A experiência da Marta nos EUA

Tentar imaginar uma atividade de voluntariado num dos países mais desenvolvidos do mundo pode ser um desafio difícil, uma ideia quase descabida. Tratando-se de uma primeira experiência, procurei algo que me pareceu dentro da zona de conforto. Sem saber bem o que esperar e com algumas dúvidas quanto à relevância do meu papel, parti expectante mas algo receosa. Num flashforward para o final da história: não poderia ter sido mais recompensador.

Fui recebida, juntamente com outros 5 voluntários internacionais, por um grupo de pessoas extraordinárias, lutadoras, bondosas, tolerantes, incansáveis. No bairro de JP, em Boston, a comunidade é composta por variadíssimas etnias e origens. Existem várias escolas bilingues (inglês-espanhol), onde crianças e adolescentes lutam para encontrar o seu lugar na (cada vez menos receptiva?) sociedade americana.

Em parte do tempo, trabalhámos em escolas e bibliotecas públicas com o objetivo de promover a consciencialização para temas de natureza social e ambiental, utilizando a arte e a expressão plástica como linguagem.

Mas a atividade principal, consistiu nos preparativos para o Wake Up The Earth Festival – um pequeno festival comunitário que surgiu há 40 anos, como celebração pelo impedimento da construção de uma auto-estrada que atravessaria a cidade. Atualmente, grande parte das pessoas locais participam de diversas formas: como artistas, como ativistas, como vendedores, como parte de organizações sem fins lucrativos, ou apenas como espectadores.

O nosso papel consistiu essencialmente em ajudar com todas as questões logísticas, pintura e preparação de banners, sinalizações e decoração – tudo feito à mão, ao mais baixo custo e da forma mais sustentável possível. Ao mesmo tempo, a partilha cultural foi cada vez mais intensa, rica e instrutiva, proporcionada pela variedade do grupo e por todos os que nos receberam nas suas casas.

Foi o 40º aniversário do festival, organizado pela Spontaneous Celebrations. A fundadora, Femke, é uma inspiração para todos os que se cruzam no seu caminho, por ter criado uma instituição tão importante para a formação de tantos e para o desenvolvimento da zona. Continua (aos 76 anos) ativamente a procurar formas de ajudar e fazer mais pelos outros. A criatividade da Roxana, a inteligência da Zafiro, o humor do Mark, o talento da Stone, os métodos da Rosalva, a adaptação da Anne Marie (a mais recente na equipa)… A dedicação e eficiência de todos. Conhecer pessoas assim, é sempre inspirador, mas partilhar com elas tantos momentos e experiências é muito mais rico. Fazemos pouquíssimo pelo mundo e uns pelos outros, na nossa rotina atarefada. Não é suficiente. Agora, a minha missão é encontrar uma forma de dar o meu contributo, regularmente. Se não for longe, perto, se não for muito, algo, se não for do outro lado do atlântico, na minha comunidade, tal como o fazem estes meus novos ídolos.

Obrigada, Volunteers for Peace!
E muito obrigada, Para Onde! – Inês e Marta, o vosso apoio e presença foram exemplares e tão importantes.

A experiência do Diogo em S. Vicente, Cabo Verde

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Tudo o que guardo no coração vale muito mais do que o que escrevo. É tão difícil colocar em palavras tudo o que vivi no mês de maio de 2018. Saber que naquele lugar eu fui realmente feliz. Quando digo realmente feliz é ser feliz como nunca tinha sido antes na minha vida. Consegui perceber que a felicidade pura existe e eu pude vivê-la! Obrigado a todas as peripécias da minha vida que me levaram a fazer voluntariado. Que me levaram para a Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, com o coração aberto.

Fui sem esperar nada. Fui sem pensar no que podia encontrar. Voltei com o coração a transbordar. Voltei com a certeza de que é lá que pertenço. É muito bonito dizer que se fez voluntariado em África, mas quem sente realmente o voluntariado em África sabe que ficamos com o coração divido entre cá e lá.

Tem sido tão difícil viver as rotinas de Portugal, no meio do stress, das chatices, dos pequenos problemas. Sim, pequenos! O que em Portugal é um problema, em São Vicente nem sequer chega a ser. Um exemplo tão simples como o cair e levantar logo a seguir, não ter uma borracha e ter de a dividir com mais quatro colegas, não ter fruta e poder partilhar uma pêra com mais cinco colegas. São coisas simples, são coisas que marcam.

