André, Suíça 🇨🇭

Como primeira experiência de voluntariado internacional decidi participar num workcamp em Ticino na Suíça. Este campo suscitou um grande interesse em mim, por ser numa zona montanhosa, remota, e envolver trabalho ao ar livre.

O facto de ser um projeto que envolve a participação de voluntários de diversos pontos do mundo, levou a que a experiência também fosse bastante enriquecedora tanto na troca de aspectos culturais de cada voluntário, como na partilha de vivências e conhecimentos entre todos.

As atividades neste campo foram diversas e com elas sentimos mesmo que estamos a ajudar a comunidade local e a estabelecer novas competências num ambiente diferente. A quinta tem condições que hoje em dia consideramos bastante “básicas”, isto é, a eletricidade é escassa, não há rede móvel, a água chegou a faltar enquanto lá estivemos e tomar um duche é apenas possível com água a uma amena temperatura de 10ºC!  

Éramos no total 15 voluntários de 8 nacionalidades diferentes. No campo havia também alguns membros que passavam férias e ajudavam no trabalho, sendo também voluntários. As tarefas realizadas na quinta iam desde a obtenção de alimento para o gado (palha) à criação de muros de sustentação com rochas nas encostas que circundam a quinta. Estes muros iriam suportar tanques de 1300 litros, nos quais seria armazenada água. Estes tanques foram transportados pelos voluntários em terreno bastante inclinado, o que dificultou a tarefa. Felizmente terminámos a tempo e conseguimos colocar os 5 tanques no sítio pretendido.

Os voluntários foram divididos em 3 grupos de 5 elementos, que iam de forma rotativa ajudando a cozinheira, Béa, na preparação das refeições e na lavagem da loiça. Esta divisão permitiu que toda a gente trabalhasse nas diversas tarefas e também aumentou a eficiência. Achei bastante positiva a colocação dos voluntários que já se conheciam em grupos diferentes!

O trabalho era exigente, mas divertido, dado que o ambiente era sempre de brincadeira. A motivação dos voluntários era visível e ficou bem patente o avanço no curto espaço de tempo que lá estivemos. Chegámos mesmo a exceder as expectativas do presidente do Alpe Loasa no que toca ao trabalho feito.

Após o almoço, tinhamos um período de descanso em que os voluntários podiam optar por repousar, jogar jogos de tabuleiro ou cartas. Estas oportunidades foram excelentes para conviver. Também fizemos algumas caminhadas em redor da quinta, e chegámos a ir até ao Monte Bisbino onde comemos um gelado no restaurante aí presente. Outros voluntários optaram por ir até ao rio onde puderam nadar e apreciar a natureza.

No geral, gostei bastante de ter participado nesta iniciativa, e irei considerar participar novamente!

Laura e Catarina, S. Tomé e Príncipe 🇸🇹

A nossa viagem teve como destino São Tomé. A nossa viagem não foi um mar de rosas. São Tomé não é um paraíso e viver nesta cidade é ultrapassar todos os dias o que achamos ser um limite, é ter estômago e sangue frio, é fazer a diferença mais vezes do fechar os olhos, é crescer e é viver na realidade que muitos desconhecem. As paisagens ditas paradisíacas não ultrapassam o resto. Na cidade há lixo, há sujidade entranhada no ar, há pessoas e animais maltratados, há preconceito, interesse e uma normalidade, no meio de tudo, estranha para quem vem de um país onde nada disto acontece. Há quem lhe chame cultura, nós chamamos-lhe uma paragem no tempo.

O que nos levou até lá foram 10 crianças internas e 3 externas (perdendo a conta aos que todos os dias iam aparecendo) e foquemo-nos nisso. Estas crianças foram a nossa casa durante 1 mês e, olhando agora para trás e metendo a cabeça no lugar, um bocadinho do nosso refúgio do dia-a-dia. Estas crianças ensinaram-nos mais do que alguém pode imaginar e pode parecer um cliché, uma frase dita por quase toda a gente que faz voluntariado mas a verdade é que ensinaram-nos que a verdadeira felicidade está nas coisas mais pequenas e simples. Que basta haver música e dança para arrancar sorrisos, que os olhos brilham quando se ouve falar em chocapic e que um copo de leite de manhã (quando há) aquece a alma. Que os pulos de alegria genuínos acontecem quando a energia volta e quando não há a vida continua, as rotinas mantém-se e o improviso acontece. Ensinaram-nos a agradecer, todos os dias pela sorte que temos e não sabemos.

