A experiência da Vera em Santo Antão, Cabo Verde

Ora.. vamos lá falar de uma das coisas que, para mim, fazia mais que sentido realizar na minha vida: era fazer voluntariado. Foram apenas 2 semanas, mas foram 2 semanas em que todos os dias foram intensos e todos eles vividos de forma especial. Eu tive a sorte de poder juntar duas das coisas que eu queria mesmo fazer: conhecer Cabo Verde e fazer voluntariado com crianças. Já faz algum tempo que esse desejo começou a estar presente na minha cabeça, mas nessa altura tudo parecia tão longínquo e impossível de ser realizado. Passou a ser um dos meus sonhos que eu queria mesmo realizar de qualquer forma e, essa oportunidade finalmente apareceu. Cabo Verde é um país encantador, com pessoas maravilhosas, bonitas e simples, lá elas fazem com que tudo pareça tão fácil. Foi uma viagem que me marcou, especialmente por me ter cruzado com pessoas tão boas, genuínas e com um coração de ouro. Já estava tudo a ser tão bom, até que conheci os idosos e as crianças que durante essas 2 semanas eu ia acompanhar e aí é que fiquei completamente apaixonada, gostava de os ter trazido a todos. Eu sou completamente apaixonada por crianças, porque para mim elas são a representação física do que eu entendo por amor e autenticidade. Elas são exactamente o que o mundo precisa, são portadoras de uma extrema sabedoria, mesmo sem saberem. Fizemos muitas actividades com os idosos e miúdos, foi uma experiência super positiva tanto para mim como para eles evidentemente, mas com isso sinto que aprimorei o meu lado criativo.

O facto de estar todos os dias com eles a brincar, fez-me reviver muitos momentos da minha infância e isso trouxe-me muita alegria. O impactante desta viagem foi ter-me permitido percepcionar o mundo de uma forma diferente, aquilo é uma realidade crua aos meus olhos, mas por outro é uma realidade que enche o coração e que me faz ter muita esperança no futuro. Trago muitas recordações no meu coração e muitas pessoas que fizeram os meus dias valerem a pena, e não trocava nada pelo que passei, foi incrível. Gostava que este testemunho não fosse apenas um testemunho, que pudesse servir para alguém que tenha este bichinho de fazer o bem sem saber a quem, que impulsionasse alguém a fazê-lo. Sinto que todos nós temos algo para partilhar, que todos somos missionários nesta vida, que estamos no mundo com um propósito e eu vou continuar a espalhar o meu por qualquer lado que passe.
Vera Costa, Cabo Verde 2019

A experiência da Patrícia no Tarrafal

Um dia li que a “saudade é o amor que fica” e sabia que em algum momento da minha vida esta frase ia fazer mais sentido do que nunca. Eis o momento. Fazer voluntariado é uma das muitas formas do amor. De dar e de receber. E é sobretudo isto que podes esperar do Tarrafal e que o Tarrafal espera de ti. AMOR às 07h30 da manhã enquanto esperas pelo carro rodeado das crianças do jardim que depois de uma noite bem dormida chegam com a energia que com a tua idade já não vais conseguir ter, AMOR às 09h30 quando os meninos da escola enchem a sala de estudos com inúmeros trabalhos de casa e sem material escolar para os conseguir fazer, AMOR à hora de almoço quando passas no mercado, no tatá ou no parque das merendas para decidires que comida ainda não estás assim tão farto de comer, AMOR às 15h quando estás na Delta e tens que cantar e dançar porque sabes que isso os vai envolver, AMOR quando voltas para casa e encontras na rua as pessoas que já estás habituado a ver, AMOR enquanto descansas e sentes que foi mais um dia a valer. AMOR, AMOR, AMOR!! E em dois meses é isto que fica naqueles com que te cruzaste e sobretudo é isto que fica em ti. E se ainda estás com vontade de me perguntar se vale a pena só te posso dizer que tudo é uma questão do quanto tu amas e se achares que não dominas este dom de amar, vai e aprende. 

