A experiência da Catarina no Quénia

Não foi fácil o primeiro impacto. Tudo era diferente do que conhecia até então: os cheiros, as ruas, as estradas, os edifícios, a temperatura, a forma como as pessoas se vestiam, o modo de comunicação entre as mesmas, a agitação da cidade. Era tudo tão diferente. A informação que recebi quando cheguei a Nairobi foi tanta que me limitei a seguir o director do projecto até ao autocarro que nos iria levar para o próximo destino, sem conseguir emitir uma única palavra. No caminho, fui observando os mercados à beira da estrada, as vacas a pastar, as crianças a ajudarem os pais no transporte de cargas, os cães deitados a apanharem sol e aquelas árvores magníficas que se erguiam no solo que, até então, só tinha visto nos documentários do National Geographic.

À medida que avançávamos em direcção ao sul, a densidade populacional ia diminuindo progressivamente até ter chegado a um sítio calmo e tranquilo que me aqueceu a alma – Kiburanga. Fui recebida pela minha “família temporária” e por algumas crianças e mulheres da comunidade que me deram as boas vindas recheadas de sorrisos curiosos, abraços envergonhados e danças felizes ao som do bater de um pau num simples balde com um ritmo estonteante que caracteriza aquele povo.

Depois de ter almoçado o maravilhoso arroz com feijão, cozinhado pela matriarca da família, MamaDeo, levaram-me a conhecer a escola construída através do projecto em vigor na comunidade – Kiburanga Woman – era uma escola simples, com o essencial para garantir o conforto dos seus alunos e professores (voluntários) e que acolhia também uma série de outros membros no seu amplo espaço exterior que, durante o dia, se juntavam para discutir assuntos em comum, jogar à bola, brincar às escondidas, fazer colares e pulseiras e uma série de outras atividades.

Na escola da comunidade tive o privilégio, juntamente com toda a equipa (composta pelo diretor Mike, pelo professor voluntário Silvestre, pela voluntária Marina e por um outro voluntário local Matiko) de participar em atividades de sensibilização sobre três dos principais temas que ali me levavam – Mutilação Genital Feminina, Nutrição Infantil e Higiene (como devem imaginar, foi extremamente interessante e enriquecedor o confronto entre a teoria que conhecemos e a cultura local :))

Foram várias as atividades desenvolvidas na área da saúde, desde visitas às famílias da comunidade com o objectivo de conhecer as diversas necessidades de cada uma, realização de jogos didácticos, à execução de uma “clínica móvel”.

Os tempos livres eram preenchidos com muita música, dança, alegria, boa energia e com os deliciosos abraços e miminhos com que os pequenos nos brindavam a toda a hora.

Devido ao elevado número de crianças órfãs, decidimos complementar o projecto – Kiburanga Woman – com a construção de um orfanato que se encontra neste momento em processo de conclusão.

Agradeço muito ao Para Onde? por todo o apoio extraordinário, desde o momento em que enviei a minha candidatura até ao momento que regressei a Portugal e por me ter ajudado a concretizar este sonho. Obrigada Inês e Marta por serem as pessoas excepcionais que são!! Agradeço também, muito, a toda a família que me acolheu em Kiburanga e que aqueceu o meu coração.

O essencial é invisível aos olhos”…pela primeira vez tive perante condições de conforto mínimas e senti o meu coração mais preenchido do que nunca. Uma felicidade crua e pura como nunca tinha sentido na minha vida – por mais que tente, nunca conseguirei pôr por palavras a quantidade de amor que senti.

– Não há dia que não me lembre daqueles olhares doces e traquinas, daqueles abraços ternurentos, daquela terra mágica, da pureza daquele povo, das músicas alegres e daquele cheiro tão característico a terra molhada depois das chuvas – aconselho, mas só a quem tiver a coragem de se deixar sentir…de deixar um bocadinho de si em cada uma daquelas pessoas, em cada canto e recanto daquela terra, porque quando se vai, não se volta igual.

Muito obrigada:’)

A experiência da Rita em Moçambique

“Porque a felicidade só tem significado quando é partilhada”…

Recém-chegada a Portugal de uma das melhores e mais ricas experiências da minha vida e já cheia de saudades de tudo aquilo que vivi em Moçambique, deixo aqui um resumo da minha passagem por esse país mágico.

Não é por acaso que o projeto se chama Kutsaca. Na aldeia de Mahungo as pessoas vivem sem pressas e dizem “hei-de ir”, “hei-de fazer”. Quando dizes “Bom dia”, respondem-te com o melhor dos sorridos “Bom dia, Obrigado!”. As crianças brincam na rua e correm até ti em troca de um grande abraço. E na escola partilham tudo, são capazes de dividir a única bolacha que têm em 10 pedaçinhos para que todos os amigos provem. E os mais velhos, agradecem a nossa vinda ao seu país, dizendo “Estamos juntos” e face a qualquer obstáculo… “Não tem problema!”. Kutsaca significa “Estar Feliz” em changana, o dialecto local. Poderia ser em qualquer língua, pois aqui a felicidade é universal e aqui eu fui verdadeira e genuinamente feliz!

Na escolinha Kutsaca, juntamente com as voluntárias Mariana, Catarina e Diana, trabalhamos e auxiliamos as professoras locais – Júlia e Lolinha – com a sua turma de crianças dos 3 aos 5 anos. O principal objetivo é a promoção de habilidades pessoais e sociais destas crianças. A par deste grupo, foi recentemente construída uma nova escolinha que permitirá acompanhar as crianças dos 6 aos 9 anos, com atividades extracurriculares que apoiem o seu desenvolvimento.

