Catarina, S. Tomé e Príncipe 🇸🇹

São Tomé e Príncipe foi o lugar que escolhi para realizar o meu sonho de criança. Na minha infância sonhava com o dia em que iria para África fazer voluntariado e imaginava-me com as crianças ao colo e a brincar. Setembro foi o mês em que o sonho se tornou realidade.

Esta foi sem dúvida a experiência mais feliz da minha vida. Quando à noite me deitava conseguia sentir o meu coração cheio de amor. Viver num lar com crianças é puder ter a oportunidade de as acompanhar desde que acordam até que vão dormir. É acordar com a animação da música nas colunas e nas vozes das miúdas e é ir deitar depois de contar e “renovar” a história de adormecer e de receber abracinhos e beijinhos de “boa noite”. É ser conselheira, enfermeira, amiga, mãezinha e irmã. É criar laços que ficaram para sempre e perceber a felicidade e o amor incondicional.

Para mim voluntariado é partilha, mas sem dúvida que aquilo que cada criança me dava era muito mais do que aquilo que tinha para lhes oferecer. Ensinam-nos que a vida é mais simples do que aquilo que os nossos olhos veem e que qualquer obstáculo é rapidamente resolvido. Como eles dizem, “eles são rijos”, e é mesmo verdade! Gerem as tarefas da casa, constroem os seus brinquedos, organizam as suas brincadeiras, cantam alto, sorriem com brilho nos olhos e são felizes!

Termino esta experiência mais agradecida, feliz, “leve-leve” e com o coração muito mais cheio!

Se tens dúvidas se deverias fazer voluntariado, então já não há dúvidas. Fá-lo. A realidade consegue superar tudo aquilo que imaginas.

Mariana, S. Tomé e Príncipe 🇸🇹

Feliz é saúde.

É a experiência que nos dá outro lema de vida. Vemos uma outra realidade que nos espanta e encanta em simultâneo. Onde os miúdos se educam na companhia uns dos outros com kolikos mas também com abraços e rituais de beijinhos de boa noite, depois da história que nos pedem para contar e recontar na noite seguinte. Miúdos que partilham pães entre eles e que há sempre um pouco para nós. Miúdos que se tornam os nossos maiores protetores. Miúdos que gerem uma casa e que se deixam gerir pela família que lhes oferece o melhor que podem receber, educação. Miúdos que aceitam qualquer desafio e que são umas máquinas em tudo! Miúdos que se enchem de sorrisos quando lhes olhamos nos olhos, que disputam o nosso colo ou que só nos pegam na mão para dançarmos a este ritmo de vida alucinante. Viver sem saber quando falta a água e luz vale 500 vezes o sentimento que levo comigo, depois de um mês no lar. São experiências que nunca vou apagar da minha memória, sorrisos e olhares que tanto brilho nos dão. Sai do lar que tão bem me acolheu, com uma experiência incrível nas mãos e com todos abraços que recebi de todos os lados. No final, é verdade, é mesmo como diziam, é incrível sentir este contacto de tão perto, transforma-nos para melhor. Temos mais a aprender com eles do que qualquer um pode imaginar. Esta foi a sorte que tive. Obrigada pela oportunidade de pertencer a esta família. Um enorme obrigada!!

Miguel, Suíça 🇨🇭

Hallo! Venho aqui deixar o meu testemunho da minha aventura por terras helvéticas! Inicialmente a minha ideia era aliar o gosto pelo voluntariado (algo que já fazia em Portugal) e o de conhecer um pouco outro país, a sua realidade, cultura e pessoas, enquanto habitante de uma comunidade rural. Após alguma reflexão, acabei por optar pelo campo de voluntariado “Gipsgrueb Cooperative” localizado em Ehrendingen na Argóvia. A escolha deste campo deveu-se ao seu trabalho ser maioritariamente “DIY” (Do It Yourself), e ser relacionado com painéis / coletores solares, algo do qual nutro algum interesse! O conceito de cooperativa na Suíça, é de uma maneira simplificada,  uma pequena comunidade de famílias ou pessoas que colaboram entre si para um bem comum. Na realidade, é uma empresa, mas todas as decisões tomadas em assembleia pressupõem que os votos dos membros têm igual peso.

