A experiência da Rafaela na Indonésia

A ideia de fazer voluntariado internacional já era desejada há muito tempo, no entanto, apenas este ano tive a oportunidade de me candidatar a um projeto na Indonésia.
Desde sempre que a Indonésia me fascinava, a cultura, as pessoas e o país repleto de uma vasta natureza incrível. Em Outubro do ano passado, decidi candidatar-me a um projeto na Indonésia, Semarang, ilha de Java, na vila de Tegalrejo, para cuidar e ajudar as crianças que vivem numa zona de prostituição e que têm alguma falta de atenção por parte dos pais.
Quando me candidatei a este projeto, não sabia ao certo, onde ficava Tegalrejo, sabia que ficava perto de Semarang, as atividades eram também desconhecidas assim como o lugar onde iria passar as duas semanas do projeto. Com o aproximar dos dias da partida, fui recebendo a informação de todas as atividades que iriamos fazer com as crianças da vila. Ao chegar a Semarang, senti um choque cultural, logo no aeroporto. A ilha de Java é maioritariamente muçulmana, como tal, praticamente todas as mulheres utilizam Hijab (lenço a tapar a cabeça), quando aterrei, senti-me uma estranha num país diferente, que me fez questionar até o que vestia, umas calças de ganga e uma t-shirt e só pensava como seria em Tegalrejo.
Quando cheguei à sede da organização, que era o nosso ponto de encontro, o meu coordenador disse-me que iríamos viver com uma família de acolhimento, no entanto, eu ainda não sabia quais as condições da casa, nunca criei expectativas sobre nada e sinceramente eu estava preparada para tudo. Demoramos cerca de 2 horas para chegar a Tegalrejo, numa carrinha amarela, com mais 3 Japoneses, num dia de muito calor.

A carrinha parou num pátio e algumas crianças corriam na nossa direção, com curiosidade para saber quem seriam os novos voluntários. No primeiro dia, ficamos a conhecer a casa, onde iríamos ficar durante duas semanas. Era uma casa, diferente da minha, sem o típico conforto que temos na nossa casa, sinceramente, não fiquei surpreendida com as condições, pois eu imaginava que iria ser assim e eu fui à procura daquilo, eram aquelas experiências que me fizeram candidatar-me a este projeto. Todos os dias a Ibu (mãe em indonésio) pedia desculpa pelas condições que a casa tinha, mas que eram as únicas condições que ela tinha para dar, mesmo não falando a mesma língua, eu sabia que ela se esforçava para nos dar o melhor. Em duas semanas, eu nunca me queixei numa única vez daquelas condições, estava feliz por estar ali. Nesse mesmo dia, fomos conhecer o local, onde iríamos fazer o voluntariado.

Era um local com muitas crianças, algumas meigas e outras um bocadinho agressivas, porque o ambiente em que vivem, muitas delas, não é fácil. Aquilo que me chocou, foram as casas de karaoke, que são centenas, na vila. Essas mesmas casas, não passam de casas de prostituição e as crianças que eu cuidava e educava eram fruto desses ambientes. No segundo dia, ensinamos as crianças a lavar os dentes e, infelizmente, haviam crianças que com 10 anos nunca tinham escovado os dentes, muitas delas tinham escova de dentes e pasta de dentes em casa mas não sabia ao certo como utilizar, o menino que estava comigo, nesse dia, lavou os dentes umas 3 vezes seguidas e só não lavou mais porque eu não deixei, porque por ele, ficava a manhã inteira a lavar os dentes. Era notório na dentição daquelas crianças, algumas tinham os dentes pretos, outras mais velhas, já não tinham dentição.

Durante duas semanas, fizemos imensas atividades com aquelas crianças, fomos à piscina, fizemos uns puzzles em cartão com fotografias nossas, cozinhamos para elas, ensinávamos jogos, mas sobretudo partilhávamos muito afeto com aquelas crianças que tanto precisam de carinho. Numa dessas atividades, fomos a uma escola, mal abri o portão da escola e centenas de crianças correram na minha direção para me abraçarem ou para me dar a mão. Este foi um dos momentos mais emocionantes neste projeto. Nesse dia, tentei ensinar algumas palavras em português a uma turma do 4º ano. Esse dia irá ficar na minha memória para sempre, tal como tantos outros pelos os quais passei. Tive a oportunidade de celebrar, o dia da Independência da Indonésia, no campo de voluntariado. Os indonésios dão muita importância a este dia, em muitos locais da vila, eram feitas competições consoante a faixa etária e para cada vencedor havia uma recompensa, esse dia foi um dia de muitos risos e de muita alegria, acabando com uma festa numa mesquita que havia perto da nossa casa, onde fomos convidados a estar.

No meu último dia, senti que tinha dado o meu melhor àquelas crianças, que pelo menos, durante duas semanas, consegui tentar abstraí-las do ambiente em que vivem e mesmo sem falar o mesmo idioma aprendi tanto com aquelas crianças. O voluntariado para aquelas crianças é tudo o que elas de bom podem ter, somos nós que, por vezes, ensinamos o que está certo e o que está errado, tentando que cresçam a fazer as melhores escolhas, numa zona tão propicia a más escolhas. Fomos sempre muito bem recebidos pelos locais, a casa onde estava, tinha um alpendre que todos os dias estava repleto de crianças, que queriam brincar connosco. Nós, enquanto voluntários, nunca estamos à espera de nenhum retorno financeiro do nosso trabalho, nem mesmo que seja reconhecido. O maior retorno que eu tive foi o carinho e o amor que aquelas crianças me transmitiram durante aquelas duas semanas.


Saí de lá com a esperança que tenham um futuro melhor que o presente e tentei transmitir-lhes esperança, mesmo quando as coisas não correrem bem, que nunca desistam de nada e que se esforcem sempre, para alcançar os seus sonhos e objetivos, mesmo que aos olhos dos outros sejam impossíveis.
Quero agradecer à organização Para Onde?, por todo o apoio que me deu, desde a data de candidatura até à chegada e por toda a vossa preocupação. Enquanto eu estava no voluntariado, sempre preocupadas em saber como estava, se precisava de alguma coisa, tive o melhor apoio possível de vocês. Obrigado por proporcionarem estas experiências inesquecíveis e não tenham medo ou receio, custa partir mas quando se está em campo, tudo vale a pena.

A experiência da Catarina e da Patrícia na Alemanha

A decisão de fazer voluntariado internacional não era um sonho de longa data. Para dizer a verdade, achamos que o que sempre pautou a nossa amizade foram as decisões impulsivas, espontâneas, mas que de uma maneira ou de outra acabam sempre por trazer sentido à nossa vida. Por isso, lá decidimos nós que queríamos fazer voluntariado fora de Portugal, por nenhum motivo em especial, foi algo que se enquadra mais num “porque não?”.

Para selecionarmos o campo de voluntariado que queríamos tivemos em conta 4 aspetos: o custo, o tema, a duração e as datas. Para nós tinha sentido fazer voluntariado na Europa, uma vez que na maioria dos campos não tínhamos que pagar nem alojamento, nem alimentação e também porque os bilhetes de avião acabavam por ser mais baratos do que viajar para outro continente. Tínhamos um desejo enorme de fazer voluntariado, mas também sabíamos que se fosse para gastar mais dinheiro do que o necessário, que nos seria impossível concretizar esse desejo. Quanto ao tema, decidimos juntar a vontade de fazer algo relacionado com o ambiente (Catarina) com a componente social (Patrícia). A duração teria de ser aquela que mais se aproximava de 1 mês, pois queríamos aproveitar ao máximo a experiência e teria que ser no mês de agosto, uma vez que estivemos a trabalhar no mês de julho.