Mesmo nos tempos mais livres, dada a sinergia, proatividade e bom trabalho de equipa que o nosso grupo de voluntárias criou, fizemos outros trabalhos em prol da escolinha e da comunidade. Desde criar o hino da escolinha, ajudar nas aulas de inglês da nossa voluntária Diana até às simples mas muito felizes tardes a pintar, dançar e cantar com as crianças que regularmente vinham ao nosso encontro.

Decidimos ainda dar continuidade ao programa Wasate (dedicado às mulheres da aldeia) e com a chegada da nossa médica e voluntária Carolina, pudemos também iniciar com a sensibilização de temas relacionados com a saúde e higiene. A par desta iniciativa, achámos importante fazer um exercício que permitisse promover a auto-estima destas mulheres e fazer com que tivessem um dia especialmente dedicado a elas – uma sessão fotográfica!

Resta-me agradecer ao Para Onde por me ter ajudado a concretizar um sonho desde há muito desejado; à Susana que fundou este magnifico projeto e às meninas que se voluntariaram comigo por tudo aquilo que vivemos nesta aldeia fantástica feita de pessoas maravilhosas!

Valeu totalmente a pena fazer parte deste projeto! Cheguei a Moçambique completamente sem expectativas e apenas de coração cheio. A partir daí foi uma aprendizagem incrível, onde sei que não mudei o mundo, mas espero ter contribuído para a mudança do mundo de alguém! O meu mudou de certeza, por isso kanimambo a todos!

A experiência da Carolina na Tailândia

É tempo de dizer adeus a este país tão maravilhoso: Tailândia! Aqui tive uma experiência que nunca me vou esquecer, que posso dizer uma das melhoras da minha vida. Sabia que tudo o que eu ia encontrar ia ser diferente do que estava habituada. A cultura, a língua, as condições e muito mais. Vi essa possibilidade como o maior desafio da minha vida e hoje consigo dizer que foi uma experiência verdadeiramente única, humana, desafiante, bonita e cheia de magia.

O projecto em que participei tinha como objectivo a organização de actividades lúdicas em inglês com crianças de várias escolas de duas ilhas: Koh Yao Yai e Koh Yao Noi. O desafio foi grande, pois era a primeira vez que ia dar aulas, numa língua que não era a minha e uma língua que também não era a deles. Foi nisso mesmo que senti uma das maiores dificuldades, sem dúvida uma barreira que encontrei logo nos primeiros dias.

No entanto são também esses obstáculos que tornam toda esta experiência mais excitante e enriquecedora! Ao nos depararmos com esta situação, a grande preocupação de toda equipa de voluntários, da nossa coordenadora e dos seus ajudantes, era o que poderíamos fazer para que essa barreira fosse ultrapassada e encontrar alguma forma de que a nossa missão fosse adiante com todas aquelas crianças que estavam ansiosas para estar ali connosco. O primeiro passo foi então fazer com que parássemos de ser ” seres estranhos” e criássemos alguma ligação com elas, fazendo jogos de “quebra-gelo”, jogos para sabermos os nomes de cada um e nos sentirmos todos mais unidos e descontraídos. O segundo passo foi planear diferentes tipos de aulas, com temas diferentes e inovadores, sempre com muitos jogos e dança à mistura! É sempre uma satisfação enorme quando é visível que o que estás a fazer está a contribuir, nem que seja um bocadinho, para o desenvolvimento de alguém, de uma escola, para que num futuro próximo estas crianças consigam comunicar de alguma forma com o mundo que as rodeia.

No entanto esta experiência foi muito para além do ensinar, foi também uma grande aprendizagem. Aprendi algumas palavras da língua tailandesa, sentindo uma satisfação enorme ver na cara de todas as pessoas quando pelo menos tentamos falar a língua deles. Que estamos aqui e nos importamos, somos estranhos, mas queremos viver a cultura deles, o máximo que podermos. Aprendi as suas tradições, o seu estilo de vida, no que acreditam, e até aprendi a cozinhar pratos típicos daquelas comunidades!! Aprendi também que há um mundo completamente diferente do que estamos habituados, uma realidade às vezes dura de ver, e que a vida daquelas crianças nem sempre é tão fácil como foi a nossa… Mas aprendi que com um sorriso na cara, com uma energia positiva tão grande, se pode ser tão feliz com tão pouco!

Um grande grande obrigada a toda a equipa de voluntários que foi fantástica e estou tão grata por vos ter conhecido a todos, acredito que vos levo comigo e que um dia nos iremos cruzar e tudo será tão especial como foi. Levo comigo a minha maravilhosa coordenadora, com uma energia tão boa que me ensinou mas também me ouviu. Levo também comigo todas aquelas crianças, os seus sorrisos, a sua gratidão, a sua bonita cultura, toda a comunidade e a sua bondade. Um especial obrigada ao Para onde? e à associação tailandesa que criou todo este projecto, que incentiva não só a educação alternativa, como a sensibilização para a mente voluntária e participação de toda a comunidade nas actividades e ainda o desenvolvimento da aprendizagem e intercâmbio multicultural. O lema que vai sempre ficar comigo “Living, Learning, Working Together”.

