A Experiência da Leonor no Quénia

Decidi embarcar neste projeto pouco mais de um mês antes de ir. De uma vontade de há alguns anos, senti que seria a altura indicada para concretizar este meu sonho. Assim foi… de mochila às costas, sem saber exatamente com o que contar, enfrentei os meus medos e descurei o conforto para viver uma experiência de uma vida.

Como foi tudo muito rápido e sempre tive o apoio incondicional do “Para Onde?”, durante as preparações da minha ida, só caí em mim quando entrei no aeroporto. Obviamente, aterrorizada com a minha decisão, só queria dar meia volta e voltar para o conforto de casa. Ainda bem que não o fiz.

Já tinha ido ao Quénia, há 13 anos atrás, em contexto diferente, e prometi à minha mãe que “quando fosse crescida iria voltar para ajudar”. Em agosto, cumpri a promessa.

Tudo era diferente, tudo

era difícil, tudo era, como se diz em swahili “pole pole” (em português, significa lento) no entanto, havia sempre algo que te incentivava a fazer mais e melhor.

Apesar das condições de higiene e de conforto serem muito básicas, havia sempre uma força maior para fazer mais e melhor. Não sei se pelo espírito de grupo, em geral, se pela força pessoal, se pelo motivo principal de irmos para lá: ajudar e dar.

Durante todo o projeto elaborámos várias atividades com as crianças e com os mais velhos, ajudámos na reconstrução da escola de Kiburanga e participámos no projeto iniciado pela Catarina, uma antiga voluntária, chamado Simba Children’s Project, de que eu tenho um extremo orgulho em ter participado.

Tínhamos os fins de semana livres, onde aproveitávamos para recarregar as energias para a semana seguinte.

Aconselho, do fundo do cora

ção, a toda a gente a ter uma experiência de voluntariado, a sair da sua zona de conforto e, por mais difícil que o momento seja (provavelmente, será), aproveitar ao máximo. É uma experiência de uma vida que muda, para sempre, qualquer um. Um mês que valeu pelos 20 anos de existência.

Agora, de coração a trans

bordar e de olhos “cheinhos” de lágrimas, agradeço por tudo o que me proporcionaram e guardo cada um para sempre no meu coração. Obrigada.

A experiência da Ana em Zanzibar

Chegou ao fim…

Voluntariado é ter capacidade de adaptação e vontade de descobrir. É assumir a aventura.  É perceber que o tempo pode ter várias dimensões e que é preciso estar disponível para dar, mas também para receber. É sair da zona de conforto – e perceber que até te dás bem por lá. É a possibilidade de te reinventares em situações desconhecidas. É perceber que é preciso pouco para fazer alguém sorrir – e nem é necessário falar a mesma língua. É estar rodeada de crianças que são de sorriso fácil e que agradecem o tempo que passas com elas. É saber aproveitar o aqui e agora – e também tu estares grata por isso. É querer aproveitar ao máximo, mas ao mesmo tempo praticar o desapego. É querer partilhar tudo isto com quem te incentivou a vir. É perceber que existem outras realidades, bem distantes das nossas. É adoptar o ritmo pole pole. É conhecer outros sons e outros sabores. É poder apreciar um céu estrelado e paisagens com novas cores. É fechar os olhos, sentir o vento a bater na cara e desfrutar de uma nova sensação de liberdade. É mambos e jambos, palmeiras e praias, coco, melancia e banana, chapatis e dala-dalas. É perceber que dentro do caos existe a organização e dentro da pobreza também é possível encontrar o paraíso.

Mas voluntariado também é ter de aprender rapidamente a gostar de novas comidas e conformar com o “arroz nosso de cada dia”. É ter de lavar a roupa à mão e os pratos no alguidar. É ter de levar a garrafa de água sempre que se quer lavar os dentes. É não descansar tanto quanto se gostaria. É viver com e como os locais. É ter dor nas costas causadas pelo colchão (ou pela ausência dele) e usar galochas todas as manhãs. É esperar numa fila de 8 para tomar banho (de água fria). É viajar num dala-dala com mais 30 pessoas. É conviver com outros hábitos e outras culturas – e ainda assim saber colocar os próprios limites. É fazer uma mala apenas com o essencial (e perceber que, ainda assim, mais coisas podiam ter ficado para trás). É simplificar. É preparar aulas e cativar os miúdos. É tentar não ser picuinhas. É perceber e valorizar o facto de, na tua sociedade, ser mulher não condiciona em nada a tua vida. É procurar o teu espaço e tempo no meio da confusão. É (re)aprender a todo o momento a dar valor às pequenas coisas da vida.