Percorremos a base de dados do SCI no site do Para Onde até encontrarmos o campo perfeito, aliás aquele que se tornaria o campo de voluntariado perfeito. Esse campo de código 7. 21 Berge que no início não nos dizia nada, mal sabíamos o impacto que teria e o carinho com que o guardaríamos no coração. Deparámo-nos com este campo que basicamente tinha a descrição de desenvolver atividades ecológicas com adolescentes que se encontravam no centro Jugendhof, em Berge (Brandenburg, Alemanha), em prol da sua reintegração na sociedade.

Depois de tratarmos de todos os aspetos logísticos, sempre muito bem acompanhadas pela equipa do Para Onde, restávamo-nos esperar para embarcar numa nova aventura a 6 de Agosto.
Chegámos a Berlim por volta das 12h do dia 6 de agosto, apanhámos um comboio para Nauen e daí um autocarro para Berge, uma vila extraordinária, devemos ter passado a viagem toda de autocarro grudadas à janela, completamente deslumbradas com a imensidão da natureza.
Assim que colocámos pé em terra, apercebemo-nos que tínhamos feito a viagem toda de autocarro com uma voluntária do campo, a Mesi que vinha da Hungria. Lá fomos as três em direção ao centro, onde a meio caminho encontrámos a Leonie, uma das nossas líderes, e depois sim, conhecemos o resto da nossa equipa: a Sarah (outra líder), a Alba (de Espanha), a Arzu e o Rizvan (do Azerbaijão), a Sasha (da Rússia) e, mais ao final do dia, o Jonas (de Taiwan).
O dia de chegada foi um dia de apresentações, tentar quebrar o gelo, conhecer aquela que seria a nossa casa por 18 dias.
O centro de Jugendhof tem 100 hectares, 5 casas e variados espaços para criação de animais, atividades com madeira, andar a cavalo, imensas árvores de fruto (em especial ameixieiras), grandes espaços verdes. Três das casas do centro são para os adolescentes, que por algum infortúnio se tiveram de separar das suas famílias. Não sabemos ao certo a situação de cada um dos 15 adolescentes que viviam no centro, sabemos que alguns estavam lá há 2 semanas e outros há 4 anos, mas que a média de permanência costuma ser 1 ano. Sabemos que alguns tiveram dificuldades com drogas e álcool, que apresentavam cortes nos braços e que tinham problemas do foro psicológico. No entanto, aquilo que melhor sabemos, é que nenhum deles foi desrespeitoso ou antipático, que todos nos fizeram sentir em casa, que de uma maneira ou de outra, o que eles mais ansiavam era alguém que lhes desse um pouco de atenção.
A quarta casa foi onde os rapazes do grupo de voluntariado permaneceram. Por fim, a quinta casa a que chamamos de edifício principal foi onde nós dormimos, acabava por ser a “casa dos voluntários”, mas, na realidade, era de toda a gente daquele centro.

O nosso horário de trabalho era de segunda a quinta das 8h às 15h30, sendo que tínhamos sexta, sábado e domingo como dias livres. No entanto, para dizer a verdade, o horário foi tudo menos rigoroso. O que se sucedeu é que, principalmente, na primeira semana, estava tanto calor, que os trabalhadores extremamente amáveis preocupavam-se que nos pudéssemos sentir mal e por isso, apenas tínhamos trabalho de manhã. Na segunda e terceira semanas, já tínhamos que desenvolver atividades à tarde, mas não existia aquele sentimento de ter que cumprir um horário ou que eramos obrigados a estar lá, tudo era realizado à base de iniciativa própria e fomos sempre muito bem tratados. Tínhamos quatro opções de atividades a desenvolver: podíamos estar com a Thea e alimentar os animais e depois juntarmo-nos ao grupo do Steffen e ajudar a construir cercas, podíamos trabalhar com madeira e construir bancos no grupo do Andreas, ou ajudar na cozinha e trabalhar com o Dirk. Todos estes grupos incluíam a ajuda dos adolescentes, que não eram obrigados a participar, mas que eram fortemente incentivados para tal.

Durante a primeira semana, nós ficámos com o grupo da Thea e do Steffen e ajudámos a contruir uma cerca. Na segunda semana fomos para a cozinha com o Dirk e ficámos tão rendidas que decidimos permanecer lá na terceira semana.

Todos os dias começavam com a reunião do grupo de voluntários para alguns exercícios matinais para ficarmos mais acordados. Depois, íamos todos juntos para o local de reflexão, onde toda a gente do centro se reunia para registar as presenças e falar do plano diário. Após isto, tomávamos o pequeno-almoço em conjunto, cada um ia para os seus projetos, às 12h era o almoço, a seguir voltávamos para os projetos e às 15h30 íamos para o local de reflexão onde cada um contava como tinha corrido o seu dia.

No tempo livre era comum realizarmos atividades com os adolescentes, mesmo que alguns não soubessem falar inglês (algo que entendemos rapidamente é que a língua não é de todo um impedimento para se criarem ligações entre pessoas), essas atividades tanto podiam ser jogos de tabuleiro, como jogos inventados por nós/eles, jogar futebol, voleibol, enfim, tudo o que nos fizesse chegar mais perto deles.

Na primeira sexta-feira aproveitámos para ir a Berlim, onde permanecemos o dia todo, fizemos uma walking tour, visitámos os recantos da cidade e até fomos a um bar de karaoke. No domingo fomos ao Mauerpark Flea Market, um mercado típico de Berlim, com um pouco de tudo, coisas novas, velhas, boa música e até karaoke!

A segunda semana na cozinha foi extraordinária, criámos uma ligação tão grande com a nossa equipa, em especial com o chefe e um adolescente que também lá estava. Desenvolvíamos atividades de ajudantes, cortávamos vegetais, limpávamos a sala e a cozinha, sempre ao som da rádio e com um grande sorriso nos lábios. Gostámos tanto que repetimos na terceira semana.

À noite, nós (o grupo de voluntários) tínhamos de cozinhar o nosso jantar, onde aproveitávamos para nos conhecermos melhor, o que se notava de dia para dia. Tínhamos também algumas tarefas diárias, como limpar a cozinha, cozinhar, dar a comida aos porcos, tudo o necessário para que a nossa estadia corresse pelo melhor.

Quanto ao alojamento, as raparigas ficavam no edifício principal dividas entre dois quartos, onde dormíamos num saco de cama em divãs. Os duches eram no exterior em casinhas de madeira. Não temos qualquer razão de queixa, íamos com o espirito de voluntárias que não tinham expetativas de grandes condições, pelo que absolutamente nada nos desiludiu, pelo contrário até nos surpreendeu.

No segundo fim-de-semana visitámos Potsdam, uma cidade perto de Berlim, e fomos a uma piscina com alguns dos adolescentes.

No dia 23 de agosto, último dia antes da nossa partida, foi um dia de despedidas de todas as pessoas extraordinárias que nos receberam de braços abertos. Foi incrível perceber que tínhamos tocado no coração de alguns adolescentes, que vinham até nós dar-nos abraços calorosos de quem não nos quer ver partir.

O que nós podemos dizer é que este testemunho não faz jus àquilo que vivemos, que não representa nem 1/10 do que experienciámos, mas é por isso mesmo que o nosso conselho é que vão! Vão e experienciem por vós mesmos, seja na Alemanha, seja noutro sítio qualquer, porque acreditem que vos muda, que no fim não querem ir embora, que parece que ganham outra família, completamente internacional.

Aquela que foi uma decisão impulsiva acabou por nos fazer querer repetir a experiência por muitos mais anos e poder encher o coração de novo da forma que só o voluntariado consegue.

A experiência da Filipa na Sérvia

Já passaram quase duas semanas desde que voltei a Portugal depois da minha primeira experiencia de voluntariado internacional e encontrar as palavras certas para descrever dias tão intensos é mais difícil do que pensara.

Desde o momento em que decidi que seria neste verão que iria concretizar este desejo antigo, foram várias as sensações, dúvidas e receios que passaram por mim, mas sempre com o entusiasmo em modo exponencial até ao tão aguardado dia em que parti sozinha para Sremski Karlovci, uma pequena cidade no norte da Sérvia.

