A experiência da Rita em Cabo Verde

Para Onde?

Não sei, não fazia a mínima ideia. Queria fazer voluntariado, voluntariado fora de Portugal. A única regra que me impus era a língua. A língua mãe teria de ser o Português, ou parecido. Não fazia ideia do que era fazer voluntariado internacional, ainda mais com um dialecto totalmente diferente.

Eu escolhi Cabo Verde, e elas aceitaram-me na Ilha da Boavista. Se não foi a melhor escolha que já fiz na vida, de certeza que uma das melhores foi.

Cheia de medo e bastante nervosa, ansiosa e com coragem, uma enorme vontade de chorar, mas só me apetecia rir. Lutares por um sonho e chega um dia, e consegues. MEU DEUS.

Chegas à Barraca! Ao Bairro da Boa Esperança, só o nome acaba por falar um bocadinho por si. O chão é de terra batida, as casas são “ casas di tijolo”, os tetos são em chapas e lonas para proteger um bocadinho, as ruas entre as casas são apertadas. Ao lado da Barraca existe um outro bairro com ótimas condições. Prédios de três andares, pintados, com bidons de água em ótimas condições. Podiam olhar para aqueles prédios, e criarem um sentimento de revolta e tristeza, e no entanto a felicidade é quem vive naquelas “Barracas”.

Todos de chamam de “TIA”, todos te cumprimentam, todos te acolhem, todos te dão o que têm e o que não têm. Foi Incrível!

Cada criança que conheci dentro daquela creche tem a sua história, tem a sua vida e nunca ouvi nenhuma a queixar-se ou a lamentar por falta de alguma coisa. A forma como elas olham para a vida é fascinante. No entanto, ainda houve umas quantas vezes que a sensação que tinha era que me estavam a cortar as pernas. Queria andar para a frente, queria um final feliz para determinada situação, mas devido à cultura, não dá. Acabas por te adaptares. Tive muitas vezes vergonha de ser um “ser humano”. Turistas que entram na creche e só te observam, que só observam os miúdos, tiram algumas fotos para publicar nas redes sociais, e está feito. Não existe contacto, não existe conversa e pouco ou nada de sorrisos. Senti-me um “animal num jardim zoológico”, onde ninguém te toca, mas todos tem curiosidade em ver.

Aprendi, e cresci… cresci mesmo. A ideia de que vamos “ ensinar” ou que vamos “mostrar” algo novo saiu-me completamente ao lado. Na verdade foram eles. Foram eles que me ensinaram, e que me mostraram que existe muito mais para além daquilo que os olhos vêem, existe felicidade num país pobre e com muita miséria.

Tudo foi uma aprendizagem, tudo foi uma conquista.

Se um dia quero voltar? Quero, claro que quero voltar. Quero saber o futuro e o caminho que  eles escolheram.

Encontrei uma família, uma família que me escolheu a mim e às minhas companheiras.

Se queres mesmo fazer voluntariado, se queres mesmo ajudar… Faz voluntariado! Mesmo que não seja na ilha da Boavista, faz e nunca desistas.

A experiência da Ângela em Cabo Verde

Ajudar os outros é a motivação fundamental para fazer voluntariado. O voluntariado que fiz em Cabo Verde (no Mindelo, Ilha de São Vicente) fortaleceu-me, reforcei relações sociais, adquiri experiências novas, ultrapassei dificuldades, atingi objectivos e partilhei o meu tempo com quem precisava.

Venho com o coração e a alma cheios de emoções, carinho, amigos e partilha. Fazer voluntariado dá um bem estar quer físico quer emocional, por isso QUERO CONTINUAR a ajudar quem precisa do meu tempo.

Obrigada Para Onde!

A experiência da Mariana em S. Tomé

Tudo começou com um sonho de criança. Há muito que sabia que em determinada altura da minha vida iria chegar o momento em que teria de ir para África ajudar alguém. Esse momento chegou exatamente depois de ter deixado o Agrupamento de Escuteiros – 844 – do qual fiz parte durante doze anos. Senti que precisava de encontrar um rumo e que esse rumo passaria por contribuir positivamente na vida de alguém. Por outro lado, acreditava que precisava de um ‘choque’ com outra realidade. Basicamente, sair da minha zona de conforto. Foi aqui que entrou São Tomé. E porquê São Tomé? Ainda hoje não sei explicar ao certo. Sim é uma ilha linda e apaixonante em muitos sentidos, mas mais do que isso, eu sentia que era para lá que teria de ir.

Sabem aquela típica frase, que surge sempre que alguém se mete em aventuras de voluntariado ou a viajar sozinho, e diz que “recebemos mais do que damos”? É cliché, mas é mesmo isto. Imaginam do tamanho em que coração pode ficar quando um menino vos oferece um desenho em que agradece o que fazem por ele e pelos outros meninos da instituição? E o único pensamento que nos ocorre é “fiz assim tanto?!” ou “o que é que fiz realmente?”. É muito gratificante e enche-nos o coração de facto. O que para nós pode ser tão pouco, para eles é tanto… dá que pensar.

Trago várias histórias gravadas, mas uma das que mais me tocou, foi quando num dia de manhã estava a ajudar os meninos a fazer os trabalhos de casa e um deles me perguntou se eu sabia falar e escrever inglês. Este menino é o Cleizy. Ele soube que eu tinha estado nos E.U.A. antes de ir para a ARCAR em São Tomé e apesar de não ter revelado tudo no momento, o Cleizy viu-me como uma oportunidade para atingir o seu sonho.