O objetivo principal do campo era a substituição do isolamento contido no sistema de circulação de água do coletor solar da cooperativa. O isolamento já tinha 25 anos e necessitava de reparação…
Tivemos que cavar e retirar algumas lajes de pavimento para aceder aos tubos.

O trabalho nos primeiros dias era basicamente este, e já era bem duro! Houve sempre entre-ajuda e bom ambiente entre os voluntários o que certamente contribuiu para que o trabalho não fosse tão desmoralizante. Houve também a oportunidade de adquirir alguns conhecimentos relativos ao sistema presente na cooperativa, ao participar num workshop realizado pelo coordenador do campo (Michael Keller, na imagem abaixo).

A organização das tarefas era feita pelo coordenador, e podiam variar desde recolha de frutos, remover ervas daninhas da horta, rachar lenha e fazer cimento para restaurar uma parede degradada.

Nem sempre se trabalhava no campo! A cada dia, havia sempre uma equipa de dois voluntários que ficaria encarregue de realizar as refeições (comprar os produtos que fossem necessários, recolher da horta e confecionar). Na imagem abaixo a Julie (Rep. Checa) e o Alberto (México) preparam o almoço.

É, sem dúvida, um desafio cozinhar para mais de 7 pessoas! Mas houve certamente vezes em que tivémos refeições bem deliciosas! Apresento-vos uma lasanha que eu e outros dois voluntários (Lukas (Suíça)  e Sarah (Bélgica) ) preparámos…

Mas nem só de trabalho se vivia, também tivemos bons momentos de lazer, como por exemplo a subida a Lägern (circa 800m), um monte próximo do campo de voluntariado.
Ou uma bela partida de matraquilhos.
Como cumprimos com todas as tarefas mais cedo que o planeado, conseguimos ainda visitar Baden (a cidade mais próxima)…
e passar alguns dias numa cabana algures nos Alpes (Meiringen)… algo verdadeiramente espectacular!
Com mais uma subida a Wandelhorn (2300m)….
Ou algumas cascatas bem impressionantes…

No geral, adorei este campo… trabalhámos bem, com bom ambiente e convivência. Com isso fomos recompensados com a visita a várias paisagens magníficas. Conheci excelentes pessoas que vou recordar para sempre. (da esquerda para a direita, atrás, Sarah, Alberto, Miguel, Lukas, Michael, à frente, Anastasia (Rússia), Julie, Annalisa e Mattia (Itália)). Espero um dia voltar a repetir uma experiência como esta! Obrigado!

Ana, Guiné-Bissau 🇬🇼

No dia 4 de abril embarquei naquela que seria a melhor experiência da minha vida, a maior aventura e que finalmente consegui realizar, quando tinha a certeza que ia dar mais sentido à minha vida. Senti que precisava de encontrar um rumo e que passaria por contribuir positivamente na vida de alguém. Não sabia o que esperar, mas quando vi aqueles miúdos no aeroporto para me receberem e cantarem uma canção de boas vindas, ai com os olhos já a brilhar percebi que tinha tudo para dar certo. É tão difícil colocar em palavras tudo o que vivi em 120 dias. Saber que naquele lugar eu fui realmente feliz. Consegui perceber que a felicidade pura existe e eu pude vivê-la. Fi-lo para descobrir ainda mais sobre mim e sobre o mundo. E por outro lado, acreditava que precisava de um ‘choque’ com outra realidade basicamente, sair da minha zona de conforto.

Foram meses a trabalhar em triplo para monetariamente, conseguir suportar o tempo que ia estar fora, dias e dias com os meus a divertir-me para que as saudades fossem atenuadas antecipadamente. E num abrir e fechar de olhos era eu partir sozinha na aventura. Fui e descobri a verdadeira definição de amor e partilha. Fui e conheci o povo da Guiné-Bissau um povo humilde. A verdade é que as palavras nunca irão descrever tudo de bom que aquele bairro me deu.