Optei por um projeto relacionado com proteção ambiental, uma vez que é um tema que me interessa bastante a nível pessoal e, claro, porque eu adoro estar em contacto com a natureza. Nos últimos tempos, felizmente, os assuntos relacionados com proteção ambiental têm merecido maior atenção e vi também neste projeto uma oportunidade para conhecer de que forma as organizações não governamentais desenvolvem o seu trabalho. Assim, durante duas semanas fiz voluntariado no projeto Wetlands Conservation – Secret Life Of Birds. Este projeto está integrado na preservação da reserva natural Kovilj–Petrovaradin Wetlands, que acompanha uma parte das margens do rio Danúbio em Sremski Karlovci. Desde o ano de 2015 que vários voluntários têm colaborado na limpeza e manutenção desta área e na consciencialização da comunidade local para a preservação de uma zona tão rica em fauna e flora. Neste ano, além da continuidade destas atividades, o nosso grupo limpou uma área destinada à criação de uma praia fluvial, o que permitirá aumentar a oferta de ecoturismo nesta região. Com isto, pretende-se que os habitantes locais e turistas partilhem respeitosamente o espaço com as espécies protegidas, desfrutando das paisagens oferecidas.

Uma vez que se trata de um projeto que tem crescido não só devido ao trabalho dos voluntários que chegam de diferentes países, mas também da toda a equipa que trabalha no Ekološki Centar Radulovački, em Sremski Karlovci. Num dos últimos dias de trabalho, alguns elementos do governo sérvio e alguns canais da comunicação social estiveram no nosso workcamp. Com isto, tentaram perceber de que forma o trabalho tem evoluído, que recursos são necessários para concluir os trabalhos de ordenamento da reserva e de manutenção no futuro. Durante um dia, fomos ainda acompanhados por um programa de TV que pretendia filmar o dia-a-dia de um voluntário. Estou curiosa para ver o resultado final!

Além do trabalho que era realizado no período da manhã e que começava bem cedo devido às horas de calor, no período da tarde eram realizados workshops relacionados com proteção de fauna e flora em zonas como o rio Danúbio, desenvolvimento sustentável e num dos dias participámos também numa observação de aves na reserva na qual estávamos a trabalhar, o que me fez sentir uma bióloga da BBC de binóculos e livro na mão bastante entusiasmada!

Os almoços eram servidos num restaurante local, o que me permitiu conhecer a gastronomia do país e que deliciosa é a comida na Sérvia! E não fiquem surpreendidos se vos servirem um delicioso prato de Sarma ou de Pasulj mesmo que estejam temperaturas a rondar os 35 ºC. Tal como eles diziam, uma forma de nos refrescarmos por dentro é comer comidas quentes.

Durante estas duas semanas estivemos alojados numa escola primária local e partilhámos o espaço com outro workcamp, Arboretum, cujo trabalho decorria no jardim botânico mais antigo da Sérvia, o Royal Garden, e que jardim bonito e fresco! Como tal, desde o primeiro dia foram organizadas atividades para que todos nos conhecêssemos e nos sentíssemos à vontade entre todos, afinal iríamos (con)viver todos juntos durante algum tempo. Tal como uma família (uma grande família com vinte e quatro voluntários!), organizámo-nos em equipas cujas tarefas eram preparar o pequeno-almoço e fazer o jantar e assegurar a limpeza diária de todas as divisões. Parecem tarefas banais, mas nestes momentos colocámos novamente em prática as aprendizagens acerca de trabalho de equipa, partilha de ideias e gestão de tempo, mas aplicadas às tarefas domésticas.

De forma a darmos a conhecer a evolução do trabalho desenvolvido pelos dois grupos de voluntários à comunidade local, o último dia de trabalho foi reservado para divulgação na rua, convidando todos os que se quisessem juntar a nós a participar em algumas atividades preparadas por nós.

Entre tantas atividades, também tivemos momentos de lazer. Um dos dias foi passado numa pequena ilha selvagem do rio Danúbio. Apesar de bastante frequentado pelos habitantes locais e turistas, o local está muito bem cuidado e bastante nativo, o que torna a ilha ainda mais encantadora. Fomos a Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, onde jantámos todos juntos depois de assistirmos ao pôr-do-sol na fortaleza da cidade. Num outro dia, acordámos bem cedo para voltarmos a esta cidade e irmos ao Flea Market. Aqui, pudemos sentir o estilo de vida sérvio num dia de mercado e até comer uma Pljeskavica gigante às 10h da manhã, afinal já estávamos acordados há mais de três horas. Fizemos também uma prova de vinhos, não estivéssemos nós a trabalhar no local onde é produzido o tão famoso vinho Bermet. Os mais resistentes ainda provaram Rakija, afinal a Sérvia é o maior produtor do mundo desta bebida.

Em relação a todos os voluntários que conheci nesta aventura, e sendo o nosso grupo tão grande, é natural que se criem laços mais fortes com uns do que com outros, mas agradeço todos os momentos de partilha, sem exceção. E aquela pessoa que logo no primeiro dia pode ser menos agradável contigo, ao fim de duas semanas pode ser tua grande amiga. Havia uma grande diversidade de nacionalidades, assim como de faixas etárias (dos 19 aos 40 anos), mas em nenhuma circunstância existiram barreiras devido às diferenças culturais ou de idade. E todos eles sabem que serão muito bem recebidos em Portugal!

Apesar de serem “apenas” duas semanas, na verdade pareceram meses. Os dias são tão preenchidos, há tanto a aprender, a absorver, a conhecer, a fazer e a querer fazer, que não nos importamos de abdicar de horas de descanso e de sono para não perdermos nada. É uma sensação ótima saber que contribuí para a continuidade de um projeto tão importante e rico, numa cidade tão cuidada como é Sremski Karlovci. Os dias passados em Belgrado depois de terminar o voluntariado reforçaram mais a opinião de que a Sérvia é muito mais do que as questões políticas que nós conhecemos, por isso não hesitem em visitar este país caso pretendam viajar pelos Balcãs.

Quero também agradecer m-u-i-t-o à Marta e à Inês, do Para Onde?, por todo o seu trabalho, dedicação e orientação que prestaram desde o primeiro contacto até à data. Apesar de a minha formação pré-partida ter sido à distância, em momento algum me senti penalizada por causa disso, obrigada por tudo!

Por fim, quero dizer a todos aqueles que gostavam de fazer voluntariado, mas ainda não tiveram coragem de seguir em frente: vão! Independentemente da área, do local e de tudo o que as pessoas que estão à vossa volta vos possam dizer, não hesitem. Se sentem que poderão contribuir (mesmo que só um bocadinho) para um mundo melhor e que a nível pessoal se sentirão mais realizados, candidatem-se já!

A experiência da Micaela pela Croácia, Áustria e Alemanha

Este verão fiz três projetos de voluntariado, na Croácia, na Áustria e na Alemanha e foi a melhor experiência da minha vida. Parti com muitos medos e inseguranças e voltei completamente transformada, pelo que vi, pelo que vivi e principalmente pelas pessoas que conheci. Aprendi imenso e tornei-me sobretudo uma pessoa mais humana, capaz de relativizar os problemas.


A “Para Onde” foi incansável sempre a acompanhar-me a cada passo, e só tenho a agradecer o apoio desde o primeiro dia.
A quem está a pensar fazer voluntariado mas ainda tem algumas dúvidas, façam sem medo vai ser a melhor experiência da vossa vida.

 

A experiência da Márcia na Colômbia e no Perú

Passaram exactamente duas semanas desde o meu regresso a Portugal e alguns dias desde o pedido da Inês e da Marta para testemunhar aquela que veio a ser, até à data, a experiência mais gratificante da minha vida. Confesso que custa assentar, ideias, sentimentos, e até mesmo diria, por vezes, digerir estas novas memórias. Se há alguma certeza que tenho sobre todo este turbilhão de informações, é que todas as pessoas deveriam ter oportunidade de embarcar num projecto assim pelo menos uma vez na vida. Seríamos todos muito mais felizes e descomplicados. E a todos os que me perguntam se valeu a pena, tenho uma e sempre a mesma resposta: ‘só me arrependo de ter comprado a viagem de volta’.