Definitivamente um país que levo comigo para toda a vida e uma experiência, que por mais pequena tenha sido a diferença que fiz, me encheu coração para sempre. O voluntariado é sem dúvida um acto que nos oferece paz e um sentimento de profunda felicidade. É gigante o que se recebe. Parece pequenino o que se deixa. Mas fica. Para sempre.

A experiência da Rita no Laos

Adoro escrever, ajuda-me a imortalizar cada momentozinho vivido nesta linda aventura, ao mesmo tempo que reflito sobre os mesmos. Estou no aeroporto de Pakse (sul de Laos), vou embarcar para Hanoi, onde me vou encontrar com amigos (e que saudades tenho de os abraçar, bolas!). Mas estar aqui sentada neste banco duro a escrever e a ouvir as senhoras lá fora a conversar (o aeroporto é mínimo) significa que a minha estadia em Laos chegou ao fim e está a custar-me muito ir embora, as lágrimas caem-me pelo rosto… Neste país realizei um sonho de miúda: fazer voluntariado com crianças e o facto de ter sido na Ásia parece mesmo obra do universo, por mais voltas que dê ao mundo, acabo sempre na Ásia, a energia asiática tem em mim um efeito íman.

Tenho 31 anos e a minha vida nos últimos meses deu uma volta de tal forma que fui “forçada” a agir e tomar decisões em total concordância com o que sinto e não com aquilo que a minha cabeça ou “envolvência” dizem que devo sentir. Só encontramos aquilo que realmente procuramos com o coração – e não me enganei.

Aproveitando o facto de ir de férias para a Indonésia, senti que queria ficar mais tempo na Ásia (obrigada Joana Sabido pelo empurrão e Score Consulting pela licença sem vencimento). Falei com a “Para Onde” e tinham um projeto em Laos nas datas que eu queria: BINGO!

Não vou mentir, apesar de saber que queria muito isto, tive medo, mas fui com medo. É como saltar de uma rocha, no início dá aquele frio na barriga mas depois SABE TÃO BEM!!

Comecei a vacilar quando tive de preencher formulários e escrever carta de motivação: “Quais são os teus skills? Como achas que podes ajudar? Porque optaste por este projeto? O que te motiva a fazer voluntariado?”
O que me motiva é fácil, mas de que forma é que posso ajudar é que me tramou. Será que vou conseguir ajudar devidamente as crianças em Laos? Adoro dançar e música, mas não sou professora de dança nem sei tocar nenhum instrumento; adoro fazer yoga e desporto, mas não dou aulas; tenho bom inglês, mas não é perfeito e, mais uma vez, não tenho experiência na área de ensino. Agora é que me tramei, pensei eu!!

Bem, resolvi ser sincera: “Tenho skills e experiência em gestão de produto e de projeto (em diversas áreas, mas acho que não vale a pena especificar quais), sou comunicativa, tipicamente tenho facilidade em criar empatia com crianças, sou de riso fácil e, acima de tudo, quero muito isto.” WHAT, RITA? Riso fácil? Quanto muito é uma característica, agora um skill? Vou só ali cortar os pulsos e já volto. Senti-me um bocado ridícula, confesso, as crianças em Laos não vão pensar em processos ou em produto, não vão querer alinhar shapes no PPT ou fazer vlookup no Excel, não vão criar histórias no jira ou trabalhar com designers e developers, não vão trabalhar em SAP. Enfim, sou o que sou e fui sincera. Pode ser que tenham um site desorganizado e precisem de alguém que ponha a casa em ordem.

Estava tão enganada, gostaram de mim assim e em ordem puseram-me eles.

Laos é um país lindo de morrer, muito verde, com muitas montanhas e possibilidade de se fazer muito desporto, é encantador e especial. O projeto de longa duração para onde fui no Laos, o qual abracei e onde fiquei a dormir/viver em comunidade (perto de Vang Vieng), também é igualmente lindo, sem grandes luxos, claro, mas lindo.
Conheci voluntários de Laos, França (imensos), Espanha, Bélgica, México, Alemanha, Peru e eu (primeira e única portuguesa no projeto). Bem, miúda, vê se deixas boa imagem do teu país.

As coisas começaram a fluir, comecei a dar aulas de Inglês às crianças e a trabalhar em divesas atividades no projeto. Como projeto, acabei por recuperar/reformular uma zona de churrasco desabitada e destruída. Com a ideia definida, uma excelente equipa e muita boa disposição, conseguimos criar um espaço útil e acolhedor para a comunidade. Final do dia, dei aulas de Inglês aos níveis 1, 2 e 4 e foi, sem dúvida, umas das experiências que mais gostei. Crianças e adolescentes que querem muito aprender inglês, trabalham e estudam arduamente para atingir esse objetivo. São os primeiros a chegar à sala de aula, os primeiros a mostrarem o homework feito, sentam-se sempre na linha da frente. São muito tímidos, mas têm uma vontade imensa de chegar longe, chamam-nos “teacher” e querem muito saber o que se passa com a nossa vida.

Numa das aulas, estava eu a dar o present continuous, o CHANG interrompe, pensava eu para tirar uma dúvida, e diz com o seu sotaque engraçado: “Hey teacher, are you married?!” – Teve muita graça, todos se riram exceto a Song que lhe deu um caldo e eu que me tentei controlar para não ter ataque de riso ali. Toda aquela partilha me dava um prazer imenso, adorava cada aula, mesmo cansada, saía sempre das aulas com sorriso gigante. Queria mais. Queria saber da vida daqueles miúdos.

