A Experiência da Sandra no Quénia

Já há muito tempo que queria fazer voluntariado internacional, pareceu-me esta a melhor altura da minha vida para o fazer. De todos os programas de voluntariado disponíveis para o meu período de férias, houve um que me captou a atenção: Kiburanga. Sabia que ia ser difícil, cultura diferente, condições de conforto mínimas, mas, ainda assim, decidi arriscar. E ainda bem que o fiz. Quando cheguei a Nairobi (já com a minha companheira de viagem, a Leonor, também portuguesa mas que só conheci no Dubai enquanto fazíamos escala), pensei: “Sandra, no que te foste meter?’’. Nairobi é uma cidade muito confusa, muita gente, muito trânsito que nem sempre é controlado. Para Kiburanga, partimos na manhã seguinte. Foram 9h de viagem em que se via a densidade populacional a diminuir, e a beleza natural a aumentar. Quando chegámos a Kiburanga, estava muita gente da comunidade reunida junto à escola para nos receber, muitas crianças, e um grupo de pessoas já com alguma idade a com música e dança típicas da região, foi um bocadinho arrepiante. As crianças guiaram-nos até ao nosso campo. Assim que cheguei, encontrei a Catarina. A Catarina é uma autêntica rockstar. Esteve neste projeto em 2017 e decidiu criar uma associação em Portugal (Associação Simba – Children’s Rights) para que fosse possível construir um orfanato em Kiburanga. Uma das nossas atividades para o projeto acabou por ser ajudar na sua construção (quando viemos embora, já estava praticamente concluído).
Nos dias que se seguiram, além da construção do orfanato, as atividades passavam pela distribuição de roupas, fabrico de tijolos, atividades com crianças, pintura da escola, e visitas domicilárias (home visits), onde pudemos ver como as pessoas vivem, como são as suas casas e quais são as suas histórias. Realmente, Kiburanga é especial. A vida daquela terra, o ritmo que se ouve, a alegria que existe sempre, o pôr-do-sol mais bonito, o céu mais estrelado, aquela gente que precisa de tanto, mas que não sente falta de nada. É um sítio que nos deixa com um misto de sentimentos enorme, principalmente na hora da despedida.
Sentimos que fazemos pouco, que nunca vai ser suficiente. Mas como alguém muito experiente um dia me disse: “Por muito que nos custe não conseguiremos mudar o mundo. Apenas podemos dar pequenos, honrosos e valiosos contributos.” Kiburanga foi a experiência mais bonita que já tive, a parte difícil foi deixá-la.
(Na verdade, acho que nunca deixei.)

Distribuição de roupas

A experiência da Maria em Zanzibar

              Desde que me lembro de ser gente, que tenho uma inexplicável sede por me aventurar pelo desconhecido, recordo-me de girar o globo que havia no escritório dos meus pais, apontar para um lugar de olhos fechados e imaginar como seria esse local. À medida que fui crescendo, o voluntariado entrou na minha vida em diversos formatos, acabando por descobrir outra das minhas grandes paixões. 

              Este ano decidi dar “o passo” e misturei as minhas duas grandes paixões – partir rumo à descoberta e ajudar com o meu contributo quem necessita. E assim foi, em Julho parti de mochila às costas para a África Oriental, mais concretamente para uma ilha pertencente à Tanzânia e banhada pelo oceano Índico, Zanzibar.

              Costumam dizer que o início custa sempre, mas este não foi o meu caso, rapidamente me senti acolhida em família e a fazer parte de uma comunidade, que aos poucos fui conhecendo e compreendendo melhor a sua cultura, as pessoas e o seu modo de vida. Estando num país maioritariamente muçulmano, onde todas as mulheres usam hijab, onde a mulher é bastante inferiorizada relativamente ao homem, onde ainda se acredita em bruxaria e feitiçaria e onde a pena de morte ainda persiste, existem regras culturais que tive que seguir e compreender, de modo a respeitar e ser aceite pela comunidade, tal como evitar usar roupas que mostrassem os ombros e as pernas, ou até mesmo evitar fazer ruído nas horas de oração.

              Numa experiência destas nem tudo é bonito e muitas vezes senti alguma frustração e impotência pelo facto de certos pontos de vista e crenças serem mal aceites e incompreendidos por esta cultura, como por exemplo a igualdade de direitos entre géneros, que é algo completamente absurdo para estas pessoas. Crenças e pontos de vista como este são difíceis de se mudar, e ainda mais quando são questões culturais enraizadas na própria educação destas pessoas desde cedo, mas penso que se falarmos neles aos poucos, e cada vez mais, existe a hipótese de transformarmos (nem que seja só um pouco) algumas mentes, e quem sabe, deixar uma “semente” que conduzirá à mudança.

              No entanto, estas inúmeras divergências culturais com que me deparei foram apenas mais um fator de interesse para explorar melhor, pois quando nos permitimos conhecer genuinamente o outro, pomos de lado as nossas defesas/barreiras, abrimos as nossas mentes e abraçamos o próximo, independentemente da cor da pele, religião, crenças ou género, abrimos espaço para amizades improváveis, que nos fazem crescer e que vão marcar para sempre a nossa vida com lições de tolerância, respeito e amor.

              Para mim Tanzânia foi viver de intensamente cada momento, foi ver sorrisos e gargalhadas no meio de pobreza, foi andar de pé descalço e de espírito leve, foi dançar ao som de “bongo flavour” com os vizinhos, foi encontrar uma mama, um papa e três irmãs África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi ficar deslumbrada com a beleza natural de Zanzibar, foi aprender e dar “calinadas” no suaíli, foi perceber que a educação salva vidas, foi conhecer-me melhor, foi fazer amigos verdadeiros nas pessoas menos prováveis, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos (como ter água quente para tomar banho), foi andar à boleia em carrinhas de comércio local, foi conhecer histórias de vida que jamais irei esquecer, foi ser criança outra vez, foi dizer “porque não?” mais vezes do que era suposto, foi rir até doer a barriga e é ter uma vontade enorme de voltar já e agora. 

