ao Yuta que falava muito pouco inglês, mas disse que vinha estudar para Portugal, à comida que comi e não fazia a mínima ideia do que era, à energia matinal do JD que gritava “let’s work” todos os dias às 8h da manhã, às noites mal dormidas, aos dias a cozinhar 3 refeições para 9 pessoas, ao Yoshiki que falava espanhol, às fotos que tive de tirar com pessoas  desconhecidas por ser tão diferente, aos dias a lavar pilhas de loiça com a Mei, ao quarto que partilhei com a Haruno e que parecia uma estufa porque nos esquecíamos de desligar o aquecimento durante a noite e às palavras que nunca compreendi, mas que transmitiam o maior carinho do mundo.

A experiência da Liliana na Ilha da Boavista

Os meus 20 anos: Gostaria de fazer voluntariado, assim que nem Bucket List… dos 20 aos 30… a  vida tem tanto com que te consumir, um dia a seguir ao outro fazem anos e os 30 chegaram! Que ando eu a fazer? Siga, é agora! Depois de ser possível a nível pessoal e profissional, isto está encaminhado. O Para Onde extremamente apelativo na internet… está decidido. Agora…. destino? África não, África não! … Porquê? Porque a minha vida é organizada, com regras e neste continente falta estrutura. Idealizar, idealizar… bem, mas será que vou ter a oportunidade de fazer isto outra vez na vida? Será? Não sei. Vá, contraria-te! África, go! Agora, país? … que seja PALOP…depois do recrutamento, Cabo Verde escolhido, ilha da Boa Vista a sentença.

Lá chego a esta ilha árida e de muitos poucos recursos e vou conhecer o bairro onde passarei os tempos que se avizinham…conhecido por “Barraca”;  cordialmente, socialmente e politicamente nomeado de Boa Esperança….mas que bonito, muito português….só para começares a aprender, esquece lá isso…contraria-te lembras-te? …de português, só mesmo o nome.

Não encontro palavras nem fotos que descrevam o que vi, crianças a brincar com paus e pedras como se do último modelo da playstation se tratasse; crianças a passearem de cestos na cabeça a imitarem as mães, feitas umas vendedoras ambulantes, como se fosse o último modelo da barbie…..águas paradas, cheiros maus devido à falta de saneamento, “casas” em mau estado de conservação…ou será que na realidade nunca foram finalizadas? , parece que passou por aqui o terramoto de 1755!…..feridas, muitas feridas me ficam na memória, seja das crianças ou dos animais, que são todos mais que muitos, e que vivem  a uns escassos centímetros uns dos outros……mas onde me vim enfiar? Começas logo ali a projectar “soluções”…mas calma, ainda não estás no “local de trabalho”, espera!

Primeiro dia na creche o Xururuca, ainda mal tenho um pé la dentro que aproximadamente 150 crianças estão a trepar pelo corpo acima, a dar beijos e abraços como se não houvesse amanhã e a chamar-te de “tia”….ora essa? Tia? Mas porquê? Eu ainda não te dei nada, porque me chamas de “tia”? Porque sim, porque é assim, porque basta existires para estas crianças gostarem de ti.

Mas como é possível? Porque sim. Porque são valores básicos da vida que nos meses seguintes me fizeram questão de relembrar.  A vida na creche não são rosas…os sentimentos ambíguos e duros.  Vais ali feita que nem instrutora de letras e números como se disso tudo fosse feita a vida e estas crianças respondem-te com um olhar sobre um bairro onde as oportunidades são escassas e onde ser correcto te leva mais longe do que o abecedário. …Porquê? Porque ser bem amado, numa terra de tão pouca oportunidade, te pode abrir portas. E como é que estas crianças sabem disso? Não sabem! É inerente, está nelas, a bondade habita aqueles corpos. Na realidade o que os fará perder o norte serão os anos que se seguem, os anos da conquista do seu lugar ou da perda dele, os anos do caminho fácil onde a maioria daquele bairro se refugia…a falta de trabalho… os caminhos errantes. Então mas que ando aqui a fazer afinal? Isto é um bairro de nome antagónico…. calma, pés na terra…contraria-te lembras-te? A esperança é a última a morrer. Então como encontrar o meu lugar aqui? O que posso eu realmente fazer? Pensa, pensa…..qual é a base de tudo? O ponto de partida seja para o que for? É a motivação. Mas como é que esta se aguenta ao longo do tempo? O que a faz aguentar? É o amor….o amor por alguém, por alguma coisa, pelo que fazes….ok, muito bem…e como explicas isto a crianças dos 2 aos 5 anos? Na realidade não sei, não tenho truques na manga….mas o que é que sabes? Sei que me sinto bem quando faço bem ao próximo… sei que a vida mesmo quando corre mal, se a enfrentares com positividade parece que a espiral se torna crescente. Ok, muito bem…já que estas crianças sofrem tanto, seja pela falta de condições habitacionais ou financeiras… que atingem níveis catastróficos… distribui carinho, faz-lhes o dia! E realmente tinha razão, a espiral é crescente, quantos mais beijos dás … mais recebes…perdi a conta aos obrigados e abraços que recebi por cada penso que fiz… como se o meu ato, o meu cuidado… atingisse mais aquele pequeno coração do que ajudasse no processo de cicatrização da pele.

