A experiência do Tiago em S. Tomé e Príncipe

A minha vida estava monótona e não estava a ser aquilo que eu queria e então decidi fazer voluntariado, e embarquei para são Tomé e Príncipe para lá ficar 2 meses.

Durante estes dois meses tive oportunidade de poder ajudar estes rapazes a nível escolar, fazer jogos com eles e conversar e saber ouvi-los mas, acima de tudo, agradeço por me terem dado a chance de ser como um “irmão mais velho” para eles.

São Tomé deu me muito mais do que aquilo que possam imaginar. Vou ter saudades da comida, de acordar com barulho dos miúdos a brincarem no telhado, de ir “apanhar” água, das danças, andar de motoqueiro de cima e para baixo, pequenas coisas mas que fazem toda a diferença.

Guardo toda a gente da ARCAR no meu coração, desde os miúdos, aos dirigentes e todos os funcionários por me terem recebido tão bem. Lá é uma grande família.

Ainda bem que tomei decisão de ir para são Tomé e o que fica agora é a saudade.

“São tomé cú plínxipe tela boáson”

A experiência da Catarina em Arraial d’Ajuda

O voluntariado em Arraial D’Ajuda foi bastante intenso. Um mês recheado de sorrisos e abraços, contrabalançados com histórias de vida inesperadas e marcantes. Experiências únicas que mudaram a minha maneira de olhar e interagir com as crianças. Aconselho esta vivência a qualquer pessoa, independentemente do género ou da profissão. O coração fica realmente preenchido.

A experiência da Andreia na Colômbia

Eu tinha dois sonhos: um, viajar sozinha, outro, fazer voluntariado. Encontrei o Para Onde, e com a minha curiosidade pela América Latina, embarquei para Chinchiná, Colômbia.Os meus desafios começaram logo de início, mas já me sentia feliz por estar a ter a coragem de ir em frente na minha vontade de fazer algo diferente na minha vida. Tratei de todos os assuntos burocráticos, fiz a mala, e com alguma ansiedade fui para o aeroporto de Lisboa. Quase 48 horas depois estava à minha espera a minha querida Inês, outra voluntária portuguesa que já lá estava, e o Ed da Mingahouse. Estava muito cansada pois perdi um voo de ligação, e o tempo de viagem duplicou, mas o sentimento de ser bem-recebida não me foi tirado. Eles estavam felizes, e eu também. Cheguei a Chinchiná, e tinha um jantar especial preparado para mim de boas vindas. Nessa noite recebi tantos abraços sinceros e longos, que desde esse dia, senti-me em casa. E pode parecer cliché, eu sei, mas não há como dizer de outra forma, eu realmente ganhei uma nova família. A Dani, o Stiven, o Jaidiber, o Glen e a morita (gata) da minga, e todos os outros voluntários. Durante as 3 semanas seguintes entrei numa viagem sem fim, na viagem mais importante que fiz até hoje.

A minha primeira paixão foi a Minga, depois no dia seguinte a energia que senti.

Acredito em energias, e a zona rural da Colômbia tem uma energia incrível. É um país lindo, o mais lindo que visitei até hoje. De uma natureza singela, verde, bruta, sem artefactos. A todos os segundos que olhava à minha volta e sentia aquele fresco da mãe natureza, sentia-me feliz, sentia amor. Puro. A caminho dos nossos campos de voluntariado, eu e a Inês, a minha amiga e companheira portuguesa de viagem que tanto adoro, dávamos a nossa risada de alegria. Eu acrescentava o meu suspiro de amor. A Inês sempre ria do meu suspiro. É impossível não nos sentirmos acolhidos neste país. Impossível!

A minha terceira paixão foram as pessoas que atravessavam as ruas, que me sorriam. As pessoas a quem medicamentos dei, e as pessoas que me deram café.

Acredito que o caminho do ser humano está no aceitarmos que somos um todo, e não pessoas separadas por países, religiões, culturas, e todas essas diferenças. E se eu achava que éramos parecidos com os povos latinos, percebi que nós portugueses somos mais parecidos com os americanos. E porque digo isto? Porque tive com voluntários americanos, e as nossas parecenças diárias são muito maiores, somos pessoas que vivemos com o fenómeno da escassez cristalizado, e que não temos assim tanta escassez. E os Colombianos vivem com o fenómeno da abundância, e que não têm assim tanta abundância. Financeira. Falo apenas da financeira.