Com esta oportunidade, foi possível aperceber-me melhor das desigualdades que ainda existem neste mundo, em coisas tão simples como fazer o caminho para a escola em segurança. Pois é, em Zanzibar todos os anos existem mortes e ferimentos em crianças que simplesmente estão a ir para a escola, porque não existe segurança rodoviária ou qualquer tipo de educação nesse sentido, sendo este o foco da organização de acolhimento – lutar para que seja possível que todas as crianças em Zanzibar cheguem ao local de ensino em segurança. Situações como esta e similares que pude testemunhar fizeram-me abrir os olhos e ver que ainda existe uma luta muito maior do que imaginava, para que todos tenham oportunidade de viver com dignidade. Somos apenas um grão de areia cada um de nós, mas se formos muitos, conseguimos ser uma praia ou uma montanha de grãos de areia, e aí, fazer a diferença.

              Queria muito conseguir dizer o que senti nestes 2 meses em Zanzibar, mas há coisas que não se conseguem explicar, só quem viveu a experiência consegue compreender, por isso, o melhor remédio é mesmo ir. Volto com o coração a rebentar pelas costuras, por não saber quando (ou se) voltarei a ver a minha segunda família e amigos, que deixei do outro lado do mundo, mas volto também com um sorriso gigante por ter desfrutado ao máximo desta oportunidade única. Posso apenas prometer a mim própria, que um dia hei de lá voltar

 

A experiência da Carolina na Palestina

Olá, chamo-me Carolina e este verão decidi arriscar. Sempre me fascinou bastante o “mundo” árabe, a cultura, os costumes, a comida, toda a sua própria realidade que é bem diferente da nossa. Durante duas semanas fui para a Palestina fazer atividades com 100 crianças num campo de férias.

Há sempre barreiras, mas estas devem ser ultrapassadas e assim foi… ir para um país com uma língua diferente da nossa e interagir com crianças nunca é trabalho fácil, visto que eu não sei falar árabe e poucos sabiam falar inglês. Mas esta dificuldade não se tornou uma barreira, brincamos, dançamos, jogámos sem percebermos a língua uns dos outros, falávamos por gestos e pelo olhar.

Numa das tardes, fomos a uma escola onde as raparigas tinham aulas separadas dos rapazes. Aqui fizeram-nos mil e uma perguntas que para nós eram simples e aplicadas no dia-a-dia, mas para aquelas raparigas eram um quebra-cabeças. Elas nunca tinham visto outras raparigas europeias então tinham curiosidade em saber como vivíamos e o que gostávamos de fazer. Na brincadeira intitulávamo-nos de Rita Pereira da Palestina.

No último dia fomos com as crianças a uma piscina pública em Hebron, este foi o dia que mais me marcou pois nunca tinha presenciado a divisão de rapazes e raparigas, em que eles podiam ir para a água de calções e elas tiveram que ir de roupa completa. No entanto, as raparigas mais velhas tiveram que ficar numa piscina coberta, muitas nos perguntavam como era em Portugal e o que usávamos, sempre que lhes explicávamos elas ficavam surpreendidas.

É impossível traduzir por palavras tudo aquilo que vivi! Mas nesta experiência aplico a frase “Todos aqueles que passam por nós, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Em breve quero lá voltar!

في قلبي (No meu coração)

A experiência da Mariana em Cabo Verde

O avião aterrou a quatro horas de casa, de Portugal, da Europa e do conforto que esta proporciona. A minha pátria é de facto, a língua Portuguesa e, Cabo Verde proporciona essa familiaridade que permite, por uns segundos, fechar os olhos e ser transportada para o aconchego do meu país, do meu primeiro mundo. Porém, a “ilusão” era curta e, rapidamente, me apercebia que estava num país que, apesar do elo histórico e linguístico, pouco tinha a ver com aquilo a que chamo casa.

Passei um mês em Cabo Verde, na ilha de São Vicente, a ensinar as crianças do Centro Juvenil da Ribeira da Craquinha. Romantizar aquilo que é o voluntariado internacional em África, aquilo que foi para mim, seria na minha opinião, uma perda de tempo. Foi um mês difícil. Porém, em retrospectiva, com um distanciamento de meses e quilómetros, esta experiência ensinou-me mais do que na altura realizei.

As aulas começavam às 9h, a chave para abrir o centro chegava às 9h30. Vinha com os compassos africanos, calmamente. As duas horas de trabalho da manhã eram, para mim, passadas com um aluno de 27 anos cujas dificuldades intelectuais não eram mais fortes que a vontade de prevalecer. À tarde, por duas horas com a professora Sara, dedicava-me às crianças do 1º e 3º ano. Cheios de perguntas, dúvidas, frustrações, abraços e carinhos. São os mais novos que mais nos abraçam enquanto voluntários, que nos fazem sentir em casa.

Contudo, após um mês longe de Portugal, de Lisboa, de amigos e família, percebi que a vida em Cabo Verde se desenrola de uma maneira diferente. Ou melhor, aceitei este facto, pois foi óbvio, desde início, que aqui os ritmos são diferentes, são africanos. O tempo permitiu aceitar, sem nunca deixar de ter os desafios que o tempo longe de casa oferece. Aceita-se que os cães, na rua, são de todos e de ninguém, que a água vem quando vier, que as crianças chegam quando chegarem, que, ali, longe do meu normal, os bebés adormecem ao som de funk brasileiro, que a diferença horária engloba também um mindset diferente.