Ter contacto com a pobreza, num primeiro momento, pode ser mais chocante do que esperávamos, nada parece real. As condições ou falta delas são assustadoras. É uma densidade problemática derivada a um sistema corrupto e despreocupado. Uma brutal desigualdade de uma sociedade com escassos meios para vingar. É como ter numa mão a humildade e na outra a crueldade. Aquele bairro é um lugar onde a gratidão e a bondade vivem em plena harmonia, onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo. Estes meninos têm muito menos razões para sorrir que muitos de nós, no entanto, são eles os mestres na arte da alegria. Foi com eles que passei os melhores momentos. Foram eles o motivo do meu cansaço. E são eles que me dão uma vontade enorme de voltar agora. É um amor sem fim.

A magia que aquele lugar tem, apesar de ser única é indescritível. O povo guineense são um povo trabalhador e um povo corajoso perante tantas dificuldades, que acreditem são muitas, e ainda assim tão genuinamente feliz. Podia simplesmente estar a passar há frente de suas casas e convidavam logo para comer junto deles, o pouco que tem gostam de partilhar. Que inspirador. Estou grata por ter tido a oportunidade de ter feito parte deste projeto na Escola Humberto Braima Sambú, por ter sido tão bem recebida pela comunidade, por ter vivido a melhor e mais gratificante experiência da minha vida, e tenho uma profunda tristeza por ter chegado ao fim.

Nestes 4 meses aprendi que é preciso ser flexível e estar disposto a adaptar os planos às condições, que nem sempre são favoráveis. Aprendi um pouco sobre as tradições, o seu estilo de vida, no que acreditam. Aprendi também que há um mundo completamente diferente do que estamos habituados, uma realidade às vezes dura de ver. Foi principalmente pelas crianças que fui e foi com elas que aprendi mais. É incrível
a quantidade de amor que têm para dar. Com elas aprendi que não somos o que temos, somos o que damos, o amor o afeto. Aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas e que precisamos muito menos do que aquilo que julgamos.

Fazer voluntariado é ter capacidade de adaptação e vontade de descobrir. É sair da zona de conforto e perceber que até te dás bem por lá. É a possibilidade de te reinventares em situações desconhecidas. É saber aproveitar o aqui e agora. É assumir a aventura. É querer aproveitar ao máximo. É querer partilhar tudo isto com quem te incentivou e apoiou a vir. É perceber que existem outras realidades, bem distantes das nossas. É conhecer outros sons e outros sabores. É poder apreciar um céu estrelado e paisagens com novas cores. Fazer voluntariado é receber tanto, aprender, crescer, se adaptar e evoluir. É fechar os olhos, sentir a chuva a bater na cara e desfrutar de uma nova sensação de liberdade. É perceber que dentro da pobreza também é possível encontrar o paraíso. É conformar com o “arroz nosso de cada dia”. É viver com e como os locais. E se cada um de nós tivesse uma experiência destas na vida, as pessoas eram bem mais felizes e mais gratas pela vida no geral.

Para mim, Bissau foi viver intensamente cada momento, foi ver os sorrisos e gargalhadas mais genuínos, foi andar de pé descalço e de espírito leve, e foi dançar (ou tentar) ao som de Charbel e Eric Dáro com os miúdos, foi encontrar uma família em África, foi dar um pouco de mim sem estar à espera de receber a dobrar, foi conhecer- me melhor, foi fazer amigos verdadeiros, foi aprender o quão delicioso é viver desapegado do materialismo e de pequenos luxos, foi ser criança outra vez, foi rir e abraçar muito e é ter uma vontade enorme de voltar neste momento. O meu coração transborda amor e os meus olhos um brilho especial por todas aquelas crianças que me marcaram para sempre. Obrigada a todos os voluntários que partilharam a mesma aventura que eu e me terem proporcionado momentos para a vida. Obrigada Para Onde por esta oportunidade.