Obrigado ao Centro da Ribeira da Craquinha, à Sueli, ao Silvino, à Sara, à Nady, a todos. Obrigado ao Centro da Pedra Rolada, ao Maxi e à Simone. Obrigado às crianças que, de manhã, me fizeram voltar a conjugar verbos, identificar o sujeito na frase, estudar o aparelho reprodutor. Obrigado às crianças que, de tarde, me fizeram voltar às contas de somar, à tabuada, às contas de dividir.

Obrigado às crianças que todos os dias me faziam cada vez mais feliz. Hoje não passo um dia sem ouvir um “esfrega esfrega”, um “faz gostoso”, um “dói demais”, um “cheguei”. Obrigado Para Onde! Obrigado por fazerem com que descobrisse onde há felicidade, onde posso viver com os ideais que defendo, com pessoas de bem, com o espírito de alegria, onde aprendi que “para quê dormir se quando morrer vou dormir eternamente”.

O maior aperto no coração foi quando o avião descolou, saiu do solo cabo-verdiano. Já a chorar compulsivamente, uma lágrima desce-me pelo rosto no preciso momento em que o avião levanta. Vou voltar, disso não há qualquer dúvida. Não foi por acaso que marquei na pele o meu amor por aquela ilha, por aquela gente. Até lá, levanto-me todos os dias e digo a mim mesmo “Tud dret? Manera!”, para que cada dia custe menos, para que cada dia possa sentir que ainda estou lá!

A experiência da Ana em S. Vicente, Cabo Verde

Eu ainda não estou em mim!

Ainda não consegui perceber se o que sinto é o suposto “normal” após algo tão grandioso, ou se é demais. Tenho os meus sentimentos à flor da pele, o que me faz querer apanhar um avião e voltar para a ilha! Aquela que me ensinou a ter momentos de felicidade plena, aquela que me ensinou a viver, aquela que, apesar das dificuldades, me ensinou que “para todo o problema existe uma solução, se não existir é porque não é problema”. Aquela com que me identifico e me fez acreditar que afinal existe um mundo que também é meu. Aquela PARA ONDE eu quero voltar o mais breve possível.

Aquelas crianças ensinaram-me o que é a partilha genuína, recordaram-me o que é brincar sempre de pé descalço, fizeram-me perceber que irei ser uma criança eterna.

Aquelas pessoas.. Ai as pessoas! Inseriram-me na sua cultura, no seu dia-a-dia e nas suas vidas. Mostraram-me como é viver como uma típica cabo-verdiana e a sentir a vida como tal.

A música a cada canto do nosso bairro, o bom dia sempre que saía de casa, os almoços na praia da Laginha, o caminho comprido para a Pedra Rolada que se tornava curto ao pensarmos no que iamos fazer com as crianças e que tínhamos o Maxi e a Simone à nossa espera com o sorriso do costume. O Centro da Craquinha, a Tranquilidade da Sueli, a energia da Sara e a bondade do Frei.. São coisas que estão dentro do meu coração e que quero voltar a tê-las, porque descobri finalmente, que existe um mundo para mim… ESTE!

Obrigada Para Onde por isto. Foi a melhor coisa que eu fiz, porque nunca me senti tão feliz durante tanto tempo, em toda a minha vida ♥️

A experiência da Leonor em Cabo Verde

Carrego no botão de desbloqueio do telemóvel e a foto de fundo enche-me o coração cada vez que a vejo. Mas hoje, invade-me com uma pontada de saudade incurável. Rebobino memórias enquanto vejo o rolo de fotos de um país colorido de sentimento e alma. Vejo as crianças a correrem para me abraçar como todos os dias faziam e que com os seus beijos e braços me envolviam.

Pegávamos nas suas pequenas mãos e caminhávamos para o Centro da Ribeira da Craquinha onde nunca sabia bem o que me esperava nesse dia, uma turma de 12 alunos ou apenas um rapaz ou rapariga que precisava de mais ajuda no estudo. E quando saía nem sempre tinha a sensação de ter ensinado o que estava proposto, mas às vezes ser um par de ouvidos atento a corações inquietos já ajuda a abrir um caminho para a aprendizagem.

Primeira missão do dia cumprida, fazia um caminho repleto de boas tardes, de sorrisos, de conversas espontâneas e de sol até chegar ao segundo centro, o Centro da Pedra Rolada.