A experiência da Rafaela na Indonésia

A ideia de fazer voluntariado internacional já era desejada há muito tempo, no entanto, apenas este ano tive a oportunidade de me candidatar a um projeto na Indonésia.
Desde sempre que a Indonésia me fascinava, a cultura, as pessoas e o país repleto de uma vasta natureza incrível. Em Outubro do ano passado, decidi candidatar-me a um projeto na Indonésia, Semarang, ilha de Java, na vila de Tegalrejo, para cuidar e ajudar as crianças que vivem numa zona de prostituição e que têm alguma falta de atenção por parte dos pais.
Quando me candidatei a este projeto, não sabia ao certo, onde ficava Tegalrejo, sabia que ficava perto de Semarang, as atividades eram também desconhecidas assim como o lugar onde iria passar as duas semanas do projeto. Com o aproximar dos dias da partida, fui recebendo a informação de todas as atividades que iriamos fazer com as crianças da vila. Ao chegar a Semarang, senti um choque cultural, logo no aeroporto. A ilha de Java é maioritariamente muçulmana, como tal, praticamente todas as mulheres utilizam Hijab (lenço a tapar a cabeça), quando aterrei, senti-me uma estranha num país diferente, que me fez questionar até o que vestia, umas calças de ganga e uma t-shirt e só pensava como seria em Tegalrejo.
Quando cheguei à sede da organização, que era o nosso ponto de encontro, o meu coordenador disse-me que iríamos viver com uma família de acolhimento, no entanto, eu ainda não sabia quais as condições da casa, nunca criei expectativas sobre nada e sinceramente eu estava preparada para tudo. Demoramos cerca de 2 horas para chegar a Tegalrejo, numa carrinha amarela, com mais 3 Japoneses, num dia de muito calor.

A carrinha parou num pátio e algumas crianças corriam na nossa direção, com curiosidade para saber quem seriam os novos voluntários. No primeiro dia, ficamos a conhecer a casa, onde iríamos ficar durante duas semanas. Era uma casa, diferente da minha, sem o típico conforto que temos na nossa casa, sinceramente, não fiquei surpreendida com as condições, pois eu imaginava que iria ser assim e eu fui à procura daquilo, eram aquelas experiências que me fizeram candidatar-me a este projeto. Todos os dias a Ibu (mãe em indonésio) pedia desculpa pelas condições que a casa tinha, mas que eram as únicas condições que ela tinha para dar, mesmo não falando a mesma língua, eu sabia que ela se esforçava para nos dar o melhor. Em duas semanas, eu nunca me queixei numa única vez daquelas condições, estava feliz por estar ali. Nesse mesmo dia, fomos conhecer o local, onde iríamos fazer o voluntariado.

Era um local com muitas crianças, algumas meigas e outras um bocadinho agressivas, porque o ambiente em que vivem, muitas delas, não é fácil. Aquilo que me chocou, foram as casas de karaoke, que são centenas, na vila. Essas mesmas casas, não passam de casas de prostituição e as crianças que eu cuidava e educava eram fruto desses ambientes. No segundo dia, ensinamos as crianças a lavar os dentes e, infelizmente, haviam crianças que com 10 anos nunca tinham escovado os dentes, muitas delas tinham escova de dentes e pasta de dentes em casa mas não sabia ao certo como utilizar, o menino que estava comigo, nesse dia, lavou os dentes umas 3 vezes seguidas e só não lavou mais porque eu não deixei, porque por ele, ficava a manhã inteira a lavar os dentes. Era notório na dentição daquelas crianças, algumas tinham os dentes pretos, outras mais velhas, já não tinham dentição.

Durante duas semanas, fizemos imensas atividades com aquelas crianças, fomos à piscina, fizemos uns puzzles em cartão com fotografias nossas, cozinhamos para elas, ensinávamos jogos, mas sobretudo partilhávamos muito afeto com aquelas crianças que tanto precisam de carinho. Numa dessas atividades, fomos a uma escola, mal abri o portão da escola e centenas de crianças correram na minha direção para me abraçarem ou para me dar a mão. Este foi um dos momentos mais emocionantes neste projeto. Nesse dia, tentei ensinar algumas palavras em português a uma turma do 4º ano. Esse dia irá ficar na minha memória para sempre, tal como tantos outros pelos os quais passei. Tive a oportunidade de celebrar, o dia da Independência da Indonésia, no campo de voluntariado. Os indonésios dão muita importância a este dia, em muitos locais da vila, eram feitas competições consoante a faixa etária e para cada vencedor havia uma recompensa, esse dia foi um dia de muitos risos e de muita alegria, acabando com uma festa numa mesquita que havia perto da nossa casa, onde fomos convidados a estar.

No meu último dia, senti que tinha dado o meu melhor àquelas crianças, que pelo menos, durante duas semanas, consegui tentar abstraí-las do ambiente em que vivem e mesmo sem falar o mesmo idioma aprendi tanto com aquelas crianças. O voluntariado para aquelas crianças é tudo o que elas de bom podem ter, somos nós que, por vezes, ensinamos o que está certo e o que está errado, tentando que cresçam a fazer as melhores escolhas, numa zona tão propicia a más escolhas. Fomos sempre muito bem recebidos pelos locais, a casa onde estava, tinha um alpendre que todos os dias estava repleto de crianças, que queriam brincar connosco. Nós, enquanto voluntários, nunca estamos à espera de nenhum retorno financeiro do nosso trabalho, nem mesmo que seja reconhecido. O maior retorno que eu tive foi o carinho e o amor que aquelas crianças me transmitiram durante aquelas duas semanas.