Neste apaixonante canto do mundo, as pessoas deram-me muitos abraços, agradeceram de coração a minha presença. Acho que para eles bastava eu estar ali, mais nada. Não precisava de explicar-lhes como tomar os medicamentos, não precisava de falar espanhol, eles apenas agradeciam a minha presença. Agradeciam à nossa equipa de médicos, farmacêuticas, pre-med, pela ida às vilas deles, tão afastadas de tudo. Eu dispensava os medicamentos, explicava como tomar, escrevia, e eles agradeciam o meu carinho. Mas ficavam ainda mais felizes quando no final, eu lhes dava as vitaminas. Foi tão engraçado e surpreendente para mim ver como umas vitaminas faziam uma pessoa feliz. E eles querem vitaminas, porque eles querem viver mais tempo!

Depois da consulta, cada um deles permanecia ali mais tempo, junto de nós. A fazer perguntas, curiosos, a conversar entre eles. Estava sempre rodeada de cães simpáticos, e de crianças curiosas. Crianças a querer aprender onde ficava Portugal, como se falava português, a querer que lhe ensinasse qualquer coisa. Outras também queriam ensinar-me, e ensinaram-me as várias pronúncias do país, falaram-me do ensino deles, o que queriam estudar. Memórias boas e inesquecíveis. Sorrisos inesquecíveis de crianças livres, felizes, curiosas. Memórias de adultos preocupados com os seus filhos, família e comunidade. Memórias de idosos que querem viver mais tempo. Memórias de animais mais simpáticos do que habitual. Memórias de pessoas carinhosas, que me tocavam nas mãos com amor, e que queriam ter a certeza que eu não tinha fome, ou vontade de beber café.

E para terminar volto a falar da outra parte do voluntariado que foi na família Mingahouse, e a eles também queria deixar umas palavras de um grande obrigado. Sempre preocupados se estava bem, ou precisava de alguma coisa. Não me vou esquecer de nenhum deles. Nenhum!

E foi quando recebi uma notícia triste de Portugal que eles me tocaram mais no coração. Um dos riscos quando nos afastamos da nossa casa é sermos apanhados desprevenidos e não podermos fazer nada. Nesse dia triste, em que recebi a notícia que a minha amiga de 4 patas de longa data tinha partido, nesse dia, eu percebi o quanto as pessoas não se atropelam ali. O quanto as pessoas respeitam os sentimentos dos outros, e os seus. O quanto aceitam a transitoriedade da vida, e o quanto isso os faz ser diferentes.

Foi um país que me abraçou de forma quentinha, honesta, calorosa. Bem longe ficou a ideia de que a Colômbia é um país inseguro. Bem perto ficaram eles todos de mim, e no meu coração.

Até um dia. Bem breve.

E um grande obrigado a vocês, Marta e Inês. O vosso cuidado e carinho foram indispensáveis neste processo.

A experiência da Marta nos EUA

Tentar imaginar uma atividade de voluntariado num dos países mais desenvolvidos do mundo pode ser um desafio difícil, uma ideia quase descabida. Tratando-se de uma primeira experiência, procurei algo que me pareceu dentro da zona de conforto. Sem saber bem o que esperar e com algumas dúvidas quanto à relevância do meu papel, parti expectante mas algo receosa. Num flashforward para o final da história: não poderia ter sido mais recompensador.

Fui recebida, juntamente com outros 5 voluntários internacionais, por um grupo de pessoas extraordinárias, lutadoras, bondosas, tolerantes, incansáveis. No bairro de JP, em Boston, a comunidade é composta por variadíssimas etnias e origens. Existem várias escolas bilingues (inglês-espanhol), onde crianças e adolescentes lutam para encontrar o seu lugar na (cada vez menos receptiva?) sociedade americana.

Em parte do tempo, trabalhámos em escolas e bibliotecas públicas com o objetivo de promover a consciencialização para temas de natureza social e ambiental, utilizando a arte e a expressão plástica como linguagem.