Eu sou a Patricia Bronze e tenho o Tarrafal a dançar no meu coração.

A experiência da Anabela na Guatemala

Passaram-se 3 semanas desde que voltei de Momos (o nome com que muito carinho dão à vila de Momostenango, onde se situa a clínica). Mas só agora consegui escrever este texto. Não por ter sido uma experiência negativa, muito pelo contrário, foi uma das minhas melhores aventuras. Queria tanto que este texto fosse perfeito para poder cativar as pessoas a participarem neste projecto. Mas apercebi-me que será sempre impossível por em palavras o que vivi lá. Só vivendo é que se consegue perceber a magia daquele cantinho no meio do nada. Em termos profissionais, esta aventura foi uma lufada de ar fresco, voltei de lá como uma enfermeira nova. Os meus pacientes foram incríveis e lembraram-me porque gosto tanto desta profissão. Ninguém quer saber quantos mestrados, doutoramentos ou formações temos, qual a nossa idade ou qual a nossa experiência profissional. Estão simplesmente agradecidos por estarmos lá, por partilharmos um bocadinho do nosso conhecimento com eles. A experiência que aquelas pessoas têm com os profissionais de saúde não é a melhor; estão habituados a serem mal tratados ou simplesmente ignorados. Ficavam surpreendidos quando os tratávamos com carinho e nos riamos com eles. Foi incrível poder partilhar aquilo em que acredito como enfermeira: que independentemente do sexo, nacionalidade ou condição econômica, todos devem ser tratados com respeito e simpatia.

Para além de que adquiri imensos conhecimentos devido aos casos clínicos que só naquelas condições seria possível. A nível pessoal cresci muito, não só com as pessoas locais, mas também com os meus colegas. Os guatemaltecos transmitem uma energia positiva incrível. Não sei se devido a todas as crenças que tem, às imensas cores que têm orgulho de expor por todo lado ou aos sorrisos mágicos que dão a qualquer um que passa na rua. Não há racismo ou estereótipos. As crianças não têm medo porque a nossa cor de pele é diferente ou porque falamos um espanhol estranho. Pelo contrário, sentem uma atração ainda maior pelo desconhecido. Os guatemaltecos nunca nos discriminaram porque éramos de uma raça diferente ou por estarmos a invadir o seu país. Sempre nos receberam com muito carinho e simpatia. Ensinaram-me que mesmo nas piores situações, quer sejam econômicas ou de saúde, a tristeza nunca ajuda e que energia positiva só atrai coisas boas. Esta foi uma experiência mágica que sem dúvida quero repetir. Para terminar , quero só partilhar o medo imenso que tive antes de ir, que também tive o pensamento “será mesmo que devo ir?”, que nos dias anteriores estava muito ansiosa sobre como seria. Nem tudo foi um mar de rosas e tive muitos momentos difíceis. No entanto, todos valeram a pena e aprendi que o medo de não viver a minha vida e concretizar estes sonhos será sempre maior que o medo de abraçar estas aventuras. Sinceramente, muito obrigado Para Onde, vou guardar esta experiência com muito carinho.

A experiência da Sara em Hong Kong

Chegar a Hong Kong, é perder-me com a dimensão dos edifícios, com a beleza do Victoria Harbour, é sorrir muito muito, é não ficar indiferente.

É justamente pegar nesses sentimentos e em conjunto com os voluntários de Itália, Rússia, Nepal, Tailândia e Sri Lanka ir para as escolas contar histórias sobre os nossos países.

Não, eles não sabiam onde ficava Portugal no mapa. Já ouviram falar de Espanha, alguns não sabem quem é o Cristiano Ronaldo, mas por outro lado adoram pastéis de Nata e sabem onde é Macau.