Tirei-lhe esta fotografia nesse mesmo dia, à tarde, quando regressava da escola e foi o mote perfeito para mais de uma hora de conversa que se seguiu. Como grande parte dos meninos, o Cleizy tem um sonho. O sonho do Cleizy é vir a estudar nos E.U.A onde partilhará quarto com o seu melhor amigo e colega de turma, mas para isso ele tem de estudar muito para conseguir receber uma bolsa de estudo, e o mais difícil para ele: aprender inglês. Pediu-me que o ajudasse a decorar os verbos irregulares. Soube logo que a gramática de Inglês que tinha ainda guardada na mala já tinha um novo dono. Dizer-lhe que sim seria um desafio daqueles, porque tinha cerca de 2 semanas e meia, os meninos tinham testes e trabalhos para entregar e precisavam da nossa ajuda, e eramos duas voluntárias para dar atenção a quarenta e sete meninos com idades entre os 4 e os 17 anos.

Não quis desiludi-lo e prometi que o ajudava. Um dia quando estávamos a estudar, apercebi-me que a gramática que ele já tinha e por onde estudava, porque já conhecia e achava mais fácil, embora complementasse com a que lhe ofereci, estava completamente desatualizada, tinha a data de 1921 e praticamente todas as páginas tinham erros, tanto de português como de Inglês. Com o passar do tempo temi cada vez mais não conseguir cumprir com o prometido e sentia-me responsável. Comecei a minha pesquisa e entreguei-lhe uma folha com links de vídeos que ajudam a estudar os verbos irregulares e a gramática inglesa. Não conseguindo cumprir com o prometido, quis deixá-lo orientado para que pudesse prosseguir os estudos mesmo sem eu lá estar. Antes de vir embora entreguei-lhe a gramática (muito mais completa) oferecida pela minha mãe e que chegou a São Tomé através das voluntárias de Março, com quem ainda estivemos. Foi comovente, ele agradeceu mas nem precisava porque os olhos e o abraço dele disseram tudo mesmo antes de ele ter dito uma única palavra.

Foi incrível perceber como os meninos nos veem consoante a idade que têm. Para os mais pequeninos até cerca dos 8 anos, somos sinónimo de brincadeira e mimo (até nos ficarem a doer os braços por estarem sempre agarradinhos, bem coladinhos). Para os meninos com idade intermédia, até cerca dos 14/15 anos, somos uma espécie de modelo e procuram-nos muito para conversar sobre o mundo – o nosso, o deles e o que sobra disso – e para nos falar sobre os seus sonhos. Já com os mais velhos, com idade até aos 17 anos, passa-se mais ou menos o mesmo que com os meninos em idade intermédia, embora nos procurem muito menos por já estarem muito focados no futuro e nos estudos, uma vez que alguns já sabem o que querem.

Nunca pensem neles como “coitadinhos” por não terem acesso a tudo como nós temos (de forma exagerada e por vezes até prejudicial). Quem nos dera a nós termos a capacidade de ser todos os dias tão felizes quanto eles, a viver uma vida muito mais simples sem ter de recorrer ao que é supérfluo para nos sentirmos melhor. São crianças extremamente desenrascadas e autónomas, mas o que mais impressiona é a pureza que transmitem e que infelizmente não é fácil encontrar.

Todos os dias sinto saudades: dos meninos, das amizades, das paisagens e até do leve-leve, que confesso ter-me feito alguma confusão de início.

É só entrar no espírito e viver como eles para sermos igualmente felizes e nascer o bichinho que diz “preciso de voltar”.

A experiência do Luís na Ilha da Boavista

Nha Bubista

As ruas de terra e areia batida separam as casas de cimento e chapa que se prolongam por muitos metros. São casas sem quaisquer condições de habitabilidade, segurança e higiene, onde os odores se misturam com a música que toca nos pequenos rádios dos milhares de habitantes daquele que é um dos mais perigosos e pobres bairros de Cabo Verde.

Estávamos em Novembro quando decido partir rumo à ilha da Boavista, para um projeto de voluntariado internacional num jardim infantil. São cerca de 150, as crianças, dos 2 aos 5 anos, que, diariamente, se deslocam para o Jardim “O Xururuca” para passarem os seus dias distraídos das dificuldades que atormentam os mais velhos. Enquanto os pais trabalharam nos resorts e no mar, as crianças brincam e aprendem a ler e a pintar.

Vim para dar um pouco de mim e acabo por ganhar mais do que aquilo ofereço! Sei que esta é mais uma daquelas expressões que lemos nas redes sociais dos voluntários que descrevem as suas experiências, mas eu vou ter que repeti-la. Com esta experiência e com as crianças que fui lidando todos os dias, durante os dois meses que estive em terra de morabeza, aprendi o verdadeiro sentido da humildade, da partilha, da amizade e da felicidade.

Os sorrisos e as gargalhadas, os abraços e os beijos daquelas crianças são o retrato e a imagem de Cabo Verde que transporto comigo para todo o lado. No meio da pobreza e da miséria, o sorriso prevalecia sempre. Em cada um dos pequenos rostos que diariamente se cruzavam comigo eu via um guerreiro, uma guerreira, lutadores desde o dia em que nasceram, sujeitos a condições inimagináveis e inexplicáveis.