Mas a atividade principal, consistiu nos preparativos para o Wake Up The Earth Festival – um pequeno festival comunitário que surgiu há 40 anos, como celebração pelo impedimento da construção de uma auto-estrada que atravessaria a cidade. Atualmente, grande parte das pessoas locais participam de diversas formas: como artistas, como ativistas, como vendedores, como parte de organizações sem fins lucrativos, ou apenas como espectadores.

O nosso papel consistiu essencialmente em ajudar com todas as questões logísticas, pintura e preparação de banners, sinalizações e decoração – tudo feito à mão, ao mais baixo custo e da forma mais sustentável possível. Ao mesmo tempo, a partilha cultural foi cada vez mais intensa, rica e instrutiva, proporcionada pela variedade do grupo e por todos os que nos receberam nas suas casas.

Foi o 40º aniversário do festival, organizado pela Spontaneous Celebrations. A fundadora, Femke, é uma inspiração para todos os que se cruzam no seu caminho, por ter criado uma instituição tão importante para a formação de tantos e para o desenvolvimento da zona. Continua (aos 76 anos) ativamente a procurar formas de ajudar e fazer mais pelos outros. A criatividade da Roxana, a inteligência da Zafiro, o humor do Mark, o talento da Stone, os métodos da Rosalva, a adaptação da Anne Marie (a mais recente na equipa)… A dedicação e eficiência de todos. Conhecer pessoas assim, é sempre inspirador, mas partilhar com elas tantos momentos e experiências é muito mais rico. Fazemos pouquíssimo pelo mundo e uns pelos outros, na nossa rotina atarefada. Não é suficiente. Agora, a minha missão é encontrar uma forma de dar o meu contributo, regularmente. Se não for longe, perto, se não for muito, algo, se não for do outro lado do atlântico, na minha comunidade, tal como o fazem estes meus novos ídolos.

Obrigada, Volunteers for Peace!
E muito obrigada, Para Onde! – Inês e Marta, o vosso apoio e presença foram exemplares e tão importantes.

A experiência do Diogo em S. Vicente, Cabo Verde

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Tudo o que guardo no coração vale muito mais do que o que escrevo. É tão difícil colocar em palavras tudo o que vivi no mês de maio de 2018. Saber que naquele lugar eu fui realmente feliz. Quando digo realmente feliz é ser feliz como nunca tinha sido antes na minha vida. Consegui perceber que a felicidade pura existe e eu pude vivê-la! Obrigado a todas as peripécias da minha vida que me levaram a fazer voluntariado. Que me levaram para a Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, com o coração aberto.

Fui sem esperar nada. Fui sem pensar no que podia encontrar. Voltei com o coração a transbordar. Voltei com a certeza de que é lá que pertenço. É muito bonito dizer que se fez voluntariado em África, mas quem sente realmente o voluntariado em África sabe que ficamos com o coração divido entre cá e lá.

Tem sido tão difícil viver as rotinas de Portugal, no meio do stress, das chatices, dos pequenos problemas. Sim, pequenos! O que em Portugal é um problema, em São Vicente nem sequer chega a ser. Um exemplo tão simples como o cair e levantar logo a seguir, não ter uma borracha e ter de a dividir com mais quatro colegas, não ter fruta e poder partilhar uma pêra com mais cinco colegas. São coisas simples, são coisas que marcam.

Obrigado ao Centro da Ribeira da Craquinha, à Sueli, ao Silvino, à Sara, à Nady, a todos. Obrigado ao Centro da Pedra Rolada, ao Maxi e à Simone. Obrigado às crianças que, de manhã, me fizeram voltar a conjugar verbos, identificar o sujeito na frase, estudar o aparelho reprodutor. Obrigado às crianças que, de tarde, me fizeram voltar às contas de somar, à tabuada, às contas de dividir.

Obrigado às crianças que todos os dias me faziam cada vez mais feliz. Hoje não passo um dia sem ouvir um “esfrega esfrega”, um “faz gostoso”, um “dói demais”, um “cheguei”. Obrigado Para Onde! Obrigado por fazerem com que descobrisse onde há felicidade, onde posso viver com os ideais que defendo, com pessoas de bem, com o espírito de alegria, onde aprendi que “para quê dormir se quando morrer vou dormir eternamente”.