Tive que lhes contar que Portugal e Espanha são dois irmãos, que um dia um senhor chamado Afonso Henriques ficou cansado de viver no mesmo quarto que o irmão espanhol, foi viver para outro quarto. Isso fez com que ele aprendesse a falar outra língua, o português, mas que ao mesmo tempo continuasse a falar espanhol. Quando alguém lhe chamava de espanhol, ele ficava muito chateado, porque ainda que fossem irmãos, são diferentes e ninguém gosta ser chamado pelo nome do irmão.

Hong Kong trouxe também muitas gargalhadas mas também trouxe mais compreensão, tolerância e respeito, substantivos muito bonitos de se lerem mais nem sempre fáceis de se concretizarem. É preciso desistir daquilo que queremos para nós, deixar que outros tomem controlo das nossas rotinas e façam uso do nosso tempo. Não é fácil, mas por duas semanas fazemos esse esforço com a melhor cara e de espírito aberto.

Se vale a pena? Fernando Pessoa dizia na sua obra Mensagem que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e sabem que mais? Tinha razão.

Porque estas pessoas para além de terem aprendido mais sobre o nosso país, também foram incentivadas a fazer voluntariado para serem melhores pessoas, e em retorno ensinaram-me mais sobre a língua e cultura deles.

Saí de Coração Cheio. Saí com a promessa de um dia voltar.

多謝 (duōxiè – Obrigada em Cantonês)

A experiência da Cris em S. Vicente

Olá! Eu sou a Cristina e tenho 25 anos. Decidi fazer voluntariado em Cabo Verde na ilha de São Vicente, e se soubesse que ia ser o que foi não teria ficado apenas um mês! Foi uma experiência muitoooo boa! Comer peixinho do bom quase todos os dias, lidar com pessoas tão simples e tão tranquilas, conhecer os voluntários locais e portugueses que estavam na mesma aventura que eu, aliás foi com eles que vivi durante um mês. Criaram-se óptimas amizades!

Todos os dias havia um menino que ia para o centro mas que fazia questão de parar pelo caminho em nossa casa para tocar à campainha e dar-nos os bons dias. Sendo que, apenas dez minutos depois, iríamos estar juntos na associação. São pequenas coisas que tornam a experiência tão mágica. Gostei muito de conviver com estas crianças,  elas são tão boas, é abraços e beijinhos tudo o que eu gosto eheh. Depois estão sempre a tocar nos cabelos e, quando damos conta, já temos trancinhas pelo cabelo todo. Aquelas meninas tão meigas e aqueles rapazes tão rebeldes, mas todos perfeitos. Não esquecerei nenhum sorriso. Fiquei muito grata pela experiência e só tenho a agradecer ao Para Onde. Voltarei um dia. São Vicente no meu ♡

A Experiência da Beatriz na Islândia

Chamo-me Beatriz Vitorino e fiz voluntariado de curta duração na Islândia. Durante o processo pré-viagem fui extremamente bem acompanhada, foram-me esclarecidas todas as dúvidas e houve sempre disponibilidade para que fossem colocadas as mesmas. Foi inclusivamente dado o contacto de outros ex-voluntários para que pudesse contacta-los o que foi muito útil! Integrei um “learning camp” o que se traduz por um campo em que não há trabalho voluntário mas sim aprendizagem sobre um tema e partilha. No meu caso o campo era sobre fotografia e tinha um professor de fotografia Belga que nos lecionava workshops.