Vi fome e sede, mas também vi coragem e valentia. Sei que em dois meses não consegui mudar o mundo, não o consegui tornar mais justo e tolerante, mas tenho a certeza que, tal como estas crianças mudaram a minha vida eu também ajudei que elas tivessem dois meses muito diferentes.

Sozinho não consigo tornar o mundo um melhor sítio, mas se te juntares a mim e deres o teu máximo já seremos mais a lutar pela igualdade e tolerância. Não deixes para os outros o que tu podes também fazer! Arrisca!

A experiência da Bia e do Afonso no Tarrafal

Antes de mais, gostaríamos de realçar que para nós, Bia e Afonso a experiência de voluntariado foi diferente do que muitos perspetivam, incluindo para nós mesmos numa fase inicial. Frequentemente, o voluntariado é associado a situações e contextos de pobreza e falta de condições sociais, económicas e políticas. Claro que tudo isto está presente na maioria dos casos, incluindo no Tarrafal, onde estivemos dois meses.

Por forma a adaptarmo-nos ao que a associação (Delta Cultura) investe todos os dias e depois de indentificarmos as principais necessidades – nas quais seria possível atuar e deixar uma “marca” – no período em que iamos estar em Cabo Verde, podemos concluir que o nosso foco principal não foi combater essas fragilidades, mas sim, contribuir para a educação formal e informal das crianças e adolescentes com quem tivemos contacto.

A Delta Cultura é uma associação que promove a educação de crianças e adolescentes de uma forma não tradicional, que parte de pressupostos assentes na liberdade e criatividade pessoais, em que os fundamentos principais se baseiam numa ideologia em que as crianças e o jovens devem, desde cedo, ser motivados e responsabilizados pelas decisões que tomam e pelo rumo que pretendem dar à sua vida. Como tal, desde o primeiro dia, os voluntários são criteriosamente direcionados para abraçar tais ideologias e atuar nesse sentido. No que toca ao funcionamento da instituição e dado que a escolaridade é obrigatória, as crianças frequentam a instuituição mediante os seus horários escolares, ou seja, as que têm aulas da parte da manhã frequentam a DC da parte da tarde e vice-versa, o que resulta numa orientação cuidada dos procedimentos para dois grupos distintos.

A DC está dividida em diversos espaços e salas, cada um direcionado a determinadas atividades; conta com salas de música, artes, informática, de estudos, línguas e ainda com uma zona livre (o recreio), um campo de futebol patrocinado pela FIFA na campanha Futebol para o Desenvolvimento Social (Football for Hope Center). No nosso
ponto de vista, no que diz respeito às condições oferecidas, a DC é um espaço que não carece de recursos necessários ao desenvolvimento das mais variadas atividades.

Assim sendo tivemos sempre muita liberdade para desenvolver atividades, só precisámos de proatividade, criatidade e motivação! A forma como toda a família Delta Cultura nos deixou à vontade para atuarmos, de acordo com o que cada um trazia de melhor para oferecer, ajudou imenso a aproveitarmos ao máximo o tempo de voluntariado. Dedicámos especial atenção à Sala de Estudos, pois identificámos que o contacto com a língua portuguesa e o aprumo escolar eram insuficientes e precisavam de um apoio constante que não existiria de outra forma.

Demos aulas de português, fizemos jogos educativos onde o intuito era frisar a importância dos sentimentos e da cooperação, desenvolvemos atividades em grupo para dar a entender que uma conduta correta é o caminho para o futuro, apoiámos diversos projetos desenvolvidos na sala de artes, fizemos palestras ajustadas ao contexto das crianças sobre as nossas experiências pessoais e as nossas profissões e também sobre igualdade de género que era o tema do mês na associação, organizámos torneios de futebol, e cooperámos nas aulas de música. Ainda assim, podemos dizer que demos pouco comparativamente ao que recebemos e ao que nos ensinaram!

Relativamente à experiência na DC o balanço é, sem quaisquer dúvidas, fenomenal! Desde logo que a recetividade foi espantosa, mais do que esperado até. No momento da chegada é avassalador o carinho, a atenção, todos os colos, os abraços, a alegria, a ingenuidade, os sorrisos desdentados recebidos pelas crianças, sendo nós apenas mais uns voluntários que ainda nem tínhamos dado nada e já tínhamos recebido tanto! Pensamos que tudo isto terá sido fruto de todos os resultados positivos que voluntários, que lá estiveram em momentos anteriores, atingiram e claro, também, pela deficiência de afeto que estas crianças têm em casa, na escola e no seu dia-a- dia.

As crianças da DC aprenderam que nós (voluntários) somos recursos humanos que elas têm a seu dispôr, não só para lhes perspetivarmos formas de uma educação mais sólidas, que estão na base das nossas experiências vividas do sítio de onde viemos, como também de lhes retribuirmos todos estes afetos. Isto foi um excelente ponto de partida para nós, que facilitou muito a nossa integração na associação e no estabelecimento rápido de uma relação sólida com as crianças. Ficou assim provado que trazer experiências e culturas diferentes (voluntários), em específico para associações como esta, faz todo o sentido e só se traduz em ganhos para os dois lados – para quem vai e para quem está.