Este regresso a casa foi a despedida mais dolorosa pela qual já passei, dá-se um aperto enorme no peito, pois a vontade de ficar toma proporções que não pensei que fosse possível. As lágrimas teimavam em correr sem que eu conseguisse ter mão nelas. De repente aquilo que já tinha virado rotina, aquelas pessoas que me acolheram como se fosse parte da família já não estavam lá mais. E custa muito. Mas é porque o sentimento foi puro, foi genuíno. Fiz as amizades mais bonitas na Guiné-Bissau. São muitas pessoas que ficam para trás, muitos locais, muitos momentos. Sinto saudades de quem lá deixei e saudades de quem lá era, uma versão mais simples, mais livre e mais pura de mim. Quatro meses muito intensos e cheios de tantas recordações. Venho de coração cheio e com a certeza de que fiz a escolha certa ao ter partido rumo há Guiné. Os sorrisos e os abraços daquelas crianças são o retrato e a imagem de Bissau que levo comigo para todo o lado. Volto transformada e volto incompleta, porque uma parte de mim permanecerá para sempre lá. A esse sítio que será para sempre especial. Onde deixei um bocado de mim, mas de onde trouxe ainda mais. Guiné-Bissau me conquistou e fará sempre parte de mim. E eu mal posso esperar pelo dia em que vou voltar e viver tudo outra vez. Guiné-Bissau até breve.

Filipa, Irlanda 🇮🇪

Regressei há pouco mais de um mês da Irlanda e apesar de ser uma repetente nestas andanças, não é assim tão fácil transmitir como foram estas duas semanas.

Mais uma vez escolhi um projeto relacionado com proteção ambiental, afinal é uma área na qual me sinto realmente à vontade e onde a palavra trabalho é facilmente substituída por entretenimento. Assim, durante duas semanas fiz voluntariado no projeto Killarney National Park Woodland Conservation. Este projeto está integrado na preservação e manutenção do Killarney National Park, sito no pitoresco condado de Kerry. Desde há alguns anos, vários workcamps têm decorrido aqui de forma a controlar o crescimento da espécie Rhododendron Ponticum. Apesar de este tipo de planta com flor embelezar muitas paisagens pela Europa, neste parque é considerada uma espécie invasiva, pois tem prejudicado o crescimento e desenvolvimento de carvalhos, uma espécie nativa do parque. Dando continuidade ao controlo que tem sido efetuado e sempre acompanhados por rangers e outros trabalhadores permanentes do parque, o nosso trabalho consistia em cortar e eliminar estas plantas. Poderá parecer um trabalho aborrecido, mas garanto-vos que não foi. Para mim, foi sem dúvida um grande privilégio fazer voluntariado num parque natural tão bonito e cuidado como este. Uma vez que trabalhávamos em zonas remotas, de difícil acesso para os turistas ou até mesmo para habitantes locais, todos os dias era surpreendida com paisagens i-n-c-r-í-v-e-i-s. Todos os dias tínhamos que caminhar – por vezes, caminhar significava fazer montanhismo ou até mesmo trepar – cerca de uma hora até à área a controlar e, durante este tempo, recordo-me de pensar sempre na sorte que tinha em estar ali. Afinal, estava a ajudar na preservação de um local tão importante como o Killarney National Park, estava a descobrir locais que de outra forma certamente não o faria e estava no meu escritório preferido que é estar em contacto com a Natureza. Em alguns dias, ainda tive a oportunidade de ver no seu habitat natural alguns exemplares de duas espécies veados. Como poderia ficar aborrecida ou arrepender-me por ter escolhido este projeto?

Para tornar esta experiência ainda mais memorável, num dos dias enquanto trabalhava, fui picada por três vespas, o que me obrigou a ir ao médico e a uns dias de sonolência devido à medicação. Isto para vos dizer que todos os conselhos e dicas que nos dão na formação pré-partida devem ser considerados e que o Manel e a Joana nos dão o melhor apoio possível.

Também passei por algumas situações inesperadas relativamente à postura de outros voluntários, por isso é realmente importante saber gerir as expectativas e ser flexível. Com ou sem experiência, nunca nenhum programa de voluntariado será igual, mas se mantivermos sempre uma atitude positiva e o nosso propósito em mente, serão sempre dias inesquecíveis e que desejaremos repetir. Como tal, espero no próximo ano participar noutro workcamp ou, quem sabe, desafiar-me num projeto de longa duração.