Mas, ao fim de 3 semanas, o voluntariado também traz consigo as saudades de casa e daqueles que ficaram do outro lado do mundo. É tempo de regressar – de coração bem cheio!
Obrigada Zanzibar!

A experiência do Nuno em Barcelona

Já há algum tempo que queria fazer voluntariado internacional e decidi juntar a essa experiência uma viagem de uma semana após o trabalho de voluntariado e por isso decidi ir para a Catalunha porque me pareceu o local ideal para a minha primeira viagem para o estrangeiro sozinho.

Cheguei a Barcelona dois dias antes do início do meu campo de voluntariado, para conhecer a cidade e visitar alguns amigos. Existem comboios diretos para a cidade onde fiquei durante duas semanas, Vilanova i La Geltru, e foi bastante fácil chegar ao nosso ponto de encontro.

Durante duas semanas, de segunda à sexta, tínhamos os pequenos almoços às 6h30min para depois seguirmos de autocarro para o local de trabalho, no outro lado da cidade. Eramos mais de uma dúzia de voluntário a dormir em quartos partilhados com boas condições e a comida era fornecida por uma empresa de catering, sendo que todos os dias diferentes voluntários eram responsáveis pelos lanches e pelo trabalho de cozinha e limpezas.

O trabalho realizava-se apenas durante as manhãs devido ao calor sendo que durante a tarde tínhamos tempo livre para ir para a praia, ao centro da cidade ou apenas descansar no relvado.

Apesar de ser um trabalho bastante cansativo todo o grupo estava sempre animado e mesmo nestes momentos criamos grandes memórias.

Na maioria dos dias tínhamos atividades ou workshops ao fim da tarde, todos bem organizados e que nos permitiu criar grandes momentos em grupo.

 

Um dos objetivos da organização era a nossa experiência pessoal e cultural pelo que tivemos vários dias repletos de atividades como uma caminhada num trilho até à cidade de Sitges, ida à Festa Major de Vilafranca de Penedés, visita ao Mosteiro de Montserrat, visita à cidade de Tarragona e muitas atividades culturais na cidade onde estávamos.

Após o término do trabalho segui por várias cidades em Espanha, terminando em Bilbau.

Realmente aconselho qualquer pessoa a fazer voluntariado internacional, sendo que em campos de voluntariado de curta duração se criam grandes amizades pelo facto de estarmos sempre em grupo, 24 horas por dia.

O ‘Para Onde’ foi uma grande ajuda para a organização da viagem e quiseram estar sempre a par do meu estado, muito obrigado!

A Experiência da Marta no Laos

Phoudingdaeng foi um desafio, quando cheguei, pelo choque cultural, entre mim e quem tem tão pouco, e quando me vim embora, por deixar um bocadinho do meu coração ali. E não há nada melhor do que saber que as vidas que ali habitam vão ter um futuro melhor, vão estar mais educadas, vão estar mais disponíveis para tudo o que o mundo tem para lhes dar, não por minha causa, mas pela continuidade de pessoas que chegam todas as semanas prontas para dar o melhor de si. Vang Vieng muda, não pelo bocadinho do meu coração que ali ficou, mas por todos os corações que já ali passaram. Este é o maior testemunho que posso dar, tudo o que resto seria um clichê. Se imaginarem cada uma destas crianças como uma casa, cada um de nós pode ser mais um tijolo.