Daí em diante, tudo se desenrolou com uma familiar naturalidade, como se ali pertencêssemos e tivéssemos formado uma grande família, que ansiávamos ver todas as manhãs e todas tardes. Conseguimos, através da relação que estabelecemos com as diferentes crianças contrabalançar quase na perfeição, não só os momentos tão desejados em que reinava a diversão e a brincadeira, como também os tão importantes e necessários momentos lúdicos e educativos. Com uma crescente confiança mútua, conseguia eficazmente distinguir-se e ter a noção de que existiam momentos para tudo e, que era possível realizar tudo aquilo a que nos comprometêssemos.

Dos aspetos mais incríveis foi observar como as crianças eram flexíveis e moldáveis, o que fez com que todos os dias sem excepção sentíssemos que tudo aquilo que tínhamos para lhes proporcionar era importante e realmente significativo. O prazer de acompanhar o dia-a- dia de uma criança numa fase de desenvolvimento tão evidente é
incalculável e nunca, de forma alguma, nos sentimos “inúteis”, pois aquelas crianças eram de facto corações abertos e recetivos à nossa pessoa e aos nossos sentimentos.

Na nossa opinião e, remetendo para o início deste testemunho as condições de vida destas crianças não são o que mais “salta à vista” ou o que realmente foi prioritário na nossa ação, porque elas são de facto, crianças normais, como em qualquer outra parte do mundo, provavelmente têm prioridades diferentes porque estão adaptadas ao estilo de vida que levam. Aprendemos que a sua ingenuidade boa e em estado puro é que possibilita o desenvolvimento de um trabalho completo e positivo, porque no final de contas aquele é o ambiente delas, é a “terra” delas e, ainda que para nós seja diferente, temos de abraçar essa assimilaridade que nos distancia e que de certa forma, pode aliciar ao preconceito.

Aprendemos que quem vai tem inevitavelmente que deixar apaixonar-se pela cultura e pelo modo de estar das crianças e de toda comunidade e percebemos que o que realmente importa é a interação das duas partes em que cada uma dá e recebe. Fomentando o “cliché” nós acabamos por receber muito mais do que damos e do que imaginamos alguma vez ser possível antes de partirmos numa aventura como esta.

Ao fim ao cabo, juntamente com todo o amor que recebemos que é totalmente inesquecível, deixámo-nos aliciar pela Morabezza, pelo calor, pelo oceano, pelas mornas, pelos sabores, pelos cheiros, pelas paisagens que ajudam e contribuem para um gosto inestimável pelo trabalho que foi desenvolvido ao longo destes dois meses, que nunca nos sairão da memória e que se traduziram, sem dúvida, numa das melhores experiências das nossas vidas.

Mais que um testemunho, uma vivência repleta de memórias, que custam deixar para trás, mas que levaremos sempre junto ao nosso coração. No momento da despedida, as lágrimas teimam em escorrer pelas caras abaixo – nas nossas e nas das crianças – mas a alma vai quente e preenchida para sempre!

 

A experiência da Sara no Japão

Lembro-me bem daquele dia em que deixei Portugal para trás. Era um misto de felicidade e receio profundos. De alegria e medo. Era eu, no meu estado mais genuíno. Lembro-me de olhar para as minhas malas, para as minhas fotografias e o meu passaporte. Estava vazio, cheirava a novo. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido, assim aconteceu. Parti sozinha para o outro lado do mundo, com duas malas carregadas de expectativas e prontas para acolher as melhores memórias.

3 voos, 2 autocarros, um comboio e muitos contratempos inesperados. Não havia motivos para preocupações, tinha todas as indicações sobre o que fazer quando chegasse ao país, a única indicação que não me tinha sido dada era o facto da grande maioria das pessoas não falarem inglês, as dificuldades começaram aí.

Hiroshima Airport – Hiroshima station – Hamada station – Odashi station era o roteiro, fácil de perceber para mim, mas difícil de explicar a quem não fala nem compreende inglês, com muitos gestos e recurso ao google tradutor a barreira linguística foi sendo desmontada.

Estas duas semanas construíram-se sob o ritmo do dia-a-dia, andar numa carrinha de caixa aberta com destino a uma floresta, cortar árvores era o plano. Rumo a Mt. Sanbe cortar ervas com uma foicinha para mais tarde fazer vassouras. Limpar o templo Rakan-ji com direito a pausa para beber café em lata. Ajudar um grupo de homens de meia idade a cortar e limpar bambu para construírem um novo telhado da sua barraca de armazenamento de utensílios agrícolas. Visitar uma escola primária e dar a conhecer um pouco da cultura do meu país, a pergunta que tomou lugar naquele espaço foi exactamente “Have you ever met Cristiano Ronaldo?”. Visitar um jardim de infância, aprender a fazer sushi e Origami, jogar à apanhada e ao macaquinho do chinês, até já não ter energia suficiente para correr atrás das crianças.

Conviver com uma cultura tão diferente é sinónimo de adotar determinados hábitos. Na ida ao Santuário de Izumo-Taisha, coração de todos os outros santuários na área de Izumo e local onde todos os deuses xintoístas se reúnem, foram-me ensinadas as formas de culto que passei a fazer todas as vezes que ia a um templo budista ou a um santuário xintoísta. Assisti a um casamento japonês, onde a noiva usa um quimono chamado Shiromuku e pode usar dois tipos de chapéus designados por Wataboshi ou Tsunokakushi, respetivamente.

Aprendi Shodō, considerada uma arte e uma disciplina ensinada às crianças japonesas durante o seu percurso na escola primária. O Shodō pratica a escrita dos caracteres japoneses hiragana e katakana e kanji. Assisti a uma representação de Kagura, uma forma de teatro e dança características do Xintoísmo.