Durante o campo de voluntariado devo realçar a oportunidade e preocupação que a associação tem, para com os voluntários, no sentido em que nos são disponibilizadas excursões que podemos integrar para conhecer e explorar a ilha. Poder conhecer a ilha foi de facto importante para poder pôr em prática os conhecimentos adquiridos nos workshops sobre fotografia. Noto que o objetivo da associação é promover a multiculturalidade, no meu projecto estavam envolvidas 12 pessoas de 9 nacionalidade diferentes. Somos incentivados à partilha e tolerância uns com os outros! Durante o campo fui contactada várias vezes pelo “Para Onde?” para que pudesse dar feedback acerca de como estava a progredir a experiência. Fui muito bem acompanhada! Em jeito de balanço final posso dizer que gostei muito e foi um excelente oportunidade de aprendizagem! Aconselho Irem! :D

A experiência da Cristina no Brasil

Olá, sou a Cristina, a ideia de fazer voluntariado internacional era uma coisa que sempre quis fazer. Confesso que para mim torna-se muito difícil resumir em palavras o turbilhão de emoções que estou a sentir neste momento, são diversas as aprendizagens, as experiências e as lembranças.

Para quem está a ler o meu testemunho e nunca teve uma experiência como eu tive, arrisquem, façam voluntariado internacional, pois provavelmente será algo que farão apenas uma vez nas vossas vidas. Na minha opinião se todos nós tivéssemos esta oportunidade talvez seríamos menos descomplicados e teríamos outra visão mais realista do mundo, pois sair da nossa realidade, da nossa zona de conforto e puder conhecer e vivenciar outras realidades, leva-nos a valorizar as pequenas coisas, que por vezes para nós são problemas e na verdade não o são.

Comecei 2019 em grande, 8 de Janeiro de 2019 o grande dia chegou, a felicidade e o receio de partir para tão longe da minha zona de conforto e sozinha, era assustador, pois deixei tudo para trás, e apenas fui. Mas voluntariado é isso é arriscar, é ser aventureiro, e hoje digo-vos foi a melhor aventura da minha vida e voltaria a repetir sem dúvida alguma.

Após um dia de viagem de mochila às costas com apenas o necessário, o cansaço, a ansiedade e o receio era cada vez mais notório, cheguei a Arraial d´Ajuda onde iria ficar 1 mês.

No meu primeiro dia na Associação fui recebida da melhor forma, conheci as coordenadoras da Associação, que são uns amores. A simpatia do povo brasileiro, em geral, é impossível não nos fazer sentir em casa deixaram-me muito a vontade para fazer e perguntar o que quisesse e fez com que sentisse que fazia parte também da família, que é a Associação Filhos do Céu.

A AFC é uma associação com crianças e jovens dos 0 aos 18 anos, mais de 130 no total, com o objetivo de promover a educação e bem-estar das crianças e adolescentes de Arraial d’Ajuda, no estado da Bahia, Brasil. Muitas estão a tempo inteiro na creche, outras vão ao espaço para participarem numa grande variedade de atividades: capoeira, Inglês, jiu jitsu, reforço escolar, artesanato, artes (origami, colagem, pintura, reciclagem…), brinquedoteca, biblioteca, leitura, conhecimentos gerais. A AFC situa-se no Bairro de São Pedro um dos bairros mais carenciados de Arraial D´Ajuda, onde a mesma faz um trabalho incrível, onde são transmitidos valores, no sentido de mudar o Mundo aos poucos, começando por exemplo, pelo nosso bairro, a nossa região, uma vez que é claramente visível a existência de uma desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar de outra forma senão pela corrupção e/ou actividades ilegais.

Como explicar toda aquela simplicidade? É uma felicidade fácil que só se sente e não se explica O meu quotidiano durante 1 mês foi trabalhar maioritariamente com as crianças da creche. O trabalho com os miúdos foi incrível, muito cansativo, mas muito gratificante. Cada criança que conheci tem a sua história, e mais que ensinar, aprendi muito com cada um deles. Uma dessas aprendizagens foi que o ser humano para ser feliz não precisa de muito, a felicidade está nos pequenos gestos e não se explica sente-se.

Cada sorriso, cada gargalhada, cada abraço e cada beijo daquelas crianças são o retrato e a imagem do povo brasileiro que transporto comigo para todo o lado.