No início desta aventura (nada planeada, mas muito desejada) tinha uma vaga ideia que esta me iria marcar e transformar de algum modo. Tinha uma vaga ideia de que iria transpor fronteiras e atravessar um oceano, para abraçar projectos em outros países, num outro continente. Só não sabia ainda que abraçaria projectos e pessoas para a vida. Aprendi que até os ‘abraços’ tem naturalidade. E nós, Portugueses de ginja, que abraçamos à nossa forma ocidental, estranhamos aquando os primeiros abraços interculturais, mas entranhamos rapidamente os mesmos, e arrisco-me a dizer que dificilmente vamos querer de novo ‘abraços’ pela metade.

Foi na Colômbia que tive o prazer de ter este ‘primeiro choque’ cultural, aquando apenas após umas horas da minha primeira viagem sozinha, num outro continente, me senti estranhamente confortável e tranquila. Optei por viajar uns dias mais cedo antes do início do programa de voluntariado. Não queria perder a oportunidade de conhecer a capital, e não poderia ter tomado melhor decisão. Foram importante estes primeiros dias de contacto comigo mesma, e com um outro país, com uma outra língua na qual não estava ainda tão à vontade. É importante sairmos da nossa zona de conforto, ainda que o sugira sempre de forma consciente e minimamente programada. Nunca me senti insegura, muito menos sozinha. Desde o primeiro momento em que aterrei na América do Sul, que senti que era bem recebida. Os Colombianos são pessoas simples, gentis e de conversa fácil, e isso baixa qualquer defesa. Conheci também outras pessoas que viajam, ora sós ora em grupo, que gratuitamente partilharam as suas experiências e o seu tempo. Após estes primeiros dias em Bogotá, viajei então para Pereira onde me juntei à organização de acolhimento por 15 dias.

Se no geral os Colombianos são bons anfitriões e sabem levar os dias com um sorriso e alegria contagiante, conheci no Staff da organização uma genuinidade ímpar. Cada um à sua maneira, mas todos fazem questão que nos sintamos bem e que desfrutemos tudo o que lhes for possível. Chinchina é uma localidade grande o suficiente para nos desarmar num piscar de olhos. Faz parte da Paisagem Cultural Cafeteira, mas apesar de nos confrontar com um cenário quase idílico, a realidade é contra-natura. Num meio onde estamos rodeados por montanhas e pela natureza no seu estado mais puro, sentimo-nos pequenos, ainda que o nosso rosto e coração estejam a fervilhar em grande. Quer pelo calor que se faz sentir (quase sempre) ainda nas primeiras horas da manhã, quer pela rajada de emoções que se experimentam ao constatarmos que o nos rodeia é maioritariamente um conjunto de casas e infraestruturas inacabadas, quase sempre sem telhados e onde a pobreza é a palavra de ordem.

A minha experiência incidiu sobretudo sobre o ainda recente Programa de Educação Especial, o qual tive privilégio de ajudar a estruturar. Aqui tive oportunidade de conviver de forma muito próxima com a comunidade local e de aprender (tanto), quer a nível pessoal como profissional. Conheci o dia a dia da instituição e da deliciosa história da sua fundadora, a quem sou muito grata pela forma como me recebeu e integrou. É bom ser consciente, que embora tenhamos uma missão, não somos cavaleiros andantes de mochila às costas cheios de boas intenções e prontos a salvar o mundo. Acredito sermos mais meros (sortudos) observadores daqueles que nos abrem as portas das suas casas/vidas e nos deixam entrar. Nos deixam ser mais do que uns corpos presentes de estadia fugaz. E isso não tem valor. Abaixo o retrato de instantes muito felizes, em algumas das actividades desenvolvidas com a única instituição da localidade que está preparada para acolher e educar crianças e jovens com necessidades educativas especiais, mas onde são visíveis a olho nú todas as suas carências. Ainda assim, é a alegria que reina nesta casa, e são os risos contagiantes que tomamos como banda sonora.

A organização oferece porém um vasto leque de programas em diferentes áreas nas quais podemos participar. Presenteia-nos ainda com uma história que nos cativa desde o primeiro capítulo e nos dá vontade de acompanhar no seu desenrolar, ainda que à distância de alguns kms. É incrível todo o trabalho desenvolvido por um grupo de pessoas na sua maioria ainda muito jovens, mas com uma enorme capacidade de fazer acontecer. Não posso deixar de registar um obrigada especial ao Glen, Stiven, Ed., Daniela, Nestor e Hector. Ah! E claro ao grande companheiro de voluntariado Christian.

Como se tudo isto não fosse bom o suficiente, durante o tempo livre tive oportunidade de viajar pelas regiões próximas e de me envolver e apaixonar ainda mais com a cultura, gastronomia e paisagens únicas Colombianas! Não percam a excursão até Manizales e Salento. Da minha parte, fica a certeza de querer voltar.

Passado este tempo, segui novo rumo a Trujillo, no Peru.

Aqui permaneci um mês, no qual me dediquei a organizar e dinamizar aulas de inglês e tempo de qualidade para as mais de 300 crianças que tive a sorte de conhecer, de uma escola na localidade de Florencia de Mora. Cada dia foi diferente e especial. Esta é também uma escola muito especial. Com inúmeras necessidades. Fica sobre um deserto e facilmente nos apercebemos que as condições de apoio por vezes mais básicas perderam-se no tempo e no caminho até à mesma. Isso não tira no entanto o seu protagonismo. Nenhuma criança devia aprender neste contexto é certo, ainda assim, perto de 600 crianças sonham com o momento de voltar a cruzar os portões do espaço seguro que muitos conhecem como a única oportunidade para novas descobertas, ou onde podem brincar e correr como a sua idade sempre o devia ditar.

E nós também, regressamos todos os dias, porque ao chegar somos atropelados por braços abertos, como se de extraterrestres que trazem uma língua estrangeira fossemos, e tropeçamos nesta realidade, onde todos somos felizes com tudo e com tão pouco.

Foi um mês cheio, que passou demasiado rápido com a ajuda da Helena e do Tomás, os dois voluntários Portugueses que tive a oportunidade de me juntar e partilhar esta deliciosa aventura. Ainda não sei que fizemos para merecer tamanha bagagem. A única convicção, é que a desproporção entre o que nos ensinam e dão é gigante.

Durante este mesmo período, fomos tratados como ‘convidados de luxo’ pelo maravilhoso staff e amigos locais, que nos desafiaram a explorar e desfrutar tanto da cidade, como o norte e centro do Perú. Viajamos até Cajamarca e Huaraz. Conhecemos os Andes e a Cordilheira Branca, bem como a histórias dos seus primeiros povoadores. Perdi a conta ao número de trekkings e montanhas que subi ou às vezes que fiquei sem palavras pela biodiversidade única que encontramos neste País. Uma verdadeira caixa de surpresas que me fez ir muito mais além do que alguma vez previ. Agradeço vezes sem conta ao Micca, Juan e Rolly.

No final do projeto, guardei mais uns dias para viajar até Lima e Cusco, e conhecer mais maravilhas deste mundo. Aconselho vivamente!

Por fim, deixo um agradecimento muito especial à organização Para Onde, à Marta e à Inês. As quais admiro imenso pelo seu empreendedorismo, força de vontade e dedicação. Elogiei vezes sem conta o seu trabalho pelas diferentes partes onde passei nos últimos meses, de forma muito natural e até despercebida. Em troca de experiências com muitas das pessoas e outros viajantes que me cruzei, apercebi-me ainda mais da importância, do apoio e de toda a orientação que nos prestam pré, durante e após a partida. São o nosso elo com a realidade e a nossa certeza de segurança a vários níveis. Obrigada por tornaram todas as maravilhosas experiências que descrevi (e mais algumas) viáveis.