Saí de lá com a esperança que tenham um futuro melhor que o presente e tentei transmitir-lhes esperança, mesmo quando as coisas não correrem bem, que nunca desistam de nada e que se esforcem sempre, para alcançar os seus sonhos e objetivos, mesmo que aos olhos dos outros sejam impossíveis.
Quero agradecer à organização Para Onde?, por todo o apoio que me deu, desde a data de candidatura até à chegada e por toda a vossa preocupação. Enquanto eu estava no voluntariado, sempre preocupadas em saber como estava, se precisava de alguma coisa, tive o melhor apoio possível de vocês. Obrigado por proporcionarem estas experiências inesquecíveis e não tenham medo ou receio, custa partir mas quando se está em campo, tudo vale a pena.

A experiência da Catarina e da Patrícia na Alemanha

A decisão de fazer voluntariado internacional não era um sonho de longa data. Para dizer a verdade, achamos que o que sempre pautou a nossa amizade foram as decisões impulsivas, espontâneas, mas que de uma maneira ou de outra acabam sempre por trazer sentido à nossa vida. Por isso, lá decidimos nós que queríamos fazer voluntariado fora de Portugal, por nenhum motivo em especial, foi algo que se enquadra mais num “porque não?”.

Para selecionarmos o campo de voluntariado que queríamos tivemos em conta 4 aspetos: o custo, o tema, a duração e as datas. Para nós tinha sentido fazer voluntariado na Europa, uma vez que na maioria dos campos não tínhamos que pagar nem alojamento, nem alimentação e também porque os bilhetes de avião acabavam por ser mais baratos do que viajar para outro continente. Tínhamos um desejo enorme de fazer voluntariado, mas também sabíamos que se fosse para gastar mais dinheiro do que o necessário, que nos seria impossível concretizar esse desejo. Quanto ao tema, decidimos juntar a vontade de fazer algo relacionado com o ambiente (Catarina) com a componente social (Patrícia). A duração teria de ser aquela que mais se aproximava de 1 mês, pois queríamos aproveitar ao máximo a experiência e teria que ser no mês de agosto, uma vez que estivemos a trabalhar no mês de julho.

Percorremos a base de dados do SCI no site do Para Onde até encontrarmos o campo perfeito, aliás aquele que se tornaria o campo de voluntariado perfeito. Esse campo de código 7. 21 Berge que no início não nos dizia nada, mal sabíamos o impacto que teria e o carinho com que o guardaríamos no coração. Deparámo-nos com este campo que basicamente tinha a descrição de desenvolver atividades ecológicas com adolescentes que se encontravam no centro Jugendhof, em Berge (Brandenburg, Alemanha), em prol da sua reintegração na sociedade.

Depois de tratarmos de todos os aspetos logísticos, sempre muito bem acompanhadas pela equipa do Para Onde, restávamo-nos esperar para embarcar numa nova aventura a 6 de Agosto.
Chegámos a Berlim por volta das 12h do dia 6 de agosto, apanhámos um comboio para Nauen e daí um autocarro para Berge, uma vila extraordinária, devemos ter passado a viagem toda de autocarro grudadas à janela, completamente deslumbradas com a imensidão da natureza.
Assim que colocámos pé em terra, apercebemo-nos que tínhamos feito a viagem toda de autocarro com uma voluntária do campo, a Mesi que vinha da Hungria. Lá fomos as três em direção ao centro, onde a meio caminho encontrámos a Leonie, uma das nossas líderes, e depois sim, conhecemos o resto da nossa equipa: a Sarah (outra líder), a Alba (de Espanha), a Arzu e o Rizvan (do Azerbaijão), a Sasha (da Rússia) e, mais ao final do dia, o Jonas (de Taiwan).
O dia de chegada foi um dia de apresentações, tentar quebrar o gelo, conhecer aquela que seria a nossa casa por 18 dias.
O centro de Jugendhof tem 100 hectares, 5 casas e variados espaços para criação de animais, atividades com madeira, andar a cavalo, imensas árvores de fruto (em especial ameixieiras), grandes espaços verdes. Três das casas do centro são para os adolescentes, que por algum infortúnio se tiveram de separar das suas famílias. Não sabemos ao certo a situação de cada um dos 15 adolescentes que viviam no centro, sabemos que alguns estavam lá há 2 semanas e outros há 4 anos, mas que a média de permanência costuma ser 1 ano. Sabemos que alguns tiveram dificuldades com drogas e álcool, que apresentavam cortes nos braços e que tinham problemas do foro psicológico. No entanto, aquilo que melhor sabemos, é que nenhum deles foi desrespeitoso ou antipático, que todos nos fizeram sentir em casa, que de uma maneira ou de outra, o que eles mais ansiavam era alguém que lhes desse um pouco de atenção.
A quarta casa foi onde os rapazes do grupo de voluntariado permaneceram. Por fim, a quinta casa a que chamamos de edifício principal foi onde nós dormimos, acabava por ser a “casa dos voluntários”, mas, na realidade, era de toda a gente daquele centro.

O nosso horário de trabalho era de segunda a quinta das 8h às 15h30, sendo que tínhamos sexta, sábado e domingo como dias livres. No entanto, para dizer a verdade, o horário foi tudo menos rigoroso. O que se sucedeu é que, principalmente, na primeira semana, estava tanto calor, que os trabalhadores extremamente amáveis preocupavam-se que nos pudéssemos sentir mal e por isso, apenas tínhamos trabalho de manhã. Na segunda e terceira semanas, já tínhamos que desenvolver atividades à tarde, mas não existia aquele sentimento de ter que cumprir um horário ou que eramos obrigados a estar lá, tudo era realizado à base de iniciativa própria e fomos sempre muito bem tratados. Tínhamos quatro opções de atividades a desenvolver: podíamos estar com a Thea e alimentar os animais e depois juntarmo-nos ao grupo do Steffen e ajudar a construir cercas, podíamos trabalhar com madeira e construir bancos no grupo do Andreas, ou ajudar na cozinha e trabalhar com o Dirk. Todos estes grupos incluíam a ajuda dos adolescentes, que não eram obrigados a participar, mas que eram fortemente incentivados para tal.