A Experiência da Sandra no Quénia

Já há muito tempo que queria fazer voluntariado internacional, pareceu-me esta a melhor altura da minha vida para o fazer. De todos os programas de voluntariado disponíveis para o meu período de férias, houve um que me captou a atenção: Kiburanga. Sabia que ia ser difícil, cultura diferente, condições de conforto mínimas, mas, ainda assim, decidi arriscar. E ainda bem que o fiz. Quando cheguei a Nairobi (já com a minha companheira de viagem, a Leonor, também portuguesa mas que só conheci no Dubai enquanto fazíamos escala), pensei: “Sandra, no que te foste meter?’’. Nairobi é uma cidade muito confusa, muita gente, muito trânsito que nem sempre é controlado. Para Kiburanga, partimos na manhã seguinte. Foram 9h de viagem em que se via a densidade populacional a diminuir, e a beleza natural a aumentar. Quando chegámos a Kiburanga, estava muita gente da comunidade reunida junto à escola para nos receber, muitas crianças, e um grupo de pessoas já com alguma idade a com música e dança típicas da região, foi um bocadinho arrepiante. As crianças guiaram-nos até ao nosso campo. Assim que cheguei, encontrei a Catarina. A Catarina é uma autêntica rockstar. Esteve neste projeto em 2017 e decidiu criar uma associação em Portugal (Associação Simba – Children’s Rights) para que fosse possível construir um orfanato em Kiburanga. Uma das nossas atividades para o projeto acabou por ser ajudar na sua construção (quando viemos embora, já estava praticamente concluído).
Nos dias que se seguiram, além da construção do orfanato, as atividades passavam pela distribuição de roupas, fabrico de tijolos, atividades com crianças, pintura da escola, e visitas domicilárias (home visits), onde pudemos ver como as pessoas vivem, como são as suas casas e quais são as suas histórias. Realmente, Kiburanga é especial. A vida daquela terra, o ritmo que se ouve, a alegria que existe sempre, o pôr-do-sol mais bonito, o céu mais estrelado, aquela gente que precisa de tanto, mas que não sente falta de nada. É um sítio que nos deixa com um misto de sentimentos enorme, principalmente na hora da despedida.
Sentimos que fazemos pouco, que nunca vai ser suficiente. Mas como alguém muito experiente um dia me disse: “Por muito que nos custe não conseguiremos mudar o mundo. Apenas podemos dar pequenos, honrosos e valiosos contributos.” Kiburanga foi a experiência mais bonita que já tive, a parte difícil foi deixá-la.
(Na verdade, acho que nunca deixei.)

Distribuição de roupas

A experiência da Maria em Zanzibar

              Desde que me lembro de ser gente, que tenho uma inexplicável sede por me aventurar pelo desconhecido, recordo-me de girar o globo que havia no escritório dos meus pais, apontar para um lugar de olhos fechados e imaginar como seria esse local. À medida que fui crescendo, o voluntariado entrou na minha vida em diversos formatos, acabando por descobrir outra das minhas grandes paixões. 

              Este ano decidi dar “o passo” e misturei as minhas duas grandes paixões – partir rumo à descoberta e ajudar com o meu contributo quem necessita. E assim foi, em Julho parti de mochila às costas para a África Oriental, mais concretamente para uma ilha pertencente à Tanzânia e banhada pelo oceano Índico, Zanzibar.

              Costumam dizer que o início custa sempre, mas este não foi o meu caso, rapidamente me senti acolhida em família e a fazer parte de uma comunidade, que aos poucos fui conhecendo e compreendendo melhor a sua cultura, as pessoas e o seu modo de vida. Estando num país maioritariamente muçulmano, onde todas as mulheres usam hijab, onde a mulher é bastante inferiorizada relativamente ao homem, onde ainda se acredita em bruxaria e feitiçaria e onde a pena de morte ainda persiste, existem regras culturais que tive que seguir e compreender, de modo a respeitar e ser aceite pela comunidade, tal como evitar usar roupas que mostrassem os ombros e as pernas, ou até mesmo evitar fazer ruído nas horas de oração.

              Numa experiência destas nem tudo é bonito e muitas vezes senti alguma frustração e impotência pelo facto de certos pontos de vista e crenças serem mal aceites e incompreendidos por esta cultura, como por exemplo a igualdade de direitos entre géneros, que é algo completamente absurdo para estas pessoas. Crenças e pontos de vista como este são difíceis de se mudar, e ainda mais quando são questões culturais enraizadas na própria educação destas pessoas desde cedo, mas penso que se falarmos neles aos poucos, e cada vez mais, existe a hipótese de transformarmos (nem que seja só um pouco) algumas mentes, e quem sabe, deixar uma “semente” que conduzirá à mudança.

              No entanto, estas inúmeras divergências culturais com que me deparei foram apenas mais um fator de interesse para explorar melhor, pois quando nos permitimos conhecer genuinamente o outro, pomos de lado as nossas defesas/barreiras, abrimos as nossas mentes e abraçamos o próximo, independentemente da cor da pele, religião, crenças ou género, abrimos espaço para amizades improváveis, que nos fazem crescer e que vão marcar para sempre a nossa vida com lições de tolerância, respeito e amor.