A experiência da Catarina e da Mariana na Bélgica

Sempre quisemos ter uma experiência de voluntariado internacional e quando vimos a possibilidade para este projeto, decidimos arriscar.

No início, estávamos sem muitas expectativas: apenas tínhamos em mente que íamos encontrar outras culturas, que as pessoas iam ser diferentes e que tínhamos de fazer qualquer coisa para as tentar fazer esquecer a realidade em que viviam.

Assim que chegámos ao centro, sentimos um baque tão grande de desconhecido com uma mistura de alegria em podermos fazer a diferença, que nem imaginávamos o poder da transformação que íamos ter.

Assim que pousámos as nossas coisas, a nossa zona de conforto deixou de ser algo natural e o poder da transformação começou: da nossa, da daquelas pessoas, da do centro, de tudo.

Nos primeiros dois dias, ainda sentíamos alguns olhares de desconfiança, mas a capacidade do ser humano em situações alheias ao seu padrão normal é tão grande que a convivência foi aumentando e a ligação com aquelas pessoas foi evoluindo de uma forma avassaladora.

De dia para dia, tudo se ia tornando mais intenso com as atividades, as brincadeiras, as conversas, a interajuda, as risadas, as músicas cantadas em uníssono, a aprendizagem de novas línguas, costumes e culturas… A vontade de queremos ter o máximo de tempo para aproveitar cada segundo era uma constante que a privação de sono ou a necessidade de descansar deixaram de ser problemas.

Nunca nos passou pela cabeça trazer amigos e pessoas muito queridas no coração, com histórias de arrepiar e de cortar a respiração.

Ao mesmo tempo, nunca tínhamos sentido a força gigante de povos que viram as suas cidades e os seus países serem destruídos pela guerra, as suas famílias levadas, o seu dia-a-dia transformado num pesadelo até conseguirem encontrar um porto de abrigo…

Muitas vezes, à noite, ficávamos sentados no átrio do centro, horas a fio, com o coração acelerado e a alma arrepiada, a ouvir coisas que ninguém merece ter como história de vida. Mas também sentíamos força, coragem e determinação que não sonhávamos que pudesse existir.

E assim fizemos um reset às pessoas que éramos antes desta ação de voluntariado e às pessoas que somos hoje. Porque sabemos que há um antes e um depois. Porque descrevemos esta experiência com várias frases, sentimentos e emoções, mas a nossa frase preferida: “só sabe quem lá está, quem vive aquele dia-a-dia” é a melhor definição que poderíamos ter.

Fomos numa experiência de voluntariado e hoje sabemos que fizemos a diferença, principalmente nas pessoas que somos hoje. Não foi bom. Foi único!

A experiência da Liliana no Tarrafal

To build a home…
Construir uma casa, sonhos e sorrisos no Tarrafal.

Demorei a escrever os meus relatos sobre a minha primeira experiência de voluntariado internacional porque queria guardar tudo só para mim, quase num acto de egoísmo. Queria perceber o que, de facto, tinham sido estes meses na minha vida. Depois de quatro meses em Portugal, todos os dias, a minha vontade continua a ser só uma: voltar (sempre) e contrariar a máxima que diz que não devemos voltar aos sítios onde já fomos felizes.

20 de Outubro de 2017. O dia em que chegou a tão esperada resposta com a certeza que ia dar o salto na realização de mais um sonho. Desde esse dia até ao final do ano foi o tempo de tratar de tudo o que era necessário. Meses a trabalhar em triplo para, monetariamente, conseguir suportar o tempo que ia estar fora, semanas a despedir-me do conforto de casa e a vacinar-me de momentos com os meus para que as saudades fossem atenuadas antecipadamente – e não fosse eu uma saudosista por natureza. Estava de corpo em 2017, mas de coração apertado em 2018 numa contagem decrescente que parecia teimar em passar à velocidade de um caracol.

Eu, que olho para a passagem de ano como algo bom pelo poder do recomeço, recordo essa especialmente como um verdadeiro momento de viragem. Deixei os meus trabalhos em stand-by, fechei para sempre a porta da casa onde vivia há seis anos e arrumei objectos e vivências numa bagagem. Arrumei a casa e o coração e fechei tudo com a vontade incessante que tenho em ser feliz. Nessa noite, entre lágrimas de felicidade e conquista, num abraço apertado, uma amiga dizia-me “É agora, está tudo a dar certo!” e quem faz parte de nós não se engana. E foi assim. E deu certo.

Lembro-me bem do momento em que cheguei ao aeroporto e deixei Portugal para trás. A felicidade e o receio iam de mãos dadas, mas a minha sede de viver equilibrava os sentimentos. Era eu, um passaporte renovado e uma mochila de 17kilos de bagagem de pouca roupa e muito material para tentar colorir os sonhos daqueles miúdos. Era eu a sair da minha zona de conforto e a partir sozinha na aventura da minha vida.

Aterrei na Cidade da Praia de noite. O cansaço de um dia agitado tomou conta de mim e só no dia seguinte descobri a cidade. O gesto tão imediato de entrar no táxi, colocar o cinto e ele não existir foi logo índice de que tinha mudado de País, mas Portugal continuava presente nos relatos de futebol sobre o Benfica que ecoavam na rádio, em sotaque bem português. Da Praia até ao Tarrafal são cerca de 70km, entre curvas e contracurvas fica uma hora e meia de viagem de uma ponta da Ilha à outra.

As primeiras impressões ao chegar ao Tarrafal foram passando por vários níveis durante o dia. Inicialmente, quando estava no carro para a Delta Cultura (a associação onde ia ser voluntária), tudo era muito melhor do que as imagens que tinha na cabeça. Por outro lado, no caminho da Delta para a casa onde ia ficar com os outros voluntários, o coração começava a ficar mais pequenino com o caos. Muitas ruas em terra batida, passeios inexistentes, muitos animais feridos a comerem lixo, a maioria das casas sem a construção estar terminada… uma cidade tão pequena e com pólos tão distintos foi o que pensei naquele momento.

A chegada à Delta Cultura foi o mais esperado, mas, também, o mais assustador porque muitas crianças pareciam tímidas e a não querer que nós, voluntários portugueses, que, entretanto, conheci, estivéssemos lá, mas… no meio disto tudo, um miúdo correu para os meus braços, saltou para o meu colo e deu-me um beijo na testa como se já tivesse saudades minhas, antes, sequer, de me conhecer. Abraçamo-nos e foi o Leo que me fez pensar “Estás na missão certa, miúda.” O arrepio que, logo ali, senti, não se exprime em palavras. Ainda a propósito dos nomes, e a título de curiosidade, já era difícil memorizar um nome, quanto mais dois, porque os miúdos têm dois nomes, o nome e o nominho, que são o nome de igreja e nome de casa, respectivamente.

No instante em que cheguei saltou-me à vista a organização do espaço, que achei fenomenal por não ser um único edifício, mas sim várias salas que se dispõem em volta de um pátio que grita liberdade para os miúdos. Assim sendo, a associação está dividida: o jardim, para os mais pequeninos, a sala de informática, a sala de estudo, os balneários, a sala de artes, a sala de música, a sala de línguas e o recreio exterior onde também se localiza o campo de futebol ajudado a construir pela FIFA no âmbito do projecto Futebol for Hope.

A Delta Cultura é uma associação com crianças dos 4 aos 17 anos e tem como princípio promover a educação não tradicional, partindo de uma ideologia assente na liberdade. Desde cedo que a criança é ensinada a ter poder de escolher qual a actividade que quer fazer, a sala onde quer estar, e decidir com a consciência de que qualquer atitude tem uma consequência para o seu futuro e se, por exemplo, não fizer os trabalhos de casa de uma forma livre, será responsabilizada na medida em que ficará de castigo na escola, ou seja, tentam incutir nas crianças uma educação de liberdade, mas com responsabilidade. A escolaridade é obrigatória e, por isso, as crianças estão na Delta conforme os seus horários escolares. Metade tem aulas de manhã e está na Delta da parte da tarde e a outra metade funciona no esquema contrário.