Pouco tempo passou desde o regresso, mas eu ainda lá estou. Desde os sorrisos, aos abraços, ao Yuta que falava muito pouco inglês, mas disse que vinha estudar para Portugal, à comida que comi e não fazia a mínima ideia do que era, à energia matinal do JD que gritava “let’s work” todos os dias às 8h da manhã, às noites mal dormidas, aos dias a cozinhar 3 refeições para 9 pessoas, ao Yoshiki que falava espanhol, às fotos que tive de tirar com pessoas  desconhecidas por ser tão diferente, aos dias a lavar pilhas de loiça com a Mei, ao quarto que partilhei com a Haruno e que parecia uma estufa porque nos esquecíamos de desligar o aquecimento durante a noite e às palavras que nunca compreendi, mas que transmitiam o maior carinho do mundo.

A experiência da Liliana na Ilha da Boavista

Os meus 20 anos: Gostaria de fazer voluntariado, assim que nem Bucket List… dos 20 aos 30… a  vida tem tanto com que te consumir, um dia a seguir ao outro fazem anos e os 30 chegaram! Que ando eu a fazer? Siga, é agora! Depois de ser possível a nível pessoal e profissional, isto está encaminhado. O Para Onde extremamente apelativo na internet… está decidido. Agora…. destino? África não, África não! … Porquê? Porque a minha vida é organizada, com regras e neste continente falta estrutura. Idealizar, idealizar… bem, mas será que vou ter a oportunidade de fazer isto outra vez na vida? Será? Não sei. Vá, contraria-te! África, go! Agora, país? … que seja PALOP…depois do recrutamento, Cabo Verde escolhido, ilha da Boa Vista a sentença.

Lá chego a esta ilha árida e de muitos poucos recursos e vou conhecer o bairro onde passarei os tempos que se avizinham…conhecido por “Barraca”;  cordialmente, socialmente e politicamente nomeado de Boa Esperança….mas que bonito, muito português….só para começares a aprender, esquece lá isso…contraria-te lembras-te? …de português, só mesmo o nome.

Não encontro palavras nem fotos que descrevam o que vi, crianças a brincar com paus e pedras como se do último modelo da playstation se tratasse; crianças a passearem de cestos na cabeça a imitarem as mães, feitas umas vendedoras ambulantes, como se fosse o último modelo da barbie…..águas paradas, cheiros maus devido à falta de saneamento, “casas” em mau estado de conservação…ou será que na realidade nunca foram finalizadas? , parece que passou por aqui o terramoto de 1755!…..feridas, muitas feridas me ficam na memória, seja das crianças ou dos animais, que são todos mais que muitos, e que vivem  a uns escassos centímetros uns dos outros……mas onde me vim enfiar? Começas logo ali a projectar “soluções”…mas calma, ainda não estás no “local de trabalho”, espera!

Primeiro dia na creche o Xururuca, ainda mal tenho um pé la dentro que aproximadamente 150 crianças estão a trepar pelo corpo acima, a dar beijos e abraços como se não houvesse amanhã e a chamar-te de “tia”….ora essa? Tia? Mas porquê? Eu ainda não te dei nada, porque me chamas de “tia”? Porque sim, porque é assim, porque basta existires para estas crianças gostarem de ti.

Mas como é possível? Porque sim. Porque são valores básicos da vida que nos meses seguintes me fizeram questão de relembrar.  A vida na creche não são rosas…os sentimentos ambíguos e duros.  Vais ali feita que nem instrutora de letras e números como se disso tudo fosse feita a vida e estas crianças respondem-te com um olhar sobre um bairro onde as oportunidades são escassas e onde ser correcto te leva mais longe do que o abecedário. …Porquê? Porque ser bem amado, numa terra de tão pouca oportunidade, te pode abrir portas. E como é que estas crianças sabem disso? Não sabem! É inerente, está nelas, a bondade habita aqueles corpos. Na realidade o que os fará perder o norte serão os anos que se seguem, os anos da conquista do seu lugar ou da perda dele, os anos do caminho fácil onde a maioria daquele bairro se refugia…a falta de trabalho… os caminhos errantes. Então mas que ando aqui a fazer afinal? Isto é um bairro de nome antagónico…. calma, pés na terra…contraria-te lembras-te? A esperança é a última a morrer. Então como encontrar o meu lugar aqui? O que posso eu realmente fazer? Pensa, pensa…..qual é a base de tudo? O ponto de partida seja para o que for? É a motivação. Mas como é que esta se aguenta ao longo do tempo? O que a faz aguentar? É o amor….o amor por alguém, por alguma coisa, pelo que fazes….ok, muito bem…e como explicas isto a crianças dos 2 aos 5 anos? Na realidade não sei, não tenho truques na manga….mas o que é que sabes? Sei que me sinto bem quando faço bem ao próximo… sei que a vida mesmo quando corre mal, se a enfrentares com positividade parece que a espiral se torna crescente. Ok, muito bem…já que estas crianças sofrem tanto, seja pela falta de condições habitacionais ou financeiras… que atingem níveis catastróficos… distribui carinho, faz-lhes o dia! E realmente tinha razão, a espiral é crescente, quantos mais beijos dás … mais recebes…perdi a conta aos obrigados e abraços que recebi por cada penso que fiz… como se o meu ato, o meu cuidado… atingisse mais aquele pequeno coração do que ajudasse no processo de cicatrização da pele.