              Para mim Tanzânia foi viver de intensamente cada momento, foi ver sorrisos e gargalhadas no meio de pobreza, foi andar de pé descalço e de espírito leve, foi dançar ao som de “bongo flavour” com os vizinhos, foi encontrar uma mama, um papa e três irmãs África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi ficar deslumbrada com a beleza natural de Zanzibar, foi aprender e dar “calinadas” no suaíli, foi perceber que a educação salva vidas, foi conhecer-me melhor, foi fazer amigos verdadeiros nas pessoas menos prováveis, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos (como ter água quente para tomar banho), foi andar à boleia em carrinhas de comércio local, foi conhecer histórias de vida que jamais irei esquecer, foi ser criança outra vez, foi dizer “porque não?” mais vezes do que era suposto, foi rir até doer a barriga e é ter uma vontade enorme de voltar já e agora. 

Com esta oportunidade, foi possível aperceber-me melhor das desigualdades que ainda existem neste mundo, em coisas tão simples como fazer o caminho para a escola em segurança. Pois é, em Zanzibar todos os anos existem mortes e ferimentos em crianças que simplesmente estão a ir para a escola, porque não existe segurança rodoviária ou qualquer tipo de educação nesse sentido, sendo este o foco da organização de acolhimento – lutar para que seja possível que todas as crianças em Zanzibar cheguem ao local de ensino em segurança. Situações como esta e similares que pude testemunhar fizeram-me abrir os olhos e ver que ainda existe uma luta muito maior do que imaginava, para que todos tenham oportunidade de viver com dignidade. Somos apenas um grão de areia cada um de nós, mas se formos muitos, conseguimos ser uma praia ou uma montanha de grãos de areia, e aí, fazer a diferença.

              Queria muito conseguir dizer o que senti nestes 2 meses em Zanzibar, mas há coisas que não se conseguem explicar, só quem viveu a experiência consegue compreender, por isso, o melhor remédio é mesmo ir. Volto com o coração a rebentar pelas costuras, por não saber quando (ou se) voltarei a ver a minha segunda família e amigos, que deixei do outro lado do mundo, mas volto também com um sorriso gigante por ter desfrutado ao máximo desta oportunidade única. Posso apenas prometer a mim própria, que um dia hei de lá voltar

 

A experiência da Carolina na Palestina

Olá, chamo-me Carolina e este verão decidi arriscar. Sempre me fascinou bastante o “mundo” árabe, a cultura, os costumes, a comida, toda a sua própria realidade que é bem diferente da nossa. Durante duas semanas fui para a Palestina fazer atividades com 100 crianças num campo de férias.

Há sempre barreiras, mas estas devem ser ultrapassadas e assim foi… ir para um país com uma língua diferente da nossa e interagir com crianças nunca é trabalho fácil, visto que eu não sei falar árabe e poucos sabiam falar inglês. Mas esta dificuldade não se tornou uma barreira, brincamos, dançamos, jogámos sem percebermos a língua uns dos outros, falávamos por gestos e pelo olhar.

Numa das tardes, fomos a uma escola onde as raparigas tinham aulas separadas dos rapazes. Aqui fizeram-nos mil e uma perguntas que para nós eram simples e aplicadas no dia-a-dia, mas para aquelas raparigas eram um quebra-cabeças. Elas nunca tinham visto outras raparigas europeias então tinham curiosidade em saber como vivíamos e o que gostávamos de fazer. Na brincadeira intitulávamo-nos de Rita Pereira da Palestina.

No último dia fomos com as crianças a uma piscina pública em Hebron, este foi o dia que mais me marcou pois nunca tinha presenciado a divisão de rapazes e raparigas, em que eles podiam ir para a água de calções e elas tiveram que ir de roupa completa. No entanto, as raparigas mais velhas tiveram que ficar numa piscina coberta, muitas nos perguntavam como era em Portugal e o que usávamos, sempre que lhes explicávamos elas ficavam surpreendidas.

É impossível traduzir por palavras tudo aquilo que vivi! Mas nesta experiência aplico a frase “Todos aqueles que passam por nós, não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Em breve quero lá voltar!