No decorrer da experiência, algumas pessoas perguntavam-me se a pobreza me fazia confusão, mas, sinceramente, os meus olhos não viam essa pobreza que as pessoas têm como imagem de uma África pura. Talvez seja chocante para um Europeu as crianças andarem descalças, mas eu vejo isso como uma despreocupação, uma leveza, não como pobreza. Muitas vezes os miúdos chegam à Delta e descalçam-se porque é assim que se sentem bem, a sentirem a Terra, a serem livres. Ali, a nossa prioridade, enquanto voluntários, não é actuar na tão falada “pobreza porque é África”, mas sim actuar na educação e na formação das crianças. Essa é a maior fragilidade e onde, talvez, possamos ser mais úteis.

O meu trabalho na Delta Cultura foi muito diverso e não focado só num ponto específico. Apesar disso, onde passava a maior parte dos meus dias era na Sala de Artes, que era da minha responsabilidade. Organizava actividades, workshops ou simplesmente tomava conta de quem estivesse na sala livremente a fazer algo, assim como organizar material, lavar e limpar a sala no final de cada dia. Por vezes, as actividades eram transpostas para o exterior e aí fazíamos jogos lúdicos, concursos de dança e um sem fim de actividades.

No tempo em que estive na Delta, um dos temas principais foi a igualdade de género. Desta forma, foi convidada uma enfermeira para dar uma palestra sobre esta temática e, nós, tentámos que as actividades que estávamos a organizar fossem de encontro a este assunto. Similarmente à enfermeira, organizamos um debate em que falamos sobre as nossas profissões. Para explicarmos o tema de uma forma mais eficaz e atractiva, optamos por fazer um cartaz, com alguns famosos com profissões ditas do sexo oposto ao deles, e deixamos os miúdos pintar as mãos com tintas e depois marcar o cartaz.

Com esta ideia pretendíamos que os miúdos percebessem que as mãos podem ser todas de cor diferente, mas todas iguais, independentemente do nosso género, raça, profissão ou idade. Nesta actividade o que me tocou mais foi quando fomos lavar as mãos e a tinta não estava a sair bem e as miúdas já estavam quase a chorar com medo, a dizer que os pais lhes iam bater se chegassem a casa assim. Fiquei tão preocupada que só pensava em tirar-lhes aquilo rapidamente das mãos e pensei em como, de facto, a educação é tão diferente daquela que eu tive.

As crianças acham tudo isto muito esquisito e não percebem muito bem que todos nós temos os mesmos direitos, assim como deveres, independentemente do nosso género, apesar do Gilson repetir vezes sem conta: “Trabajo é trabajo, nka teni trabajo di mujer ni trabajo di homi, trabajo é trabajo.” Como já referi, o importante é actuar muito na base da educação e na formação dos miúdos, para adquirirem os valores mais correctos. Aliás, sempre que os miúdos nos pediam “moedinha”, nós sempre tentamos incentivar-lhes o estudo e respondíamos “bo studa pa bo trabaja pa bo teni dinherú.”

Uma outra actividade na qual colaborei, e que desconhecia, foi o torneio de futebol de 3 enquadrado no programa Futebol for Hope da FIFA. Cada um de nós, voluntários, foi moderador juntamente com um trabalhador da associação e, na última semana de programa, fizemos um torneio no qual nós mesmos éramos os participantes. Neste tipo de jogo, conta muito o fairplay, na mesma igualdade que os golos marcados por ambas as equipas. Há três grupos de regras: as básicas, as técnicas e as regras de fairplay que são, também, três, e são os participantes que definem essas regras e podem ser, por exemplo, abraçar um elemento da equipa adversária quando estes marcam golo, o primeiro golo de cada equipa valer por dois, fazer uma dança a cada golo, entre outros.

Estas regras são pré-definidas antes do começo da partida e são as que acrescentam os tais pontos de fairplay que, posteriormente, são somados aos pontos do jogo, e isso pode ditar o verdadeiro vencedor do torneio. Neste caso, praticamente todos os miúdos adoram futebol e levam muito a sério os treinos todas as semanas, interdependente do seu género e idade.

Outra das actividades que mais feliz me deixou foi ajudar na preparação do Carnaval dos mais “pikenotes”, as crianças do Jardim. Foi juntar a temática Carnaval que adoro preparar com o facto de estar a fazer os miúdos felizes num dia diferente do habitual. As meninas foram de vendedoras de peixe e os meninos de pescadores. Ajudei na preparação das roupas, fiz canas de pesca em cartão e papel, peixes gigantes em cartão pintado, colares de conchas com o Oliver, cestas do peixe feitas com caixinhas de papel, tratei das maquilhagens, enfim, foram dias intensos de trabalho, mas muito recompensados com a alegria dos miúdos no dia do desfile.

Conjuntamente à preparação do desfile dos mais pequeninos, na sala de artes preparávamos as máscaras dos mais crescidos para o concurso de máscaras que realizamos nessa semana, com o Gilson a juntar-se a nós para formarmos o júri e o Samir a ser o apresentador. Sem dúvida que foi uma das semanas mais entusiasmantes na Delta.

A par com as actividades que íamos desenvolvendo com os miúdos, lembramos-nos de pintar algumas paredes da associação, tanto interiores como exteriores. Começamos por uma parede da Sala de Artes, que sempre foi um dos “meus” espaços. Aqui, mais do que deixarmos a nossa marca queríamos que eles percebessem a importância de estimar o material, pedirem o que quer que seja com a devida educação e cuidassem da sala como um espaço de todos.

Não posso descrever a minha experiência sem falar no Oliver. O Oliver é um miúdo tímido, difícil de chegar à sua essência, mas quando o conseguimos ficamos arrebatados com o seu coração e o seu espírito lutador. Desde que o conheci que me contou que o sonho dele era ser arquitecto. Quando eu lhe disse que era a minha profissão ele sorriu do tamanho do mundo e pediu-me para eu o ajudar ensinado-lhe os aspectos que eu considerava mais importantes. Senti uma responsabilidade, confesso, mas a partir desse dia passamos horas a falar sobre arquitectura, a ver vídeos de maquetes virtuais na sala de informática e ele a apontar cada nome de arquitecto que eu lhe ensinava.

Não podia vir embora sem lhe deixar um incentivo, a minha missão não estaria completa. Desde Portugal, pela mão do José (um novo voluntário que chegou quase no nosso final), consegui que os meus amigos enviassem o livro “Da Organização do Espaço” do Fernando Távora – e quem é da área sabe como este livro é uma “Bíblia” obrigatória de ler – e um conjunto de Moleskines para ele desenhar os primeiros projectos e colorir os seus sonhos. No último dia entreguei-lhe o embrulho e só a reacção dele foi o maior agradecimento antes de me dizer qualquer obrigada. Prometeu-me que não ia desistir e eu prometo-te que vais longe, miúdo!

Cabo Verde é todo este amor. Cabo Verde está no coração, está em todas as lembranças que trouxemos e no contacto que continuámos a ter para minimizar a saudade daqueles meses. Está na Delta Cultura e em todas as horas na sala de Artes. Está nos minutos a fazer “sorrisinho” com a Vanessa e nas horas a dançar com a Kenira, a Olinda, a Carla e a Caty.

Está nas birras da Melissa e da Sapatinha e no mimo da Nelly, da Marsília e da Ceúzinha. Está nas aulas de Língua Portuguesa que acabavam em guerra de almofadas porque a felicidade de ser criança é tão importante como saber a acentuação correctamente. Está em todas as pinturas que fizemos nas salas, no desenho da roda dos alimentos, dos tempos verbais, na explicação da acentuação e nas frases motivadoras.