Refugiei-me então no meu sonho para conseguir viver esta dura realidade. Refugiei-me na ideia que os meus carinhos  vão ter  futuro, que estas crianças vão querer se agarrar ao que é bom de agarrar e de guardar apenas o que é bom de guardar, que um mimo meu ficará guardado em alguma “caixa da memória” destas cabeças e que os fará o querer devolver a alguém. Que algum abraço ou beijo meu se torne numa promessa de bondade e determinação.

É preciso dar tempo ao tempo e nesta terra de “No Stress”, onde este mesmo atinge exponenciais superiores, é de acreditar que a esperança média de resolução deste bairro se adivinha longa e a perseverança pode fazer a diferença. Quero acreditar que estas crianças quando crescerem, farão por si e pelos outros, que compreenderão que ser bom é positivo para ti, para o próximo e para todos. Afinal não é toa que se lhe chama “Boa Esperança…depois do voluntariado feito, percebi que esta se encontra nestas numerosas crianças. Consegui afinal, depois de viver com elas, encontrar o altruísmo do nome do bairro que me falhou ao primeiro olhar.

E o que recebi? Por cada beijo que dei … recebi a perder a conta, recebi abraços, recebi risos, recebi amigos novos….porque voltando aos básicos, a vida só faz sentido quando partilhada…e a partilha…essa não falta numa experiência destas.  De coração e espírito abertos, o que recebi paga a experiência e ainda trago o “troco” para o meu horizonte.

A experiência da Elodie em Cabo Verde

O momento mais difícil: a decisão. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido. Comigo, foi tudo muito espontâneo e a decisão não foi assim tão difícil. Confesso que não levava muitas expectativas na bagagem, mas sim cadernos, lápis, livros, algumas roupinhas para doar. Sabia que não ia ser fácil, mas também tinha a certeza que a experiência na ilha da Boa Vista me iria marcar para o resto da vida.

Num ambiente amplamente dísparo, entre os turistas provenientes dos resorts luxuosos e a situação precária de uma população com cerca de 6.000 habitantes a viver em condições nenhumas, o sorriso das crianças foi o meu grande aliado. Na verdade, foi pelas crianças que fui, é pelas crianças que continuarei ligada àquela terra.

A creche social do Bairro da Boa Esperança que acolhe diariamente, de Segunda a Sábado, cerca de 150 menininhos e menininhas dos 2 aos 5 anos, é fundamental para a contribuição de uma sociedade que se espera um pouco mais justa, informada e estruturada. O desafio foi esse mesmo, nos desligarmos de uma realidade confortável do mundo “ocidental” e nos adaptarmos, todos os dias, às características muito especiais daquele país, daquele bairro, daquela creche, daquelas pessoas. Tudo é vivido intensamente quando se faz voluntariado mas todos os minutos do projeto valeram a pena.

Ajudar uma criança a ir à casa de banho, é vitória. Ajudar uma criança a comer sozinha, é vitória. Ajudar uma criança a contar até 10, é vitória. Ajudar uma criança a saber dizer “Obrigado”, é vitória. Um passo de cada vez, pelas pequenas conquistas.

Um coração que volta a Portugal cheio de boas recordações, sorrisos sinceros e esperança no futuro.

