A experiência da Rita em Cabo Verde

E chega ao fim a minha viagem.

Já estou em Portugal, mas o meu coração ficou na Ilha de Santiago.

Assim que aterrei, tive essa certeza, e tantas outras. Tive a certeza que jamais esquecerei os olhos do Roni, o sorriso do Marquinhos, os abraços apertados da Vanessa, e os demorados da Silvania. As tranças da Solene, os presentes da Macieny e as cartas da Marlisa. As músicas da Carina, as danças do Ailton, o ritmo das Batucadeiras e os moves do Jasstom. Jamais esquecerei as aulas de crioulo da Romila e as fresquinhas da Lorry. Guardo comigo isso tudo.

Guardo todas as vezes que o Daniel pegava na minha mão para o ajudar a fazer os trabalhos de casa. Também não me vou esquecer disso. Nem das boleias do Michel ou das lágrimas da Jassica, na hora da despedida. Guardo comigo isso tudo.

A Ilha de Santiago levou-me o coração, também me levou a palma do pé, de jogar futebol descalça, os dedos das mãos, de fazer pulseiras e, os mil cabelos do entrançar das meninas, mas foi apenas isso. De resto, Santiago só me ofereceu. Ofereceu-me sítios incríveis. E ofereceu-me pessoas ainda mais incríveis.

A Ilha de Santiago

Tem corpinho de algodón

Saia de chita cu cordón

Um par de brinco roda pión.

Escrevo, ainda só passaram dez dias, e já sinto tantas saudades. Saudades que não terminam. Ainda não consigo ouvir a música da Ilha de Santiago, sem deixar cair uma lágrima. Guardo tão bem esta música.

Guardo esta música e tantas outras, guardo as danças, as paisagens, as cores, as frutas, os sabores. Guardo as conversas, os desabafos e as cartas escritas.

Guardo também o carinho, sim, o carinho que conseguiu com que não sentisse falta de casa. Obrigada por tudo, Cabo Verde. Obrigada, Delta Cultura, uma equipa incrível, que sempre me deu total liberdade de expressar o carinho pelas crianças.

Obrigada a todas as crianças. Obrigada pelos sorrisos, pelos olhares, pelos beijinhos e pelos abraços que são diferentes dos nossos.

Obrigada, essencialmente, pela generosidade. Obrigada pelas coisas simples, da forma mais simples. E assim, isto não foi apenas uma experiência, fazer voluntariado não foi somente ensinar ou dar o melhor de mim, foi muito mais, foi receber, foi absorver.

Aprendi e entendi tantas coisas, tanta cultura. Entendi o quão generosas podem ser, crianças de 4 anos. O quão rico pode ser um país pobre. Entendi que em todas as dificuldades por que atravessei, que tudo isto valeu a pena. Aprendi também, que um sorriso, apesar de muita tristeza por detrás, será sempre um sorriso.

Hoje, gratidão tem outro significado. Ah, e aprendi também que temos sempre alguma coisa a oferecer, nem seja a nossa presença. Se pensas em fazer voluntariado, não penses mais, segue apenas em frente. No fim tudo vale a pena. Tudo bate certo. Obrigada de coração, ParaOnde.

A experiência da Matilde em Cabo Verde

Ainda não parece real. Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.
Foram os sessenta dias mais intensos e felizes da minha vida. Pensar que estava com dúvidas: se ia, se não ia, se ia um mês, ou se ia dois. Despedi-me, decidi ir dois meses e ainda bem que o fiz. Decisões acertadas.
No dia em que cheguei, cansada de autocarros, comboios e aviões, bastou-me o primeiro mar de abraços, para revitalizar corpo e mente. Vinham a correr na minha direcção, de braços abertos, com um sorriso tão grande que parecia transbordar.
As crianças abraçam-nos de uma forma que as palavras não conseguem fazer justiça. Enchem-nos de beijos, de risos, de lições de vida e histórias para contar. Partilham o pouco que têm (com a maior das naturalidades), aceitam a diferença e ao contrário de nós, não julgam. Aprendi todos os dias com eles. Mais do que eles poderão ter aprendido comigo.
Muitos não sabem ler nem escrever, falam em criolo e recusam-se a aprender português. Pequenas vitórias como conseguir captar a atenção do Mauro durante uma hora (mil beijos e abraços pelo meio), que o José escrevesse o nome dele sem copiar, ou que o Ravidson soubesse dez palavras começadas pela letra “M”. Mas, mais que a minha felicidade por tais vitórias, a deles a cada “mais cinco” que lhes dava, a cada certo e a cada “isso mesmo!”.
Explorei as ruelas todas, disse bom dia, boa tarde e boa noite a toda a gente. Distribuí sorrisos às senhoras que viam a vida passar pela janela e aos senhores que deixavam que o sol lhes aquecesse a alma, no banco por eles improvisado. Conheci os cantos e os recantos. A mercearia com o melhor pão, o sapateiro no virar da esquina, a costureira ao fundo da rua, como quem vai para Chã de Marinha. Vivi ao máximo, cada momento e cada pessoa. Senti-me da Ribeira da Craquinha, senti-me de São Vicente. Senti-me em casa.
Quando fui, sabia pouco sobre Cabo Verde, mas do que me diziam, era conhecido pela arte de saber receber. Realmente, as gentes desta Terra, têm o dom da amabilidade. “Morabeza”, dizem. Quantas vezes fui surpreendida pela gentileza das pessoas? Vivemos tão focados em nós próprios que nos esquecemos do mundo à nossa volta.