Refugiei-me então no meu sonho para conseguir viver esta dura realidade. Refugiei-me na ideia que os meus carinhos  vão ter  futuro, que estas crianças vão querer se agarrar ao que é bom de agarrar e de guardar apenas o que é bom de guardar, que um mimo meu ficará guardado em alguma “caixa da memória” destas cabeças e que os fará o querer devolver a alguém. Que algum abraço ou beijo meu se torne numa promessa de bondade e determinação.

É preciso dar tempo ao tempo e nesta terra de “No Stress”, onde este mesmo atinge exponenciais superiores, é de acreditar que a esperança média de resolução deste bairro se adivinha longa e a perseverança pode fazer a diferença. Quero acreditar que estas crianças quando crescerem, farão por si e pelos outros, que compreenderão que ser bom é positivo para ti, para o próximo e para todos. Afinal não é toa que se lhe chama “Boa Esperança…depois do voluntariado feito, percebi que esta se encontra nestas numerosas crianças. Consegui afinal, depois de viver com elas, encontrar o altruísmo do nome do bairro que me falhou ao primeiro olhar.

E o que recebi? Por cada beijo que dei … recebi a perder a conta, recebi abraços, recebi risos, recebi amigos novos….porque voltando aos básicos, a vida só faz sentido quando partilhada…e a partilha…essa não falta numa experiência destas.  De coração e espírito abertos, o que recebi paga a experiência e ainda trago o “troco” para o meu horizonte.

A experiência da Elodie em Cabo Verde

O momento mais difícil: a decisão. Dizem que é preciso coragem para deixar tudo para trás e partir rumo a um país desconhecido. Comigo, foi tudo muito espontâneo e a decisão não foi assim tão difícil. Confesso que não levava muitas expectativas na bagagem, mas sim cadernos, lápis, livros, algumas roupinhas para doar. Sabia que não ia ser fácil, mas também tinha a certeza que a experiência na ilha da Boa Vista me iria marcar para o resto da vida.

Num ambiente amplamente dísparo, entre os turistas provenientes dos resorts luxuosos e a situação precária de uma população com cerca de 6.000 habitantes a viver em condições nenhumas, o sorriso das crianças foi o meu grande aliado. Na verdade, foi pelas crianças que fui, é pelas crianças que continuarei ligada àquela terra.

A creche social do Bairro da Boa Esperança que acolhe diariamente, de Segunda a Sábado, cerca de 150 menininhos e menininhas dos 2 aos 5 anos, é fundamental para a contribuição de uma sociedade que se espera um pouco mais justa, informada e estruturada. O desafio foi esse mesmo, nos desligarmos de uma realidade confortável do mundo “ocidental” e nos adaptarmos, todos os dias, às características muito especiais daquele país, daquele bairro, daquela creche, daquelas pessoas. Tudo é vivido intensamente quando se faz voluntariado mas todos os minutos do projeto valeram a pena.

Ajudar uma criança a ir à casa de banho, é vitória. Ajudar uma criança a comer sozinha, é vitória. Ajudar uma criança a contar até 10, é vitória. Ajudar uma criança a saber dizer “Obrigado”, é vitória. Um passo de cada vez, pelas pequenas conquistas.

Um coração que volta a Portugal cheio de boas recordações, sorrisos sinceros e esperança no futuro.

A experiência da Raquel em S. Tomé

A Terra do Leve-Leve

Por onde começar? É sempre esta mesma pergunta que me vem à cabeça quando me pedem para contar como foi esta experiência… Começo pelas minhas dúvidas, pelas dificuldades que enfrentei, pelo amor e sorrisos que recebi, pelos cabelos em pé, pelas saudades que tenho, pelo trabalho que estive a desenvolver, pelas maravilhosas praias e paisagens, pelas pessoas incríveis?! Bem, a verdade é que há muito para contar!

Hoje vou começar por contar como fui parar a São Tomé… Para ser sincera, fui ter à terra do “Levi-Levi” completamente por acaso. Sempre fiz diversas actividades de voluntariado a nível nacional, como Banco Alimentar, Refood, etc, mas a nível internacional nunca tinha feito nada e já desde há muito que queria ter essa experiência. Com o fim do mestrado a aproximar-se e com o medo de enfrentar a “vida real”, decidi que era a oportunidade ideal para embarcar nesta aventura. As únicas coisas que eu sabia era que queria fazer actividades com crianças e num país de língua portuguesa (pois achei ser mais fácil de me relacionar com as crianças e ter um impacto positivo). Portanto, Brasil ou África eram as opções… E para além da língua ser a mesma, estes locais também me fascinavam pela energia, animação e alegria contagiante daqueles povos. (Tenho pena de não vos conseguir mostrar um vídeo deles a dançar agora)