Ser voluntário não passa só por fazer atividades que ocupem e proporcionem aprendizagens e visões do mundo diferentes. Essa parte é fulcral mas ser voluntário é ser um bocadinho de tudo, ouvimos e contámos histórias, demos abraços, arrancámos sorrisos e limpámos lágrimas, demos colo, amor e carinho, curámos feridas, fizemos bolachas e pizzas, ensinámos a respeitar, a falar em vez de gritar e bater, tivemos conversas informais sobre tudo e mais alguma coisa, protegemos o ambiente, deitámo-nos a ver estrelas, aprendemos a lavar a roupa à mão.

Hoje ficam as saudades de acordar com o barulho da vassoura e do machado a cortar lenha, o bater à porta de 5 em 5 minutos, os beijinhos cheios de baba e os abraços que quase nos esmagavam. Hoje tudo o que trazemos são as lembranças e o coração apertado de saudades. Deixámos um bocadinho de nós e trouxemos um bocadinho de todos. Obrigado São Tomé por nos teres dado estes miúdos incríveis ♥

Sérgio, Ilha do Maio 🇨🇻

Eu tive um sonho de realizar uma missão de voluntariado em África, em Moçambique. Teria de ser um voluntariado de longa duração para melhor me inteirar das necessidades da comunidade e de toda a envolvente. Quando me reformei, comecei a compreender que esse sonho seria possível. Com a ajuda da minha sobrinha Catarina Vieira – a Caty, para mim -, que fez voluntariado em Zanzibar, na Tanzânia, inscrevi-me num programa de longa duração em Moçambique. Acontece que, devido à especificidade do projeto, não pude dar o meu contributo. Queria retribuir de uma maneira singela tudo o quanto esse país maravilhoso me deu nesses dezassete anos inolvidáveis em que vivi toda a minha infância e adolescência.

A Para Onde? – Voluntariado Internacional, reconhecendo a minha grande paixão por África, orientou-me para Cabo Verde. E, assim, aderi ao programa das tartarugas marinhas, na Ilha do Maio. Este novo projeto, que a Para Onde abraçou, teve início a 15 de junho e vai terminar em novembro. Inscrevi-me para os meses de junho a agosto, num total de sessenta dias.

Quando chego à Ilha do Maio, a 19 de junho, a FMB – Fundação Maio Biodiversidade, levou-me até à aldeia do Morro, a cerca de cinco quilómetros da Cidade de Porto Inglês, mais conhecida por Vila. Era aqui, no Morro, na casa dos meus pais adotivos, o Paulo e a Vanda, que iria morar até agosto, numa experiência que se revelou memorável.

Uma hora depois da chegada, o Edinho, um dos guardas marítimos, foi à minha casa e perguntou-me se pretendia ir com ele fazer o censo que estava previsto iniciar-se, dali a minutos, nas praias do Morro e que teria uma duração de hora e meia. Assim começou uma amizade para a vida.

O 1º censo com o Edinho no dia da chegada
O primeiro rasto a 20 de junho

A época das patrulhas noturnas para a monitorização das tartarugas marinhas, foi inaugurada a 30 de junho e vai decorrer até ao final de novembro. O horário das patrulhas é das 20h às 6 da manhã. Mas, normalmente, terminam pelas sete ou oito horas. É muito tempo a patrulhar e torna-se demasiado cansativo. Mas é reconfortante todo aquele convívio e camaradagem que se instala em cada um de nós quando a noite cai. O silêncio do luar, a agitação do mar e a espuma das ondas que nos afaga a alma, convida- nos à introspeção. São momentos únicos que a noite nos transporta para além de nós próprios.

A primeira desova, a 23 de junho

À medida que ia melhorando a minha experiência com as tartarugas, ia-se acentuando o desejo de conhecer todas as pessoas do Morro. Queria entrar em cada uma das casas e conhecer as famílias, os seus nomes de igreja e de casa, as suas idades, a escolaridade e as suas profissões. Ver o seu modo de vida, para melhor perceber das suas carências, das suas dificuldades. Trazia uma mala cheia de coisas úteis que a Paula, a minha esposa, fez ao longo de um mês para oferecer às pessoas da aldeia onde ficasse a morar. Na outra mala, a minha roupa era para deixar a quem mais necessitasse. Regressaria apenas com a roupa do corpo e uma muda. Nada mais! E assim foi.