Foi uma aprendizagem constante. Desde o ser mais tolerante e flexível, ao poupar água, ao Criolo, aos passos de funaná, ao partilhar, ao viver o momento, aproveitar a vida e ser feliz com o que se tem. Não esquecendo o “no stress” característico.

Façam voluntariado, distribuam sorrisos e amor, dêem abraços e lembrem-se, não são os bens materiais que nos fazem felizes.

Estou cá, mas a minha vontade era estar lá.

A experiência da Mariana na Ilha da Boavista

Vários meses passaram desde o dia em que aterrei na Ilha da Boavista.

Lembro-me de estar tão nervosa antes de ir, de tentar fazer o máximo para me sentir o mais bem preparada possível para aquela experiência, mas nada parecia suficiente… Entrei no avião cheia de dúvidas, medos e o pensamento de: “Em que raio me fui eu meter?”. Nunca na vida tinha feito nada assim e estava mesmo muito assustada.

Mal saí do avião e senti o calor da ilha e de todas aquelas pessoas incríveis foi como se todas as minhas dúvidas se dissipassem e de repente, senti-me calma e segura. Esta sensação só aumentou com a receção fantástica das pessoas, principalmente dos nossos pequenotes no jardim, diariamente.

A primeira visita ao Bairro da Boa Esperança (ou como lhe chamam na ilha, a Barraca) chocou-me. Como se diz: “A realidade supera a ficção” e foi como um soco no estômago perceber que há pessoas a viverem naquelas condições, que sítios assim existem mesmo, que não é só nos filmes. Quando se vê de perto dói mesmo muito e nada nos prepara para isso. Mas, o mais surpreendente foi que essas mesmas pessoas nos cumprimentavam com os maiores sorrisos do mundo, que todas as manhãs as crianças chegavam com uma alegria do tamanho do mundo e  gargalhadas a combinar com ela. Tudo isto no meio daquelas condições miseráveis.

Trabalhar com aqueles miúdos foi incrível, muito cansativo, mas muito gratificante. Aqueles pequenotes elétricos conseguiam deixar-nos com os cabelos em pé ao não estarem cinco minutos concentrados para, de seguida, nos deixarem com o coração derretido e de sorriso comovido com os seus pequenos, grandes atos generosos e brincalhões.

Apesar de tudo, a vida no bairro não é nada fácil mesmo, para além das condições miseráveis, os vícios e os perigos espreitam por todo o lado (o álcool, as drogas, a prostituição e a violência doméstica). Os próximos anos não vão ser nada fáceis para os nossos pequenotes e eu só espero conseguir ajudar, nem que seja um pouquinho, para que eles tenham um futuro melhor e para que a vida se endireite para eles. Eles merecem tudo de bom, merecem o mundo inteiro, mas infelizmente não têm quase nada.

Que continuem com essas risadas e alegria, nós vamos estar atentos e tentar fazer o máximo para ajudar a melhorar a situação. Vários meses passaram desde o dia em que eu aterrei da ilha da Boavista, mas eu não vos esqueço, juro.

A experiência da Marisa na Tailândia

Quando decidi que a minha vida não tomaria o rumo normal daquilo a que estou habituada a ver em meu redor, resolvi que teria de sair da minha zono de conforto. Fiz uma pesquisa exaustiva sobre voluntariado e campos de voluntariado e tomei outra importante decisão: escolhi ver aquilo que de bom as pessoas têm para dar, escolhi ver os sorrisos, ver as cores do mundo. Por isso, escolhi voluntariar-me para o Had Samran Workshop and Music Festival.

A chegada à Tailândia foi uma agradável surpresa. Fui para a Tailândia sem expectativas em relação ao que poderia encontrar. Fui apenas de mente e coração abertos para que pudesse absorver o máximo que os lugares e as pessoas tinham para oferecer. Assumi uma posição neutra, de não esperar nada, apenas receber aquilo que me estivesse destinado. Este plano de viagem ajudou-me imenso na adaptação ao novo contexto. Porque quando nada esperamos, quando apenas vivemos o presente e conseguimos apreciar, no momento, aquilo que nos rodeia, torna-se tudo mais fácil.