Às vezes, desviávamos as mesas e ficávamos ali, em roda, a conversar e partilhar culturas. Dava aulas descalça, saia comprida, ombros tapados, cabelo preso e sem brincos. É uma questão cultural, mas não só, é um meio para atingir um fim. Algumas escolas são em zonas de prostituição e as crianças olham para as mães, irmãs, primas com roupas mais ousadas, baton vermelho e como crianças seguem o seu exemplo. É aí que este projeto se quer distinguir, pretendem que as crianças não sigam o exemplo da prostituição, mas sim o da educação e nós, professores, somos essa possível ponte.

Apesar de entender, esta parte para mim não foi fácil de lidar: as miúdas apareciam de baton vermelho, os rapazes de calções e eu não podia deixá-los entrar assim na aula. Os olhos deles quase que se enchiam de lágrimas e ficavam mesmo cabisbaixos (eles e eu), mas são as regras (sempre detestei regras, até lá isso era evidente em mim). As regras são importantes, claro, mas há que ter ginástica na sua aplicação. Como diz uma pessoa que gosto muito: “Quem nunca pisou um traço contínuo?”

Como forma de solucionar, pedia às meninas para limparem o baton, lá esfregavam muito rápido, mas baton vermelho não sai assim, ficavam todas borradas, mas desta forma conseguia que frequentassem as aulas e aprendiam a lição. Ninguém gosta de estar borrada, parece sangue ou um beijo mais forte, remédio santo: aula seguinte estavam IMPEC.

Outro factor difícil para mim foi o não poder criar ligação física com as crianças, isto é, abraços, beijinhos, colo, cavalitas – TUDO PROIBíDO. Os voluntários vêm e vão e os miúdos apegam-se e sofrem muito. E mais, em casa os pais não têm esse género de comportamento com os filhos e, segundo o projeto, crianças sofrem mais quando perdem um voluntário (e tudo o que lhe está associado) do que com a ausência de uma carinho que desconhecem de todo. Aqui não concordo muito, amor nunca é demais na minha opinião. E mais: falamos de ligação física, certo? Mas a ligação emocional/psicológica é muito mais forte e difícil de controlar e essa foi criada. Não acredito que se consiga “chegar” ao outro sem previamente ser criada uma ligação afetiva.

Eu estou ligada aos meus míudos (com limites claro), já sofro um pouco por saber que dificilmente vou estar com eles novamente, tenho saudades dos seus sorrisos e olhos brilhantes. Mas sofro ainda mais por não saber que futuro vão ter (ou melhor no fundo eu sei e isso dói). Mas também tive consciência que não dá para mudar o mundo, por isso temos de ter a capacidade e aprender a transformar as situações, dar o melhor de nós em cada situação e receber o melhor também. O “pouco” que achamos que damos e recebemos já é muito, é imenso, é gigante!

Estas crianças acordam às 5h da manhã, estão na escola “dita normal” das 8h às 16h e às 17h começam o Inglês connosco, terminamos perto das 20h e lá vão eles a pé para casa sozinhos e no meio da escuridão, mas não vão tristes. Não sei como fazem, mas nunca parecem tristes.

Nós também íamos para casa fazer o jantar juntamente com as pessoas de Laos, Kee, Pho and Pha. Eu conduzia o “camião” e lá seguíamos todos contentes, numa estrada cheia de buracos, sem luz e com vacas no meio. O contacto com os locais também me vai ficar na memória principalmente com o Kee, um miúdo de 20 anos com um humor e expressão muito engraçadas. Pedia-me conselhos quando escrevia mensagens às raparigas no Facebook, não queria dar erros no flirt: “Look Rita, so many!”, só janelas apitar. Disse-lhe que só o ajudava quando escolhesse apenas uma, com tantas não é certo e fico confusa. Ele dizia: “Oh RITÁAAAA, no no no no no!” e ria que nem um perdido, o safado.

Usava uns chinelos 3 números acima do número real dele e todos gastos. Antes de me ir embora, ofereci-lhe uns novos e com o número adequado e disse para ele colocar os velhos no lixo. Ele fez-me um ar sério e disse: “No RitÁ, I will save the old flip flop´s. Pho or Pha could need them” – até vibrei por dentro, palavras para quê? Claro, Kee <3 Tenho uma infinidade de histórias por contar, outras que não quero contar, são minhas, ficarão comigo, dentro de mim, para sempre!

Saio daqui uma pessoa nova, percebi que não tenho só skills de gestão, mas que esses skills me ajudaram e muito a resolver e contornar uma série de situações ocorridas. Faz parte de mim também, está sempre presente. Por isso, já não preciso de cortar os pulsos, mas sim arregaçar as mangas e lançar-me com garra ao trabalho. Mas, por outro lado, adoro o contacto com as pessoas, falar e ouvir, comunicar e partilhar. Faz-me imensamente feliz, por dentro e por fora. Temos uma imensidão de skills dentro de nós, todos nós, só que muitas vezes não são trabalhados ou potenciados. E pode acontecer que esses skills menos explorados sejam mesmo o nosso tesouro, o caminho para sermos mais felizes e completos e arriscaria mesmo a dizer, pessoas melhores.

Se tivesse de traduzir esta experiência numa palavra diria TRANSFORMAÇÃO. Por isso transforma-te, vai com medo, vai com amor, vai com tudo o que és (ou até mesmo com o que ainda não sabes que és), mas vai! Há por aí muitos mais Kee´s espalhados pelo mundo e vale muito a pena conhecê-los.