É cliché afirmar-se que o voluntariado é muitos mais que dar e receber, mas é verdade, e todos os dias tinha a prova disso, quando chegava a AFC e as crianças corriam ao meu encontro e me abraçavam por ter chegado, enche-nos o coração de facto.

Um mês parece muito, mas não é, e sei que nesse mesmo mês não consegui mudar o mundo, não o consegui tornar mais justo, mas tenho a certeza que como estas crianças conseguiram mudar a minha vida para sempre eu ajudei a que elas estivessem um mês diferente e deixei a minha “marca”. Restam as saudades, as memórias maravilhosas, os laços criados e fica o desejo gigantesco de voltar.

Quero agradecer ao “Para Onde”, pela oportunidade maravilhosa de realizar um dos meus sonhos, e à família AFC, que tive a sorte de conhecer, obrigada por tudo, por todo o carinho, os sorrisos, as histórias.

A Experiência da Rita em Itália

Em conversa com uma amiga, percebemos as duas que nada melhor que o voluntariado para sair daqui e fazer algo que nos preenchesse realmente. 

Verão de 2018, estava desempregada e procurava alguma coisa que me fizesse sentir realizada. Queria viajar durante algum tempo, mas não podia gastar muito dinheiro. Não queria só as típicas férias de verão, até porque “férias” já eu tinha a mais. 

Pesquisei várias associações e foi aí que encontrei o Para Onde. Havia imensos destinos à escolha e programas de curta ou longa duração, com projetos ligados a todo o tipo de causas. Difícil foi escolher… 

Comecei a procurar só na Europa, até porque os custos da viagem não estão incluídos, e foi assim que descobri um campo de férias, em Bérgamo (Itália), com um grupo de crianças refugiadas do Sahara Ocidental.  

Precisavam de voluntários para organizar atividades lúdicas e visitas na região, para que os mais pequenos pudessem desfrutar de um verão agradável, longe do calor do deserto. 

O grupo de nove crianças passou mais de um mês em vários locais de Itália, onde receberam cuidados médicos e muito amor. 

Arrisquei, fiz a candidatura juntamente com a minha amiga, e foi assim que começaram as duas semanas mais felizes do meu verão.

Mal chegamos, conhecemos vários voluntários de Itália, da associação Mauja Sahrawi, que luta para que a região do Sahara seja livre, e para que estas crianças e as suas famílias deixem de viver na incerteza, entre campos de refugiados. 

Chegaram, ainda, mais duas voluntárias internacionais, uma da Sérvia e outra do México.

Ficamos a viver nas instalações de uma escola, onde tínhamos todas as condições básicas que precisávamos, e até tivemos direito a um cozinheiro que nos fazia os melhores pratos italianos (que é só a minha comida favorita do planeta…) 

Fomos tão bem recebidas por todos e partilhámos tantas horas do dia juntos que, rapidamente, acabamos por nos sentir uma verdadeira família. Falávamos italiano, espanhol, português, inglês e até árabe, por vezes tudo na mesma conversa (no final dei por mim a falar para a minha amiga em todas as línguas menos a nossa, de tão baralhadas que ficávamos…) 

As próprias crianças, que só sabiam árabe, acabaram por nos ensinar algumas expressões e aprenderam também um bocadinho de italiano. Ao inicio foi um desafio comunicar com elas, mas percebemos que nem sempre eram precisas palavras. 

Aqueles miúdos, que vivem uma realidade tão diferente da nossa durante o resto do ano, mostraram-nos que podem sim ser felizes com o mínimo. Ver o entusiasmo delas a comer uma pizza ou um gelado, a brincar com os animais, ou a tomar banho no chafariz no meio da rua, e perceber o quão generosos eram connosco foi o melhor de toda a experiência. 

Partilhavam tudo connosco, todos os dias nos agradeciam com um sorriso (nem que fosse por lhes dar a mão a atravessar a rua ou apertar um cordão), e tinham sempre um abraço e um beijo para nos dar. 