Estamos tão habituados ao quotidiano frenético e metódico, que nos esquecemos de sentir a calma que nos rodeia. Esquecemo-nos de apreciar as cores, os cheiros, as formas, as texturas. Aqui, no nosso país, a maioria de nós não está desperto para o essencial. Não sabemos como apreciá-lo, como reagir perante aquilo que realmente importa. Na verdade, estamos tão focados no trabalho, nas discussões, no futebol, na política, que nem sabemos o que é importante. Na Tailândia eu consegui sentir o essencial, e contrariamente ao que diz o Principezinho, ele pode ser visível aos olhos. Foi precisamente no primeiro dia no campo de voluntariado, ao pôr-do-sol na praia, quando observava um grupo de crianças e adultos a correr na areia, com sorrisos e gargalhadas contagiantes que percebi que é aquilo e só aquilo que realmente importa.

Foi o 2º ano que este festival foi organizado. Esta ideia nasceu da vontade de alguns locais em levar dinamismo aquela comunidade, de levar mais jovens para Had Samran, uma vez que é uma região tão rica em recursos, mas que os jovens estão a abandonar para viver nas grandes cidades. À semelhança daquilo que acontece no nosso país quando a população jovem abandona o interior para morar nas grandes metrópoles em busca de uma vida melhor.

Os voluntários chegaram de todo o mundo (Brasil, Portugal, Mongólia, França, Austrália, EUA, Tailândia), de mochila às costas, sorriso no rosto e energia radiante. Cada um dos voluntários teve algo a dar a este festival. Entre todos, surgiram ideias maravilhosas no que respeita à decoração do espaço e à organização de workshops. Fomos nós, voluntários, que organizamos as actividades e workshops. Todos contribuíram com aquilo que sabiam para trazer algo de diferente e dinâmico. O workshop que eu organizei foi mais voltado para as crianças. Resolvi pegar em elementos que facilmente estão disponíveis como as conchas que apanhei na praia e folhas das árvores para que as pessoas pudessem usar a sua imaginação e fazer colagens. Tivemos muita adesão e todo o processo foi surpreendente. O resultado final foi maravilhoso.

Para além do workshop, ajudei em tudo aquilo que pude, fazia de tudo um pouco, deste cortar bambu para as decorações, a ajudar na cozinha. Achei surpreendente fazer uma imagem de Poseidon, rei dos mares, com talvez uns 5/6 metros de altura, apenas com bambu na sua estrutura. O resultado final foi grandioso e tornou-se numa das principais atrações do festival. Mas eu acabei por me apaixonar pela cozinha, aprendi a cozinhar comida Tailandesa com um cozinheiro de seu nome P Yu, que depositava amor em todos os seus pratos, e isso para mim foi uma aprendizagem que irá ficar no meu coração por toda a minha vida.

Noutras partes da Tailândia as coisas podem funcionar de forma diferente, mas aquilo que eu vivi no seio desta comunidade foi algo completamente diferente daquele conforto a que estamos habituados no nosso país. Aqui os sapatos não entram dentro das casas, não existem chuveiros sofisticados a que estamos acostumados. Enchemos uma taça com água que tiramos de uma pia e tomamos banho assim. Aqui, apesar de haver mesas e cadeiras, podemos por vezes comer no chão e seja qual for a comida, dispomos apenas de uma colher, não há grafos nem facas. A cozinha foi feita de improviso na rua, e não foi apenas por ser algo temporário para os voluntários porque, ao lado, onde viviam as famílias da comunidade, também eles tinham lavavam a loiça na rua em alguidares.

Mas nada disto importa, porque aqui há pés descalços e sorrisos rasgados. Há corridas na praia e gargalhadas ao pôr-do-sol. Aqui, a forma como tomamos banho não importa, que há amor que paira no ar. Aqui não se limpa o chão, porque o chão faz-nos sentir seguros e a sua energia não pode ser quebrada por lixivia. Aqui as aranhas e as suas teias podem estar por toda a casa, porque o que importa realmente é estar conectado com a natureza e aceitar tudo o que dela vem. Tudo o que importa está dentro de nós. Tudo o que é importante vem da energia do mar, do céu, das árvores. Tudo aquilo que é verdadeiro vem da energia dos sorrisos, dos gestos, dos olhares.

É incrível o que pode mudar dentro de nós em tão pouco tempo. É incrível a adaptação do ser humano a novos contextos. Os dias passaram tão rápido mas aconteceu tanta coisa, mas tanta coisa que todos os momentos foram vividos tão intensamente que os tenho gravados na minha memória e tatuados sob a minha pele. Consigo voltar a sentir tudo intensamente, só de recordar. Todas as palavras do mundo não chegariam para descrever a intensidade das emoções e sentimentos a fervilhar no meu coração.