A experiência da Raquel em S. Tomé

A Terra do Leve-Leve

Por onde começar? É sempre esta mesma pergunta que me vem à cabeça quando me pedem para contar como foi esta experiência… Começo pelas minhas dúvidas, pelas dificuldades que enfrentei, pelo amor e sorrisos que recebi, pelos cabelos em pé, pelas saudades que tenho, pelo trabalho que estive a desenvolver, pelas maravilhosas praias e paisagens, pelas pessoas incríveis?! Bem, a verdade é que há muito para contar!

Hoje vou começar por contar como fui parar a São Tomé… Para ser sincera, fui ter à terra do “Levi-Levi” completamente por acaso. Sempre fiz diversas actividades de voluntariado a nível nacional, como Banco Alimentar, Refood, etc, mas a nível internacional nunca tinha feito nada e já desde há muito que queria ter essa experiência. Com o fim do mestrado a aproximar-se e com o medo de enfrentar a “vida real”, decidi que era a oportunidade ideal para embarcar nesta aventura. As únicas coisas que eu sabia era que queria fazer actividades com crianças e num país de língua portuguesa (pois achei ser mais fácil de me relacionar com as crianças e ter um impacto positivo). Portanto, Brasil ou África eram as opções… E para além da língua ser a mesma, estes locais também me fascinavam pela energia, animação e alegria contagiante daqueles povos. (Tenho pena de não vos conseguir mostrar um vídeo deles a dançar agora)

Durante a minha pesquisa dei logo com o Para Onde?, que por ser dos sites mais organizados que encontrei e o mais apelativo, juntamente com a amabilidade e rapidez da Marta e da Inês a responderem aos emails com todas as minhas mil perguntas, me chamou atenção. Dei uma vista de olhos e como queria ir antes do final do ano (2017), o projecto de São Tomé até tinha sido à primeira descartado pois só estava disponível em 2018. Entretanto, senti que estava a querer fazer tudo muito à pressa e não estava a encontrar um projecto “ideal” dentro do meu budget então pensei: “E porque não ir em Janeiro?” A minha preocupação, pois está claro, era começar a procurar muito tarde trabalho (tinha acabado o mestrado em Outubro)… “E depois fico os meses antes de ir a fazer o quê?” E depois quando voltar já vai ter tudo emprego e eu não?” Bem todas as dúvidas normais de quem está a decidir entre continuar no rumo “normal” da vida (isto na nossa realidade) ou sair da zona de conforto. Acho que já perceberam que decidi arriscar e então comecei a olhar para os projectos disponíveis em Janeiro. No entanto, as perguntas continuavam na minha cabeça, então decidi que queria ir apenas um mês… Tótó! Sim, eu sei, agora sei… pois um mês passou demasiado rápido, mais pareceu uma semana e, portanto, se estiverem a considerar quanto tempo deverão ir e se um mês é muito, digo-vos já que é pouco. Se puderem, vão mais do que um mês, vai valer a pena! Mas pronto, talvez se não tivesse decidido isto não tinha ido parar a São Tomé. Pois foram as únicas razões pelas quais fui para lá: podia ir durante um mês apenas e era um país de Língua Portuguesa. E disso não me arrependo, nem uma única vez. E assim ficou decidido o destino, agora era tratar de tudo… Passaporte, consulta do viajante, vacinas, visto, roupa, repelentes, preparação de actividades, recolha de materiais, etc… Lembram-se da pergunta que fiz a mim mesma do que é que ia ficar a fazer aqueles meses todos entre Outubro e Janeiro, aqui está a resposta! Toda a preparação necessária para quem vai sair pela primeira vez da Europa. Ah, ainda não vos tinha dito?! Pois, sim, para além de nunca ter feito voluntariado internacional, nunca tinha saído da Europa e, apesar de estar habituada a trabalhar com crianças (dei treinos de Patinagem Artística), nunca com crianças naquelas situações (em que muitas delas não têm famílias e as que têm só as estão juntas nas férias escolares). Por isso, ia ser tudo novo!