Por isso, para que a distribuição das malas fosse destinada aos mais carenciados, idealizei um censo às pessoas do Morro. Comecei por fotografar as ruas e cada uma das casas, dando-lhes números para as melhor identificar. Depois, fui tocando a cada porta e passei a conhecer o seu interior, as suas vidas. Este projeto teve o apoio dos meus pais adotivos – a Vanda e o Paulo – e contou com a ajuda de várias pessoas, entre locais e voluntárias, com especial evidência para a Ana Rosário. Todos, e cada um à sua maneira, colaboraram para o edificar deste projeto que me encheu de orgulho. Pedi a todas as voluntárias portuguesas que passaram pela nossa casa para contribuírem para o avolumar da mala. E todas deixaram roupas que tornaram felizes mais pessoas do Morro. Obrigado a todas.

O que começou por ser uma missão de voluntariado para trabalhar com as tartarugas, tornou-se numa missão de conhecimento das pessoas do Morro. Esta metamorfose que se foi construindo, transformou-me sobremaneira. As tartarugas são importantes. Mas, mais importante, são as pessoas. As pessoas da minha aldeia. As pessoas do Morro. Chamar as pessoas pelo seu nome passou a ser uma obstinação. Conheci as cento e oitenta e duas pessoas. Sinto que cumpri uma missão para com essas pessoas. Fui um deles. Sou um deles!

A Leonor e o Nelito (na foto), a escolherem a praia para a limpeza, no Sábado. É uma das atividades mais importantes na Ilha do Maio. A sensibilização das pessoas, faz-se porta-a-porta, e as comunidades locais são chamadas a ajudar na limpeza para se consciencializarem dos perigos que o amontoar de resíduos nas areias das praias provoca no ecossistema das tartarugas marinhas. No período em que lá estive, deram à costa três tartarugas mortas. Duas fêmeas e um macho. Tinham engolido corda de sisal e ficado asfixiadas. É uma pena que ainda haja tanta falta de cuidado e, porque não dizê-lo, tanta falta de respeito!

Participei no projeto da Rota Gastronómica, da Ilha do Maio, que teve a liderança da Ana Rosário, voluntária portuguesa, e do João Varela, o Eco Guia da FMB. Foi gratificante saber que, no final de Agosto, já será possível realizar esta rota turística de primordial importância para o Maio.

Ajudei a FMB no carregamento de dados da observação de pássaros nas áreas protegidas, dos anos de 2017 e 2018. Era o mínimo que poderia fazer, quando a Sara me fez o pedido para a atualização dos dados observados. Agora, já será possível o estudo analítico e estatístico da evolução dos pássaros nas áreas protegidas da Ilha do Maio.

O João Varela com um peixe acabado de pescar
Praiona, uma das bonitas praias da ilha

O grupo GAS Tagus – a Rosa, a Ana, a Lúria, o Dani, a Maria e o guia Agostinho – que há quatro anos faz atividades sociais na aldeia do Morro, sabendo da minha pretensão de subir ao ponto mais alto da Ilha, convidou-me para ver o nascer do sol do alto do Monte Penoso. Obrigado por esse domingo maravilhoso.

Pôr-do-sol no Morro, visto do terraço da minha casa
A lagoa do Morro
Nascer-do-sol na subida ao ponto mais alto da ilha
O início da parte final da subida ao Monte Penoso

Comecei a escrever um diário em 2 de outubro de 2018, com a minha candidatura ao voluntariado de Moçambique. Depois de vicissitudes várias, recebo, finalmente, a 31 de outubro, a confirmação da FMB de que fui aceite no programa de longa duração para a Ilha do Maio, em Cabo Verde.

Para que não me esquecesse de nada, ia anotando os acontecimentos mais relevantes que antecederam a partida para Cabo Verde. Durante a missão de voluntariado, todos os dias atualizava o meu bloco A5. Agora, ao relê-lo, sinto que foi uma experiência a todos os títulos notável. Quantas lágrimas já caíram por momentos tão sublimes. E as que ainda irão cair…!

Pela experiência sentida, como voluntário sénior, digo que é importante a vivência e a convivência com outros voluntários mais jovens. Esta simbiose entre a experiência, a maturidade e a sabedoria, por um lado, e a audácia, jovialidade e a irreverência, por outro, fazem o equilíbrio que muitas vezes é necessário nas mais variadas situações de voluntariado.