CHOP QUAI INCREDIBLE LAOS, EXTREMELY THANKFUL!

Rita

A experiência da Rita e do João na Mongólia

Olá, os nossos nomes são João e Rita, temos 22 e 21 anos, respetivamente, somos ambos de Lisboa e estivemos este verão num programa de voluntariado através da organização Para Onde, durante duas semanas na Mongólia. Aqui fica um resumo, ou pelo menos uma tentativa de tentar pôr em palavras aquilo que muitas vezes transbordou do coração.

Há uma frase que gostamos muito que fala de como na vida, tantas e tantas vezes, estamos aborrecidos e tão absorvidos no nosso canto que nem nos preocupamos em levantar a cabeça do que quer que tomemos como sendo inadiável, e olhar à volta e perceber que é preciso “mexer a colher dentro do copo, porque muitas vezes o açúcar está no fundo”.

Por meio de conversas e um bocadinho desta necessidade de experimentar um verão um bocadinho diferente do habitual, decidimos embarcar numa viagem a um país do qual pouco ou nada sabiamos -Mongólia. Por meio de pequenas burocracias pusemo-nos em contacto com a organização do ParaOnde, e tendo falado com a Inês e com a Marta, que foram umas segundas mães durante umas boas semanas, partimos a uma aventura para a qual não tínhamos qualquer expectativa.

Honestamente, quando chegamos a UlaanBaatar, a capital da Mongólia, ficamos reticentes quanto ao quão “desligado” poderia efectivamente ser o voluntariado. Sem qualquer informação sobre que tipo de crianças seriam, qual seria o tipo de voluntariado que íamos fazer, e só sabendo que iríamos trabalhar e participar em atividades de verão para crianças que não pudessem pagá-las em circunstâncias normais, o nervoso miudinho aumentava quando nos aproximávamos do campo já com todos os voluntários.

Tão rápido como começou, também acabou por passar, esta sensação de nó no estômago, sendo que assim que chegamos ao campo fomos recebidos de sorriso na cara e braços abertos por crianças desde as mais pequenas até algumas adolescentes, que não falavam a nossa língua nem alguma em que conseguíssemos comunicar, mas cheias de amor para dar.

O campo estava organizado como uma casa de verão para crianças que durante o ano estavam num orfanato por várias razões. Todos tinham tarefas que eram feitas com o maior dos gostos, porque todos tinham prazer em ajudar (-nos) fosse de que maneira fosse. As condições eram pobres, mas não descuidadas, querendo dizer que o que havia estava bem cuidado e em uso.

Dormíamos todos numa sala comum o que facilitava muito o convívio entre voluntários e as crianças dormiam numa outra casa onde estavam divididos por idades. Fazíamos as refeições todos na mesma sala ainda que a horas diferentes e todas as noites, antes da hora de dormir das crianças cantávamos uma “Goodnight Song” em Mongol, com as crianças – um “beijinho de boa noite” muito especial, principalmente para nós.

Um dia normal começava por volta das oito e meia, em que tomávamos o pequeno almoço e éramos divididos em grupos com actividades diferentes como ensinar inglês a crianças mais pequenas, aos adolescentes, fazer desportos, ajudar na cozinha, ajudar a pintar infraestruturas dentro do campo ou fazer jogos didáticos que de alguma maneira pudessem ter impacto de várias maneiras.

Muitas vezes perguntavam-nos se a barreira linguística não era um entrave à comunicação e na verdade, o que sentimos durante essas duas semanas foi que isso nunca sequer existiu. A verdade é que nenhuma das crianças falava, nem aprendeu connosco ou com outros voluntários, inglês suficiente para ter uma conversa, mas o facto de saberem dizer “Goodnight”, “Goodmorning”, “Thank You” e “I Love You”, chegava para tudo o que fazíamos com eles; quer fosse a ensinar números até cem, as cores ou só a brincar à apanhada, tudo se fez porque o coração falou sempre mais alto.

Acho que quando dizemos que algo nunca nos marcou tanto como isto, não é de todo um exagero porque toda a experiência, desde o termos chegado sem qualquer expectativa, até ao facto de quarto palavras terem servido para conseguirmos criar laços reais com estas crianças foram coisas absolutamente extraordinárias. Desde de termos tido ajuda, eu, Rita, quando queria lavar o cabelo na mangueira que havia na colina do campo e ter uma turma de crianças que vinha de bom grado ajudar-me, a mim, João, ter tido ajuda quando tentei montar uma espécie de estrutura para um chuveiro – não podíamos estar mais satisfeitos e mais felizes por termos, para além de nos sentido úteis e realizados, termos podido perceber que mesmo não tendo muito, há tanta coisa que ainda podemos partilhar uns com os outros, sejam quais forem as nossas circunstâncias.

O dia em que nos viemos embora do campo foi também um dia muito emotivo. Mesmo não tendo tido experiências disso o dia todo, todas as crianças com quem estivemos e principalmente as com quem criámos maior ligação ficaram, assim como nós, muito ligadas a tudo o que vivemos lá. Sair de pulseiras oferecidas e feitas pelas crianças, com cartas escritas em Mongol e traduzidas pela coordenadora fantástica que tínhamos no campo, e fazer tudo isto sem lágrimas nos olhos não é uma tarefa fácil.