Trago comigo um pedacinho de todas as pessoas que conheci. Estas pessoas mudaram a minha vida. Sinto-me uma felizarda por ter usufruído desta experiência, por ter feito parte de uma evento com um sentido grandioso, não só de diversão mas com um propósito por trás que apela a uma união interior, que só se sente quando vivemos em comunidade e partilhamos objectivos comuns.

A vivência na Tailândia foi maravilhosa, repleta de magia, paz e um bem-estar interior que muito dificilmente voltarei a encontrar. A Tailândia mostrou-me que, pensamento positivo, sorriso no rosto, paz no coração e sentir intensamente tudo o que nos rodeia é o que basta para sermos felizes. Para ficarmos curados de tudo aquilo que bloqueia a nossa energia. Vou voltar com toda a certeza!

A experiência do voluntariado internacional, onde tudo é diferente e fora da nossa zona de conforto, faz-nos crescer, amadurecer… Torna-nos mais fortes, mais sábios… Inspirem-se, sonhem, e vão sem medos!

Obrigada Para Onde!

Marisa Ramalho

A experiência da Ana na Indonésia

Porquê a Indonésia? Era o que todos me perguntavam… e eu só respondia: porque não? Ainda hoje não consigo identificar ao certo o que me impulsionou a escolher a Indonésia e o projeto de Borobudur, mas assim que lá cheguei, tive a certeza que era ali que tinha que estar!

A maior aventura foi, sem dúvida, a viagem! 5 aeroportos, 4 aviões e quase 30 horas depois, chegava a Semarang…ainda me faltavam mais 3h de autocarro para chegar ao campo de voluntariado, mas tudo valeu a pena! Cheguei a Karanganyar… uma pequena aldeia, um paraíso verde, rodeado de montanhas, vulcões, muitos campos de arroz e pertinho do Templo de Borobudur.

Cheguei de “mente aberta” e pronta para tudo…ou pelo menos achava que sim! Fui muito bem recebida pela família de acolhimento e pelos meus colegas voluntários. O resto, é um processo de adaptação natural…dormir no chão, comer no chão, cozinhar no chão, nada disto é fácil para nós… mas é assim que eles vivem, vamos lá viver como eles!

A partir daqui, foi a “rendição absoluta” … quem consegue resistir a estes sorrisos? As pessoas são adoráveis, super acolhedoras, enchem-nos de comida e chá e adoram os estrangeiros…quando falam connosco encontram sempre uma oportunidade para aprenderem algo de novo. E as crianças? Bem, autênticos doces!!! E sempre dispostos aprender tudo o que tiver ao alcance deles.

Nesta pequena aldeia, encontrei o verdadeiro espirito comunitário, uma vez que toda a comunidade está unida em prol do mesmo objetivo. Não são coitadinhos nenhuns, não! São um povo trabalhador, disciplinado e muito ligado à sua religião. São uma comunidade maioritariamente muçulmana e muito dedicada às suas responsabilidades religiosas, mas sempre curiosos em relação às outras religiões…esta foi para mim uma das grandes lições! Os muçulmanos não são terroristas nem fomentam a violência, pelo contrário, são dos povos mais tolerantes e pacíficos que conheci até hoje.

As atividades que desenvolvi foram muito diversificadas: fomos a várias escolas ensinar inglês; sensibilizar para as questões ambientais (uso excessivo do plástico); ensinar a lavar corretamente as mãos; ajudámos os agricultores; ajudámos num festival de crianças e ainda tive oportunidade de aprender os costumes locais, como por exemplo o artesanato de barro; o batik (pintar o tecido); o gamelão (instrumentos típicos indonésios). Ainda tive oportunidade de visitar o templo de Borobudur, onde tive o privilégio de assistir ao deslumbrante nascer do sol.

 

Tudo isto em 14 dias, muito quentes e intensos! Claro que o momento das despedidas, não é fácil. Eu não gosto de despedidas, nunca gostei! Esta foi bem difícil… com o coração apertadinho, mas com um grande sorriso no rosto porque estas crianças de Karanganyar mereciam tudo!

Esta foi, sem dúvida, a experiência que procurava! Voltei de coração a transbordar de emoção, carinho e afetos… e cheia de vontade de regressar àquele pequeno paraíso!

Posso afirmar com toda a convicção: hoje sou uma melhor pessoa! Devido, em grande parte, à experiência que vivi na Indonésia!

TERIMA KASIH  / OBRIGADA :)

 

A experiência da Rita em Cabo Verde

Para Onde?