Durante a primeira semana, nós ficámos com o grupo da Thea e do Steffen e ajudámos a contruir uma cerca. Na segunda semana fomos para a cozinha com o Dirk e ficámos tão rendidas que decidimos permanecer lá na terceira semana.

Todos os dias começavam com a reunião do grupo de voluntários para alguns exercícios matinais para ficarmos mais acordados. Depois, íamos todos juntos para o local de reflexão, onde toda a gente do centro se reunia para registar as presenças e falar do plano diário. Após isto, tomávamos o pequeno-almoço em conjunto, cada um ia para os seus projetos, às 12h era o almoço, a seguir voltávamos para os projetos e às 15h30 íamos para o local de reflexão onde cada um contava como tinha corrido o seu dia.

No tempo livre era comum realizarmos atividades com os adolescentes, mesmo que alguns não soubessem falar inglês (algo que entendemos rapidamente é que a língua não é de todo um impedimento para se criarem ligações entre pessoas), essas atividades tanto podiam ser jogos de tabuleiro, como jogos inventados por nós/eles, jogar futebol, voleibol, enfim, tudo o que nos fizesse chegar mais perto deles.

Na primeira sexta-feira aproveitámos para ir a Berlim, onde permanecemos o dia todo, fizemos uma walking tour, visitámos os recantos da cidade e até fomos a um bar de karaoke. No domingo fomos ao Mauerpark Flea Market, um mercado típico de Berlim, com um pouco de tudo, coisas novas, velhas, boa música e até karaoke!

A segunda semana na cozinha foi extraordinária, criámos uma ligação tão grande com a nossa equipa, em especial com o chefe e um adolescente que também lá estava. Desenvolvíamos atividades de ajudantes, cortávamos vegetais, limpávamos a sala e a cozinha, sempre ao som da rádio e com um grande sorriso nos lábios. Gostámos tanto que repetimos na terceira semana.

À noite, nós (o grupo de voluntários) tínhamos de cozinhar o nosso jantar, onde aproveitávamos para nos conhecermos melhor, o que se notava de dia para dia. Tínhamos também algumas tarefas diárias, como limpar a cozinha, cozinhar, dar a comida aos porcos, tudo o necessário para que a nossa estadia corresse pelo melhor.

Quanto ao alojamento, as raparigas ficavam no edifício principal dividas entre dois quartos, onde dormíamos num saco de cama em divãs. Os duches eram no exterior em casinhas de madeira. Não temos qualquer razão de queixa, íamos com o espirito de voluntárias que não tinham expetativas de grandes condições, pelo que absolutamente nada nos desiludiu, pelo contrário até nos surpreendeu.

No segundo fim-de-semana visitámos Potsdam, uma cidade perto de Berlim, e fomos a uma piscina com alguns dos adolescentes.

No dia 23 de agosto, último dia antes da nossa partida, foi um dia de despedidas de todas as pessoas extraordinárias que nos receberam de braços abertos. Foi incrível perceber que tínhamos tocado no coração de alguns adolescentes, que vinham até nós dar-nos abraços calorosos de quem não nos quer ver partir.

O que nós podemos dizer é que este testemunho não faz jus àquilo que vivemos, que não representa nem 1/10 do que experienciámos, mas é por isso mesmo que o nosso conselho é que vão! Vão e experienciem por vós mesmos, seja na Alemanha, seja noutro sítio qualquer, porque acreditem que vos muda, que no fim não querem ir embora, que parece que ganham outra família, completamente internacional.

Aquela que foi uma decisão impulsiva acabou por nos fazer querer repetir a experiência por muitos mais anos e poder encher o coração de novo da forma que só o voluntariado consegue.

A experiência da Filipa na Sérvia

Já passaram quase duas semanas desde que voltei a Portugal depois da minha primeira experiencia de voluntariado internacional e encontrar as palavras certas para descrever dias tão intensos é mais difícil do que pensara.

Desde o momento em que decidi que seria neste verão que iria concretizar este desejo antigo, foram várias as sensações, dúvidas e receios que passaram por mim, mas sempre com o entusiasmo em modo exponencial até ao tão aguardado dia em que parti sozinha para Sremski Karlovci, uma pequena cidade no norte da Sérvia.

Optei por um projeto relacionado com proteção ambiental, uma vez que é um tema que me interessa bastante a nível pessoal e, claro, porque eu adoro estar em contacto com a natureza. Nos últimos tempos, felizmente, os assuntos relacionados com proteção ambiental têm merecido maior atenção e vi também neste projeto uma oportunidade para conhecer de que forma as organizações não governamentais desenvolvem o seu trabalho. Assim, durante duas semanas fiz voluntariado no projeto Wetlands Conservation – Secret Life Of Birds. Este projeto está integrado na preservação da reserva natural Kovilj–Petrovaradin Wetlands, que acompanha uma parte das margens do rio Danúbio em Sremski Karlovci. Desde o ano de 2015 que vários voluntários têm colaborado na limpeza e manutenção desta área e na consciencialização da comunidade local para a preservação de uma zona tão rica em fauna e flora. Neste ano, além da continuidade destas atividades, o nosso grupo limpou uma área destinada à criação de uma praia fluvial, o que permitirá aumentar a oferta de ecoturismo nesta região. Com isto, pretende-se que os habitantes locais e turistas partilhem respeitosamente o espaço com as espécies protegidas, desfrutando das paisagens oferecidas.