Estas sete semanas proporcionaram o convívio com seis voluntárias, sendo uma delas cabo-verdiana e as outras portuguesas. Todas elas jovens e cada uma com a sua personalidade. Umas mais senhoras de si, outras mais carentes mas, todas elas, empreendedoras e dispostas a tudo fazer para se integrarem no seio da comunidade, de modo a cumprirem com os objetivos do voluntariado a que se propuseram.

Como mais velho e com uma existência de mais de dezassete anos em Moçambique, penso que ajudei a que essa integração fosse mais facilitada. Era, no fundo, o mínimo que se me exigia.

No meu caso particular, a voz do voluntário sénior é mais compreendida, é mais alcançável e é mais aceite, quer junto das comunidades locais, quer junto dos outros voluntários mais jovens. A experiência vivida ao longo de quarenta e dois anos de trabalho e nas inúmeras viagens realizadas pelos cinco continentes, trouxeram uma espécie de liderança natural para a comunidade, com especial relevância para os guardas marítimos com quem tive o privilégio de trabalhar nas longas noites na proteção das tartarugas marinhas. Foram deles as maiores apreensões com as escalas e com as folgas. Foram deles as chamadas de atenção para as relações humanas que se deterioravam. Foram eles que elegeram a minha voz. Fiquei demasiado envolvido nas suas preocupações e estou-lhes grato por isso. A nada me refutei, nem poderia fazê-lo. Por isso a nossa relação foi tão especial. Afinal, passei a ser também um deles. Passei a ser também um guarda marítimo.

Através de contactos vários com a FMB, fui dando conta de algumas situações que se estavam a passar com a líder e os guardas marítimos. Eu próprio fui testemunha de algumas delas e também suportei a sua sobranceria e a falta de respeito. Por isso, abandonei o programa das tartarugas mais cedo que o previsto. Foi pena. A FMB fez algumas reuniões e as relações humanas foi uma das vertentes que mais melhorou. Não consegui diluir todos os problemas, mas a minha persistência contribuiu para uma progressiva melhoria no relacionamento entre todos os que fazíamos patrulhas.

Para que conste, não guardo mágoa alguma. O sonho concretizou-se. A experiência tornou-se inolvidável. Daquelas que reservarei para sempre num lugar distinto das minhas memórias. Foram os cinquenta dias mais importantes da minha vida. Venho diferente. Diria mesmo, muito diferente. Para melhor. Passei a dar mais valor às coisas que são realmente importantes. Nós, por aqui, continuamos nas nossas superficialidades que não nos levam a lugar algum. Até para o ano, no Morro.

Os preparativos, na véspera, para a despedida, com o Boba, o Edinho e o Gilson

Em prol da grande amizade que se construiu entre nós, os guardas marítimos fizeram-me uma festa de despedida na praia, durante todo o dia. Mas a festa começou no dia anterior, à noite, quando me pediram que fizesse uma última patrulha com eles para assim passarem a noite comigo. Não tenho palavras para descrever esses maravilhosos dias de cinco e seis de agosto, véspera da minha partida. Brincámos, mergulhámos, nadámos, comemos, bebemos, cantámos, dançámos e também chorámos. Chorei muito. Nunca assisti a uma demonstração de amizade como esta.

Os grandes mentores da festa: o Boba, a Inês (tesoureira), o Edinho e o Gilson

Queria agradecer às pessoas responsáveis do FMB e a toda a sua estrutura, todo o apoio que me proporcionaram nesta missão de voluntariado. São elas: O Leno, a Andreia e a Janete, na foto, e ainda, a Sara, a Raquel, a Jocelina, o Jairson, o Denis, o Nelito e o João Varela. A todos o meu muito obrigado.

O pequeno-almoço na praia, a ser preparado com todo o requinte, pelo Edinho

Obrigado Edinho. O maior de todos. A amizade que temos vai perdurar pela vida. Agarrou- me a 19 de junho e só me largou a 7 de agosto, na minha partida. Levei-te comigo e sei que continuo aí presente. Os momentos que passámos juntos nas patrulhas foram tão tocantes que jamais os esquecerei.

O Boba e a caipirinha improvisada

Obrigado Boba, muito falador mas amigo do peito. Obrigado Gilson, sempre bem-disposto e pronto a ajudar. Obrigado Omar, o benjamim dos guardas. Obrigado David. Obrigado Diego. Obrigado Dino. Todos foram importantes nestas sete semanas. Sem vocês, nada disto seria possível. Nada disto fazia sentido. Eternamente grato.