Bem, era dia 31 de Dezembro de 2017, chegou o dia, chegou o tão esperado dia! E eu nem sabia bem o que estava a sentir, medo não era e era tanta a curiosidade e adrenalina que nesse dia nem dúvidas tinha, só queria ir. Então lá fui, eu e a minha companheira desta aventura, Catarina Soares. Fomos as duas na passagem de ano ter com pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que nos ofereceram casa para os primeiros dias, pois a ARCAR (instituição onde íamos fazer voluntariado) só nos podia acolher dia 2 de Janeiro e os voos eram mais baratos antes. Então pensámos porque não juntar mais aventura a esta experiência e assim temos uma passagem de ano diferente. E foi uma óptima decisão! Correu tudo bem, passámos a PDA com calor em vez de frio e chuva e, ainda, conhecemos pessoas fantásticas nesses primeiros dias.

Após a recuperação da passagem de ano e de já conhecer um bocadinho da ilha chegou a altura de ir para ARCAR, onde fomos recebidas de braços abertos e com direito a muitos abracinhos dos meninos. Ao contrário da maioria dos projectos, nós ficávamos a dormir na instituição juntamente com os meninos, o que tornou esta experiência ainda mais especial. A ARCAR é a casa deles e nós passámos a fazer, não só, parte da casa deles como da sua família.

Os meninos só saiam de “casa” para ir à escola (uns de manhã e outros de tarde), ah, e claro, para ir ao mato também. O resto do tempo era passado na ARCAR, onde tinham uma hora de apoio escolar (também de manhã ou de tarde de acordo com o horário da escola) e depois era tempo livre. E era aí que nós entrávamos… entre ajudar nos trabalhos de casa, estudar, jogar futebol (sempre que havia a mínima oportunidade lá iam eles), saltar à corda, jogar à apanhada, dançar, fazer desenhos e ver filmes, assim se passavam os nossos dias com estes principezinhos.

Uma das actividades que fizemos com eles passou pela sensibilização para o lixo nas ruas, pois foi um dos problemas com o qual nos deparámos lá. Criámos com eles caixotes de lixo, mostrámos vídeos, fizemos debates e em apenas um mês eu consegui ver evolução no que diz respeito a este assunto. Quando lá chegámos era um hábito deitar o lixo para o chão ou para o outro lado do muro, quando fui embora já muitos deitavam o lixo no caixote e os que às vezes não o faziam, deitavam, pelo menos, quando nos viam por perto. Por isso, se num mês houve esta mudança imaginem um, dois ou 5 anos! As crianças são o futuro e cada um de nós pode fazer a diferença no presente e ajudar a definir o futuro destas crianças.

Como é normal, nem sempre tudo vai ser bom, as vezes vai ser tudo demasiado leve-leve e há coisas que, certamente, te vão “fazer comichão”. Mas, como a Marta e a Inês te vão avisar logo desde inicio, nós não vamos lá mudar mentalidades num mês, não dá, é impossível. No entanto, a nossa contribuição é muito valiosa! Não será certamente num mês, nem dois, nem três meses que vamos conseguir melhorar tudo, mas aos poucos e poucos vai-se construindo a mudança. No entanto, no meio das adversidades vai haver sempre pequenos momentos que te vão encher o coração e fazer-te esquecer todos os problemas. Lembro-me do primeiro dia em que ajudei o Edu a fazer os trabalhos de matemática e, no dia a seguir, ele volta da escola todo contente a dizer: “Conseguimos Raquel! Estava tudo certo e recebi uma recompensa!”. Aquele brilho nos olhos, aquele sorriso e aquela felicidade são coisas que nunca vou esquecer e que me marcaram. E vão ser momentos tão simples quanto este que vão fazer valer a pena cada dia que lá vais estar.

“Não é sobre tudo o que o seu dinheiro é capaz de comprar, e sim sobre cada momento e sorriso a se compartilhar, também não é sobre correr contra o tempo para ter sempre mais porque é quando menos se espera a vida já ficou para trás…Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe para perto de mim” (“Trem-Bala” – Ana Vilela). Ouvi esta música pela primeira vez em São Tomé e, é a melhor maneira de descrever tudo o que senti e trouxe comigo daquele lugar. Cada sorriso, cada brincadeira, cada traquinice, cada briga, cada desenho e mensagem que me escreveram, cada um daqueles 47 principezinhos, trago-os todos comigo.

Se estão com dúvidas em relação a fazer voluntariado internacional, o que vos tenho a dizer é “Façam! Saiam da vossa zona de conforto e façam! Arrisquem! Vai valer a pena!”