Não sei, não fazia a mínima ideia. Queria fazer voluntariado, voluntariado fora de Portugal. A única regra que me impus era a língua. A língua mãe teria de ser o Português, ou parecido. Não fazia ideia do que era fazer voluntariado internacional, ainda mais com um dialecto totalmente diferente.

Eu escolhi Cabo Verde, e elas aceitaram-me na Ilha da Boavista. Se não foi a melhor escolha que já fiz na vida, de certeza que uma das melhores foi.

Cheia de medo e bastante nervosa, ansiosa e com coragem, uma enorme vontade de chorar, mas só me apetecia rir. Lutares por um sonho e chega um dia, e consegues. MEU DEUS.

Chegas à Barraca! Ao Bairro da Boa Esperança, só o nome acaba por falar um bocadinho por si. O chão é de terra batida, as casas são “ casas di tijolo”, os tetos são em chapas e lonas para proteger um bocadinho, as ruas entre as casas são apertadas. Ao lado da Barraca existe um outro bairro com ótimas condições. Prédios de três andares, pintados, com bidons de água em ótimas condições. Podiam olhar para aqueles prédios, e criarem um sentimento de revolta e tristeza, e no entanto a felicidade é quem vive naquelas “Barracas”.

Todos de chamam de “TIA”, todos te cumprimentam, todos te acolhem, todos te dão o que têm e o que não têm. Foi Incrível!

Cada criança que conheci dentro daquela creche tem a sua história, tem a sua vida e nunca ouvi nenhuma a queixar-se ou a lamentar por falta de alguma coisa. A forma como elas olham para a vida é fascinante. No entanto, ainda houve umas quantas vezes que a sensação que tinha era que me estavam a cortar as pernas. Queria andar para a frente, queria um final feliz para determinada situação, mas devido à cultura, não dá. Acabas por te adaptares. Tive muitas vezes vergonha de ser um “ser humano”. Turistas que entram na creche e só te observam, que só observam os miúdos, tiram algumas fotos para publicar nas redes sociais, e está feito. Não existe contacto, não existe conversa e pouco ou nada de sorrisos. Senti-me um “animal num jardim zoológico”, onde ninguém te toca, mas todos tem curiosidade em ver.

Aprendi, e cresci… cresci mesmo. A ideia de que vamos “ ensinar” ou que vamos “mostrar” algo novo saiu-me completamente ao lado. Na verdade foram eles. Foram eles que me ensinaram, e que me mostraram que existe muito mais para além daquilo que os olhos vêem, existe felicidade num país pobre e com muita miséria.

Tudo foi uma aprendizagem, tudo foi uma conquista.

Se um dia quero voltar? Quero, claro que quero voltar. Quero saber o futuro e o caminho que  eles escolheram.

Encontrei uma família, uma família que me escolheu a mim e às minhas companheiras.

Se queres mesmo fazer voluntariado, se queres mesmo ajudar… Faz voluntariado! Mesmo que não seja na ilha da Boavista, faz e nunca desistas.

A experiência da Ângela em Cabo Verde

Ajudar os outros é a motivação fundamental para fazer voluntariado. O voluntariado que fiz em Cabo Verde (no Mindelo, Ilha de São Vicente) fortaleceu-me, reforcei relações sociais, adquiri experiências novas, ultrapassei dificuldades, atingi objectivos e partilhei o meu tempo com quem precisava.

Venho com o coração e a alma cheios de emoções, carinho, amigos e partilha. Fazer voluntariado dá um bem estar quer físico quer emocional, por isso QUERO CONTINUAR a ajudar quem precisa do meu tempo.

Obrigada Para Onde!

A experiência da Mariana em S. Tomé

Tudo começou com um sonho de criança. Há muito que sabia que em determinada altura da minha vida iria chegar o momento em que teria de ir para África ajudar alguém. Esse momento chegou exatamente depois de ter deixado o Agrupamento de Escuteiros – 844 – do qual fiz parte durante doze anos. Senti que precisava de encontrar um rumo e que esse rumo passaria por contribuir positivamente na vida de alguém. Por outro lado, acreditava que precisava de um ‘choque’ com outra realidade. Basicamente, sair da minha zona de conforto. Foi aqui que entrou São Tomé. E porquê São Tomé? Ainda hoje não sei explicar ao certo. Sim é uma ilha linda e apaixonante em muitos sentidos, mas mais do que isso, eu sentia que era para lá que teria de ir.

Sabem aquela típica frase, que surge sempre que alguém se mete em aventuras de voluntariado ou a viajar sozinho, e diz que “recebemos mais do que damos”? É cliché, mas é mesmo isto. Imaginam do tamanho em que coração pode ficar quando um menino vos oferece um desenho em que agradece o que fazem por ele e pelos outros meninos da instituição? E o único pensamento que nos ocorre é “fiz assim tanto?!” ou “o que é que fiz realmente?”. É muito gratificante e enche-nos o coração de facto. O que para nós pode ser tão pouco, para eles é tanto… dá que pensar.