A cachupa, na praia, confecionada pela Vanda

A Vanda, ou melhor, a Cândida, de seu nome de igreja, a minha mãe adotiva, prontificou-se a confecionar a cachupa para o almoço na praia. Os seus dotes de cozinheira ficaram bem patentes na limpeza da grande panela que serviu o repasto.

A esta hora da tarde, o discernimento já não era muito
Na nossa casa, com os meus pais adotivos, a Vanda e o Paulo

Obrigado Vanda. Obrigado Paulo. Os meus papás adotivos, no Morro. Estas sete semanas serão guardadas num cantinho muito especial do meu coração. Obrigado por tudo. Para o ano, cá estarei.

Acima, fica o testemunho da grande camaradagem que permanentemente vivemos entre nós. Numa camisola que guardarei para sempre, os guardas marítimos e algumas das pessoas que mais me foram queridas nestas sete semanas, escreveram o seu nome.

A alma esvazia-se, o corpo levita e o coração esvai-se. Obrigado por estes 50 dias maravilhosos.

Joana, Santo Antão 🇨🇻

E é com muita pena minha que digo que chegou ao fim aquele que foi o melhor mês da minha vida. Sem dúvida que fazer voluntariado em Santo Antão foi a decisão mais acertada que alguma vez podia ter tomado. Esta ilha é, de facto, encantadora. As pessoas, as paisagens, as tradições… é tudo tão incrível.

Antes de chegar não fazia ideia do que ia encontrar, ia tranquila e sem grandes expectativas, mas assim que cheguei ao cais, apercebi-me de que não podia ter escolhido outro sítio. Os dias começavam sempre com muita alegria. Íamos ao Centro de dia do Alto de São Tomé, onde passávamos uma hora com os idosos de lá. Sinto um carinho e uma admiração enorme por eles. É fantástica a forma como eles encaram a vida, a sua energia e dedicação a tudo o que fazem. E a verdade é que esse tudo é mesmo tudo. Nunca vi nada assim, eles pintam, dançam, fazem colares de missangas, ginástica, vão à praia dar mergulhos, ou seja, basicamente tudo o que lhes propomos eles fazem e dão sempre o seu melhor. São um exemplo de vida e vão ficar para sempre no meu coração.

Algumas vezes por semana fazíamos também atividades com as crianças do ICCA (Instituto Cabo-Verdiano da Criança e dos Adolescentes). Lá, senti que era mais fácil ter conversas sobre temas atuais e foi mesmo bom ver como as crianças já tinham uma mentalidade tão avançada e tão aberta para certas coisas.

As tardes eram passadas com as crianças do Espaço Jovem. Sinto que aprendi muito com estas crianças. Foram tantas as coisas que fizemos juntos, desde pinturas, a apanhar lixo na rua, a distribuir postais no dia dos avós, até à dança do Taki Taki…

Nem todos os dias foram fáceis, mas claro que a experiência não seria a mesma se tudo fosse perfeito. É bem verdade que recebemos muito mais do que damos, o que me deixou de coração cheio e com muita pena de vir embora.

Já passou quase um mês desde o meu regresso, e todos os dias penso nas pessoas que conheci, nas saudades que tenho da boa disposição de toda a gente e acima de tudo, sinto-me muito grata pela família que criei durante o mês de julho. Obrigada à Matilde, à Rita, à Mali, à Inês A., à Lígia, à Inês C., à Inês D., ao Allan e à Elci. Nada disto teria sido possível sem vocês!
Sei, com toda a certeza, que um dia vou voltar!

Fábio, Sri Lanka 🇱🇰

Incrível. Único. Emocional. Inesquecível. Lindo. São tudo palavras do dicionário…e adjectivos desta aventura também.

O Sri Lanka é um país dividido à nascença, tem 2 povos e línguas diferentes (Tamil e Sinhala) que vivem num espaço comum. Como se Portugal e Espanha fossem um só e frequentássemos a mesma escola. Estranho não é? Esta divisão contribui para o estado do país e a pobreza em geral por todo o território. Eu estive em Mutur, situado no Noroeste da ilha, uma vila muito humilde onde integrei um workcamp de 10 dias para crianças onde um dos objectivos era ensinar inglês.

O nível é baixo em todo o país, inclusive dos professores, pelo que acabamos por contribuir imenso para o seu desenvolvimento. Como as crianças querem tanto falar connosco e fazer perguntas, esforçam-se imenso para falar inglês que de outra forma não o fariam porque os locais também não o dominam e “fogem” para uma das línguas locais. É também um país hiper religioso com 4 crenças a viver em comunhão, o que ajuda também na divisão dos povos.