O maior aperto no coração foi quando o avião descolou, saiu do solo cabo-verdiano. Já a chorar compulsivamente, uma lágrima desce-me pelo rosto no preciso momento em que o avião levanta. Vou voltar, disso não há qualquer dúvida. Não foi por acaso que marquei na pele o meu amor por aquela ilha, por aquela gente. Até lá, levanto-me todos os dias e digo a mim mesmo “Tud dret? Manera!”, para que cada dia custe menos, para que cada dia possa sentir que ainda estou lá!

A experiência da Ana em S. Vicente, Cabo Verde

Eu ainda não estou em mim!

Ainda não consegui perceber se o que sinto é o suposto “normal” após algo tão grandioso, ou se é demais. Tenho os meus sentimentos à flor da pele, o que me faz querer apanhar um avião e voltar para a ilha! Aquela que me ensinou a ter momentos de felicidade plena, aquela que me ensinou a viver, aquela que, apesar das dificuldades, me ensinou que “para todo o problema existe uma solução, se não existir é porque não é problema”. Aquela com que me identifico e me fez acreditar que afinal existe um mundo que também é meu. Aquela PARA ONDE eu quero voltar o mais breve possível.

Aquelas crianças ensinaram-me o que é a partilha genuína, recordaram-me o que é brincar sempre de pé descalço, fizeram-me perceber que irei ser uma criança eterna.

Aquelas pessoas.. Ai as pessoas! Inseriram-me na sua cultura, no seu dia-a-dia e nas suas vidas. Mostraram-me como é viver como uma típica cabo-verdiana e a sentir a vida como tal.

A música a cada canto do nosso bairro, o bom dia sempre que saía de casa, os almoços na praia da Laginha, o caminho comprido para a Pedra Rolada que se tornava curto ao pensarmos no que iamos fazer com as crianças e que tínhamos o Maxi e a Simone à nossa espera com o sorriso do costume. O Centro da Craquinha, a Tranquilidade da Sueli, a energia da Sara e a bondade do Frei.. São coisas que estão dentro do meu coração e que quero voltar a tê-las, porque descobri finalmente, que existe um mundo para mim… ESTE!

Obrigada Para Onde por isto. Foi a melhor coisa que eu fiz, porque nunca me senti tão feliz durante tanto tempo, em toda a minha vida ♥️

A experiência da Leonor em Cabo Verde

Carrego no botão de desbloqueio do telemóvel e a foto de fundo enche-me o coração cada vez que a vejo. Mas hoje, invade-me com uma pontada de saudade incurável. Rebobino memórias enquanto vejo o rolo de fotos de um país colorido de sentimento e alma. Vejo as crianças a correrem para me abraçar como todos os dias faziam e que com os seus beijos e braços me envolviam.

Pegávamos nas suas pequenas mãos e caminhávamos para o Centro da Ribeira da Craquinha onde nunca sabia bem o que me esperava nesse dia, uma turma de 12 alunos ou apenas um rapaz ou rapariga que precisava de mais ajuda no estudo. E quando saía nem sempre tinha a sensação de ter ensinado o que estava proposto, mas às vezes ser um par de ouvidos atento a corações inquietos já ajuda a abrir um caminho para a aprendizagem.

Primeira missão do dia cumprida, fazia um caminho repleto de boas tardes, de sorrisos, de conversas espontâneas e de sol até chegar ao segundo centro, o Centro da Pedra Rolada.

Um verdadeiro desafio. Aí, sabia com quem contava mas não com o que contava. O Delvis podia chatear-se por ter perdido material, a Daniella podia estar nos seus dias sensíveis, a Michelle podia estar no modo diabinho, ou podiam estar todos a levantar-se e a falar ao mesmo tempo até que um raspanete os fizesse sossegar por 2 minutos. E é com carinho que guardo os dias de mar bravo porque com eles veio a acalmia. Fiquei a saber o que estava por detrás de todos esses dias menos bons e com isso tentei torná-los um bocadinho melhores. E com essa pequena vitória vinham outras tantas que todos os dias alcançávamos juntos enquanto, em cada um, ficava com o coração mais cheio pelo que via. O amor e paciência que tinham uns com os outros ao explicar um exercício sem nunca gozarem, a vontade que tinham em aprender, o não virar as costas quando não percebiam, o não desvalorizarem ninguém e o trabalho em equipa, a qual sem reservas me deixaram integrar desde o primeiro dia.