Caso queiras ir para a Irlanda, um bom casaco e calçado impermeáveis são indispensáveis. No entanto, a boa disposição e simpatia dos irlandeses, as paisagens l-i-n-d-a-s e verdes, e a típica Guiness transformarão qualquer dia de chuva aborrecido num dia espetacular!

Se ainda estás com dúvidas, não percas mais tempo. Se tens vontade de ir, vai! A Para Onde? ajuda-te em tudo, só tens que escolher o local :)

Joana, Moçambique 🇲🇿

Preparem-se para ouvir uma frase cliché: Esta experiência mudou a minha vida! Antes de ir já calculava que seria uma experiência extremamente marcante, mas não tinha noção daquilo que ia mudar efetivamente em mim.

Em Lisboa eu acordo cedo, amaldiçoo a minha sorte por ter de me levantar, por ter de entrar nos transportes, por ter de ir trabalhar, sinto-me cansada mal acordo. Em Moçambique eu acordava ainda mais cedo, por volta das 6h30, passava uma hora no autocarro até às Mahotas (onde fica situada a Cooperativa) – um autocarro mil vezes mais lotado que os de Lisboa (sim, não imaginava que fosse possível) – e chegava à Cooperativa com um sorriso na cara, sendo tipicamente recebida com fortes abraços por parte daqueles pequenotes lindos.

O dia era longo, mas estranhamente não sentia o cansaço, havia cansaço, mas era de um tipo diferente. As crianças estavam sempre felizes, as pessoas com quem nos cruzávamos e falávamos na rua estavam sempre felizes e estranhamente nós também estávamos sempre felizes.

É uma realidade dura, não vos vou mentir, às vezes perguntava a mim mesma como é que aquelas pessoas conseguiam aguentar, principalmente como um sorriso na cara. Ter a oportunidade de estar com aquelas pessoas maravilhosas, de ajudar, de falar com elas sobre as suas preocupações, sobre a sua visão acerca da situação do país é verdadeiramente uma experiência indescritível.

Não pensem que é igual a outra viagem qualquer, porque não é. É extremamente mais gratificante e enriquecedor, não só porque tens a oportunidade de ajudar como também porque tens a possibilidade de aprender muito mais. Ir a um país e ficar em hotéis em zonas turísticas não tem nada que ver com a aprendizagem que vão conseguir ter ali.

Foi verdadeiramente uma experiência que mudou a minha forma de olhar para a vida, porque às vezes estamos tão confinados no nosso “mundinho”, na nossa rotina, que nos esquecemos que há literalmente um mundo inteiro lá fora para descobrir! Há tantas oportunidades, há tanta coisa que podemos estar a fazer que não vale a pena resignarmo-nos com uma rotina que não nos faz felizes.

Acreditem que recebemos muito mais com esta experiência do que damos (mais uma frase cliché, perdoem-me).

Gostava de agradecer à “Para Onde?” por tornar isto possível, à Cooperativa Luana Semeia Sorrisos por nos acolher tão maravilhosamente e a todas as pessoas que me encheram a coração durante este mês.

Maria e Vera, Finlândia 🇫🇮

Há cerca de um mês estávamos a embarcar para uma aventura de voluntariado com a Para Onde?. O destino foi a Finlândia e o projeto chamava-se “Community art and art camp for kids”.

Decidimos candidatar-nos a este projeto pois ambas queríamos trabalhar com crianças e, também, viajar para um país que ainda não conhecíamos. Assim, depois de decidido o destino e de termos sido aceites no campo, fomos a Lisboa para assistir à formação do Para Onde?. Aqui, recebemos uma série de conselhos e realizámos diferentes atividades, que nos permitiram antecipar algumas das situações que poderiam acontecer enquanto estivéssemos no campo de voluntariado.

Uns dias depois da formação, mais precisamente a 15 de Agosto, lá fomos nós rumo à Filândia. O campo só começava no dia 18, mas nós decidimos ir mais cedo para passarmos uns dias em Helsínquia!

No dia 18 lá fomos nós para Forssa, a região que nos acolheu durante uma semana. No ponto de encontro ficamos desde logo a conhecer algumas voluntárias e seguimos juntas para a casa onde íamos ficar. O tipo de casa onde ficámos tem o nome de “cottage” e consiste numa habitação típica da Finlândia. Localizava-se em Tamella, uma pequena localidade perto de Forssa, muito paisagística e tranquila. No nosso “cottage” tinhamos também o típico lago e a sauna finlandeses.