As meninas, cada vez que nos viam a arranjar de manhã, faziam questão de dizer o quão bonitas éramos (mesmo que tivéssemos dormido uma hora e com olheiras até ao chão) e o quanto gostavam da nossa roupa ou do nosso cabelo. “Bella” e “grazie” eram as palavras que mais vezes ouvimos. 

Gestos tão simples, que na correria da nossa vida nos passam ao lado, mas que tem o poder de transformar qualquer dia. 

Se alguma vez ponderarem fazer voluntariado e tiverem essa oportunidade, não hesitem e façam a mala. Mesmo que vão sozinhos, garanto-vos que vão sair de lá com o coração cheio e com memórias para a vida.

A Experiência da Sofia em Cabo Verde

Demorei para conseguir escrever este texto. É que estas missões deixam-nos assim. Do avesso. Com as emoções à flor da pele.

O meu mês de Novembro foi passado no pequeno paraíso a que os São Vicentinos têm o prazer de chamar de casa, e que, embora a minha estadia lá tenha sido curta, já me sinto no direito de lhes roubar um pouco dela. Afinal, a nossa casa é onde habita o nosso coração, não é? Uma parte do meu habita agora lá.
Desde o momento em que aterrei em São Vicente e pus os pés fora do avião que me apaixonei por aquela ilha. É que o ar de São Vicente é abafado, tão quente quanto os corações dos que nele habitam. No bom criolo, Son Cent é sab! Sab pra caga!!! E sente-se em todos os cantos! Transborda energia positiva e boas vibrações através de sorrisos calorosos, gestos simples e ações genuínas. E tudo é vivido com muito calma… “Nô stress” é a resposta! “Suav na Nav” era o lema da nossa casa. Com eles aprendi a viver devagarinho. A vida devagarinho tem outra beleza, que nos passa ao lado quando temos pressa de viver.
Durante esse mês dividi o meu tempo entre o Espaço Jovem da Ribeira de Craquinha e da Pedra Rolada. Espaços diferentes com crianças com necessidades e contextos diferentes, mas a ternura, os sorrisos, a pureza das
suas almas e a vontade de aprender era a mesma. Em ambos os centros dei apoio escolar, acompanhei crianças com necessidades reforçadas, participei em dinâmicas educativas e dei aulas de inglês aos mais crescidos. Os cabo verdianos são um povo muito quente, muito físico, muito do toque e as suas crianças não são excepção… Enfim, não sabem estar quietas! Estou a falar de crianças que, para serem afastadas das ruas, passam os seus dias em salas de aulas. De manhã têm aulas. À tarde, explicações. Se não tem aulas de manhã, tem explicações à tarde. E ao final da tarde, depois do sol se pôr, algumas ainda caminham a pé para mais uma hora de aula de inglês. Muitas vão com fome para o centro. Muitas outras sabemos que não têm a estrutura familiar que precisam E MERECEM…


Admito que fui para São Vicente com expectativas irrealistas e, por vezes, me senti frustada por sentir que não estava a conseguir fazer tudo o que pretendia e principalmente o que achava justo. O que achava que aquelas crianças mereciam e, por isso, muitas vezes terminei o dia a questionar-me sobre qual a verdadeira diferença que estava a fazer nas suas vidas. Até reler uma citação que tinha anotado antes de partir da Madre Teresa de Calcutá: “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”
Posso não ter enchido o mar de São Vicente, transformado vidas, mudado o mundo, mas sei que deixei a minha gota. Conseguem imaginar a dimensão desse mar se todos deixássemos a nossa gota?!
Aprendi tanto durante este mês.