Uma vez que se trata de um projeto que tem crescido não só devido ao trabalho dos voluntários que chegam de diferentes países, mas também da toda a equipa que trabalha no Ekološki Centar Radulovački, em Sremski Karlovci. Num dos últimos dias de trabalho, alguns elementos do governo sérvio e alguns canais da comunicação social estiveram no nosso workcamp. Com isto, tentaram perceber de que forma o trabalho tem evoluído, que recursos são necessários para concluir os trabalhos de ordenamento da reserva e de manutenção no futuro. Durante um dia, fomos ainda acompanhados por um programa de TV que pretendia filmar o dia-a-dia de um voluntário. Estou curiosa para ver o resultado final!

Além do trabalho que era realizado no período da manhã e que começava bem cedo devido às horas de calor, no período da tarde eram realizados workshops relacionados com proteção de fauna e flora em zonas como o rio Danúbio, desenvolvimento sustentável e num dos dias participámos também numa observação de aves na reserva na qual estávamos a trabalhar, o que me fez sentir uma bióloga da BBC de binóculos e livro na mão bastante entusiasmada!

Os almoços eram servidos num restaurante local, o que me permitiu conhecer a gastronomia do país e que deliciosa é a comida na Sérvia! E não fiquem surpreendidos se vos servirem um delicioso prato de Sarma ou de Pasulj mesmo que estejam temperaturas a rondar os 35 ºC. Tal como eles diziam, uma forma de nos refrescarmos por dentro é comer comidas quentes.

Durante estas duas semanas estivemos alojados numa escola primária local e partilhámos o espaço com outro workcamp, Arboretum, cujo trabalho decorria no jardim botânico mais antigo da Sérvia, o Royal Garden, e que jardim bonito e fresco! Como tal, desde o primeiro dia foram organizadas atividades para que todos nos conhecêssemos e nos sentíssemos à vontade entre todos, afinal iríamos (con)viver todos juntos durante algum tempo. Tal como uma família (uma grande família com vinte e quatro voluntários!), organizámo-nos em equipas cujas tarefas eram preparar o pequeno-almoço e fazer o jantar e assegurar a limpeza diária de todas as divisões. Parecem tarefas banais, mas nestes momentos colocámos novamente em prática as aprendizagens acerca de trabalho de equipa, partilha de ideias e gestão de tempo, mas aplicadas às tarefas domésticas.

De forma a darmos a conhecer a evolução do trabalho desenvolvido pelos dois grupos de voluntários à comunidade local, o último dia de trabalho foi reservado para divulgação na rua, convidando todos os que se quisessem juntar a nós a participar em algumas atividades preparadas por nós.

Entre tantas atividades, também tivemos momentos de lazer. Um dos dias foi passado numa pequena ilha selvagem do rio Danúbio. Apesar de bastante frequentado pelos habitantes locais e turistas, o local está muito bem cuidado e bastante nativo, o que torna a ilha ainda mais encantadora. Fomos a Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, onde jantámos todos juntos depois de assistirmos ao pôr-do-sol na fortaleza da cidade. Num outro dia, acordámos bem cedo para voltarmos a esta cidade e irmos ao Flea Market. Aqui, pudemos sentir o estilo de vida sérvio num dia de mercado e até comer uma Pljeskavica gigante às 10h da manhã, afinal já estávamos acordados há mais de três horas. Fizemos também uma prova de vinhos, não estivéssemos nós a trabalhar no local onde é produzido o tão famoso vinho Bermet. Os mais resistentes ainda provaram Rakija, afinal a Sérvia é o maior produtor do mundo desta bebida.

Em relação a todos os voluntários que conheci nesta aventura, e sendo o nosso grupo tão grande, é natural que se criem laços mais fortes com uns do que com outros, mas agradeço todos os momentos de partilha, sem exceção. E aquela pessoa que logo no primeiro dia pode ser menos agradável contigo, ao fim de duas semanas pode ser tua grande amiga. Havia uma grande diversidade de nacionalidades, assim como de faixas etárias (dos 19 aos 40 anos), mas em nenhuma circunstância existiram barreiras devido às diferenças culturais ou de idade. E todos eles sabem que serão muito bem recebidos em Portugal!

Apesar de serem “apenas” duas semanas, na verdade pareceram meses. Os dias são tão preenchidos, há tanto a aprender, a absorver, a conhecer, a fazer e a querer fazer, que não nos importamos de abdicar de horas de descanso e de sono para não perdermos nada. É uma sensação ótima saber que contribuí para a continuidade de um projeto tão importante e rico, numa cidade tão cuidada como é Sremski Karlovci. Os dias passados em Belgrado depois de terminar o voluntariado reforçaram mais a opinião de que a Sérvia é muito mais do que as questões políticas que nós conhecemos, por isso não hesitem em visitar este país caso pretendam viajar pelos Balcãs.

Quero também agradecer m-u-i-t-o à Marta e à Inês, do Para Onde?, por todo o seu trabalho, dedicação e orientação que prestaram desde o primeiro contacto até à data. Apesar de a minha formação pré-partida ter sido à distância, em momento algum me senti penalizada por causa disso, obrigada por tudo!

Por fim, quero dizer a todos aqueles que gostavam de fazer voluntariado, mas ainda não tiveram coragem de seguir em frente: vão! Independentemente da área, do local e de tudo o que as pessoas que estão à vossa volta vos possam dizer, não hesitem. Se sentem que poderão contribuir (mesmo que só um bocadinho) para um mundo melhor e que a nível pessoal se sentirão mais realizados, candidatem-se já!

A experiência da Micaela pela Croácia, Áustria e Alemanha

Este verão fiz três projetos de voluntariado, na Croácia, na Áustria e na Alemanha e foi a melhor experiência da minha vida. Parti com muitos medos e inseguranças e voltei completamente transformada, pelo que vi, pelo que vivi e principalmente pelas pessoas que conheci. Aprendi imenso e tornei-me sobretudo uma pessoa mais humana, capaz de relativizar os problemas.