O povo do Sri Lanka é muito simpático. Fui recebido no Peace Center do 3CD que promove iniciativas para a comunidade local, tendo já o hábito de receber voluntários, e fizeram-me sentir parte de uma família.

O pai Mr.Buhari (sim, tens de dizer Mister) que é o responsável pela instituição, a mãe Emmerentia que é absolutamente indescritível, é o amor em forma de pessoa e uma série de irmãos e irmãs que cooperavam no workcamp. Ensinaram-me ambas as línguas, a cozinhar a comida local, a conhecer as atracções da zona e a fazer o roteiro da viagem pelo país que ia fazer a seguir. Ah! E a comer com as mãos que lá é um costume :) nunca me faltou nada. Tive a sorte de fazer anos durante o workcamp e tive direito a 2 bolos de aniversário e presentes das pessoas da casa e até das crianças.

Inesquecível. A quem aceitar o desafio de ir para lá, algumas tips: dêem tudo! É a minha segunda viagem com o Para Onde e saio sempre a pensar que podia ter feito isto e aquilo. Vai sempre acontecer mas não desperdicem nenhum segundo, passa rápido. Tentem deixar algo para o futuro. Uma ideia, um projecto, o que for.

Estes povos não têm a sorte que nós temos de ter acesso a tudo e podemos mesmo contribuir com ideias que consideramos básicas mas que nestes sítios mudam a vida da comunidade. Para terem uma ideia, em Mutur não há caixotes do lixo.

Abram-se no 1o dia. Resulta a 100% com toda a gente. Sejam felizes :)

Ana Isabel, Arraial d’Ajuda 🇧🇷

Quando eu, mulher de 25 anos, com um ar de criança, decidi que a minha próxima aventura envolvia embarcar sozinha, para o Brasil, para fazer voluntariado os primeiros comentários não tardaram a chegar, e nem todos eram positivos. Que eu era maluca, que não era um país seguro, que podia ser assaltada, entre outras. A verdade é que nada na vida é seguro, seja em Portugal ou no Brasil, então decidi confiar em mim e avançar. E só vos posso dizer que foi melhor do que eu podia imaginar!

Quando lá cheguei fui acolhida com muito amor pelas crianças e adultos da Associação Filhos do Céu e também pelas minhas colegas de aventura (Alexandra e Filipa). Nos primeiros dias na Associação tivemos o chamado “apalpar terreno”. Fizemos uma visita pela AFC, passamos pelas várias salas e atividades que estavam a decorrer, enquanto íamos conhecendo as crianças e ficando a saber mais um pouco das rotinas e vidas delas.

Os nossos dias na Associação começavam às 08h00 e depois do pequeno-almoço as crianças dividiam-se pelas respetivas salas e atividades. Eu acabei por passar mais tempo na sala dos 7 aos 9 anos, a fazer trabalhos escolares, leituras, jogos e muitas brincadeiras. Mas também ajudava na cozinha, a servir almoços, a descascar e cortar frutas e legumes. Basicamente íamos ajudando em tudo o que era necessário e acima de tudo, dando muita atenção às crianças. Passava também muito tempo na creche a brincar com os mais novos. Muitas saudades daqueles meninos que muito carinhosamente nos tratavam por “tia”. Os dias acabavam por volta das 17h00 onde depois aproveitávamos para passear e descansar.

Os fins de semana eram aproveitados para ficar a conhecer melhor Arraial d’Ajuda e não só. Ficamos a conhecer Caraíva, que é só incrível, a praia do Espelho, a reserva Pataxó da Jaqueira e eu ainda tive a oportunidade de conhecer um bocadinho do Rio de Janeiro e São Paulo. Aquele laranja do pôr-do-sol e o azul do mar dificilmente serão esquecidos.

Acima de tudo não tenham medo, não fiquem em casa e arrisquem! O “risco” em que eu me coloquei valeu muito a pena! O meu pequeno conselho é: zero expetativas, zero preconceitos, vontade de trabalhar e muita vontade de amar!