Na primeira noite, tivemos oportunidade de conhecer melhor o grupo de voluntários e, também, de perceber que atividades é que íamos fazer durante a semana. O grupo de voluntários era composto por dois coordenadores finlandeses e por seis voluntárias de diferentes países: nós as duas de Portugal, uma da Suiça, uma de Espanha, uma de Taiwan e uma de Hong Kong.

O facto de sermos todos de países diferentes foi algo que foi muito interessante e divertido, pois tivemos a oportunidade de partilhar algumas experiências e costumes dos nossos países. Nós levámos vinho do Porto para todos eles provarem, tivemos um jantar em que cada pessoa preparou uma comida típica do seu país, comemos doces típicos de Hong Kong e provámos o bubble tea de Taiwan.

Ao longo da semana, durante as manhãs, ficávamos por casa a preparar diferentes atividades para desenvolvermos com as crianças e jovens. Depois, à tarde, íamos todos os dias a diferentes escolas e, aí, ou assistíamos e participávamos nas aulas de inglês dos jovens ou, então, fazíamos diferentes trabalhos manuais com as crianças. O objetivo deste campo passava muito por ajudar os adolescentes a melhorarem  o seu inglês e por desenvolver atividades artísticas com as crianças mais novas. Neste sentido, nas aulas de inglês, chegámos a mostrar vídeos do nosso país e a responder a algumas curisosidades que os alunos tinham relativamente aos diferentes países. Com as crianças mais novas, fizemos vários trabalhos de origami e pintura. Para além disso, houve um dia que fomos até ao centro de juventude de Tamella e ficámos responsáveis por fazer pizzas, de modo a que todos juntos (voluntários e jovens do centro) passássemos uma tarde divertida!

Para além das atividades que realizámos nas escolas, no sábado, tivemos ainda a oportunidade de organizar vários workshops para toda a comunidade, que aconteceram em três eventos diferentes na região de Forssa. Estes eventos consistiam em pequenas feiras, onde as crianças e os adultos tinham a oportunidade de participar em diversas atividades e comprar produtos locais. Nestes eventos, nós voluntárias ficamos responsáveis por criar diferentes momentos de diversão e, por isso, juntamente com as crianças e as suas famílias, estivemos a fazer origamis, figuras em barro, pinturas faciais e outros trabalhos manuais.

A par de tudo aquilo que fomos fazendo nas escolas, no tempo livre tivemos ainda a oportunidade de fazer várias atividades típicas da Finlândia, como, por exemplo, idas à sauna e ao lago, andar de barco e a cavalo e visitar o museu sobre a história da região de Forssa. Estas diferentes atividades permitiram-nos experienciar a cultura finlandesa e, sobretudo, conhecer melhor a região que nos acolheu ao longo de uma semana.

Esta aventura não teria sido igual sem a presença das outras voluntárias e dos coordenadores, que tornaram esta experiência muito gratificante e divertida!!! Obrigada a eles por esta semana incrível e à Para Onde? pelo apoio constante.

Rita, Moçambique 🇲🇿

Todos os dias pensava de que forma esta experiência que iria ali viver ia mudar a minha vida como tanta gente o afirma como tão certo. Por vezes, cheguei até a duvidar que fosse possível acontecer, vamos inundados em expectativas e vivemos sempre o receio de não serem cumpridas. Tudo mudou quando conheci o Simeão, a mãe do Simeão, a Joana, a Emília, a Cleide, a Lucrécia todas as outras mães e tantos outros “culpados”.

Todo o amor que tem para oferecer e toda a alegria contagiante que vivem no meio de tanta dificuldade é profundamente especial. Hoje sou incapaz de não me emocionar a contar todas as histórias que vivi com eles. Parece exagerado mas acreditem que não é, é o sentimento mais verdadeiro que já pude experienciar, capaz de mudar qualquer pessoa.