A experiência da Ana Margarida na Tailândia

Faz hoje um mês que acabou o meu voluntariado na Tailândia. Um mês!! Nem posso acreditar… Já passou mais tempo desde que voltei do que o tempo que lá estive. Mas ainda estou lá. Ainda estou naqueles sorrisos, naqueles abraços, naquelas palavras que nunca compreendi. Para mim, para a Paula, para a Íris e para o Yago esta foi uma experiência muito especial. Mergulhámos de cabeça numa cultura maravilhosa e fomos tão felizes nela…

Fomos recebidos no aeroporto pela nossa coordenadora da DaLaa (a associação que nos recebeu), pela Diretora da Escola Watphothawat e por uma das suas professoras. Desde o primeiro momento que as palavras foram de inclusão e gratidão como nunca vimos, que os sorrisos foram luminosos e que os seus braços estiveram sempre abertos para nós.

Quando chegámos à escola fomos recebidos por gritos de excitação das crianças pela presença de “farangs” – nunca antes vistos naquela zona da Tailândia. “Farang”: é esse o nome que nos dão. Aos brancos. E em momento algum sentimos que era uma palavra feia ou depreciativa. Muito pelo contrário – era uma palavra que descrevia pessoas “boas” que tinham vindo de longe para os ajudar. Sempre olharam para nós desta forma: com uma admiração da qual nunca nos achámos merecedores. Como estavam eles enganados quando pensaram que éramos nós as pessoas especiais que os iríamos ajudar! Não fazem ideia do quanto nos ajudaram a nós!! Não fazem ideia do quanto nos tornaram pessoas mais sensíveis e humanas, mais felizes e mais gratas.

Fomos para a Watphothawat School para dar aulas de Inglês. E demos!!! Mas recebemos tão tão mais… Mostraram-nos tudo: de dentro para fora, como se quer. Mostraram-nos os seus corações e a força da qual são feitos. Depois de nos conquistarem com o que são, mostraram-nos o que têm: as comidas, as paisagens, as tradições…

Ensinaram-nos a curvar perante Buda, ensinaram-nos a comer frutas que não sabíamos sequer os nomes, ensinaram-nos a entoação correta ao dizermos “Sawadee kah” (olá). Ensinaram-nos que as mesas servem para pousar os objetos porque onde se come é no chão!! Ensinaram-nos que não se toca nas cabeças das outras pessoas em sinal de respeito mas que se abraça com o corpo todo! Ensinaram-nos que mais importante que as palavras que dizemos, é a forma como as dizemos…

Nunca entendemos nada do que aquelas crianças disseram. Mas sabemos que gostam de nós como só as crianças sabem gostar. Nunca soubemos dizer aos “velhos” da aldeia a admiração e o respeito que por eles temos. Mas não temos a mínima dúvida que eles o sabem, que o sentem e que o vão sempre recordar.

A Tailândia é um mundo diferente – as pessoas são diferentes, a energia é diferente. Na Tailândia as pessoas são felizes com Nada! São felizes de pés descalços e roupas velhas. São felizes sem telemóveis de última geração e 300 canais de televisão. São felizes mesmo quando chove porque sabem que logo de seguida vai fazer sol!! São MESMO felizes!! E sinto que nós trouxemos essa felicidade connosco.

Nós fomos muito felizes na Tailândia!! E enquanto soubermos viver a Tailândia dentro de nós, sei que vamos sempre olhar para as nossas vidas com uma perspectiva diferente, com uma gratidão diferente. Eles mudaram as nossas vidas, com aquela forma simples de ser e de amar as suas próprias vidas.

Ainda hoje recebemos mensagens daqueles miúdos – e graúdos – todos os dias a dizer “I Love You” – há lá coisa mais importante para se ensinar alguém a dizer?! – e sabemos que ficámos lá. Ficámos nos corações e nas memórias daquelas pessoas. Sabemos que também os tocámos de uma forma muito especial e que de alguma forma, fizemos a diferença!

Já se passou um mês e ainda lá estamos. Sei que vamos lá ficar enquanto aquelas pessoas lá estiverem.

Fomos de Lisboa para Phatthalung para dar aulas de Inglês. E demos!! Mas eles deram-nos muito mais…

A experiência da Madalena na Bélgica

Olá, eu sou a Madalena e participei num campo de voluntariado na Bélgica. O campo decorreu em Agosto de 2017 e durou uma semana, que infelizmente passou rápido de mais. Na altura tinha 17 anos e era a primeira vez que estava a viajar sozinha para outro país, penso que a minha mãe estava mais nervosa do que eu mas após implorar consegui que ela me deixasse ir.