Bruna e Débora, Guatemala 🇬🇹

“Nada é tão nosso quanto os nossos sonhos”, foi assim que encaramos a aventura, uma vez que sempre foi um dos nossos objetivos de vida, fazer voluntariado fosse onde fosse. Neste caso e juntando o útil ao agradável, uma vez que somos enfermeiras, realizamos Voluntariado numa clínica na Guatemala. Como uma aventura nunca vem só para além de termos feito uma longa viagem de avião, entre escalas e horas de espera ainda fizemos mais uma viagem de 5 horas numa camioneta com a música nas alturas, com vendedores a entrar e a sair que vendem tudo e mais alguma coisa e que fazia as curvas e contra curvas como nunca tínhamos visto… e lá chegamos nós, no dia 30 de junho deste ano.

Chegando a clínica e logo no primeiro dia atendemos todos os utentes, juntamente com a restante equipa. Aqui começamos a perceber algumas das patologias mais comuns e quais os problemas para os quais teríamos que combater. Sabíamos que estava a nossa espera uma realidade muito diferente e assim foi, aprendemos a lidar com pessoas totalmente diferentes de nós, com uma cultura muito própria e com costumes também muito diferentes.

Foi sem dúvida uma experiência inesquecível onde pudemos realizar vários procedimentos tal como fazemos em Portugal, no entanto com algum sentido de improvisação porque os recursos nem sempre eram os mesmos, conhecer uma cultura totalmente diferente da nossa, diferentes costumes e diferentes pessoas. Para além de termos lidado e convivido com os adultos que iam à clínica também convivemos muito com as crianças que frequentam a escola situada ao lado da clínica, aproveitávamos os intervalos para brincarmos com eles e também, conhecer e conversar com os alunos mais velhos. Além de toda esta experiência aprendemos a conviver com a restante equipa com quem partilhamos estadia, desenvolvemos o sentido de partilha e comunicação, porque havia uma diversidade muito grande de nacionalidades entre os voluntários, dividimos as tarefas entre todos, entre cozinhar, limpar, organizar a clínica, dividir horários e trabalhos.

Aos domingos era dia de ir ao mercado fazer as compras para a semana, sendo que seríamos divididos por dois grupos (os que ficavam encarregados dos vegetais e outro responsáveis pelas frutas), pois a nossa alimentação era vegetariana. Contudo ficava sempre uma pessoa na clínica responsável por qualquer emergência que aparecesse. Foram nestas compras que aprendemos a regatear preços, porque em nada haviam preços estipulados e, desta forma, conseguimos também por em prática o Espanhol. Houveram dias sem eletricidade e sem água na clínica, muitos bichos diferentes do que existe cá em Portugal, contudo estas situações foram superadas da melhor forma possível, pois tivemos sempre a nossa mente aberta e sabíamos que a realidade lá seria completamente diferente da que temos.

Apesar de vários percalços e conflitos de ideias, foi uma experiência enriquecedora para ambas, da qual não nos arrependemos em nada da nossa decisão e aconselhamos vivamente a que toda a gente tenha uma experiência de voluntariado uma vez na vida porque, realmente, terminamos a experiência a pensar de outra forma e a dar valor a “coisas” que já eram tomadas como garantidas. Se deixámos um pouco de nós na Guatemala, a Guatemala deixou muito dela no nosso coração.

Vanessa, Santo Antão 🇨🇻

Foi uma experiência incrível com muita aprendizagem. Tive a sorte de conhecer a Mathilde a pessoa mais preocupada com tudo, com o nosso bem estar, com a nossa alimentação, sempre atarefada para que todos estejamos bem e que tudo esteja a correr bem.

A nossa casa, que primeiro estranhas mas depois sentes que aquela é a tua casa, e os outros voluntários são a tua família, ficarão sempre guardadas as recordações das reuniões semanais e as tardes de planeamento, os jantares em família e dar sempre graças depois de jantar pelo dia que tivemos dizendo qual foi o melhor momento que tivemos. Chegar ao centro de dia e sermos recebidas pelo Sr. Vítor com a sua boa disposição e os seus abraços apertados e ver a dona Maria e o Sr. Germano, um casal com muito amor que parece que são namorados no inicio do relacionamento.

Cada dia que lá estás é diferente, é o início de uma nova fase. Sendo filha de cabo-verdianos aprendi a ver as coisas com outros olhos e a levar a vida como dizem os mais velhos “be devagar” (ir devagar), pois com o pouco que têm estão sempre com um sorriso enorme e é muito difícil vê-los a reclamar da vida. Mesmo os idosos acamados que fomos visitar, dava para ver no seu olhar o sorriso de estarem a serem visitados, alguns não falavam mas demonstravam a alegria de nos ver batendo palmas e outros abraçando-nos ou dando-nos muitos beijinhos. Todos estes momentos marcaram-me, mas sobretudo deixam saudades, e espero futuramente repetir esta aventura e que continue a aprender cada vez mais com as coisas simples da vida.