Trago várias histórias gravadas, mas uma das que mais me tocou, foi quando num dia de manhã estava a ajudar os meninos a fazer os trabalhos de casa e um deles me perguntou se eu sabia falar e escrever inglês. Este menino é o Cleizy. Ele soube que eu tinha estado nos E.U.A. antes de ir para a ARCAR em São Tomé e apesar de não ter revelado tudo no momento, o Cleizy viu-me como uma oportunidade para atingir o seu sonho.

Tirei-lhe esta fotografia nesse mesmo dia, à tarde, quando regressava da escola e foi o mote perfeito para mais de uma hora de conversa que se seguiu. Como grande parte dos meninos, o Cleizy tem um sonho. O sonho do Cleizy é vir a estudar nos E.U.A onde partilhará quarto com o seu melhor amigo e colega de turma, mas para isso ele tem de estudar muito para conseguir receber uma bolsa de estudo, e o mais difícil para ele: aprender inglês. Pediu-me que o ajudasse a decorar os verbos irregulares. Soube logo que a gramática de Inglês que tinha ainda guardada na mala já tinha um novo dono. Dizer-lhe que sim seria um desafio daqueles, porque tinha cerca de 2 semanas e meia, os meninos tinham testes e trabalhos para entregar e precisavam da nossa ajuda, e eramos duas voluntárias para dar atenção a quarenta e sete meninos com idades entre os 4 e os 17 anos.

Não quis desiludi-lo e prometi que o ajudava. Um dia quando estávamos a estudar, apercebi-me que a gramática que ele já tinha e por onde estudava, porque já conhecia e achava mais fácil, embora complementasse com a que lhe ofereci, estava completamente desatualizada, tinha a data de 1921 e praticamente todas as páginas tinham erros, tanto de português como de Inglês. Com o passar do tempo temi cada vez mais não conseguir cumprir com o prometido e sentia-me responsável. Comecei a minha pesquisa e entreguei-lhe uma folha com links de vídeos que ajudam a estudar os verbos irregulares e a gramática inglesa. Não conseguindo cumprir com o prometido, quis deixá-lo orientado para que pudesse prosseguir os estudos mesmo sem eu lá estar. Antes de vir embora entreguei-lhe a gramática (muito mais completa) oferecida pela minha mãe e que chegou a São Tomé através das voluntárias de Março, com quem ainda estivemos. Foi comovente, ele agradeceu mas nem precisava porque os olhos e o abraço dele disseram tudo mesmo antes de ele ter dito uma única palavra.

Foi incrível perceber como os meninos nos veem consoante a idade que têm. Para os mais pequeninos até cerca dos 8 anos, somos sinónimo de brincadeira e mimo (até nos ficarem a doer os braços por estarem sempre agarradinhos, bem coladinhos). Para os meninos com idade intermédia, até cerca dos 14/15 anos, somos uma espécie de modelo e procuram-nos muito para conversar sobre o mundo – o nosso, o deles e o que sobra disso – e para nos falar sobre os seus sonhos. Já com os mais velhos, com idade até aos 17 anos, passa-se mais ou menos o mesmo que com os meninos em idade intermédia, embora nos procurem muito menos por já estarem muito focados no futuro e nos estudos, uma vez que alguns já sabem o que querem.

Nunca pensem neles como “coitadinhos” por não terem acesso a tudo como nós temos (de forma exagerada e por vezes até prejudicial). Quem nos dera a nós termos a capacidade de ser todos os dias tão felizes quanto eles, a viver uma vida muito mais simples sem ter de recorrer ao que é supérfluo para nos sentirmos melhor. São crianças extremamente desenrascadas e autónomas, mas o que mais impressiona é a pureza que transmitem e que infelizmente não é fácil encontrar.

Todos os dias sinto saudades: dos meninos, das amizades, das paisagens e até do leve-leve, que confesso ter-me feito alguma confusão de início.

É só entrar no espírito e viver como eles para sermos igualmente felizes e nascer o bichinho que diz “preciso de voltar”.

A experiência do Luís na Ilha da Boavista

Nha Bubista

As ruas de terra e areia batida separam as casas de cimento e chapa que se prolongam por muitos metros. São casas sem quaisquer condições de habitabilidade, segurança e higiene, onde os odores se misturam com a música que toca nos pequenos rádios dos milhares de habitantes daquele que é um dos mais perigosos e pobres bairros de Cabo Verde.