É muito complicado deixar um lugar onde já fomos muito felizes e as pessoas que nos fizeram felizes nesse lugar.

Como resumo deste testemunho, fica não só o conselho de partirem a fazer algo parecido, mas principalmente, a partilha de que o que achamos que trouxemos de maior de lá foi na verdade a convicção de que não precisamos de ter nada para poder dar tudo a quem está ao nosso lado, que não precisamos sempre de falar para criar relações inesquecíveis e que muitas vezes, os atos mais pequenos são aqueles que mais marcam, mesmo que não só individualmente, mas como num conjunto – e que muitas vezes é mesmo preciso ir ao fundo buscar o açúcar que ficou esquecido no fundo do copo.

A experiência da Catarina em Zanzibar

Desde o dia que decidi embarcar nesta aventura até o dia de partida foi tudo muito rápido. Na verdade, tudo em si aconteceu demasiado rápido.

Já tinha na cabeça fazer esta experiência há algum tempo, até que um dia apareceu-me no Facebook o “Para Onde” e não hesitei. Trocámos uns emails, e passado uns dias estava a marcar voo.

Sem qualquer noção do que vinha aí, embarquei. Na realidade acho que mesmo quando já estava no voo, ainda não estava em mim, estava com alguns nervos, mas por outro lado sentia-me bastante relaxada e segura, parecia-me uma viagem “normal” para um sítio que eu conhecia e estava familiarizada.

A verdade é que não podia estar mais errada e tão certa ao mesmo tempo. Errada porque não era de todo um sítio que conhecesse, era uma cultura completamente diferente da nossa: hábitos, maneiras de pensar, cheiros, maneiras de viver, definições de riqueza/pobreza, horários, um ritmo muito diferente do nosso (em Zanzibar é tudo muito pole pole – devagar devagar)… Mas por outro lado estava tão certa relativamente a sentir-me segura, confiante pois iria para um local em que me iria sentir bem, que fosse bem-recebida. E este sentimento veio assim que pus os pés em Zanzibar e fui recebida pelo Mr. Idi da associação que iria colaborar, que após ter estado 3 horas à minha espera devido a atrasos de voos e demoras no visto e eu me ter logo desculpado por tê-lo feito esperar tanto tempo, me recebeu com um abraço, um sorriso na cara e me disse “Hakuna Matata, We are Family here,  We are here for you” – neste momento senti-me em casa.

Estive perto de 3 semanas em Zanzibar, com vários projectos desde remodelação de escolas, pinturas, brincadeiras com crianças dos 2 aos 18 anos, workshops com universitários, organização de actividades com crianças e pais, formação de líderes de associações, aulas de inglês, aulas individuais… e não há palavras para descrever o amor, a humildade, a simplicidade.

Em Portugal, toda a gente me perguntava se havia muita pobreza e eu respondia sempre a mesma coisa: “A Pobreza e a riqueza são muito relativas” – aqueles miúdos vestiam a mesma roupa todos os dias durante uma semana, sujas e com rasgões, não andavam com as novas tendências, brinquedos quase nem vê-los e luxos nenhuns, mas davam-nos o seu maior sorriso, partilhavam connosco as suas melhores histórias desde as coisas grandes às coisas mais pequenas, onde mostravam a sua maneira de ser: pessoas simples, com muito amor, entusiasmados, motivados a aprender, ansiosos para que alguém lhes desse uma oportunidade, lhes ensinasse algo (fosse o que fosse) – o que eles queriam era aprender, chegavam sempre com os seus caderninhos a perguntar novas palavras, novas cores, novos adjetivos…Pessoas criativas, de uma garrafa de plástico faziam carros – desafio-vos a ver se conseguem ter tal criatividade. São pessoas muitos ricas em amor e felicidade, que me ensinaram e me inspiram muito, relembraram-me certos valores e ensinaram-me novos.

No final, existiu aquela sensação de que aquela é a realidade deles, e que eu iria embora e tudo voltaria ao normal, e os últimos dias foram vividos com alguma revolta. Mas hoje sei que fiz a diferença na vida de algumas pessoas quando passado mais de um mês me enviam fotografias de coisas que falámos, me enviam a opinião deles sobre livros que lhes dei, me enviam fotografias das crianças a fazer actividades que fazíamos… e para isto não há palavras que descrevam este sentimento.

Conheci pessoas que sei que não vou esquecer, saber as histórias de cada um deles é marcante, mantemos contacto e sei que um dia voltarei.

Não podemos mudar o mundo todo, mas podemos mudar uma pequena parcela. Se estão, nem que seja só um bocadinho, curiosos por ter uma experiencia de voluntariado, não hesitem e vão.

Vão vocês próprios, “nus” de todos os egos e ideais, sejam simplesmente vocês, levem amor, vontade de ouvir, de ensinar e um sorriso na cara, e voltarão muito mais ricos.

A experiência da Diana na Boavista, Cabo Verde

Já passaram alguns dias desde que voltei e as saudades são cada vez maiores, a vontade de voltar não desaparece e a cabeça teima em reviver os momentos passados nesta Ilha.

Assim que cheguei tive logo a oportunidade de conhecer a associação que me acolheu por 7 semanas e com quem tive a oportunidade de vivenciar momentos muito bons. Os primeiros momentos foram de um impacto enorme, perceber que em pleno século XXI ainda existiam pessoas a viver em condições tão más foi de uma tamanha tristeza. O certo é que sabemos que há pessoas a viver em condições más, mas vivemos no nosso mundo e não ligamos muito a isso, só mesmo quando conseguimos ver com os nossos próprios olhos e sentir é que começamos a dar mais atenção ao que anda à nossa volta.