Um verdadeiro desafio. Aí, sabia com quem contava mas não com o que contava. O Delvis podia chatear-se por ter perdido material, a Daniella podia estar nos seus dias sensíveis, a Michelle podia estar no modo diabinho, ou podiam estar todos a levantar-se e a falar ao mesmo tempo até que um raspanete os fizesse sossegar por 2 minutos. E é com carinho que guardo os dias de mar bravo porque com eles veio a acalmia. Fiquei a saber o que estava por detrás de todos esses dias menos bons e com isso tentei torná-los um bocadinho melhores. E com essa pequena vitória vinham outras tantas que todos os dias alcançávamos juntos enquanto, em cada um, ficava com o coração mais cheio pelo que via. O amor e paciência que tinham uns com os outros ao explicar um exercício sem nunca gozarem, a vontade que tinham em aprender, o não virar as costas quando não percebiam, o não desvalorizarem ninguém e o trabalho em equipa, a qual sem reservas me deixaram integrar desde o primeiro dia.

O amor desta terra apresenta-se de todas as formas e feitios. Pude sentir a morabeza em todos os convites para jantares, pude conhecer a melhor cachupa que há “aquela que é feita em casa, com amor”, fui integrada em conversas inesperadas nas ruas, pude sentir a constante prestabilidade para guiar raparigas perdidas. Era um calor que me envolvia a cada passo.

Mas como todos os voluntariados em África, nem tudo foram mares de rosas, o que ainda me possibilitou uma aprendizagem ainda maior. Soube o que é viver dias sem água canalizada, algo com que muitas pessoas lidam desde o dia em que nasceram, ficar sem luz, fazer palestras com o PowerPoint a ser transmitido diretamente do pequeno ecrã do computador, ficar com conjuntivite por causa do constante pó e vento, ficar com dores de barriga por causa da água, experenciar dificuldades de organização… e no entanto, foi tudo tão bom. Aprendi a dar ainda mais importância à água, aprendi que o mais importante para cativar é a maneira como se fala e a confiança que se transmite, aprendi a ser mais tolerante e tantos outros incontáveis e indescritíveis valores que agradeço sem fim por terem sido integrados na minha vida.De volta a casa, sei já não pertenço a um só lugar e sei que um dia voltarei. Até aí, contento-me a olhar para a Lua, a Lua de Cabo Verde.

A experiência da Joana no Tarrafal

Ilha de Santiago, Cabo Verde. Tudo começou com um sonho. O que escrevo aqui, é apenas parte do que vivi, mas sem dúvida aquilo que foi mais importante: as pessoas que trouxe no coração comigo para Portugal.

O meu trabalho no centro prendia-se com ajudar as crianças nos trabalhos de casa e no estudo, sendo que passei a maior parte dos meus dias na sala de estudo. Uma sala com muita energia e com crianças que gostavam de aprender, mas mais do que aprender, também gostavam de ensinar, principalmente quando tinha a ver com assuntos da ilha da qual tanto se orgulham. Foi um desafio, como tudo na vida, porque já não me lembrava de muitas coisas e tive de reaprender para ensinar as crianças.

A sala de estudo é um “entra e sai” de crianças cheias de vida, que não aguentam muito tempo paradas, mas que assim que iniciamos uma tarefa de estudo, dão o seu melhor porque gostam de mostrar que sabem. No final de cada exercício eu exclamava um “boa!”, e fazia um high five com a criança que estava a ajudar e o seu sorriso orgulhoso era maravilhoso de se observar. Mas não estive nisto sozinha e não posso deixar de referir a minha assistente Romila. Uma miúda fenomenal do centro que me ajudou muitas vezes com o crioulo e a transmitir coisas às crianças que não entendiam tão bem o português. A Romila foi sem dúvida das maiores surpresas desta minha aventura, só alguns têm a sorte de estabelecer uma relação com ela e eu fui sem dúvida uma sortuda.

Por falar em surpresas, vou falar-vos da maior surpresa da minha vida, que por acaso, aconteceu no centro Delta Cultura. Quando embarquei rumo a Cabo verde sabia que ia passar o meu aniversário longe das pessoas mais importantes da minha vida, mas não foi por isso que tive menos amor ou menos alegria. No meu dia de aniversário depois de almoço chego ao centro e sou chamada para uma reunião na sala 5. Ora, vou eu rumo à sala sem desconfiar de nada. Para meu espanto, entro na sala e está cheia de crianças ao redor de um bolo de aniversário a cantarem-me os parabéns! Podia ter tido um dia mais emocionante? Tenho sérias dúvidas que não. A alegria com que me cantavam os parabéns e a forma como correram para mim e me abraçaram foi das melhores sensações que já tive na minha vida. Agradeço muito por isto às minhas colegas Cátia e Leonor, à Mariza e ao Florian.