O amor desta terra apresenta-se de todas as formas e feitios. Pude sentir a morabeza em todos os convites para jantares, pude conhecer a melhor cachupa que há “aquela que é feita em casa, com amor”, fui integrada em conversas inesperadas nas ruas, pude sentir a constante prestabilidade para guiar raparigas perdidas. Era um calor que me envolvia a cada passo.

Mas como todos os voluntariados em África, nem tudo foram mares de rosas, o que ainda me possibilitou uma aprendizagem ainda maior. Soube o que é viver dias sem água canalizada, algo com que muitas pessoas lidam desde o dia em que nasceram, ficar sem luz, fazer palestras com o PowerPoint a ser transmitido diretamente do pequeno ecrã do computador, ficar com conjuntivite por causa do constante pó e vento, ficar com dores de barriga por causa da água, experenciar dificuldades de organização… e no entanto, foi tudo tão bom. Aprendi a dar ainda mais importância à água, aprendi que o mais importante para cativar é a maneira como se fala e a confiança que se transmite, aprendi a ser mais tolerante e tantos outros incontáveis e indescritíveis valores que agradeço sem fim por terem sido integrados na minha vida.De volta a casa, sei já não pertenço a um só lugar e sei que um dia voltarei. Até aí, contento-me a olhar para a Lua, a Lua de Cabo Verde.

A experiência da Joana no Tarrafal

Ilha de Santiago, Cabo Verde. Tudo começou com um sonho. O que escrevo aqui, é apenas parte do que vivi, mas sem dúvida aquilo que foi mais importante: as pessoas que trouxe no coração comigo para Portugal.

O meu trabalho no centro prendia-se com ajudar as crianças nos trabalhos de casa e no estudo, sendo que passei a maior parte dos meus dias na sala de estudo. Uma sala com muita energia e com crianças que gostavam de aprender, mas mais do que aprender, também gostavam de ensinar, principalmente quando tinha a ver com assuntos da ilha da qual tanto se orgulham. Foi um desafio, como tudo na vida, porque já não me lembrava de muitas coisas e tive de reaprender para ensinar as crianças.

A sala de estudo é um “entra e sai” de crianças cheias de vida, que não aguentam muito tempo paradas, mas que assim que iniciamos uma tarefa de estudo, dão o seu melhor porque gostam de mostrar que sabem. No final de cada exercício eu exclamava um “boa!”, e fazia um high five com a criança que estava a ajudar e o seu sorriso orgulhoso era maravilhoso de se observar. Mas não estive nisto sozinha e não posso deixar de referir a minha assistente Romila. Uma miúda fenomenal do centro que me ajudou muitas vezes com o crioulo e a transmitir coisas às crianças que não entendiam tão bem o português. A Romila foi sem dúvida das maiores surpresas desta minha aventura, só alguns têm a sorte de estabelecer uma relação com ela e eu fui sem dúvida uma sortuda.

Por falar em surpresas, vou falar-vos da maior surpresa da minha vida, que por acaso, aconteceu no centro Delta Cultura. Quando embarquei rumo a Cabo verde sabia que ia passar o meu aniversário longe das pessoas mais importantes da minha vida, mas não foi por isso que tive menos amor ou menos alegria. No meu dia de aniversário depois de almoço chego ao centro e sou chamada para uma reunião na sala 5. Ora, vou eu rumo à sala sem desconfiar de nada. Para meu espanto, entro na sala e está cheia de crianças ao redor de um bolo de aniversário a cantarem-me os parabéns! Podia ter tido um dia mais emocionante? Tenho sérias dúvidas que não. A alegria com que me cantavam os parabéns e a forma como correram para mim e me abraçaram foi das melhores sensações que já tive na minha vida. Agradeço muito por isto às minhas colegas Cátia e Leonor, à Mariza e ao Florian.