Durante a minha pesquisa dei logo com o Para Onde?, que por ser dos sites mais organizados que encontrei e o mais apelativo, juntamente com a amabilidade e rapidez da Marta e da Inês a responderem aos emails com todas as minhas mil perguntas, me chamou atenção. Dei uma vista de olhos e como queria ir antes do final do ano (2017), o projecto de São Tomé até tinha sido à primeira descartado pois só estava disponível em 2018. Entretanto, senti que estava a querer fazer tudo muito à pressa e não estava a encontrar um projecto “ideal” dentro do meu budget então pensei: “E porque não ir em Janeiro?” A minha preocupação, pois está claro, era começar a procurar muito tarde trabalho (tinha acabado o mestrado em Outubro)… “E depois fico os meses antes de ir a fazer o quê?” E depois quando voltar já vai ter tudo emprego e eu não?” Bem todas as dúvidas normais de quem está a decidir entre continuar no rumo “normal” da vida (isto na nossa realidade) ou sair da zona de conforto. Acho que já perceberam que decidi arriscar e então comecei a olhar para os projectos disponíveis em Janeiro. No entanto, as perguntas continuavam na minha cabeça, então decidi que queria ir apenas um mês… Tótó! Sim, eu sei, agora sei… pois um mês passou demasiado rápido, mais pareceu uma semana e, portanto, se estiverem a considerar quanto tempo deverão ir e se um mês é muito, digo-vos já que é pouco. Se puderem, vão mais do que um mês, vai valer a pena! Mas pronto, talvez se não tivesse decidido isto não tinha ido parar a São Tomé. Pois foram as únicas razões pelas quais fui para lá: podia ir durante um mês apenas e era um país de Língua Portuguesa. E disso não me arrependo, nem uma única vez. E assim ficou decidido o destino, agora era tratar de tudo… Passaporte, consulta do viajante, vacinas, visto, roupa, repelentes, preparação de actividades, recolha de materiais, etc… Lembram-se da pergunta que fiz a mim mesma do que é que ia ficar a fazer aqueles meses todos entre Outubro e Janeiro, aqui está a resposta! Toda a preparação necessária para quem vai sair pela primeira vez da Europa. Ah, ainda não vos tinha dito?! Pois, sim, para além de nunca ter feito voluntariado internacional, nunca tinha saído da Europa e, apesar de estar habituada a trabalhar com crianças (dei treinos de Patinagem Artística), nunca com crianças naquelas situações (em que muitas delas não têm famílias e as que têm só as estão juntas nas férias escolares). Por isso, ia ser tudo novo!

Bem, era dia 31 de Dezembro de 2017, chegou o dia, chegou o tão esperado dia! E eu nem sabia bem o que estava a sentir, medo não era e era tanta a curiosidade e adrenalina que nesse dia nem dúvidas tinha, só queria ir. Então lá fui, eu e a minha companheira desta aventura, Catarina Soares. Fomos as duas na passagem de ano ter com pessoas que não conhecíamos de lado nenhum e que nos ofereceram casa para os primeiros dias, pois a ARCAR (instituição onde íamos fazer voluntariado) só nos podia acolher dia 2 de Janeiro e os voos eram mais baratos antes. Então pensámos porque não juntar mais aventura a esta experiência e assim temos uma passagem de ano diferente. E foi uma óptima decisão! Correu tudo bem, passámos a PDA com calor em vez de frio e chuva e, ainda, conhecemos pessoas fantásticas nesses primeiros dias.

Após a recuperação da passagem de ano e de já conhecer um bocadinho da ilha chegou a altura de ir para ARCAR, onde fomos recebidas de braços abertos e com direito a muitos abracinhos dos meninos. Ao contrário da maioria dos projectos, nós ficávamos a dormir na instituição juntamente com os meninos, o que tornou esta experiência ainda mais especial. A ARCAR é a casa deles e nós passámos a fazer, não só, parte da casa deles como da sua família.

Os meninos só saiam de “casa” para ir à escola (uns de manhã e outros de tarde), ah, e claro, para ir ao mato também. O resto do tempo era passado na ARCAR, onde tinham uma hora de apoio escolar (também de manhã ou de tarde de acordo com o horário da escola) e depois era tempo livre. E era aí que nós entrávamos… entre ajudar nos trabalhos de casa, estudar, jogar futebol (sempre que havia a mínima oportunidade lá iam eles), saltar à corda, jogar à apanhada, dançar, fazer desenhos e ver filmes, assim se passavam os nossos dias com estes principezinhos.

Uma das actividades que fizemos com eles passou pela sensibilização para o lixo nas ruas, pois foi um dos problemas com o qual nos deparámos lá. Criámos com eles caixotes de lixo, mostrámos vídeos, fizemos debates e em apenas um mês eu consegui ver evolução no que diz respeito a este assunto. Quando lá chegámos era um hábito deitar o lixo para o chão ou para o outro lado do muro, quando fui embora já muitos deitavam o lixo no caixote e os que às vezes não o faziam, deitavam, pelo menos, quando nos viam por perto. Por isso, se num mês houve esta mudança imaginem um, dois ou 5 anos! As crianças são o futuro e cada um de nós pode fazer a diferença no presente e ajudar a definir o futuro destas crianças.

Como é normal, nem sempre tudo vai ser bom, as vezes vai ser tudo demasiado leve-leve e há coisas que, certamente, te vão “fazer comichão”. Mas, como a Marta e a Inês te vão avisar logo desde inicio, nós não vamos lá mudar mentalidades num mês, não dá, é impossível. No entanto, a nossa contribuição é muito valiosa! Não será certamente num mês, nem dois, nem três meses que vamos conseguir melhorar tudo, mas aos poucos e poucos vai-se construindo a mudança. No entanto, no meio das adversidades vai haver sempre pequenos momentos que te vão encher o coração e fazer-te esquecer todos os problemas. Lembro-me do primeiro dia em que ajudei o Edu a fazer os trabalhos de matemática e, no dia a seguir, ele volta da escola todo contente a dizer: “Conseguimos Raquel! Estava tudo certo e recebi uma recompensa!”. Aquele brilho nos olhos, aquele sorriso e aquela felicidade são coisas que nunca vou esquecer e que me marcaram. E vão ser momentos tão simples quanto este que vão fazer valer a pena cada dia que lá vais estar.