Contudo não havia muita razão para preocupações, foram-me dadas todas as indicações sobre o que eu devia fazer quando chegasse ao país até que me foram buscar a uma estação de comboio. Durante o campo estive a ajudar a organizar um evento, uma caminhada cujos lucros revertem para a organização Oxfam que os utiliza para combater a pobreza e ajudar os mais necessitados.

Neste campo foi necessário movimentarmo-nos de instalações frequentemente por isso, para quem quiser participar neste campo, recomendo que levem bagagem fácil de transportar. Durante a semana tivemos tempo de trabalho mas também tempo para conhecer os outros voluntários, conheci pessoas de diversas nacionalidades e até partilhámos doces e jogos típicos dos países (levados pelos participantes).

Apesar de todo o receio inicial, foi das melhores experiências que já tive e tenho consciência de que amadureci durante o campo. Para quem está indeciso em fazer voluntariado fora do país, apenas tenho a dizer que recomendo. 😊

A experiência do Pedro na Boavista

01 Janeiro 2018 – Portugal
As dúvidas começam a surgir. Sempre quis fazer voluntariado com crianças mas será que estou preparado? Nunca tive experiência com crianças o que será que lhes vou ensinar? A cidade é segura? E se ficar doente? E se não me adaptar? E se…

02-31 Janeiro 2018 – Ilha Boavista
Todas as duvidas anteriores desapareceram mal o avião aterrou na ilha. Foi como se tratasse de um “clique” e tudo passou a fazer sentido. Todas as inseguranças anteriores deram lugar a uma ansiedade e motivação como poucas vezes se sente na vida.

Mas vamos por partes. Não vou falar da beleza da ilha, das praias maravilhosas, do mar brilhante e do por-do-sol fantástico. Nem vou falar de como a ilha é pobre, das desigualdades sociais que existem, da inexistência de saneamento no bairro aliados à prostituição e crime existentes. Estas informações encontramos todos na Internet e nem precisamos de nos levantar da frente do computador não é? Bem, vamos então falar do que não se transmite através da navegação online.

Chegou o primeiro dia de “infantário”. Ao aproximarmo-nos ouvimos o barulho de dezenas de crianças no recreio. Para chegar até lá temos uns curtos degraus para subir. Coragem, é para isso que aqui estamos não é?
Bem, o que aconteceu nos minutos a seguir não é possível descrever através de palavras, vídeos ou imagens. Cada um de nós foi engolido num mar de abraços, beijos, sorrisos e gargalhadas. Bastou baixarmo-nos durante uns breves segundos e já tínhamos crianças a “trepar” por cima de nós para subirem para as nossas cavalitas. Tudo era alvo de brincadeira, desde os pelos das pernas, ao cabelo, passando pelos piercings e tatuagens. Mas de onde vem tanta felicidade se estas crianças mal têm o que comer, estão cobertas de feridas (desde feridas de rua até violência familiar) e não têm o mínimo de saneamento exigível?!

É hora de lanchar. Há crianças que trouxeram alguma comida de casa, outras nem por isso. Bem esta na hora de irmos à cozinha buscar o leite que sobrou da manhã para darmos às crianças que não têm o que comer certo?
Errado! Alguém teve a sorte te ter na mochila 2 iogurtes? Vai comer 1 e guardar o outro para a noite talvez … ou simplesmente por iniciativa própria e sem praticamente ninguém se aperceber vai ter com o colega que não tem lanche e oferece-lhe o iogurte. Bem talvez seja um caso isolado pensei eu… olho para o lado e não podia estar mais enganado. Dezenas de crianças a partilhar o lanche com as que não tinham nada… mais um momento que não se descreve nem se encontra em testemunhos, blogs ou fotos!


Mas afinal venho aqui para aprender ou ensinar? Como é que miúdos dos 2 aos 5 anos que vivem na miséria, já aprenderam os valores mais importantes da vida como a partilha, a amizade, a ajuda ao próximo e a felicidade genuína?