Tive muitos receios, afinal era apenas uma estudante de fisioterapia que ainda nem a licenciatura tinha terminado e que queria um desafio, queria sair da sua zona de conforto. Ir para África foi sem dúvida a decisão mais certa que alguma vez tomei, mesmo lutando contra todos aqueles chatos e pobres de espírito que criticavam esta escolha. Se essa vontade te persegue  acredita que o resultado vai ser extraordinário.

O desafio de andar de chapa, de provar os melhores amendoins e cajus do mercado ou mesmo perder-me no bairro das Mahotas foram experiências inesquecíveis. Acompanhar a deficiência de uma perspectiva completamente nova, lidando com outras mentalidades, algumas injustiças e tentado combatê-las fez-me crescer e aprender muito.

Trabalhar na cooperativa foram dias muito cansativos mas realmente felizes, todos aqueles sorrisos nos enchiam o coração. Como é que é possível sermos felizes com tão pouco e às vezes passando por tanta dificuldade? Ter a oportunidade de conhecer aquelas histórias, tudo o que aquelas mães sofreram foi duro, mas de alguma forma dava mais sentido à nossa missão, acreditávamos que era possível fazer a diferença.

“Kanimambo” é sem dúvida o sentimento que fica, apenas as pessoas que vivem esta intensa experiência é que conseguem perceber o seu significado. É um obrigado, sem dúvida, porque eu tentei melhorar um bocadinho o mundo mas aquelas crianças mudaram o meu!

Ana, Arraial d’Ajuda 🇧🇷

Olhando para trás e refletindo acerca da minha experiência como voluntaria na Associação Filhos do Céu (AFC), em Arraial D’Ajuda, um cantinho maravilhoso da Bahia, é difícil expressar tudo aquilo que vi e senti. Como é que posso descrever por palavras os sorrisos doces das crianças? Ou os abraços calorosos dos colaboradores que me trataram como se fizesse parte da família? Como descrever o sabor maravilhoso da comida que lá era confecionada com tanto amor? Ou do leite condensado nas tapiocas e nos churros? Como expressar o cansaço que sentíamos acumulado à sexta feira e a alegria de voltar à segunda (sem parar uma hora no fim de semana)? Como explicar que em poucos dias já nos sentíamos em casa a passear na rua da Broadway ou do Mucugê? Ou que andávamos de mototaxi com as compras como verdadeiras locais?

Esta aventura marcou-me definitivamente e não foi devido à falta de eletricidade ou de água, não foi pelos mais diversos bichos que me visitaram no quarto, não foi pela chuva que fazia do percurso que percorria a pé para a organização um riacho lamacento e muito menos pelas dezenas de picadas de insetos que tinha pelo corpo. Esta aventura marcou-me pela (dura) realidade em que estas crianças vivem e por, mesmo assim, serem capazes de amar, perdoar, ajudar o próximo e, sem saberem, ensinar todos aqueles que por lá passam.

Ser voluntária na AFC é ser educadora, árbitra em jogos de futebol e de “queimado”, é cortar legumes, limpar as salas, dar castigos, ralhar e dizer que não. É sujar-se, matar baratas e separar brigas. Ser voluntária na AFC é dar amor, ouvir, aconselhar, abraçar. É dar mimo e colo, é ser paciente, imaginativo, otimista e nunca desistir. É estar presente e atenta. É fazer de tudo para que cada criança se sinta única e especial. Porque efetivamente, cada uma das 150 crianças que por lá passam diariamente o são, à sua maneira.

Diariamente fui presenteada com uma nova história, com uma nova aventura. Todos os dias recebia abraços, beijos e pequenas mensagens que me faziam sentir em casa. Que me mostravam, mesmo sem querer, que era ali o meu lugar. Que não havia nenhum outro sítio onde eu pudesse ou quisesse estar.

Esta experiência tornou-se ainda mais completa a partir do momento em que conheci mais 4 maravilhosos seres humanos que, tal como eu, decidiram embarcar rumo a Arraial. Não podia pedir melhores companheiras nesta viagem. Foram dias e noites onde rimos, conversamos, cozinhamos, dançamos (ou tentámos) e nos aventuramos por quilómetros e quilómetros de praias paradisíacas sem fim. Criamos histórias e memórias para a vida, as quais – por ser melhor não as partilhar neste testemunho – estão guardadas num cantinho muito especial do meu coração.