Porém, esse sentimento apaziguou-se assim que entrei na primeira sala de aula. A sala tinha umas 30 crianças com 3 anos e todas começaram a gritar pela “tia” nova que tinha acabado de chegar, alguns mais envergonhados ficaram no lugar deles, mas outros começaram logo a abraçar-me e a dar-me beijos sem fim. E assim foi, durante as sete semanas que passei naquela associação. Todos os dias era recebida por eles como se fosse o primeiro dia, era preenchida de beijos, abraços, carinho e sorrisos do tamanho do mundo.

Era um sentimento tão bom que acordava todos os dias de manhã cedo cheia de vontade para voltar para eles, e à noite deitava-me cansada, por vezes sem forças, mas ao mesmo tempo realizada e feliz.

As educadoras e os funcionários da associação foram impecáveis, receberam-me da melhor forma possível e sempre me ajudaram e apoiaram em tudo. A ilha é fantástica e o povo é incrível, sempre muito acolhedores e queridos e
com eles passei experiências e momentos únicos e inesquecíveis.

Mas então, perguntam vocês, não houve momentos maus? Houve, claro que houve, houve momentos em que me faltou a paciência, na qual me chateava com eles, na qual não conseguia nem por nada mantê-los sossegados e atentos, mas não desistia, tentava sempre arranjar uma forma de resolver o problema e de no fundo lhes dar a volta. Umas vezes conseguia outras nem por isso, e ai tinha de me render àquela cara deles a olharem para mim literalmente com o olhar mais meigo e ao mesmo tempo mais traquina de sempre.

A despedida foi a parte mais difícil de todas, as lágrimas corriam e teimavam em não parar, as crianças olhavam para mim sem saber o que fazer, alguns abraçavam-se a mim outro davam-me festas e outro andavam pela sala a dizer a toda a gente que a “tia” estava a chorar.

A quem está a pensar em fazer parte deste projeto, só posso dizer que vale muito a pena, para irem sem medo, com o coração cheio e com a mente livre. Foi uma experiência única, na qual aprendi muito e mudei muito a minha forma
de ver as coisas Acredito que mudei um pouco a vida deles, mas eles sem duvida mudaram a minha por completo. <3

A experiência da Andreia em Arraial d’Ajuda

Ainda recordo o momento em que cheguei a Arraial D’Ajuda e aguardava ansiosamente na Praça da Igreja a chegada de uma das responsáveis. Eu estava prestes a realizar um sonho da minha vida. Tudo parecia surreal e a minha mente estava invadida por um sem fim de pensamentos, dúvidas e medos que depressa se extinguiram no momento em que entrei na Associação Filhos do Céu e que conheci todas as pessoas maravilhosas que diariamente dão um pouco de si para manter esta Associação erguida e cuidar destas 150 crianças.

Torna-se difícil descrever por palavras aquilo que vivi durante o mês que estive nesta Associação. O carinho com que fui recebida, as oportunidades de aprendizagem, de crescimento e de desenvolvimento que tive, os valores que são transmitidos, as amizades que são feitas, o amor que se recebe da equipa e das crianças… Só sei que parti para Arraial D’Ajuda com a intenção de dar um pouco de mim e de alguma forma contribuir para esta Associação, a sua equipa e as suas crianças, no entanto regressei a Portugal com a sensação de que trouxe muito mais comigo com que levei e de que ultrapassei todas as expectativas…

A equipa da Associação Filhos do Céu tem uma missão: educar e ensinar as suas crianças com base em valores como o respeito, o amor, a amizade, a entreajuda, o carinho, a gentileza, a humildade… Ao mesmo tempo que os prepara para a vida na sociedade e os empodera para a transformação e para a mudança que a sociedade e o mundo tanto precisam.

Todos os meses a Associação desenvolve e foca-se num tema que explora com as crianças. Posso dizer que fui uma privilegiada durante o mês em que estive presente nesta Associação, já que o tema de Outubro, em homenagem ao dia da criança que se realiza neste mês, seria a CRIANÇA. Para além do tema do mês, que é explorado e desenvolvido através de diferentes atividades e abordagens, a associação desenvolve em simultâneo com as crianças atividades como a Capoeira e a acrobacia aérea em tecido. Tem ainda um dia dedicado ao apoio e reforço escolar e um dia em que realiza a roda do diálogo, onde todos se reúnem em roda, professores e crianças, com o objetivo da partilha e do crescimento conjunto.

Um mês que que foi vivido tão intensamente e que passou num segundo… Comigo veio um bocadinho de todas as pessoas que conheci e todos os momentos que vivi e fica a saudade e o desejo de um dia voltar…

Ter a oportunidade de passar por Arraial D’Ajuda e pela Associação Filhos do Céu, é ter uma oportunidade para crescer, para conhecer outra realidade, para mudar perspetivas e para compreender que a vida pode ser tão simples e tão cheia de paz, harmonia e tranquilidade. O truque? Simplesmente ser, viver e aceitar tudo aquilo que somos e tudo aquilo que temos…

 

A experiência da Vanessa em Moçambique

Como exprimir por palavras uma vivência de tamanhos sentimentos?