A partir daí tudo o que tentei ensinar passou a ser secundário, pois as bases e os principais valores já estão lá. Obviamente que o “a e i o u”, as cores, os números, as regras da boa educação como por a mão antes de falar, pedir licença para ir à casa de banho etc são fundamentais sem duvida. Mas os principais valores da vida… esses estão todos lá!

Mas não nos vamos iludir nem ser hipócritas. Todas as crianças com quem brinquei e me abraçaram vezes sem conta durante todos os dias em que lá estive vão ser postas à prova dentro de poucos anos. Toda a felicidade pura e ajuda ao próximo vai ser colocada em jogo quando surgirem as propostas para a “má vida”. E não vai ser preciso esperar muitos anos…


Custa sentir que as meninas que peguei ao colo podem cair na rede de prostituição. Custa saber que os meninos com quem fiz imensas brincadeiras podem levar uma vida de crime e/ou droga. Custa ainda mais saber que ao acontecer isto, só prova que a vida não dá a mesma oportunidade a todos, pois quem esteve lá pode garantir que até aos 5 anos não havia maldade existente em nenhuma daquelas crianças.

Mas estas crianças são guerreiras. Estão habituadas a lutar desde o dia que nasceram. Podem cair durante o recreio, fazer “galos”, sangrar que não choram. Pelo contrário, ainda ficam todos orgulhosos quando a nossa enfermeira voluntária lhes colocava um penso e vinham a nossa beira mostrar como se de um troféu se tratasse. Soubessem eles que o “ti-tio Pedro” que para eles era muito forte pois “mandava-os ao ar” com 5 anos mal visse sangue começava a chorar…

Nunca foi o meu objetivo mudar a mentalidade de Cabo Verde em apenas 1 mês. E se for o vosso, aconselho que retirem essa expectativa. Apenas tentem dar o vosso melhor e ajudar o máximo que vocês que conseguirem… apenas o facto de já estarem la é um motivo de sorrisos para dezenas de crianças. E acreditem, não vão conseguir contar todas as vezes que fazem sorrir as crianças por dia. Vale uma aposta?

Sinceramente nem todas aquelas crianças têm que conseguir estudar ate ao 12º ano, ir para a universidade, ou serem doutores, advogados, engenheiros etc. Se com as dificuldades da vida que vão ter, conseguirem conservar os pilares que já adquiriram para mim são uns heróis.

E saber que apenas por um breve instante posso ter “ajudado” a conservar esses pilares faz-me dormir bem! Por outro lado saber que pode não ter sido suficiente faz-me sentir inútil e perceber como a vida é injusta … mas bem eu confio neles!

#maywemeetagain

A experiência da Cláudia na Palestina

Naquelas duas semanas no West Bank, houve imensos confrontos entre israelitas e palestinianos. Os piores em Jerusalém, mas também em Belém, Hebron, Gaza. Sempre Gaza. Não mencionei nunca nenhum para não preocupar corações distantes e, provavelmente, esses corações também não ouviram falar deles porque não mereceram destaque nas notícias.

Naquelas duas semanas estive em Jerusalém, em Belém e em Hebron e, felizmente, não assisti a qualquer confronto porque não calhou. Mas assisti a demasiados atos de violência. Vivi rodeada de arames farpados capazes de romper gargantas de revolta. Ouvi histórias de medo em vozes infantis. Vi os drones e os soldados armados até aos dentes com armas apontadas a cada passo em falso. Acordei de manhã bem cedo com o som das máquinas que constroem a pressão dos bairros em redor. Percorri todos os dias um novo caminho, contornei um novo buraco, saltei um novo calhau no meio da estrada bloqueada. Contei cada gota de água que gastei porque a única que há vem da chuva e aqui quase não chove. Vi um pôr do sol a cada dia mais bonito que no dia anterior a tapar de luz a ocupação de cimento e check points. Pus as mãos num muro alto e frio que divide famílias. Bebi chá servido por quem continua a abrir lojas em ruas desertas e proibidas todas as manhãs. Baloicei-me empurrada pelo vento que se ouve naquele lugar de paz e resiliência. Corri caminhos onde pequenas árvores tentam ocupar as raízes das centenas que dali foram arrancadas. Cantei muito alto para que a alegria daquela música fizesse eco lá longe. Tremi com o som das sirenes e gelei com esta guerra fria que se respira no West Bank.