Está na canção de bom dia dos pikenotes do jardim: “Bom dia ao Neymar, à Nelly e à Sapatinha, bom dia, bom dia, bom dia cá na Delta” e que, ainda hoje, dou por mim a cantar muitas vezes. Está nas boleias do Carlitos e em todos os kms que caminhámos até Ribeira da Prata para encher o baú dos dias felizes. Está nas compras para os jantares na banca da Fica, nas bolachas da Luzinha e nos almoços na Mité porque queríamos “txeu batata”.

Está nas horas passadas na Cachoeira a carregar os telemóveis quando ficávamos sem luz e a ganhar energias a ver notícias de Portugal e jogos de futebol para nos sentirmos em casa. Está na incrível roadtrip de Hiace pela Ilha com a Mariana e o Michael. Está no calor insuportável da Cidade Velha e na sombra do Mercado de Sucupira, um mercado gigante que acontece todos os sábados, com bancadas de todo o tipo, pessoas a rezar, comida, bancas de roupa e calçado, cabeleireiros, um mix de actividades numa grande diversidade cultural que me deixou completamente fascinada.

Está nas barrigadas de cachupa com ovos “só di terra” e nos escudos cabo-verdianos que poupávamos para as caipirinhas de grogue (um álcool típico produzido a partir da cana-de-açúcar) do Santiago Lounge. Está em todos os dias que passamos na Ponta D’Atum, o nosso sítio preferido para carregar baterias depois de uma semana com as energias todas postas na Delta. Está naquele 24 de Fevereiro, o dia em que deu onda no mar da Ponta e sobrevivi e na morabeza com que a gente desta terra sempre nos recebe.

Está naquele sábado em que nos perdemos na Serra da Malagueta, mas nunca nos deixamos perder na felicidade por estarmos nisto. Afinal, sobrevivemos à Malagueta, a grande aventura desta viagem. Mesmo perdidos, e com a notícia dos turistas assaltados nessa mesma semana, cantámos, dançaáos, fizemos vídeos para recordar e da desgraça fizemos risada.

Cabo Verde está para a felicidade como a areia está para o mar. Está nas infinitas vezes que chegamos a casa e constatávamos, mais uma vez, que não havia água, os garrafões de reserva enchiam a cozinha e a casa de banho e, mesmo assim, a nossa gratidão nunca baixava no depósito. Está em todos os fins-de-semana a lavar a roupa à mão e nos quatro dias consecutivos que passamos sem tomar banho por falta de água e, mesmo assim, podíamos ter o corpo sujo de pó, mas a alma sempre limpa com tanta boa energia. Está no frio que achamos impensável passar em África e no calor das noites animadas no Búzios a ver as Batucadeiras da Delta. Está nas gravações para o pitch da Rita e nos 1000 gb de vídeos que fizemos para, um dia, mostrarmos aos nossos filhos como a vida tão simples é tão boa.

Está nos cereais que comíamos em embalagens de manteiga reutilizadas e em todo o caixote que reutilizávamos nas actividades da sala de artes. Está nos dias a fazer caixinhas de papel e pulseiras na Delta e nos serões na varanda a cantar ao passo dos acordes da guitarra do Afonso. Serões na sucessiva aprendizagem para dançarmos sincronizados a Primeira Dama, mas sincrónica era só mesmo a nossa disposição. Está nas horas passadas na cozinha e nos minutos que não passávamos sem ouvir esfrega esfrega, só um beijo, nu bai, festa bedju e nha kretxeu. Se aquela varanda e as paredes daquela casa da Atchada Di Baxo falassem só iam conseguir rir às gargalhadas de tantos bons momentos.

Afonso, Beatriz e Rita: não nos conhecíamos de lado nenhum e saíram-me como prémio na lotaria da sorte. Todos juntos, eu, vocês e os nossos miúdos. Construímos uma casa, no sentido mais bonito da palavra e casa é onde está um pedaço do nosso coração. É um aglomerado de momentos, de sonhos, de partilha, de entre-ajuda. O Tarrafal é, para sempre, a casa de nós os quatro.

Entre choros e abraços despedimo-nos dos nossos miúdos. Despedimo-nos do Carlitos, do Gilson, do Nené emocionado, do Florian e da Marisa a agradecerem num abraço apertado, da Jassica e da Cutxinha que sempre tinham um sorriso pronto, do Samir que se tornou família e da Mariana, a melhor guia anjinho que rapidamente o coração esticou para a acolher. O momento que não queríamos que chegasse, chegou.

Entramos no carro de coração completamente partido, e, porque não há coincidências, o Rashid liga o rádio e, inexplicavelmente (porque nunca seria óbvia esta música em Cabo Verde) começa a dar a “To Build a Home” dos The Cinematic Orchestra. Era uma das músicas que mais ouvíamos em casa e agora a letra fazia (ainda) mais sentido. “This is a place where I don’t feel alone. This is a place where I feel at home. Cause, I built a home. For you. For me. Until it disappeared. And now, it’s time to leave and turn to dust.

Tudo o que sentíamos. Tudo o que juntos construímos. E tudo o que fazia sentido naquele momento. Demos as mãos, olhamos uns para os outros, esboçamos um sorrisos e entre lágrimas compulsivas, ouvíamos estas palavras cantadas enquanto contemplávamos a paisagem do Tarrafal a ficar cada vez mais distante. Foram seis minutos intensos. Seis minutos a relembrar em loop todos os momentos, todos os sorrisos, todas as brincadeiras e todo o amor que deixámos no Tarrafal por aquela gente. Seis minutos em que a tristeza deu lugar a uma felicidade inexplicável por ter vivido tudo isto, porque quem disse que a felicidade só é real quando é partilhada, disse-o com toda a certeza.

A Cesária Évora já falava em sodade e cantava que Cabo Verde está no caminho para São Tomé e assim quis o destino que fosse o caminho da minha aventura e levasse a letra à risca. Ti mas logo Tarrafal, ti manhã Delta. Fica dreto, nha kretxeu. Bo sta sabi.

P. S. – Dja bo ri oxi? :) (já sorriste hoje?)

A experiência da Inês na Colômbia

Demora algum tempo para assentar a experiência de voluntariado internacional, escrever sobre a mesma implica aceitar que já terminou. Toda a aventura que se desenvolve em torno dessa experiência, transforma-nos um bocadinho. Mas, se de facto o objetivo desta partilha é esse mesmo – partilhar -, vou começar pelo princípio.

Nunca questionei muito a decisão tomada de ir, e o tempo foi passando sem pensar muito no assunto. A Inês e a Marta sempre estiveram disponíveis (desde o inicio ao fim) e isso tornou tudo bem mais confortável. Na verdade, não há nada a apontar e, desde o nosso primeiro contacto, que eu recomendo a toda a gente que quer passar pela mesma experiência, que entre em contacto com elas.

O dia de ir é sem dúvida o mais desafiante, o dia em que se tem dúvidas, medos e ansiedades. Para combater esses males todos, bastou ter duas pessoas incríveis ao meu lado, que nunca na vida me iriam deixar desistir. Aquele momento no aeroporto, em que é ou não é, é determinante.

As (aproximadamente) 24h que me separaram desde casa, até Chinchiná, foram um pânico e uma ansiedade intensa. Chegar ao destino é sempre um alívio, e vou começar a partir daí.

As minhas seis semanas de voluntariado foram um processo de descoberta pessoal muito grande – aprender a dar, mas a dar com o coração. Tentar não perder a noção de qual o papel e de como devemos entrar na vida das pessoas. Saber gerir um conjunto enorme de emoções. Aprender a receber o que os outros nos dão. Aceitar que ninguém é igual a nós próprios. Partilhar muito espaço pessoal com outras pessoas. Deixar que os outros nos vejam tal como somos.