في قلبي (No meu coração)

A experiência da Mariana em Cabo Verde

O avião aterrou a quatro horas de casa, de Portugal, da Europa e do conforto que esta proporciona. A minha pátria é de facto, a língua Portuguesa e, Cabo Verde proporciona essa familiaridade que permite, por uns segundos, fechar os olhos e ser transportada para o aconchego do meu país, do meu primeiro mundo. Porém, a “ilusão” era curta e, rapidamente, me apercebia que estava num país que, apesar do elo histórico e linguístico, pouco tinha a ver com aquilo a que chamo casa.

Passei um mês em Cabo Verde, na ilha de São Vicente, a ensinar as crianças do Centro Juvenil da Ribeira da Craquinha. Romantizar aquilo que é o voluntariado internacional em África, aquilo que foi para mim, seria na minha opinião, uma perda de tempo. Foi um mês difícil. Porém, em retrospectiva, com um distanciamento de meses e quilómetros, esta experiência ensinou-me mais do que na altura realizei.

As aulas começavam às 9h, a chave para abrir o centro chegava às 9h30. Vinha com os compassos africanos, calmamente. As duas horas de trabalho da manhã eram, para mim, passadas com um aluno de 27 anos cujas dificuldades intelectuais não eram mais fortes que a vontade de prevalecer. À tarde, por duas horas com a professora Sara, dedicava-me às crianças do 1º e 3º ano. Cheios de perguntas, dúvidas, frustrações, abraços e carinhos. São os mais novos que mais nos abraçam enquanto voluntários, que nos fazem sentir em casa.

Contudo, após um mês longe de Portugal, de Lisboa, de amigos e família, percebi que a vida em Cabo Verde se desenrola de uma maneira diferente. Ou melhor, aceitei este facto, pois foi óbvio, desde início, que aqui os ritmos são diferentes, são africanos. O tempo permitiu aceitar, sem nunca deixar de ter os desafios que o tempo longe de casa oferece. Aceita-se que os cães, na rua, são de todos e de ninguém, que a água vem quando vier, que as crianças chegam quando chegarem, que, ali, longe do meu normal, os bebés adormecem ao som de funk brasileiro, que a diferença horária engloba também um mindset diferente.

A experiência da Rafaela na Indonésia

A ideia de fazer voluntariado internacional já era desejada há muito tempo, no entanto, apenas este ano tive a oportunidade de me candidatar a um projeto na Indonésia.
Desde sempre que a Indonésia me fascinava, a cultura, as pessoas e o país repleto de uma vasta natureza incrível. Em Outubro do ano passado, decidi candidatar-me a um projeto na Indonésia, Semarang, ilha de Java, na vila de Tegalrejo, para cuidar e ajudar as crianças que vivem numa zona de prostituição e que têm alguma falta de atenção por parte dos pais.
Quando me candidatei a este projeto, não sabia ao certo, onde ficava Tegalrejo, sabia que ficava perto de Semarang, as atividades eram também desconhecidas assim como o lugar onde iria passar as duas semanas do projeto. Com o aproximar dos dias da partida, fui recebendo a informação de todas as atividades que iriamos fazer com as crianças da vila. Ao chegar a Semarang, senti um choque cultural, logo no aeroporto. A ilha de Java é maioritariamente muçulmana, como tal, praticamente todas as mulheres utilizam Hijab (lenço a tapar a cabeça), quando aterrei, senti-me uma estranha num país diferente, que me fez questionar até o que vestia, umas calças de ganga e uma t-shirt e só pensava como seria em Tegalrejo.
Quando cheguei à sede da organização, que era o nosso ponto de encontro, o meu coordenador disse-me que iríamos viver com uma família de acolhimento, no entanto, eu ainda não sabia quais as condições da casa, nunca criei expectativas sobre nada e sinceramente eu estava preparada para tudo. Demoramos cerca de 2 horas para chegar a Tegalrejo, numa carrinha amarela, com mais 3 Japoneses, num dia de muito calor.

A carrinha parou num pátio e algumas crianças corriam na nossa direção, com curiosidade para saber quem seriam os novos voluntários. No primeiro dia, ficamos a conhecer a casa, onde iríamos ficar durante duas semanas. Era uma casa, diferente da minha, sem o típico conforto que temos na nossa casa, sinceramente, não fiquei surpreendida com as condições, pois eu imaginava que iria ser assim e eu fui à procura daquilo, eram aquelas experiências que me fizeram candidatar-me a este projeto. Todos os dias a Ibu (mãe em indonésio) pedia desculpa pelas condições que a casa tinha, mas que eram as únicas condições que ela tinha para dar, mesmo não falando a mesma língua, eu sabia que ela se esforçava para nos dar o melhor. Em duas semanas, eu nunca me queixei numa única vez daquelas condições, estava feliz por estar ali. Nesse mesmo dia, fomos conhecer o local, onde iríamos fazer o voluntariado.