“Não é sobre tudo o que o seu dinheiro é capaz de comprar, e sim sobre cada momento e sorriso a se compartilhar, também não é sobre correr contra o tempo para ter sempre mais porque é quando menos se espera a vida já ficou para trás…Por isso, eu prefiro sorrisos e os presentes que a vida trouxe para perto de mim” (“Trem-Bala” – Ana Vilela). Ouvi esta música pela primeira vez em São Tomé e, é a melhor maneira de descrever tudo o que senti e trouxe comigo daquele lugar. Cada sorriso, cada brincadeira, cada traquinice, cada briga, cada desenho e mensagem que me escreveram, cada um daqueles 47 principezinhos, trago-os todos comigo.

Se estão com dúvidas em relação a fazer voluntariado internacional, o que vos tenho a dizer é “Façam! Saiam da vossa zona de conforto e façam! Arrisquem! Vai valer a pena!”

A experiência da Ana Margarida na Tailândia

Faz hoje um mês que acabou o meu voluntariado na Tailândia. Um mês!! Nem posso acreditar… Já passou mais tempo desde que voltei do que o tempo que lá estive. Mas ainda estou lá. Ainda estou naqueles sorrisos, naqueles abraços, naquelas palavras que nunca compreendi. Para mim, para a Paula, para a Íris e para o Yago esta foi uma experiência muito especial. Mergulhámos de cabeça numa cultura maravilhosa e fomos tão felizes nela…

Fomos recebidos no aeroporto pela nossa coordenadora da DaLaa (a associação que nos recebeu), pela Diretora da Escola Watphothawat e por uma das suas professoras. Desde o primeiro momento que as palavras foram de inclusão e gratidão como nunca vimos, que os sorrisos foram luminosos e que os seus braços estiveram sempre abertos para nós.

Quando chegámos à escola fomos recebidos por gritos de excitação das crianças pela presença de “farangs” – nunca antes vistos naquela zona da Tailândia. “Farang”: é esse o nome que nos dão. Aos brancos. E em momento algum sentimos que era uma palavra feia ou depreciativa. Muito pelo contrário – era uma palavra que descrevia pessoas “boas” que tinham vindo de longe para os ajudar. Sempre olharam para nós desta forma: com uma admiração da qual nunca nos achámos merecedores. Como estavam eles enganados quando pensaram que éramos nós as pessoas especiais que os iríamos ajudar! Não fazem ideia do quanto nos ajudaram a nós!! Não fazem ideia do quanto nos tornaram pessoas mais sensíveis e humanas, mais felizes e mais gratas.

Fomos para a Watphothawat School para dar aulas de Inglês. E demos!!! Mas recebemos tão tão mais… Mostraram-nos tudo: de dentro para fora, como se quer. Mostraram-nos os seus corações e a força da qual são feitos. Depois de nos conquistarem com o que são, mostraram-nos o que têm: as comidas, as paisagens, as tradições…

Ensinaram-nos a curvar perante Buda, ensinaram-nos a comer frutas que não sabíamos sequer os nomes, ensinaram-nos a entoação correta ao dizermos “Sawadee kah” (olá). Ensinaram-nos que as mesas servem para pousar os objetos porque onde se come é no chão!! Ensinaram-nos que não se toca nas cabeças das outras pessoas em sinal de respeito mas que se abraça com o corpo todo! Ensinaram-nos que mais importante que as palavras que dizemos, é a forma como as dizemos…

Nunca entendemos nada do que aquelas crianças disseram. Mas sabemos que gostam de nós como só as crianças sabem gostar. Nunca soubemos dizer aos “velhos” da aldeia a admiração e o respeito que por eles temos. Mas não temos a mínima dúvida que eles o sabem, que o sentem e que o vão sempre recordar.

A Tailândia é um mundo diferente – as pessoas são diferentes, a energia é diferente. Na Tailândia as pessoas são felizes com Nada! São felizes de pés descalços e roupas velhas. São felizes sem telemóveis de última geração e 300 canais de televisão. São felizes mesmo quando chove porque sabem que logo de seguida vai fazer sol!! São MESMO felizes!! E sinto que nós trouxemos essa felicidade connosco.

Nós fomos muito felizes na Tailândia!! E enquanto soubermos viver a Tailândia dentro de nós, sei que vamos sempre olhar para as nossas vidas com uma perspectiva diferente, com uma gratidão diferente. Eles mudaram as nossas vidas, com aquela forma simples de ser e de amar as suas próprias vidas.

Ainda hoje recebemos mensagens daqueles miúdos – e graúdos – todos os dias a dizer “I Love You” – há lá coisa mais importante para se ensinar alguém a dizer?! – e sabemos que ficámos lá. Ficámos nos corações e nas memórias daquelas pessoas. Sabemos que também os tocámos de uma forma muito especial e que de alguma forma, fizemos a diferença!

Já se passou um mês e ainda lá estamos. Sei que vamos lá ficar enquanto aquelas pessoas lá estiverem.

Fomos de Lisboa para Phatthalung para dar aulas de Inglês. E demos!! Mas eles deram-nos muito mais…