Estávamos em Novembro quando decido partir rumo à ilha da Boavista, para um projeto de voluntariado internacional num jardim infantil. São cerca de 150, as crianças, dos 2 aos 5 anos, que, diariamente, se deslocam para o Jardim “O Xururuca” para passarem os seus dias distraídos das dificuldades que atormentam os mais velhos. Enquanto os pais trabalharam nos resorts e no mar, as crianças brincam e aprendem a ler e a pintar.

Vim para dar um pouco de mim e acabo por ganhar mais do que aquilo ofereço! Sei que esta é mais uma daquelas expressões que lemos nas redes sociais dos voluntários que descrevem as suas experiências, mas eu vou ter que repeti-la. Com esta experiência e com as crianças que fui lidando todos os dias, durante os dois meses que estive em terra de morabeza, aprendi o verdadeiro sentido da humildade, da partilha, da amizade e da felicidade.

Os sorrisos e as gargalhadas, os abraços e os beijos daquelas crianças são o retrato e a imagem de Cabo Verde que transporto comigo para todo o lado. No meio da pobreza e da miséria, o sorriso prevalecia sempre. Em cada um dos pequenos rostos que diariamente se cruzavam comigo eu via um guerreiro, uma guerreira, lutadores desde o dia em que nasceram, sujeitos a condições inimagináveis e inexplicáveis.

Vi fome e sede, mas também vi coragem e valentia. Sei que em dois meses não consegui mudar o mundo, não o consegui tornar mais justo e tolerante, mas tenho a certeza que, tal como estas crianças mudaram a minha vida eu também ajudei que elas tivessem dois meses muito diferentes.

Sozinho não consigo tornar o mundo um melhor sítio, mas se te juntares a mim e deres o teu máximo já seremos mais a lutar pela igualdade e tolerância. Não deixes para os outros o que tu podes também fazer! Arrisca!

A experiência da Bia e do Afonso no Tarrafal

Antes de mais, gostaríamos de realçar que para nós, Bia e Afonso a experiência de voluntariado foi diferente do que muitos perspetivam, incluindo para nós mesmos numa fase inicial. Frequentemente, o voluntariado é associado a situações e contextos de pobreza e falta de condições sociais, económicas e políticas. Claro que tudo isto está presente na maioria dos casos, incluindo no Tarrafal, onde estivemos dois meses.

Por forma a adaptarmo-nos ao que a associação (Delta Cultura) investe todos os dias e depois de indentificarmos as principais necessidades – nas quais seria possível atuar e deixar uma “marca” – no período em que iamos estar em Cabo Verde, podemos concluir que o nosso foco principal não foi combater essas fragilidades, mas sim, contribuir para a educação formal e informal das crianças e adolescentes com quem tivemos contacto.

A Delta Cultura é uma associação que promove a educação de crianças e adolescentes de uma forma não tradicional, que parte de pressupostos assentes na liberdade e criatividade pessoais, em que os fundamentos principais se baseiam numa ideologia em que as crianças e o jovens devem, desde cedo, ser motivados e responsabilizados pelas decisões que tomam e pelo rumo que pretendem dar à sua vida. Como tal, desde o primeiro dia, os voluntários são criteriosamente direcionados para abraçar tais ideologias e atuar nesse sentido. No que toca ao funcionamento da instituição e dado que a escolaridade é obrigatória, as crianças frequentam a instuituição mediante os seus horários escolares, ou seja, as que têm aulas da parte da manhã frequentam a DC da parte da tarde e vice-versa, o que resulta numa orientação cuidada dos procedimentos para dois grupos distintos.

A DC está dividida em diversos espaços e salas, cada um direcionado a determinadas atividades; conta com salas de música, artes, informática, de estudos, línguas e ainda com uma zona livre (o recreio), um campo de futebol patrocinado pela FIFA na campanha Futebol para o Desenvolvimento Social (Football for Hope Center). No nosso
ponto de vista, no que diz respeito às condições oferecidas, a DC é um espaço que não carece de recursos necessários ao desenvolvimento das mais variadas atividades.

Assim sendo tivemos sempre muita liberdade para desenvolver atividades, só precisámos de proatividade, criatidade e motivação! A forma como toda a família Delta Cultura nos deixou à vontade para atuarmos, de acordo com o que cada um trazia de melhor para oferecer, ajudou imenso a aproveitarmos ao máximo o tempo de voluntariado. Dedicámos especial atenção à Sala de Estudos, pois identificámos que o contacto com a língua portuguesa e o aprumo escolar eram insuficientes e precisavam de um apoio constante que não existiria de outra forma.