Desenvolvi várias atividades, e dificilmente poderei escolher uma preferida. Torna-se vago relatar tudo o que vivi, acho que só mesmo estando lá é que é possível sentir o impacto que uma experiência destas tem. Estive com os bombeiros de Chinchiná, num lar, numa casa de acolhimento, numa escola, várias fundações, visitei várias aldeias, juntamente com uma médica. Cada uma dessas experiências me mostrou o mundo de uma forma diferente. Tudo o que temos e não damos valor, tudo o que somos e nem nos damos conta, tudo o que podemos fazer e nem sequer temos consciência das oportunidades à nossa volta. Tudo isso se torna claro e, às vezes esta experiência, torna-se mais enriquecedora para nós próprios, do que para as pessoas com quem lidamos.

A grande surpresa foi a simplicidade que encontrei nas pessoas todas com quem contactei, no sorriso fácil, nos abraços verdadeiros. É muito fácil acreditarmos que fazemos tão pouco, quando estamos perante pessoas assim. E, mais uma vez, acredito que ganhamos mais, nós que somos voluntários, do que as pessoas com quem passamos os nossos dias.

Quanto à organização de acolhimento, os agradecimentos são os maiores do mundo. A sensação de nunca estar sozinha e ter sempre alguém com quem contar, é incrível. A minha experiência aproximou-me mais do Stiven e da Dani, que são pessoas que eu jamais irei esquecer, mas todos foram sempre disponíveis, prestáveis e atenciosos. O Glen, que é uma pessoa super corajosa e altruísta, sem esquecer o Bart, que ficará para sempre no meu coração, por tudo o que dá os outros. E por esta razão, para mim, a partir de hoje, todas as boas referências a trabalho voluntário estarão associadas a eles, porque deixa de haver palavras para o valor do trabalho que fazem.

Tenho também a agradecer a todos os outros voluntários com quem tive o imenso prazer de partilhar esta experiência, especialmente à Andreia e ao Tom, à Liz, à Valentina e a todos os outros, que seria difícil enumerar.

A prova de que não há limites para o que uma experiência destas pode oferecer, é a sorte de poder regressar com o coração a explodir de felicidade, agradecimento e amor. Amor pelos outros, um amor especial.

Ter atravessado o mundo para conhecer uma das pessoas mais alucinadas, no bom sentido, de sempre, mostra que nunca sabemos quando seremos surpreendidos (sim, Andreia és tu). Metade da minha experiência de voluntariado foi passada com uma voluntária portuguesa, que apenas conheci na Colômbia. É verdade que não é nada fácil conviver com a mesma pessoa 24h por dia, mas não é menos verdade que a surpresa foi enorme, e que terás um lugar muito muito especial no meu coração. Sei que às vezes eu falava e tu nem me ouvias, acho que faz parte do processo de tentar manter a sanidade mental. Juntas vivemos aventuras que dificilmente partilharei com outra pessoa, conhecemos lugares lindos e talvez, pela primeira vez nada vida, vivi contigo no momento presente, porque tu me ensinaste, isso não tem preço nem validade!

Claramente, o maior desafio, para mim, foi sair do meu espaço, da minha zona de conforto e de tudo aquilo que gosto e me faz sentir protegida. Assim, há um agradecimento gigante para todas as pessoas que ficaram cá, para me ouvirem e ajudarem nos piores momentos. E por piores, quero dizer os mais frágeis. Obrigada G. e Fi, por estarem sempre disponíveis para um pouco de loucura e medo.

Na realidade, seis semanas passaram a correr. Olho para trás e parece que voaram, mas deixaram uma marca muito importante no meu coração.

Tenho ainda a acrescentar que esta experiência única, terminou com duas semanas de férias inacreditáveis. A companhia, obviamente ajudou, mas numa país tão lindo como a Colômbia é muito fácil ficar encantado. Sendo sem dúvida, um dos países que, a partir de agora, mais irei recomendar. Falaram-me muitas vezes de como a Colômbia pode ser um país perigoso, de muitos riscos. O único mesmo é querer ficar, como diz a publicidade.

Por fim, e mais uma vez, queria realçar o papel da Inês e da Marta, o esforço continuo em estarem sempre presentes, o carinho demonstrando, a preocupação. Assim, por todas as razões e mais alguma, espero que esta não seja a minha única experiência de voluntariado internacional!

A experiência do Diogo e da Inês em Hong Kong

Esta foi a nossa primeira experiência num campo de voluntariado internacional e como tal os dias anteriores foram de grande ansiedade e nervosismo, ao mesmo tempo combinados com o otimismo de ir conhecer uma nova realidade, a qual nos era completamente desconhecia.

Foram 10 dias em Hong Kong, num programa que visava promover a socialização, cidadania e difusão de culturas a crianças dos 12 aos 16 anos de 7 diferentes escolas locais, através de atividades como a “biblioteca humana”, “ice breaking games” e workshops organizados pelos voluntários. Para isto, integrámos uma equipa de 8 voluntários internacionais e 2 voluntários locais, onde o trabalho árduo, entreajuda e bom ambiente fez com que o tempo tenha passado rápido.

Este projeto organizado pelo SCI Hong Kong, surgiu no contexto de consequências negativas do sistema escolar chinês, onde apesar de as crianças serem alunos muito empenhados e esforçados, a competitividade é levada a um nível extremo e irracional, o que resulta em significativas dificuldades de socialização, ao nível de extrema timidez, dificuldades em contactar com novas pessoas e de fazer amigos. Consequentemente, a taxa de suicídio infantil é extremamente elevada, sendo que o campo visava o divertimento e o alívio da pressão a que os adolescentes desta sociedade estão sujeitos.

Apesar da sua timidez, após colocarmos as crianças à vontade e fazermos alguma conversa com elas, estas eram bastante simpáticas e mostravam muita curiosidade sobre o nosso país, fazendo perguntas como: “no vosso país é assim tão quente durante o verão?”, “vocês conhecem o Cristiano Ronaldo?”, “gostam da nossa comida? o que é que vocês comem?”.

Assim, foi uma experiência única nas nossas vidas, um desafio bem sucedido, no sentido que acreditamos ter feito a diferença na vida deles através das atividades que desenvolvemos e do feedback que recebemos das crianças, ao mesmo tempo que este projeto fez a diferença na nossa vida ao termos trabalhado com voluntários de todo o mundo, conhecido vários locais de interesse histórico, religioso e cultural, aprendido algumas palavras de Mandarim e Cantonês (idiomas falados na China e Hong Kong respetivamente) e termos tido o prazer de cozinhar para todos os intervenientes do campo, uma sobremesa tão típica do nosso país como é o arroz doce e consequentemente ouvir as suas opiniões interessantes, dada a elevada discrepância gastronómica das culturas envolvidas.

A experiência da Joana em Caraíva, Brasil

Voluntariado internacional sempre foi algo que quis fazer, mas quando me inscrevi nesta experiência, não fazia ideia para onde ia. E sinceramente nem quis saber, deixei-me surpreender naturalmente, e foi o melhor que fiz!

Caraíva deixou uma GRANDE vontade de lá voltar!

Este mês tivemos oportunidade de fazer tudo, desde as coisas mais administrativas até uma “gincana” de férias com as crianças.

A gincana permitiu-nos ter um contacto com as crianças que de outra forma não seria possível. Permitiu-nos sentir todos aqueles abraços calorosos e sorrisos cheios de felicidade.

Incrível toda a curiosidade que aqueles miúdos têm de saber como é o resto do mundo, a forma como fazem perguntas sobre Portugal e mesmo sobre nós: “Em Portugal tem carro voador?” ou “Pro, pode parar de falar Inglês?”

Após um mês completamente fora da minha rotina, da minha zona de conforto e dos meus hábitos, sei que voluntariado muito mais que dar, é receber.

Um grande obrigada ao Para Onde por permitir toda esta experiência e conforto durante a mesma.

Sabemos que foi incrível quando inicialmente um mês é muito tempo, mas na verdade passou a correr e só queremos ficar mais um ou dois meses!