Quando nos inscrevemos num programa de voluntariado que envolve crianças é muito difícil não criar expectativas sobre como serão. Posso dizer que estes meninos superaram todas as minhas expectativas. Crianças com uma alegria imensa, que estão sempre felizes, sempre com um sorriso para oferecer. Crianças unidas e que cuidam umas das outras como nunca vi igual. Crianças que cantam e dançam a toda a hora como mais ninguém o sabe fazer.

No centro há muitas crianças, mas há quatro que me marcaram em especial. Tenho de falar deles, porque foram o mais importante para mim nestes dois meses de voluntariado. O Marquinhos, o miúdo com o sorriso mais sincero que conheci. O Pataxinho, o menino mais bem educado e querido que me abraçava com todo o amor. O Olíver, o miúdo de 14 anos com mais maturidade com quem tive o prazer de conviver. A Zeina, a minha menina, a menina que todos os dias me enchia de alegria e de amor. A menina com quem cantava a música do Vento. A menina por quem tinha o maior amor. O Jasstom, o meu menino do coração, todos os dias penso nele e em toda a cumplicidade que tínhamos. O menino que me deu a terceira fatia do seu bolo de aniversário (para quem não sabe, em Cabo Verde o aniversariante dá as fatias do seu bolo por ordem de importância das pessoas), como não me emocionar? Obrigada a estes cinco meninos por terem tornado os meus dias mais felizes e terem feito tudo isto valer a pena.

Mas o voluntariado não se resumiu às crianças, conheci também outras pessoas que fizeram parte desta minha experiência e que continuarão a fazer parte da minha vida. Gilson, Jassica e Rita estas pessoas incríveis que merecem tudo de bom e que estarão para sempre comigo.

Tudo isto para vos mostrar que o voluntariado vale a pena, vale a pena a experiência e vale muito mais a pena as pessoas que dela trazemos. Mas o que vos quero transmitir não é só isto. Se têm o sonho de fazer voluntariado, façam. Se sentem necessidade de sair da vossa zona de conforto como eu tive, saiam. Eu sempre tive e poucos o sabiam, quando me inscrevi e fui aceite muitas pessoas ficaram admiradas. Ouvi algumas vezes dizerem-me que agora fazer voluntariado é moda. Será? Para mim foi um sonho tornado realidade. E é isto mesmo, os sonhos são para serem tornados realidade, independentemente dos esforços que façamos. O maior conselho que vos deixo é que sigam os vossos sonhos sem olharem para mais nada, porque só vivemos uma vez e são os nossos sonhos que comandam a nossa vida. Pensem na célebre frase “a vida está fora da nossa zona de conforto”. Arrisquem, não se vão arrepender.

 

A experiência da Rita em Cabo Verde

E chega ao fim a minha viagem.

Já estou em Portugal, mas o meu coração ficou na Ilha de Santiago.

Assim que aterrei, tive essa certeza, e tantas outras. Tive a certeza que jamais esquecerei os olhos do Roni, o sorriso do Marquinhos, os abraços apertados da Vanessa, e os demorados da Silvania. As tranças da Solene, os presentes da Macieny e as cartas da Marlisa. As músicas da Carina, as danças do Ailton, o ritmo das Batucadeiras e os moves do Jasstom. Jamais esquecerei as aulas de crioulo da Romila e as fresquinhas da Lorry. Guardo comigo isso tudo.

Guardo todas as vezes que o Daniel pegava na minha mão para o ajudar a fazer os trabalhos de casa. Também não me vou esquecer disso. Nem das boleias do Michel ou das lágrimas da Jassica, na hora da despedida. Guardo comigo isso tudo.

A Ilha de Santiago levou-me o coração, também me levou a palma do pé, de jogar futebol descalça, os dedos das mãos, de fazer pulseiras e, os mil cabelos do entrançar das meninas, mas foi apenas isso. De resto, Santiago só me ofereceu. Ofereceu-me sítios incríveis. E ofereceu-me pessoas ainda mais incríveis.

A Ilha de Santiago

Tem corpinho de algodón

Saia de chita cu cordón

Um par de brinco roda pión.

Escrevo, ainda só passaram dez dias, e já sinto tantas saudades. Saudades que não terminam. Ainda não consigo ouvir a música da Ilha de Santiago, sem deixar cair uma lágrima. Guardo tão bem esta música.