Demos aulas de português, fizemos jogos educativos onde o intuito era frisar a importância dos sentimentos e da cooperação, desenvolvemos atividades em grupo para dar a entender que uma conduta correta é o caminho para o futuro, apoiámos diversos projetos desenvolvidos na sala de artes, fizemos palestras ajustadas ao contexto das crianças sobre as nossas experiências pessoais e as nossas profissões e também sobre igualdade de género que era o tema do mês na associação, organizámos torneios de futebol, e cooperámos nas aulas de música. Ainda assim, podemos dizer que demos pouco comparativamente ao que recebemos e ao que nos ensinaram!

Relativamente à experiência na DC o balanço é, sem quaisquer dúvidas, fenomenal! Desde logo que a recetividade foi espantosa, mais do que esperado até. No momento da chegada é avassalador o carinho, a atenção, todos os colos, os abraços, a alegria, a ingenuidade, os sorrisos desdentados recebidos pelas crianças, sendo nós apenas mais uns voluntários que ainda nem tínhamos dado nada e já tínhamos recebido tanto! Pensamos que tudo isto terá sido fruto de todos os resultados positivos que voluntários, que lá estiveram em momentos anteriores, atingiram e claro, também, pela deficiência de afeto que estas crianças têm em casa, na escola e no seu dia-a- dia.

As crianças da DC aprenderam que nós (voluntários) somos recursos humanos que elas têm a seu dispôr, não só para lhes perspetivarmos formas de uma educação mais sólidas, que estão na base das nossas experiências vividas do sítio de onde viemos, como também de lhes retribuirmos todos estes afetos. Isto foi um excelente ponto de partida para nós, que facilitou muito a nossa integração na associação e no estabelecimento rápido de uma relação sólida com as crianças. Ficou assim provado que trazer experiências e culturas diferentes (voluntários), em específico para associações como esta, faz todo o sentido e só se traduz em ganhos para os dois lados – para quem vai e para quem está.

Daí em diante, tudo se desenrolou com uma familiar naturalidade, como se ali pertencêssemos e tivéssemos formado uma grande família, que ansiávamos ver todas as manhãs e todas tardes. Conseguimos, através da relação que estabelecemos com as diferentes crianças contrabalançar quase na perfeição, não só os momentos tão desejados em que reinava a diversão e a brincadeira, como também os tão importantes e necessários momentos lúdicos e educativos. Com uma crescente confiança mútua, conseguia eficazmente distinguir-se e ter a noção de que existiam momentos para tudo e, que era possível realizar tudo aquilo a que nos comprometêssemos.

Dos aspetos mais incríveis foi observar como as crianças eram flexíveis e moldáveis, o que fez com que todos os dias sem excepção sentíssemos que tudo aquilo que tínhamos para lhes proporcionar era importante e realmente significativo. O prazer de acompanhar o dia-a- dia de uma criança numa fase de desenvolvimento tão evidente é
incalculável e nunca, de forma alguma, nos sentimos “inúteis”, pois aquelas crianças eram de facto corações abertos e recetivos à nossa pessoa e aos nossos sentimentos.

Na nossa opinião e, remetendo para o início deste testemunho as condições de vida destas crianças não são o que mais “salta à vista” ou o que realmente foi prioritário na nossa ação, porque elas são de facto, crianças normais, como em qualquer outra parte do mundo, provavelmente têm prioridades diferentes porque estão adaptadas ao estilo de vida que levam. Aprendemos que a sua ingenuidade boa e em estado puro é que possibilita o desenvolvimento de um trabalho completo e positivo, porque no final de contas aquele é o ambiente delas, é a “terra” delas e, ainda que para nós seja diferente, temos de abraçar essa assimilaridade que nos distancia e que de certa forma, pode aliciar ao preconceito.

Aprendemos que quem vai tem inevitavelmente que deixar apaixonar-se pela cultura e pelo modo de estar das crianças e de toda comunidade e percebemos que o que realmente importa é a interação das duas partes em que cada uma dá e recebe. Fomentando o “cliché” nós acabamos por receber muito mais do que damos e do que imaginamos alguma vez ser possível antes de partirmos numa aventura como esta.

Ao fim ao cabo, juntamente com todo o amor que recebemos que é totalmente inesquecível, deixámo-nos aliciar pela Morabezza, pelo calor, pelo oceano, pelas mornas, pelos sabores, pelos cheiros, pelas paisagens que ajudam e contribuem para um gosto inestimável pelo trabalho que foi desenvolvido ao longo destes dois meses, que nunca nos sairão da memória e que se traduziram, sem dúvida, numa das melhores experiências das nossas vidas.

Mais que um testemunho, uma vivência repleta de memórias, que custam deixar para trás, mas que levaremos sempre junto ao nosso coração. No momento da despedida, as lágrimas teimam em escorrer pelas caras abaixo – nas nossas e nas das crianças – mas a alma vai quente e preenchida para sempre!