Com os pequenos heróis que acompanhei, e que me aqueceram o coração com os sorrisos mais doces e os abraços mais apertados, aprendi a valorizar ainda mais os pequenos grandes gestos. Os que valem realmente a pena. Não me irei esquecer das flores matinais, do caminho de mãos dadas para o centro, dos jogos de futebol, dos momentos divertidos que criámos juntos que acabaram sendo momentos de aprendizagem, das cartas e dos desenhos onde me chamavam de professora (e eu gostava tanto!).
Aprendi muito também com os voluntários e elementos da comunidade que fazem estes projectos acontecerem e com quem tive o prazer de trabalhar e de hoje chamar de amigos.
Voltar a Portugal não foi fácil. De repente aquilo que já tinha virado rotina, aquelas pessoas que me acolheram como se fosse ficar para sempre já não estavam mais lá. E custa. Mas é porque o sentimento foi puro, foi genuíno. Fiz as amizades mais bonitas e mais descomplicadas em São Vicente. Agora entendo a Cesária. Sinto a sua “sôdade”. Sôdade de quem lá deixei e sôdade de quem lá era. Uma versão mais simples, mais livre e mais pura de mim, que vou cultivar e regar para não perder mais.
É humana, a maior riqueza de Cabo Verde.
Obrigada Son Cent, nha cretcheu *


A Experiência da Diana em Itália

Em Setembro deste ano resolvi embarcar na minha primeira experiência de voluntariado internacional. O destino era a Città dell´Utopia em Roma. Pensei várias vezes se deveria fazê-lo, seria a altura certa? Seria o projeto ideal? Confesso que tinha algum receio, mas felizmente a vontade de participar numa experiência diferente e em algo que fizesse sentido foram mais fortes. E lá fui eu com destino a Roma. A Città dell´Utopia está localizada nos arredores de Roma, e trata-se de uma oficina cultural e social, na qual são desenvolvidas um conjunto de atividades que permite unir toda a comunidade, apesar das diferenças. Também acolhe temporariamente pessoas que estejam a precisar de abrigo e ajuda. O projeto no qual ia participar tinha a duração de uma semana e tinha como tema o Yoga como estilo de vida. As atividades tinham como base as aulas de Yoga, mas também a manutenção e o melhoramento das condições das instalações da instituição. Participamos nos trabalhos de manutenção do jardim e limpeza e organização dos espaços comuns da casa. Mas mais importante do que o contributo que demos para este projeto, foi tudo o que aprendemos para evoluirmos e para sermos melhores pessoas nas nossas vidas e para com os outros. As aulas de yoga foram extremamente ricas, porque mais do que posições e técnicas de respiração, aprendemos a sentir mais e a sermos nós próprios sem medos. Aprendemos que devemos viver o momento, sem ansiedade e a ser gratos por tudo o que nos acontece, o bom, que nos deixa feliz e o mau porque nos permite crescer e evoluir. E que podemos sempre recomeçar independentemente do momento em que nos encontramos.

Para além disso foi absolutamente fantástica a oportunidade de aprender a viver em comunidade, com pessoas de diferentes nacionalidades, como Áustria, Itália, Rússia, Coreia do Sul, etc. a dormir em camaratas, a cozinhar refeições para todo o grupo com um orçamento reduzido, o que apelava à nossa criatividade e capacidade de improviso constantes. A comunicação também era um desafio, pois as aulas eram em italiano e entre todos os voluntários era o inglês que dominava. Tive a sorte de ter comigo outra voluntária portuguesa, a Inês, a participar neste projeto a quem agradeço toda a camaradagem e ajuda durante esta semana. Se em algum momento tiverem dúvidas em participar num projeto deste género, digo: vão, mesmo com medo e com borboletas na barriga, porque vale muito a pena. Independentemente da cultura, do projeto, da idade (havia um voluntário na casa dos 50 anos a participar), arrisquem, coloquem-se fora  da vossa zona de conforto. Porque por mais que possam dar, vão receber muito mais e vão regressar às vossas casas e às vossas vidas muito mais ricos do que quando partiram.