A “Para Onde” foi incansável sempre a acompanhar-me a cada passo, e só tenho a agradecer o apoio desde o primeiro dia.
A quem está a pensar fazer voluntariado mas ainda tem algumas dúvidas, façam sem medo vai ser a melhor experiência da vossa vida.

 

A experiência da Márcia na Colômbia e no Perú

Passaram exactamente duas semanas desde o meu regresso a Portugal e alguns dias desde o pedido da Inês e da Marta para testemunhar aquela que veio a ser, até à data, a experiência mais gratificante da minha vida. Confesso que custa assentar, ideias, sentimentos, e até mesmo diria, por vezes, digerir estas novas memórias. Se há alguma certeza que tenho sobre todo este turbilhão de informações, é que todas as pessoas deveriam ter oportunidade de embarcar num projecto assim pelo menos uma vez na vida. Seríamos todos muito mais felizes e descomplicados. E a todos os que me perguntam se valeu a pena, tenho uma e sempre a mesma resposta: ‘só me arrependo de ter comprado a viagem de volta’.

No início desta aventura (nada planeada, mas muito desejada) tinha uma vaga ideia que esta me iria marcar e transformar de algum modo. Tinha uma vaga ideia de que iria transpor fronteiras e atravessar um oceano, para abraçar projectos em outros países, num outro continente. Só não sabia ainda que abraçaria projectos e pessoas para a vida. Aprendi que até os ‘abraços’ tem naturalidade. E nós, Portugueses de ginja, que abraçamos à nossa forma ocidental, estranhamos aquando os primeiros abraços interculturais, mas entranhamos rapidamente os mesmos, e arrisco-me a dizer que dificilmente vamos querer de novo ‘abraços’ pela metade.

Foi na Colômbia que tive o prazer de ter este ‘primeiro choque’ cultural, aquando apenas após umas horas da minha primeira viagem sozinha, num outro continente, me senti estranhamente confortável e tranquila. Optei por viajar uns dias mais cedo antes do início do programa de voluntariado. Não queria perder a oportunidade de conhecer a capital, e não poderia ter tomado melhor decisão. Foram importante estes primeiros dias de contacto comigo mesma, e com um outro país, com uma outra língua na qual não estava ainda tão à vontade. É importante sairmos da nossa zona de conforto, ainda que o sugira sempre de forma consciente e minimamente programada. Nunca me senti insegura, muito menos sozinha. Desde o primeiro momento em que aterrei na América do Sul, que senti que era bem recebida. Os Colombianos são pessoas simples, gentis e de conversa fácil, e isso baixa qualquer defesa. Conheci também outras pessoas que viajam, ora sós ora em grupo, que gratuitamente partilharam as suas experiências e o seu tempo. Após estes primeiros dias em Bogotá, viajei então para Pereira onde me juntei à organização de acolhimento por 15 dias.

Se no geral os Colombianos são bons anfitriões e sabem levar os dias com um sorriso e alegria contagiante, conheci no Staff da organização uma genuinidade ímpar. Cada um à sua maneira, mas todos fazem questão que nos sintamos bem e que desfrutemos tudo o que lhes for possível. Chinchina é uma localidade grande o suficiente para nos desarmar num piscar de olhos. Faz parte da Paisagem Cultural Cafeteira, mas apesar de nos confrontar com um cenário quase idílico, a realidade é contra-natura. Num meio onde estamos rodeados por montanhas e pela natureza no seu estado mais puro, sentimo-nos pequenos, ainda que o nosso rosto e coração estejam a fervilhar em grande. Quer pelo calor que se faz sentir (quase sempre) ainda nas primeiras horas da manhã, quer pela rajada de emoções que se experimentam ao constatarmos que o nos rodeia é maioritariamente um conjunto de casas e infraestruturas inacabadas, quase sempre sem telhados e onde a pobreza é a palavra de ordem.

A minha experiência incidiu sobretudo sobre o ainda recente Programa de Educação Especial, o qual tive privilégio de ajudar a estruturar. Aqui tive oportunidade de conviver de forma muito próxima com a comunidade local e de aprender (tanto), quer a nível pessoal como profissional. Conheci o dia a dia da instituição e da deliciosa história da sua fundadora, a quem sou muito grata pela forma como me recebeu e integrou. É bom ser consciente, que embora tenhamos uma missão, não somos cavaleiros andantes de mochila às costas cheios de boas intenções e prontos a salvar o mundo. Acredito sermos mais meros (sortudos) observadores daqueles que nos abrem as portas das suas casas/vidas e nos deixam entrar. Nos deixam ser mais do que uns corpos presentes de estadia fugaz. E isso não tem valor. Abaixo o retrato de instantes muito felizes, em algumas das actividades desenvolvidas com a única instituição da localidade que está preparada para acolher e educar crianças e jovens com necessidades educativas especiais, mas onde são visíveis a olho nú todas as suas carências. Ainda assim, é a alegria que reina nesta casa, e são os risos contagiantes que tomamos como banda sonora.

A organização oferece porém um vasto leque de programas em diferentes áreas nas quais podemos participar. Presenteia-nos ainda com uma história que nos cativa desde o primeiro capítulo e nos dá vontade de acompanhar no seu desenrolar, ainda que à distância de alguns kms. É incrível todo o trabalho desenvolvido por um grupo de pessoas na sua maioria ainda muito jovens, mas com uma enorme capacidade de fazer acontecer. Não posso deixar de registar um obrigada especial ao Glen, Stiven, Ed., Daniela, Nestor e Hector. Ah! E claro ao grande companheiro de voluntariado Christian.

Como se tudo isto não fosse bom o suficiente, durante o tempo livre tive oportunidade de viajar pelas regiões próximas e de me envolver e apaixonar ainda mais com a cultura, gastronomia e paisagens únicas Colombianas! Não percam a excursão até Manizales e Salento. Da minha parte, fica a certeza de querer voltar.