Quando nos inscrevemos num programa de voluntariado que envolve crianças é muito difícil não criar expectativas sobre como serão. Posso dizer que estes meninos superaram todas as minhas expectativas. Crianças com uma alegria imensa, que estão sempre felizes, sempre com um sorriso para oferecer. Crianças unidas e que cuidam umas das outras como nunca vi igual. Crianças que cantam e dançam a toda a hora como mais ninguém o sabe fazer.

No centro há muitas crianças, mas há quatro que me marcaram em especial. Tenho de falar deles, porque foram o mais importante para mim nestes dois meses de voluntariado. O Marquinhos, o miúdo com o sorriso mais sincero que conheci. O Pataxinho, o menino mais bem educado e querido que me abraçava com todo o amor. O Olíver, o miúdo de 14 anos com mais maturidade com quem tive o prazer de conviver. A Zeina, a minha menina, a menina que todos os dias me enchia de alegria e de amor. A menina com quem cantava a música do Vento. A menina por quem tinha o maior amor. O Jasstom, o meu menino do coração, todos os dias penso nele e em toda a cumplicidade que tínhamos. O menino que me deu a terceira fatia do seu bolo de aniversário (para quem não sabe, em Cabo Verde o aniversariante dá as fatias do seu bolo por ordem de importância das pessoas), como não me emocionar? Obrigada a estes cinco meninos por terem tornado os meus dias mais felizes e terem feito tudo isto valer a pena.

Mas o voluntariado não se resumiu às crianças, conheci também outras pessoas que fizeram parte desta minha experiência e que continuarão a fazer parte da minha vida. Gilson, Jassica e Rita estas pessoas incríveis que merecem tudo de bom e que estarão para sempre comigo.

Tudo isto para vos mostrar que o voluntariado vale a pena, vale a pena a experiência e vale muito mais a pena as pessoas que dela trazemos. Mas o que vos quero transmitir não é só isto. Se têm o sonho de fazer voluntariado, façam. Se sentem necessidade de sair da vossa zona de conforto como eu tive, saiam. Eu sempre tive e poucos o sabiam, quando me inscrevi e fui aceite muitas pessoas ficaram admiradas. Ouvi algumas vezes dizerem-me que agora fazer voluntariado é moda. Será? Para mim foi um sonho tornado realidade. E é isto mesmo, os sonhos são para serem tornados realidade, independentemente dos esforços que façamos. O maior conselho que vos deixo é que sigam os vossos sonhos sem olharem para mais nada, porque só vivemos uma vez e são os nossos sonhos que comandam a nossa vida. Pensem na célebre frase “a vida está fora da nossa zona de conforto”. Arrisquem, não se vão arrepender.

 

A experiência da Rita em Cabo Verde

E chega ao fim a minha viagem.

Já estou em Portugal, mas o meu coração ficou na Ilha de Santiago.

Assim que aterrei, tive essa certeza, e tantas outras. Tive a certeza que jamais esquecerei os olhos do Roni, o sorriso do Marquinhos, os abraços apertados da Vanessa, e os demorados da Silvania. As tranças da Solene, os presentes da Macieny e as cartas da Marlisa. As músicas da Carina, as danças do Ailton, o ritmo das Batucadeiras e os moves do Jasstom. Jamais esquecerei as aulas de crioulo da Romila e as fresquinhas da Lorry. Guardo comigo isso tudo.

Guardo todas as vezes que o Daniel pegava na minha mão para o ajudar a fazer os trabalhos de casa. Também não me vou esquecer disso. Nem das boleias do Michel ou das lágrimas da Jassica, na hora da despedida. Guardo comigo isso tudo.

A Ilha de Santiago levou-me o coração, também me levou a palma do pé, de jogar futebol descalça, os dedos das mãos, de fazer pulseiras e, os mil cabelos do entrançar das meninas, mas foi apenas isso. De resto, Santiago só me ofereceu. Ofereceu-me sítios incríveis. E ofereceu-me pessoas ainda mais incríveis.