Guardo esta música e tantas outras, guardo as danças, as paisagens, as cores, as frutas, os sabores. Guardo as conversas, os desabafos e as cartas escritas.

Guardo também o carinho, sim, o carinho que conseguiu com que não sentisse falta de casa. Obrigada por tudo, Cabo Verde. Obrigada, Delta Cultura, uma equipa incrível, que sempre me deu total liberdade de expressar o carinho pelas crianças.

Obrigada a todas as crianças. Obrigada pelos sorrisos, pelos olhares, pelos beijinhos e pelos abraços que são diferentes dos nossos.

Obrigada, essencialmente, pela generosidade. Obrigada pelas coisas simples, da forma mais simples. E assim, isto não foi apenas uma experiência, fazer voluntariado não foi somente ensinar ou dar o melhor de mim, foi muito mais, foi receber, foi absorver.

Aprendi e entendi tantas coisas, tanta cultura. Entendi o quão generosas podem ser, crianças de 4 anos. O quão rico pode ser um país pobre. Entendi que em todas as dificuldades por que atravessei, que tudo isto valeu a pena. Aprendi também, que um sorriso, apesar de muita tristeza por detrás, será sempre um sorriso.

Hoje, gratidão tem outro significado. Ah, e aprendi também que temos sempre alguma coisa a oferecer, nem seja a nossa presença. Se pensas em fazer voluntariado, não penses mais, segue apenas em frente. No fim tudo vale a pena. Tudo bate certo. Obrigada de coração, ParaOnde.

A experiência da Matilde em Cabo Verde

Ainda não parece real. Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.
Foram os sessenta dias mais intensos e felizes da minha vida. Pensar que estava com dúvidas: se ia, se não ia, se ia um mês, ou se ia dois. Despedi-me, decidi ir dois meses e ainda bem que o fiz. Decisões acertadas.
No dia em que cheguei, cansada de autocarros, comboios e aviões, bastou-me o primeiro mar de abraços, para revitalizar corpo e mente. Vinham a correr na minha direcção, de braços abertos, com um sorriso tão grande que parecia transbordar.
As crianças abraçam-nos de uma forma que as palavras não conseguem fazer justiça. Enchem-nos de beijos, de risos, de lições de vida e histórias para contar. Partilham o pouco que têm (com a maior das naturalidades), aceitam a diferença e ao contrário de nós, não julgam. Aprendi todos os dias com eles. Mais do que eles poderão ter aprendido comigo.
Muitos não sabem ler nem escrever, falam em criolo e recusam-se a aprender português. Pequenas vitórias como conseguir captar a atenção do Mauro durante uma hora (mil beijos e abraços pelo meio), que o José escrevesse o nome dele sem copiar, ou que o Ravidson soubesse dez palavras começadas pela letra “M”. Mas, mais que a minha felicidade por tais vitórias, a deles a cada “mais cinco” que lhes dava, a cada certo e a cada “isso mesmo!”.
Explorei as ruelas todas, disse bom dia, boa tarde e boa noite a toda a gente. Distribuí sorrisos às senhoras que viam a vida passar pela janela e aos senhores que deixavam que o sol lhes aquecesse a alma, no banco por eles improvisado. Conheci os cantos e os recantos. A mercearia com o melhor pão, o sapateiro no virar da esquina, a costureira ao fundo da rua, como quem vai para Chã de Marinha. Vivi ao máximo, cada momento e cada pessoa. Senti-me da Ribeira da Craquinha, senti-me de São Vicente. Senti-me em casa.
Quando fui, sabia pouco sobre Cabo Verde, mas do que me diziam, era conhecido pela arte de saber receber. Realmente, as gentes desta Terra, têm o dom da amabilidade. “Morabeza”, dizem. Quantas vezes fui surpreendida pela gentileza das pessoas? Vivemos tão focados em nós próprios que nos esquecemos do mundo à nossa volta.

Foi uma aprendizagem constante. Desde o ser mais tolerante e flexível, ao poupar água, ao Criolo, aos passos de funaná, ao partilhar, ao viver o momento, aproveitar a vida e ser feliz com o que se tem. Não esquecendo o “no stress” característico.

Façam voluntariado, distribuam sorrisos e amor, dêem abraços e lembrem-se, não são os bens materiais que nos fazem felizes.

Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.