Era um local com muitas crianças, algumas meigas e outras um bocadinho agressivas, porque o ambiente em que vivem, muitas delas, não é fácil. Aquilo que me chocou, foram as casas de karaoke, que são centenas, na vila. Essas mesmas casas, não passam de casas de prostituição e as crianças que eu cuidava e educava eram fruto desses ambientes. No segundo dia, ensinamos as crianças a lavar os dentes e, infelizmente, haviam crianças que com 10 anos nunca tinham escovado os dentes, muitas delas tinham escova de dentes e pasta de dentes em casa mas não sabia ao certo como utilizar, o menino que estava comigo, nesse dia, lavou os dentes umas 3 vezes seguidas e só não lavou mais porque eu não deixei, porque por ele, ficava a manhã inteira a lavar os dentes. Era notório na dentição daquelas crianças, algumas tinham os dentes pretos, outras mais velhas, já não tinham dentição.

Durante duas semanas, fizemos imensas atividades com aquelas crianças, fomos à piscina, fizemos uns puzzles em cartão com fotografias nossas, cozinhamos para elas, ensinávamos jogos, mas sobretudo partilhávamos muito afeto com aquelas crianças que tanto precisam de carinho. Numa dessas atividades, fomos a uma escola, mal abri o portão da escola e centenas de crianças correram na minha direção para me abraçarem ou para me dar a mão. Este foi um dos momentos mais emocionantes neste projeto. Nesse dia, tentei ensinar algumas palavras em português a uma turma do 4º ano. Esse dia irá ficar na minha memória para sempre, tal como tantos outros pelos os quais passei. Tive a oportunidade de celebrar, o dia da Independência da Indonésia, no campo de voluntariado. Os indonésios dão muita importância a este dia, em muitos locais da vila, eram feitas competições consoante a faixa etária e para cada vencedor havia uma recompensa, esse dia foi um dia de muitos risos e de muita alegria, acabando com uma festa numa mesquita que havia perto da nossa casa, onde fomos convidados a estar.

No meu último dia, senti que tinha dado o meu melhor àquelas crianças, que pelo menos, durante duas semanas, consegui tentar abstraí-las do ambiente em que vivem e mesmo sem falar o mesmo idioma aprendi tanto com aquelas crianças. O voluntariado para aquelas crianças é tudo o que elas de bom podem ter, somos nós que, por vezes, ensinamos o que está certo e o que está errado, tentando que cresçam a fazer as melhores escolhas, numa zona tão propicia a más escolhas. Fomos sempre muito bem recebidos pelos locais, a casa onde estava, tinha um alpendre que todos os dias estava repleto de crianças, que queriam brincar connosco. Nós, enquanto voluntários, nunca estamos à espera de nenhum retorno financeiro do nosso trabalho, nem mesmo que seja reconhecido. O maior retorno que eu tive foi o carinho e o amor que aquelas crianças me transmitiram durante aquelas duas semanas.


Saí de lá com a esperança que tenham um futuro melhor que o presente e tentei transmitir-lhes esperança, mesmo quando as coisas não correrem bem, que nunca desistam de nada e que se esforcem sempre, para alcançar os seus sonhos e objetivos, mesmo que aos olhos dos outros sejam impossíveis.
Quero agradecer à organização Para Onde?, por todo o apoio que me deu, desde a data de candidatura até à chegada e por toda a vossa preocupação. Enquanto eu estava no voluntariado, sempre preocupadas em saber como estava, se precisava de alguma coisa, tive o melhor apoio possível de vocês. Obrigado por proporcionarem estas experiências inesquecíveis e não tenham medo ou receio, custa partir mas quando se está em campo, tudo vale a pena.

A experiência da Catarina e da Patrícia na Alemanha

A decisão de fazer voluntariado internacional não era um sonho de longa data. Para dizer a verdade, achamos que o que sempre pautou a nossa amizade foram as decisões impulsivas, espontâneas, mas que de uma maneira ou de outra acabam sempre por trazer sentido à nossa vida. Por isso, lá decidimos nós que queríamos fazer voluntariado fora de Portugal, por nenhum motivo em especial, foi algo que se enquadra mais num “porque não?”.