Hoje, sinto-me grata. Sou uma sortuda por ter vivido esta experiência e me ter cruzado com todas estas pessoas que me marcaram e levam um pouco de mim. Venho embora com já com saudade e com uma imensa vontade de voltar um dia.

Bianca, Arraial d’Ajuda 🇧🇷

A verdade é que as palavras são tantas e tão poucas para descrever tudo o que vivi e senti durante aquela que posso dizer ser “a melhor experiência da minha vida”.

Dia 31 de julho aterrei em Porto Seguro e, de coração aberto, mergulhei nesta aventura. No litoral do estado da Bahia, encontrava-se Arraial d’Ajuda, a vila que se tornou a minha casa durante o mês de agosto. O mês mais cheio de sempre mas o que mais rápido passou. O mês mais intenso e gratificante que tive mas o que mais desejava que não acabasse.

Todos os dias começavam bem cedo mas nunca sem vontade de sair da cama. Os abraços e beijos das crianças da AFC e o “Bom dia” sorridente de todos recarregavam todas as energias que pensávamos não ter. Era tão bom chegar, sentir todo aquele ambiente animado e ouvir todas aquelas vozes “Bom dia tia”, “Hoje vem para a minha sala?”, “Oiiiii Pro”…

Todos os pequenos gestos e momentos tornaram-se mágicos e ficarão para sempre guardados no meu coração. Toda a cultura e costumes diferentes dos meus (incríveis), todas as palavras e expressões que aprendi (a dizer e a não dizer), todas as músicas que tentei aprender a dançar (mas sem sucesso), todas as histórias que conheci (e que guardarei para sempre) e todos os obstáculos que foram aparecendo (e sendo ultrapassados) tornaram esta aventura muito muito especial.

Ser voluntário junto de todas as crianças da AFC é ser tudo. É ensinar mas também aprender, é dar mimo mas também estar de braços abertos para o receber, é ensinar o simples “Desculpa”, “Por favor” e “Obrigado” mas ser o primeiro a dar o exemplo. É estar junto de todos, ajudar na cozinha, brincar na creche, desenhar e escrever nas salas, jogar e dançar no salão e na quadra. E o coração gigante de todas aquelas crianças, os seus olhares, sorrisos, abraços e beijinhos, pedidos de atenção e de ajuda, desenhos, cócegas e palavras mágicas (“Titia, te amo”, “Não vá embora Pro”) são as memórias mais valiosas que poderia (e que trouxe) desta experiência.

No entanto, nada seria igual se não estivessem do meu lado mais quatro raparigas. Quatro raparigas diferentes mas com o mesmo objetivo. Objetivo esse que nos uniu e que fez com que sentíssemos que nos conhecíamos desde sempre. Foram tantas as emoções, as aventuras, as histórias, as gargalhadas, as limpezas a fundo, os sustos e descobertas de pequenos seres “inesperados”, as cantorias e tentativas de dança, a vontade constante de ir comprar leite condensado, brigadeiro, coxinhas, churros, tapiocas, açaí… Sem dúvida que elas tornaram esta experiência ainda mais única e especial.

É impossível ir e voltar da mesma maneira. Agosto foi o MÊS. O mês que me transformou, me ajudou a ver o mundo com outros olhos, me ensinou a valorizar ainda mais as pequenas coisas, a largar o que não é indispensável, a viver intensamente todos os momentos, a descontrair perante as adversidades, a sorrir perante a vida. Agosto foi o mês que me ensinou a AGRADECER. E agradeço a esta vila por me ter feito crescer, agradeço a todos os profissionais e voluntários da AFC por me terem acolhido e feito sentir em casa em todos os momentos e agradeço a todas as crianças por me terem ensinado tanto e por me terem enchido o coração de amor e vontade de voltar. Agosto foi o mês em que fui eu, em que tentei dar o melhor de mim e em que fui, verdadeiramente, feliz.

E SIM! A vontade de voltar é gigante. Para Arraial e para a AFC é apenas um “Até Já”.