Sorri com quem me sorriu tão sincero, com tanta esperança de que tudo vai ser diferente um dia. Abracei braços que não baixam, e senti-lhes a força e a atitude pacífica de todos os dias para que aqueles lugares não se venham a tornar mais uma Faixa de Gaza. Era tão fácil. Foram 15 dias. Para eles é a vida toda.

E ao fim de duas semanas é a sinceridade e a pureza delas que me desarmam. Elas que, a cada dia, procuram as caras que o instinto já reconhece e as faz sentir mais seguras. Elas que correm para ti porque é ao teu lado que se sentem estrelas brilhantes. Mostro-lhes sempre que são. E são elas que me abraçam e dizem como gostam de mim, porque gostar é assim simples. Gostar são as brincadeiras, os abraços, as histórias, a curiosidade tão inocente, a beleza que vêem nos pormenores, a confiança que cresce todos os dias um bocadinho. Gostar é mostrar sem medo. São as horas que perdem a tentar fazer-me falar árabe perfeitamente, as jóias com que me enfeitam, os desenhos que levo, os cuidados que nos confiam. Gostar é ter saudades e são as lágrimas espontâneas, confusas entre a euforia que festejamos e sentimos por igual.

São elas, as crianças, o mais bonito e o motivo para vir sempre. O motivo para ir sempre melhor. Ao fim de duas semanas tão duras e tão intensas, partir é acreditar que o futuro vai cuidar delas e dos seus sonhos por mim. Que vai fazer deste gostar uma liberdade mais completa.

A experiência da Maria Inês na Tailândia

De Portugal à Tailândia – a rotina de uma ilha

 

Fora da rede, um barco transporta 12 novos voluntários, para a terra onde o tempo pára e a beleza das pequenas coisas prevalece. São 7 horas e desperto para uma nova realidade para encontrar o desconhecido, um paraíso no meio do Índico que mascara uma vivência dura sobre o pacífico isolamento.

O dia começa na escola com o tilintar do sino patriota, somos surpreendidos por um grupo de crianças dos 3 aos 15 e ambos tentamos uma tímida aproximação. A rotina da religião muçulmana, pausada pelas horas da refeição e da aprendizagem.

 

A primeira semana constrói-se sob o ritmo do dia-a-dia, o beber da cultura de uma comunidade em que nada se perde e tudo se transforma. Cada objecto não é apenas uma forma física, representa algo muito maior, um sapato não é um sapato, um sorriso não é o mesmo se não o desfrutarmos com as pessoas a quem cuidamos e com as quais aprendemos.

O balanço da sala de aula e das lições de inglês, começa a tomar forma. Ao princípio foi complicado conquistar a confiança dos membros da escola, contornar os momentos de impotência perante situações nas quais os professores não dão o devido acompanhamento às crianças e por vezes não facilitam a nossa intervenção. A barreira linguística que dificulta o confronto com outras maneiras de estar e lidar com os problemas sociais e ambientais.

A relação entre o grupo de voluntários foi feita de altos e baixos, devido às diferentes noções de entrega que cada membro tinha para com o projecto. O que importa retirar é a simbiose da experiência, o coabitar com o outro e o respeito pela tradição. A partilha no ensino e na aprendizagem para que no momento de entrega à comunidade, todas as dúvidas e inquietudes se reduzam a pó perante a simplicidade dos sorrisos e o contribuir para a evolução das crianças.

 

Compreender um sistema de ensino com muitas falhas mas ter a capacidade para acreditar na mudança de atitudes e perspectivas, a importância que duas semanas têm e podem ecoar para que muitos momentos como este se possam repetir. Por mais que o trabalho feito seja importante na mente dos voluntários que regressam , nunca vai ser suficiente para quem fica.

Todos os pedaços da ilha me lembram saudade, desde a beleza das pequenas coisas, aos momentos de caricatos de convivência com a fauna e a flora, entre folhas de côco e dragões do komodo. Os cheiros coloridos, o arroz três vezes por dia, as canções em inglês, som da vida em cada gargalhada no recreio.

Por estas razões e muitas mais um grande, Kop-Kun-Kah (obrigada)

– A-NGHUN, A-PENG, NOYNA, MIX, FAHANA

YEMMA, PAUSSAN, KAMPEEH, ATUI, Daniela, Tatiana, MOOI e tantos outros…