Para selecionarmos o campo de voluntariado que queríamos tivemos em conta 4 aspetos: o custo, o tema, a duração e as datas. Para nós tinha sentido fazer voluntariado na Europa, uma vez que na maioria dos campos não tínhamos que pagar nem alojamento, nem alimentação e também porque os bilhetes de avião acabavam por ser mais baratos do que viajar para outro continente. Tínhamos um desejo enorme de fazer voluntariado, mas também sabíamos que se fosse para gastar mais dinheiro do que o necessário, que nos seria impossível concretizar esse desejo. Quanto ao tema, decidimos juntar a vontade de fazer algo relacionado com o ambiente (Catarina) com a componente social (Patrícia). A duração teria de ser aquela que mais se aproximava de 1 mês, pois queríamos aproveitar ao máximo a experiência e teria que ser no mês de agosto, uma vez que estivemos a trabalhar no mês de julho.

Percorremos a base de dados do SCI no site do Para Onde até encontrarmos o campo perfeito, aliás aquele que se tornaria o campo de voluntariado perfeito. Esse campo de código 7. 21 Berge que no início não nos dizia nada, mal sabíamos o impacto que teria e o carinho com que o guardaríamos no coração. Deparámo-nos com este campo que basicamente tinha a descrição de desenvolver atividades ecológicas com adolescentes que se encontravam no centro Jugendhof, em Berge (Brandenburg, Alemanha), em prol da sua reintegração na sociedade.

Depois de tratarmos de todos os aspetos logísticos, sempre muito bem acompanhadas pela equipa do Para Onde, restávamo-nos esperar para embarcar numa nova aventura a 6 de Agosto.
Chegámos a Berlim por volta das 12h do dia 6 de agosto, apanhámos um comboio para Nauen e daí um autocarro para Berge, uma vila extraordinária, devemos ter passado a viagem toda de autocarro grudadas à janela, completamente deslumbradas com a imensidão da natureza.
Assim que colocámos pé em terra, apercebemo-nos que tínhamos feito a viagem toda de autocarro com uma voluntária do campo, a Mesi que vinha da Hungria. Lá fomos as três em direção ao centro, onde a meio caminho encontrámos a Leonie, uma das nossas líderes, e depois sim, conhecemos o resto da nossa equipa: a Sarah (outra líder), a Alba (de Espanha), a Arzu e o Rizvan (do Azerbaijão), a Sasha (da Rússia) e, mais ao final do dia, o Jonas (de Taiwan).
O dia de chegada foi um dia de apresentações, tentar quebrar o gelo, conhecer aquela que seria a nossa casa por 18 dias.
O centro de Jugendhof tem 100 hectares, 5 casas e variados espaços para criação de animais, atividades com madeira, andar a cavalo, imensas árvores de fruto (em especial ameixieiras), grandes espaços verdes. Três das casas do centro são para os adolescentes, que por algum infortúnio se tiveram de separar das suas famílias. Não sabemos ao certo a situação de cada um dos 15 adolescentes que viviam no centro, sabemos que alguns estavam lá há 2 semanas e outros há 4 anos, mas que a média de permanência costuma ser 1 ano. Sabemos que alguns tiveram dificuldades com drogas e álcool, que apresentavam cortes nos braços e que tinham problemas do foro psicológico. No entanto, aquilo que melhor sabemos, é que nenhum deles foi desrespeitoso ou antipático, que todos nos fizeram sentir em casa, que de uma maneira ou de outra, o que eles mais ansiavam era alguém que lhes desse um pouco de atenção.
A quarta casa foi onde os rapazes do grupo de voluntariado permaneceram. Por fim, a quinta casa a que chamamos de edifício principal foi onde nós dormimos, acabava por ser a “casa dos voluntários”, mas, na realidade, era de toda a gente daquele centro.