A Ilha de Santiago

Tem corpinho de algodón

Saia de chita cu cordón

Um par de brinco roda pión.

Escrevo, ainda só passaram dez dias, e já sinto tantas saudades. Saudades que não terminam. Ainda não consigo ouvir a música da Ilha de Santiago, sem deixar cair uma lágrima. Guardo tão bem esta música.

Guardo esta música e tantas outras, guardo as danças, as paisagens, as cores, as frutas, os sabores. Guardo as conversas, os desabafos e as cartas escritas.

Guardo também o carinho, sim, o carinho que conseguiu com que não sentisse falta de casa. Obrigada por tudo, Cabo Verde. Obrigada, Delta Cultura, uma equipa incrível, que sempre me deu total liberdade de expressar o carinho pelas crianças.

Obrigada a todas as crianças. Obrigada pelos sorrisos, pelos olhares, pelos beijinhos e pelos abraços que são diferentes dos nossos.

Obrigada, essencialmente, pela generosidade. Obrigada pelas coisas simples, da forma mais simples. E assim, isto não foi apenas uma experiência, fazer voluntariado não foi somente ensinar ou dar o melhor de mim, foi muito mais, foi receber, foi absorver.

Aprendi e entendi tantas coisas, tanta cultura. Entendi o quão generosas podem ser, crianças de 4 anos. O quão rico pode ser um país pobre. Entendi que em todas as dificuldades por que atravessei, que tudo isto valeu a pena. Aprendi também, que um sorriso, apesar de muita tristeza por detrás, será sempre um sorriso.

Hoje, gratidão tem outro significado. Ah, e aprendi também que temos sempre alguma coisa a oferecer, nem seja a nossa presença. Se pensas em fazer voluntariado, não penses mais, segue apenas em frente. No fim tudo vale a pena. Tudo bate certo. Obrigada de coração, ParaOnde.

A experiência da Matilde em Cabo Verde

Ainda não parece real. Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.
Foram os sessenta dias mais intensos e felizes da minha vida. Pensar que estava com dúvidas: se ia, se não ia, se ia um mês, ou se ia dois. Despedi-me, decidi ir dois meses e ainda bem que o fiz. Decisões acertadas.
No dia em que cheguei, cansada de autocarros, comboios e aviões, bastou-me o primeiro mar de abraços, para revitalizar corpo e mente. Vinham a correr na minha direcção, de braços abertos, com um sorriso tão grande que parecia transbordar.
As crianças abraçam-nos de uma forma que as palavras não conseguem fazer justiça. Enchem-nos de beijos, de risos, de lições de vida e histórias para contar. Partilham o pouco que têm (com a maior das naturalidades), aceitam a diferença e ao contrário de nós, não julgam. Aprendi todos os dias com eles. Mais do que eles poderão ter aprendido comigo.
Muitos não sabem ler nem escrever, falam em criolo e recusam-se a aprender português. Pequenas vitórias como conseguir captar a atenção do Mauro durante uma hora (mil beijos e abraços pelo meio), que o José escrevesse o nome dele sem copiar, ou que o Ravidson soubesse dez palavras começadas pela letra “M”. Mas, mais que a minha felicidade por tais vitórias, a deles a cada “mais cinco” que lhes dava, a cada certo e a cada “isso mesmo!”.
Explorei as ruelas todas, disse bom dia, boa tarde e boa noite a toda a gente. Distribuí sorrisos às senhoras que viam a vida passar pela janela e aos senhores que deixavam que o sol lhes aquecesse a alma, no banco por eles improvisado. Conheci os cantos e os recantos. A mercearia com o melhor pão, o sapateiro no virar da esquina, a costureira ao fundo da rua, como quem vai para Chã de Marinha. Vivi ao máximo, cada momento e cada pessoa. Senti-me da Ribeira da Craquinha, senti-me de São Vicente. Senti-me em casa.
Quando fui, sabia pouco sobre Cabo Verde, mas do que me diziam, era conhecido pela arte de saber receber. Realmente, as gentes desta Terra, têm o dom da amabilidade. “Morabeza”, dizem. Quantas vezes fui surpreendida pela gentileza das pessoas? Vivemos tão focados em nós próprios que nos esquecemos do mundo à nossa volta.

Foi uma aprendizagem constante. Desde o ser mais tolerante e flexível, ao poupar água, ao Criolo, aos passos de funaná, ao partilhar, ao viver o momento, aproveitar a vida e ser feliz com o que se tem. Não esquecendo o “no stress” característico.