Foi uma experiência mágica, uma oportunidade única, na qual conheci pessoas tão bonitas… É um lugar onde a gratidão e a humildade vivem em plena harmonia, onde as crianças nos trazem sonhos e onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo.

Em Mahungo conheci uma nova cultura que me ensinou a viver o presente, pois a felicidade existe no momento e não no futuro. Em Mahungo a minha família cresceu mais um pouco com pessoas incríveis.

Na escolinha as coisas acontecem muito devagar, é uma cultura onde o tempo é uma constante que ainda não está bem definida, ou seja ele simplesmente vai passando e as coisas acontecem ao seu ritmo como tiverem que acontecer. E assim se vive em paz e com tranquilidade e cada um aprende como consegue. É preciso motivação e incentivo para aquelas duas lindas professoras, que gostam tanto do que fazem e se complementam tão bem. A Lolinha faz uns bolos ótimos quando um menino faz anos e a Julia adora aprender coisas novas e praticá-las.

Aprendi com todas estas pessoas, que o amor resolve quase tudo na vida, viver com gratidão e com espírito de partilha é sem dúvida a forma mais digna de viver e que tudo na vida em todos os lugares acontece a seu tempo e tudo isto junto é a perfeita forma de felicidade.

Podia ficar a escrever durante horas que iria sempre faltar alguma coisa. São muitas as memórias dos que lá ficaram e uma única promessa. “Eu hei-de voltar”.

Kutsaca é “Estar Feliz”, e é só isto que faz sentido.

É um lugar de amor e paz, onde se contam histórias de força e de luta. Um lugar onde a humildade reina e todos são seus seguidoresm
É lá, onde o tempo não passa porque não existe, onde se vive o “agora” intensamente, porque na realidade não há passado nem futuro,
É lá, onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo, onde as crianças nos trazem sonhos, onde a gratidão é o que sentimos pelo próximo, onde vives dando o melhor de ti sem querer receber nada em troca,
É lá, onde ficam as memórias daqueles que por lá passam e trazem com eles memórias dos que lá ficam, onde o desapego tem presença obrigatória, onde uma trovoada é o espetáculo mais bonito das ruas e mesmo assim tem tanto de bonito como de ruim,
É lá, onde havemos de ter, onde havemos de ir, onde havemos de chegar, e nunca, mas mesmo nunca, tem problema.
É lá, que o amor resolve quase tudo!
É lá… lá looonge,
É Mahungo, é África ?

A experiência da Marta na Boavista, Cabo Verde

Ainda faltam as palavras para descrever tudo o que vivi o mês passado.

Desde o dia em que decidi embarcar nesta aventura até ao dia de partir foi um salto. De um momento para o outro, as malas estavam cheias. Cheias de medo, incerteza e insegurança. Mas também carregadas de muito para dar, de conhecimentos para partilhar e de esperança em tornar o mundo (de alguém) melhor!

Assim que aterrei em Boa Vista o ar parecia cortar a respiração. O sol queimava mais, a paisagem era seca e deserta, e tudo funcionava a um ritmo diferente. Percebi que estava fora da minha zona de conforto como nunca. Seguimos para o bairro onde íamos começar a trabalhar, o Bairro da Boa Esperança, ou Barraca, como é chamado. Por muito que tenha visto fotos e vídeos, é impossível ficar preparado para conhecer um sítio como este.

Caminhar pela primeira vez pelo bairro foi surreal. O ambiente era quente e húmido e os cheiros fortes. Ali não existe nada do que nos é dado como garantido: nem água canalizada, nem saneamento, nem electricidade. Lidar de perto com este tipo de pobreza foi mais difícil do que esperava. Mas rapidamente percebi que, mesmo assim, há música nas ruas. Que as pessoas se juntam, que jogam, que cantam e dançam, e que há sempre quem tenha um sorriso para oferecer.

Os primeiros dias na associação foram invadidos por um sentimento de frustração. Tinha a sensação de que nunca iria conseguir mudar aquela realidade e de que, no final, tudo continuaria igual. A organização e o ritmo são diferentes. Ter mais de 30 crianças numa sala tão pequena tornou difícil a realização das actividades como tinham sido pensadas. São crianças alegres, sonhadoras e criativas, mas muito energéticas e habituadas a não ter regras. Foi preciso entrar no ritmo, perceber a realidade em que vivem e aprender a lidar com isso. Aprendi que é preciso ser
flexível, estar disposto a adaptar os planos às condições, que nem sempre são favoráveis. É preciso não levar expectativas. É preciso não ter pena. É preciso ter muito amor e carinho para dar, sem preconceitos.

Trago comigo a imagem daquelas crianças a correr de braços abertos para nos receber. Foi assim que nos receberam todos os dias, como se fosse o primeiro. Foi por elas que fomos e foi com elas que aprendemos mais. É incrível a quantidade de amor que têm para dar. Com elas aprendi que não somos o que temos, somos o que damos. Aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas. Aprendi que com quase nada se faz muito, e que precisamos de muito menos do que julgamos.

Voltei com o coração apertado porque hoje estou aqui, mas elas continuam lá. Mas voltei com a esperança de que tudo o que ofereci um dia vá fazer a diferença, mesmo que pequena :)

Resta a promessa de um dia lá voltar. A esse sítio que será para sempre especial. Onde deixei muito de mim, mas de onde trouxe ainda mais. Onde apesar de todas as carências se vive de uma maneira humilde, simples e feliz, sem stress.