Passado este tempo, segui novo rumo a Trujillo, no Peru.

Aqui permaneci um mês, no qual me dediquei a organizar e dinamizar aulas de inglês e tempo de qualidade para as mais de 300 crianças que tive a sorte de conhecer, de uma escola na localidade de Florencia de Mora. Cada dia foi diferente e especial. Esta é também uma escola muito especial. Com inúmeras necessidades. Fica sobre um deserto e facilmente nos apercebemos que as condições de apoio por vezes mais básicas perderam-se no tempo e no caminho até à mesma. Isso não tira no entanto o seu protagonismo. Nenhuma criança devia aprender neste contexto é certo, ainda assim, perto de 600 crianças sonham com o momento de voltar a cruzar os portões do espaço seguro que muitos conhecem como a única oportunidade para novas descobertas, ou onde podem brincar e correr como a sua idade sempre o devia ditar.

E nós também, regressamos todos os dias, porque ao chegar somos atropelados por braços abertos, como se de extraterrestres que trazem uma língua estrangeira fossemos, e tropeçamos nesta realidade, onde todos somos felizes com tudo e com tão pouco.

Foi um mês cheio, que passou demasiado rápido com a ajuda da Helena e do Tomás, os dois voluntários Portugueses que tive a oportunidade de me juntar e partilhar esta deliciosa aventura. Ainda não sei que fizemos para merecer tamanha bagagem. A única convicção, é que a desproporção entre o que nos ensinam e dão é gigante.

Durante este mesmo período, fomos tratados como ‘convidados de luxo’ pelo maravilhoso staff e amigos locais, que nos desafiaram a explorar e desfrutar tanto da cidade, como o norte e centro do Perú. Viajamos até Cajamarca e Huaraz. Conhecemos os Andes e a Cordilheira Branca, bem como a histórias dos seus primeiros povoadores. Perdi a conta ao número de trekkings e montanhas que subi ou às vezes que fiquei sem palavras pela biodiversidade única que encontramos neste País. Uma verdadeira caixa de surpresas que me fez ir muito mais além do que alguma vez previ. Agradeço vezes sem conta ao Micca, Juan e Rolly.

No final do projeto, guardei mais uns dias para viajar até Lima e Cusco, e conhecer mais maravilhas deste mundo. Aconselho vivamente!

Por fim, deixo um agradecimento muito especial à organização Para Onde, à Marta e à Inês. As quais admiro imenso pelo seu empreendedorismo, força de vontade e dedicação. Elogiei vezes sem conta o seu trabalho pelas diferentes partes onde passei nos últimos meses, de forma muito natural e até despercebida. Em troca de experiências com muitas das pessoas e outros viajantes que me cruzei, apercebi-me ainda mais da importância, do apoio e de toda a orientação que nos prestam pré, durante e após a partida. São o nosso elo com a realidade e a nossa certeza de segurança a vários níveis. Obrigada por tornaram todas as maravilhosas experiências que descrevi (e mais algumas) viáveis.

A experiência da Catarina e da Mariana na Bélgica

Sempre quisemos ter uma experiência de voluntariado internacional e quando vimos a possibilidade para este projeto, decidimos arriscar.

No início, estávamos sem muitas expectativas: apenas tínhamos em mente que íamos encontrar outras culturas, que as pessoas iam ser diferentes e que tínhamos de fazer qualquer coisa para as tentar fazer esquecer a realidade em que viviam.

Assim que chegámos ao centro, sentimos um baque tão grande de desconhecido com uma mistura de alegria em podermos fazer a diferença, que nem imaginávamos o poder da transformação que íamos ter.

Assim que pousámos as nossas coisas, a nossa zona de conforto deixou de ser algo natural e o poder da transformação começou: da nossa, da daquelas pessoas, da do centro, de tudo.

Nos primeiros dois dias, ainda sentíamos alguns olhares de desconfiança, mas a capacidade do ser humano em situações alheias ao seu padrão normal é tão grande que a convivência foi aumentando e a ligação com aquelas pessoas foi evoluindo de uma forma avassaladora.

De dia para dia, tudo se ia tornando mais intenso com as atividades, as brincadeiras, as conversas, a interajuda, as risadas, as músicas cantadas em uníssono, a aprendizagem de novas línguas, costumes e culturas… A vontade de queremos ter o máximo de tempo para aproveitar cada segundo era uma constante que a privação de sono ou a necessidade de descansar deixaram de ser problemas.

Nunca nos passou pela cabeça trazer amigos e pessoas muito queridas no coração, com histórias de arrepiar e de cortar a respiração.

Ao mesmo tempo, nunca tínhamos sentido a força gigante de povos que viram as suas cidades e os seus países serem destruídos pela guerra, as suas famílias levadas, o seu dia-a-dia transformado num pesadelo até conseguirem encontrar um porto de abrigo…

Muitas vezes, à noite, ficávamos sentados no átrio do centro, horas a fio, com o coração acelerado e a alma arrepiada, a ouvir coisas que ninguém merece ter como história de vida. Mas também sentíamos força, coragem e determinação que não sonhávamos que pudesse existir.

E assim fizemos um reset às pessoas que éramos antes desta ação de voluntariado e às pessoas que somos hoje. Porque sabemos que há um antes e um depois. Porque descrevemos esta experiência com várias frases, sentimentos e emoções, mas a nossa frase preferida: “só sabe quem lá está, quem vive aquele dia-a-dia” é a melhor definição que poderíamos ter.

Fomos numa experiência de voluntariado e hoje sabemos que fizemos a diferença, principalmente nas pessoas que somos hoje. Não foi bom. Foi único!