O nosso horário de trabalho era de segunda a quinta das 8h às 15h30, sendo que tínhamos sexta, sábado e domingo como dias livres. No entanto, para dizer a verdade, o horário foi tudo menos rigoroso. O que se sucedeu é que, principalmente, na primeira semana, estava tanto calor, que os trabalhadores extremamente amáveis preocupavam-se que nos pudéssemos sentir mal e por isso, apenas tínhamos trabalho de manhã. Na segunda e terceira semanas, já tínhamos que desenvolver atividades à tarde, mas não existia aquele sentimento de ter que cumprir um horário ou que eramos obrigados a estar lá, tudo era realizado à base de iniciativa própria e fomos sempre muito bem tratados. Tínhamos quatro opções de atividades a desenvolver: podíamos estar com a Thea e alimentar os animais e depois juntarmo-nos ao grupo do Steffen e ajudar a construir cercas, podíamos trabalhar com madeira e construir bancos no grupo do Andreas, ou ajudar na cozinha e trabalhar com o Dirk. Todos estes grupos incluíam a ajuda dos adolescentes, que não eram obrigados a participar, mas que eram fortemente incentivados para tal.

Durante a primeira semana, nós ficámos com o grupo da Thea e do Steffen e ajudámos a contruir uma cerca. Na segunda semana fomos para a cozinha com o Dirk e ficámos tão rendidas que decidimos permanecer lá na terceira semana.

Todos os dias começavam com a reunião do grupo de voluntários para alguns exercícios matinais para ficarmos mais acordados. Depois, íamos todos juntos para o local de reflexão, onde toda a gente do centro se reunia para registar as presenças e falar do plano diário. Após isto, tomávamos o pequeno-almoço em conjunto, cada um ia para os seus projetos, às 12h era o almoço, a seguir voltávamos para os projetos e às 15h30 íamos para o local de reflexão onde cada um contava como tinha corrido o seu dia.

No tempo livre era comum realizarmos atividades com os adolescentes, mesmo que alguns não soubessem falar inglês (algo que entendemos rapidamente é que a língua não é de todo um impedimento para se criarem ligações entre pessoas), essas atividades tanto podiam ser jogos de tabuleiro, como jogos inventados por nós/eles, jogar futebol, voleibol, enfim, tudo o que nos fizesse chegar mais perto deles.

Na primeira sexta-feira aproveitámos para ir a Berlim, onde permanecemos o dia todo, fizemos uma walking tour, visitámos os recantos da cidade e até fomos a um bar de karaoke. No domingo fomos ao Mauerpark Flea Market, um mercado típico de Berlim, com um pouco de tudo, coisas novas, velhas, boa música e até karaoke!

A segunda semana na cozinha foi extraordinária, criámos uma ligação tão grande com a nossa equipa, em especial com o chefe e um adolescente que também lá estava. Desenvolvíamos atividades de ajudantes, cortávamos vegetais, limpávamos a sala e a cozinha, sempre ao som da rádio e com um grande sorriso nos lábios. Gostámos tanto que repetimos na terceira semana.

À noite, nós (o grupo de voluntários) tínhamos de cozinhar o nosso jantar, onde aproveitávamos para nos conhecermos melhor, o que se notava de dia para dia. Tínhamos também algumas tarefas diárias, como limpar a cozinha, cozinhar, dar a comida aos porcos, tudo o necessário para que a nossa estadia corresse pelo melhor.

Quanto ao alojamento, as raparigas ficavam no edifício principal dividas entre dois quartos, onde dormíamos num saco de cama em divãs. Os duches eram no exterior em casinhas de madeira. Não temos qualquer razão de queixa, íamos com o espirito de voluntárias que não tinham expetativas de grandes condições, pelo que absolutamente nada nos desiludiu, pelo contrário até nos surpreendeu.

No segundo fim-de-semana visitámos Potsdam, uma cidade perto de Berlim, e fomos a uma piscina com alguns dos adolescentes.

No dia 23 de agosto, último dia antes da nossa partida, foi um dia de despedidas de todas as pessoas extraordinárias que nos receberam de braços abertos. Foi incrível perceber que tínhamos tocado no coração de alguns adolescentes, que vinham até nós dar-nos abraços calorosos de quem não nos quer ver partir.

O que nós podemos dizer é que este testemunho não faz jus àquilo que vivemos, que não representa nem 1/10 do que experienciámos, mas é por isso mesmo que o nosso conselho é que vão! Vão e experienciem por vós mesmos, seja na Alemanha, seja noutro sítio qualquer, porque acreditem que vos muda, que no fim não querem ir embora, que parece que ganham outra família, completamente internacional.

Aquela que foi uma decisão impulsiva acabou por nos fazer querer repetir a experiência por muitos mais anos e poder encher o coração de novo da forma que só o voluntariado consegue.