Façam voluntariado, distribuam sorrisos e amor, dêem abraços e lembrem-se, não são os bens materiais que nos fazem felizes.

Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.

A experiência da Mariana na Ilha da Boavista

Vários meses passaram desde o dia em que aterrei na Ilha da Boavista.

Lembro-me de estar tão nervosa antes de ir, de tentar fazer o máximo para me sentir o mais bem preparada possível para aquela experiência, mas nada parecia suficiente… Entrei no avião cheia de dúvidas, medos e o pensamento de: “Em que raio me fui eu meter?”. Nunca na vida tinha feito nada assim e estava mesmo muito assustada.

Mal saí do avião e senti o calor da ilha e de todas aquelas pessoas incríveis foi como se todas as minhas dúvidas se dissipassem e de repente, senti-me calma e segura. Esta sensação só aumentou com a receção fantástica das pessoas, principalmente dos nossos pequenotes no jardim, diariamente.

A primeira visita ao Bairro da Boa Esperança (ou como lhe chamam na ilha, a Barraca) chocou-me. Como se diz: “A realidade supera a ficção” e foi como um soco no estômago perceber que há pessoas a viverem naquelas condições, que sítios assim existem mesmo, que não é só nos filmes. Quando se vê de perto dói mesmo muito e nada nos prepara para isso. Mas, o mais surpreendente foi que essas mesmas pessoas nos cumprimentavam com os maiores sorrisos do mundo, que todas as manhãs as crianças chegavam com uma alegria do tamanho do mundo e  gargalhadas a combinar com ela. Tudo isto no meio daquelas condições miseráveis.

Trabalhar com aqueles miúdos foi incrível, muito cansativo, mas muito gratificante. Aqueles pequenotes elétricos conseguiam deixar-nos com os cabelos em pé ao não estarem cinco minutos concentrados para, de seguida, nos deixarem com o coração derretido e de sorriso comovido com os seus pequenos, grandes atos generosos e brincalhões.

Apesar de tudo, a vida no bairro não é nada fácil mesmo, para além das condições miseráveis, os vícios e os perigos espreitam por todo o lado (o álcool, as drogas, a prostituição e a violência doméstica). Os próximos anos não vão ser nada fáceis para os nossos pequenotes e eu só espero conseguir ajudar, nem que seja um pouquinho, para que eles tenham um futuro melhor e para que a vida se endireite para eles. Eles merecem tudo de bom, merecem o mundo inteiro, mas infelizmente não têm quase nada.

Que continuem com essas risadas e alegria, nós vamos estar atentos e tentar fazer o máximo para ajudar a melhorar a situação. Vários meses passaram desde o dia em que eu aterrei da ilha da Boavista, mas eu não vos esqueço, juro.

A experiência da Marisa na Tailândia

Quando decidi que a minha vida não tomaria o rumo normal daquilo a que estou habituada a ver em meu redor, resolvi que teria de sair da minha zono de conforto. Fiz uma pesquisa exaustiva sobre voluntariado e campos de voluntariado e tomei outra importante decisão: escolhi ver aquilo que de bom as pessoas têm para dar, escolhi ver os sorrisos, ver as cores do mundo. Por isso, escolhi voluntariar-me para o Had Samran Workshop and Music Festival.

A chegada à Tailândia foi uma agradável surpresa. Fui para a Tailândia sem expectativas em relação ao que poderia encontrar. Fui apenas de mente e coração abertos para que pudesse absorver o máximo que os lugares e as pessoas tinham para oferecer. Assumi uma posição neutra, de não esperar nada, apenas receber aquilo que me estivesse destinado. Este plano de viagem ajudou-me imenso na adaptação ao novo contexto. Porque quando nada esperamos, quando apenas vivemos o presente e conseguimos apreciar, no momento, aquilo que nos rodeia, torna-se tudo mais fácil.

Estamos tão habituados ao quotidiano frenético e metódico, que nos esquecemos de sentir a calma que nos rodeia. Esquecemo-nos de apreciar as cores, os cheiros, as formas, as texturas. Aqui, no nosso país, a maioria de nós não está desperto para o essencial. Não sabemos como apreciá-lo, como reagir perante aquilo que realmente importa. Na verdade, estamos tão focados no trabalho, nas discussões, no futebol, na política, que nem sabemos o que é importante. Na Tailândia eu consegui sentir o essencial, e contrariamente ao que diz o Principezinho, ele pode ser visível aos olhos. Foi precisamente no primeiro dia no campo de voluntariado, ao pôr-do-sol na praia, quando observava um grupo de crianças e adultos a correr na areia, com sorrisos e gargalhadas contagiantes que percebi que é aquilo e só aquilo que realmente importa.