Ana, Ilha do Maio 🇨🇻

Existem sempre aqueles sonhos que queremos muito concretizar, mas por falta de oportunidade ou coragem vamos adiando dia a dia. E este ano, foi o ano de concretizar o sonho do voluntariado. Quando decidi ir até ao Maio durante duas semanas não fazia ideia da experiência que traria comigo. Sabia que ia em voluntariado para um lugar totalmente desconhecido e para uma casa de pessoas que nem os nomes sabia. Mas o que ninguém me contou é que aquela casa no Morro, na qual cheguei a medo, se iria tornar tão depressa minha casa e a minha família.

Foram apenas duas semanas, mas foram duas semanas de muitas memórias e muitas partilhas. Foi sem dúvida uma das melhores experiências da minha vida, a todos os níveis. Tive oportunidade de colaborar com a fundação num projeto que acredito e revejo muitas potencialidades, o desenvolvimento do turismo rural sustentável na ilha. Para além deste projeto colaborei em outras atividades relacionadas com preservação e monotorização das aves e tartarugas. Sabia que já me tinha rendido à aquela pequena ilha de Cabo Verde o que ainda não tinha percebido é que me iria apaixonar por aquelas tartarugas e por todo o seu comportamento. É completamente fascinante estar numa praia de Cabo Verde, em noites que as estrelas preenchem o céu, rodeada de pessoas maravilhosas com quem rimos e partilhamos bons momentos, e ainda assistir a toda aquela magia da natureza. Ver a tartaruga a sair do mar, fazer o ninho, camuflar e voltar à água com toda a sua calma e perfeição. É tão bonito!!!

Para além de todas estas experiências resta-me falar das pessoas da ilha, da envolvência e de todo o carinho que recebemos. Rapidamente fazem com que sejamos mais um membro daquela comunidade. É indescritível a forma como somos recebidos. Se me perguntarem o que foi mais difícil nestas duas semanas, não tenho dúvidas da resposta: FAZER AS MALAS PARA VOLTAR! <3

Rita, Xai-Xai 🇲🇿

Foram dois meses intensos. Sempre sonhei fazer voluntariado internacional e assim que a Para Onde? me deu a conhecer este projeto, soube logo que tinha chegado o momento e o destino estava escolhido: Moçambique!

Viver em Moçambique é uma experiência que qualquer pessoa no mundo devia ter. A magia que aquele lugar tem, apesar de ser única é indescritível. E o povo moçambicano? Nunca vi gente mais lutadora, mais corajosa perante tantas dificuldades, que – acreditem – são muitas, e ainda assim tão genuinamente feliz. Gente sempre disposta a cantar e dançar, a agradecer e a festejar todos os dias a sua liberdade. É inspirador!

Trabalhar nesta Fundação é fazer parte de uma grande família. Acolhedora desde o primeiro dia e tão, tão unida! Desde o início que me fizeram sentir em casa! Os dias de trabalho eram intensos, havia sempre tanto que fazer e toda a ajuda, por mais pequena que fosse, era importante e, por isso, agradecida de coração. Os dias passavam a voar e eram tão divertidos. Ali acordar cedo não custa, só pelo privilégio que é assistir àquele amanhecer. E trabalhar no Centro Munti significa ensinar, partilhar, aprender, ser equipa e crescer junto, brincar, brincar e brincar!

Acreditem, é apaixonante! Agora que passou, o que eu sinto é um misto de felicidade por ter não só cumprido um sonho, mas também superado todas as expectativas em relação a ele, de gratidão por ter a sorte de fazer parte de algo tão bonito como a Fundação Khanimambo, de profunda tristeza por ter chegado ao fim desta experiência e de certeza absoluta que um dia hei-de regressar.

A todos os que sonham um dia ser voluntários, por favor não percam mais tempo. A todos os que acham que ser voluntário é “trabalhar de graça” só tenho a dizer que recebi muito mais do que algum dia seria capaz de dar, que ser voluntária mudou a minha vida e o meu modo de a olhar para sempre… e juro que não sei o que fiz para merecer tanto!
Volto mudada e volto incompleta, porque uma parte de mim permanecerá para sempre lá.

Obrigada, Para Onde? por teres tornado este sonho possível!