Foi o 2º ano que este festival foi organizado. Esta ideia nasceu da vontade de alguns locais em levar dinamismo aquela comunidade, de levar mais jovens para Had Samran, uma vez que é uma região tão rica em recursos, mas que os jovens estão a abandonar para viver nas grandes cidades. À semelhança daquilo que acontece no nosso país quando a população jovem abandona o interior para morar nas grandes metrópoles em busca de uma vida melhor.

Os voluntários chegaram de todo o mundo (Brasil, Portugal, Mongólia, França, Austrália, EUA, Tailândia), de mochila às costas, sorriso no rosto e energia radiante. Cada um dos voluntários teve algo a dar a este festival. Entre todos, surgiram ideias maravilhosas no que respeita à decoração do espaço e à organização de workshops. Fomos nós, voluntários, que organizamos as actividades e workshops. Todos contribuíram com aquilo que sabiam para trazer algo de diferente e dinâmico. O workshop que eu organizei foi mais voltado para as crianças. Resolvi pegar em elementos que facilmente estão disponíveis como as conchas que apanhei na praia e folhas das árvores para que as pessoas pudessem usar a sua imaginação e fazer colagens. Tivemos muita adesão e todo o processo foi surpreendente. O resultado final foi maravilhoso.

Para além do workshop, ajudei em tudo aquilo que pude, fazia de tudo um pouco, deste cortar bambu para as decorações, a ajudar na cozinha. Achei surpreendente fazer uma imagem de Poseidon, rei dos mares, com talvez uns 5/6 metros de altura, apenas com bambu na sua estrutura. O resultado final foi grandioso e tornou-se numa das principais atrações do festival. Mas eu acabei por me apaixonar pela cozinha, aprendi a cozinhar comida Tailandesa com um cozinheiro de seu nome P Yu, que depositava amor em todos os seus pratos, e isso para mim foi uma aprendizagem que irá ficar no meu coração por toda a minha vida.

Noutras partes da Tailândia as coisas podem funcionar de forma diferente, mas aquilo que eu vivi no seio desta comunidade foi algo completamente diferente daquele conforto a que estamos habituados no nosso país. Aqui os sapatos não entram dentro das casas, não existem chuveiros sofisticados a que estamos acostumados. Enchemos uma taça com água que tiramos de uma pia e tomamos banho assim. Aqui, apesar de haver mesas e cadeiras, podemos por vezes comer no chão e seja qual for a comida, dispomos apenas de uma colher, não há grafos nem facas. A cozinha foi feita de improviso na rua, e não foi apenas por ser algo temporário para os voluntários porque, ao lado, onde viviam as famílias da comunidade, também eles tinham lavavam a loiça na rua em alguidares.

Mas nada disto importa, porque aqui há pés descalços e sorrisos rasgados. Há corridas na praia e gargalhadas ao pôr-do-sol. Aqui, a forma como tomamos banho não importa, que há amor que paira no ar. Aqui não se limpa o chão, porque o chão faz-nos sentir seguros e a sua energia não pode ser quebrada por lixivia. Aqui as aranhas e as suas teias podem estar por toda a casa, porque o que importa realmente é estar conectado com a natureza e aceitar tudo o que dela vem. Tudo o que importa está dentro de nós. Tudo o que é importante vem da energia do mar, do céu, das árvores. Tudo aquilo que é verdadeiro vem da energia dos sorrisos, dos gestos, dos olhares.

É incrível o que pode mudar dentro de nós em tão pouco tempo. É incrível a adaptação do ser humano a novos contextos. Os dias passaram tão rápido mas aconteceu tanta coisa, mas tanta coisa que todos os momentos foram vividos tão intensamente que os tenho gravados na minha memória e tatuados sob a minha pele. Consigo voltar a sentir tudo intensamente, só de recordar. Todas as palavras do mundo não chegariam para descrever a intensidade das emoções e sentimentos a fervilhar no meu coração.

Trago comigo um pedacinho de todas as pessoas que conheci. Estas pessoas mudaram a minha vida. Sinto-me uma felizarda por ter usufruído desta experiência, por ter feito parte de uma evento com um sentido grandioso, não só de diversão mas com um propósito por trás que apela a uma união interior, que só se sente quando vivemos em comunidade e partilhamos objectivos comuns.

A vivência na Tailândia foi maravilhosa, repleta de magia, paz e um bem-estar interior que muito dificilmente voltarei a encontrar. A Tailândia mostrou-me que, pensamento positivo, sorriso no rosto, paz no coração e sentir intensamente tudo o que nos rodeia é o que basta para sermos felizes. Para ficarmos curados de tudo aquilo que bloqueia a nossa energia. Vou voltar com toda a certeza!

A experiência do voluntariado internacional, onde tudo é diferente e fora da nossa zona de conforto, faz-nos crescer, amadurecer… Torna-nos mais fortes, mais sábios… Inspirem-se, sonhem, e vão sem medos!

Obrigada Para Onde!

Marisa Ramalho

A experiência da Ana na Indonésia

Porquê a Indonésia? Era o que todos me perguntavam… e eu só respondia: porque não? Ainda hoje não consigo identificar ao certo o que me impulsionou a escolher a Indonésia e o projeto de Borobudur, mas assim que lá cheguei, tive a certeza que era ali que tinha que estar!

A maior aventura foi, sem dúvida, a viagem! 5 aeroportos, 4 aviões e quase 30 horas depois, chegava a Semarang…ainda me faltavam mais 3h de autocarro para chegar ao campo de voluntariado, mas tudo valeu a pena! Cheguei a Karanganyar… uma pequena aldeia, um paraíso verde, rodeado de montanhas, vulcões, muitos campos de arroz e pertinho do Templo de Borobudur.

Cheguei de “mente aberta” e pronta para tudo…ou pelo menos achava que sim! Fui muito bem recebida pela família de acolhimento e pelos meus colegas voluntários. O resto, é um processo de adaptação natural…dormir no chão, comer no chão, cozinhar no chão, nada disto é fácil para nós… mas é assim que eles vivem, vamos lá viver como eles!

A partir daqui, foi a “rendição absoluta” … quem consegue resistir a estes sorrisos? As pessoas são adoráveis, super acolhedoras, enchem-nos de comida e chá e adoram os estrangeiros…quando falam connosco encontram sempre uma oportunidade para aprenderem algo de novo. E as crianças? Bem, autênticos doces!!! E sempre dispostos aprender tudo o que tiver ao alcance deles.

Nesta pequena aldeia, encontrei o verdadeiro espirito comunitário, uma vez que toda a comunidade está unida em prol do mesmo objetivo. Não são coitadinhos nenhuns, não! São um povo trabalhador, disciplinado e muito ligado à sua religião. São uma comunidade maioritariamente muçulmana e muito dedicada às suas responsabilidades religiosas, mas sempre curiosos em relação às outras religiões…esta foi para mim uma das grandes lições! Os muçulmanos não são terroristas nem fomentam a violência, pelo contrário, são dos povos mais tolerantes e pacíficos que conheci até hoje.

As atividades que desenvolvi foram muito diversificadas: fomos a várias escolas ensinar inglês; sensibilizar para as questões ambientais (uso excessivo do plástico); ensinar a lavar corretamente as mãos; ajudámos os agricultores; ajudámos num festival de crianças e ainda tive oportunidade de aprender os costumes locais, como por exemplo o artesanato de barro; o batik (pintar o tecido); o gamelão (instrumentos típicos indonésios). Ainda tive oportunidade de visitar o templo de Borobudur, onde tive o privilégio de assistir ao deslumbrante nascer do sol.

 

Tudo isto em 14 dias, muito quentes e intensos! Claro que o momento das despedidas, não é fácil. Eu não gosto de despedidas, nunca gostei! Esta foi bem difícil… com o coração apertadinho, mas com um grande sorriso no rosto porque estas crianças de Karanganyar mereciam tudo!

Esta foi, sem dúvida, a experiência que procurava! Voltei de coração a transbordar de emoção, carinho e afetos… e cheia de vontade de regressar àquele pequeno paraíso!

Posso afirmar com toda a convicção: hoje sou uma melhor pessoa! Devido, em grande parte, à experiência que vivi na Indonésia!

TERIMA KASIH  / OBRIGADA :)