A experiência do Tiago na Tailândia

Hoje sou grato ao caminho que tenho percorrido, por me trazer mais uma oportunidade em que me pude encontrar com a beleza mais um pouco. Gratidão por aqueles momentos. Por ter estado ali, pelo ar que se respira, pelos grilos que se escutam, pelos pirilampos que acendem a escuridão, pelas pessoas com quem nos conectamos e se abrem a nós, pelo céu e pela lua, ao sol.

Chega-se a Kok Sai por caminhos asfaltados no meio da deusa selva que se impõe por todos os recantos, avistam-se montanhas que nos rodeiam e tudo o resto é verde. Entramos na vila e logo somos acolhidos em Amor, com um simples sorriso que se sente no olhar de cada criança e cada velho aldeão.

A vida é Bela… “Life is Beautiful!”, é o Lema deste Campo de voluntariado. Estas palavras que recebo do coordenador deste campo, foram uma das primeiras interações que teve comigo. Agora enquanto escrevo já à noite, diz-me que teria sido eu a proferir tais palavras, a inspirá-los através da minha carta de motivação. Já nem me lembrava muito bem, e ele mostra-me a inscrição do lema nas costas da sua T-shirt. Incrível! Lindo! que honra, que gratidão.

Somos acolhidos como libertadores, salvadores, homens e mulheres de honra. Em casa do chefe da vila dão-nos as boas vindas com um convite para nos sentarmos e pormos a mão na massa literalmente. Não é uma ajuda, não é um ensinamento, não é uma actividade organizada e planeada, é apenas a partilha de um momento tão normal nos dias destas gentes, e tão tão especial para nós voluntários de várias partes do mundo. Em círculo e à volta das mulheres aprendemos a fazer Kanom-Ta, um doce tradicional de côco, farinha de arroz pegajoso e açúcar de cana. Enrola-se numa folha de bananeira e vai ao fogo de uma fogareiro de barro a coser. Mãos na massa, dedos no óleo e enrola-se com todo o jeitinho e amor.

A comunicação com as crianças não é fácil para nós voluntários porque a barreira linguística é imensa. No entanto o som, a presença e a expressão corporal, em cada gesto a força da intenção para fazer chegar a mensagem, sorriso a acompanhar e o espírito da brincadeira, são elementos essenciais para que a comunicação seja eficaz. É maravilhoso como cada gesto e som os cativa com naturalidade. Querem mais e mais e não se cansam.

Energia, energia e mais energia, sente-se! Dá-se! Partilha-se! Cresce, cresce e é insaciável. Deste sentir de que começará sempre um novo dia, uma nova hora, um novo segundo, chega Amor. Somos mais simples, mais puros, mais conectados, mais sentimentalistas, mais espiritualistas, mais verdadeiros, mais saudáveis. Aqui dá-se sem querer em troca. Tendo-se pouco dá-se do coração, e não é o que se tem fora mas o que se leva dentro para todo o lado. E não se está à espera que os outros recebam, dá-se, oferece-se, uma vez e outra, insiste-se, porque se quer tanto. E levam dentro o futebol, a terra, as águas, as cascatas e as fontes de água quente, as motos e os amigos, os dons, esses, são diferentes e iguais ao mesmo tempo.

Quem passa já nos sorri, já nos acolhe. Uma casa cheia de crianças, nem por acaso a casa de uma tal senhora que já me havia pedido para a ir visitar, e a uma das crianças, um rapaz especial, uma criança a qual uma grande parte do mundo a vê como portadora de uma deficiência. Pão de forma, leite condensado e assim vai alimentando com amor as 7 ou 8 crianças que por ali em volta brincam juntas. Brincam a jogar à bola. O menino especial, brinca sozinho ou com o seu irmão mais novo que o desafia. Ele sorri, e sorri profundamente com o seu olhar doce, mas a magia acontece quando embarca em gargalhadas que percorrem o seu corpo dos pés à cabeça e o faziam olhar o céu com esta felicidade.

Caminha-se mais um pouco, sempre rodeado de crianças que vêm atrás de nós sem hesitar, que sabem que fazemos parte deles já, do seu mundo, e nos encantam a entrar, molha-se os pés no rio e mais à frente um simpático grupo de senhoras mais velhas que ali se juntavam numa pequena barraquinha de vender comida artesanal à beira estrada, ficam intrigadas na minha passagem. Como sempre o sorriso é fácil. Vendem banana frita e chaiang (chá com leite
condensado). Na mistura do encanto, simpatia e humildade, mas no despertar da sua curiosidade e pura inocência convidam-me a sentar, servem-me chaiang e banana frita, um saquinho cheio, e ficamos à “conversa”. Uma ou outra senhora sabem algumas palavras de inglês e eu tento aplicar e melhorar a pouca quantidade do tailandês que sei.

“Ting Plá!” gritam um pequeno grupo de rapazes. A tradução serve como “vamos atirar nos peixes”, e neste entusiasmo que cresce de me terem encontrado, querem juntar-se ao seu divertimento, que no fundo não é nada mais nada menos que caça submarina de uma forma muito ancestral, usando máscara de mergulho do tempo do Jaques Coustou e uns espigões de metal com um elástico numa das pontas que serve de fisga. E lá vamos nós tal e qual me recordo na minha infância e adolescência, 3 numa mesma moto, em busca de pescaria. Sem sequer pestanejar, desafio-me a tudo o que me propõem. Quero recordar e manter em mim essa sensação de liberdade, a paz e a energia inesgotável que se fortalece no brincar. Sempre dedicados a fazer algo acontecer.

À noite uma surpresa de perdurar o olhar. Estrelas que cintilam em plena terra, pisca-pisca sem parar no chão e nas copas das árvores. Pirilampos por todo o lado brindam-nos com a sua fantasia, como fadas espalham o seu pó mágico em cada recanto, e a paz vem sobre o sono de cada um.

Estou a aprender o verdadeiro sentido da palavra “Comunidade”. Num lugar onde não existe uma hierarquia definida. Existem líderes sim, homens de sabedoria e com experiência de vida que se juntam e discutem, partilham e formatam ideias para dar origem a acções conjuntas. Equipas de trabalho divididas pelas capacidades e cometerias de cada indivíduo. Segurança, construção educação (aqueles que se encarregam das crianças), as mulheres da casa ou homens da religião.

Jogos, pé descalço, jogar futebol no recreio à chuva, ficar molhado da cabeça as pés, sujar-me, cantar, valorizar e ser valorizado, criar sempre algo com um sorriso e deixar o sorriso no ar aconteça o que acontecer, ser, apenas ser, apenas a simplicidade de existir e deixar as emoções correrem e falarem, voltar a ser criança. É nesta simplicidade que todos deveríamos viver nas nossas vidas, em autenticidade, em respeito, em confiança, em partilha, em comunidade, em verdade, em Amor.

Será possível que sejamos todos músicos, cantando no caminho da vida? Cada qual com a sua voz, ou instrumento, com a sua nota ou tom, de cordas ou sopro, de ritmo ou melodia? E se sem quaisquer pautas ou partituras pudéssemos formar a mais linda harmonia, apenas sentindo o outro? Na mais pura conexão, na verdade, nessa mais pura energia de união que é o amor.

Talvez não tenhamos escolhido estar aqui. Talvez não se termine esta jornada assim. Talvez seja apenas mais um pedaço de caminho que se conecta com a alma em nós para que possamos sentir um pouco mais. Absorver e dar esse néctar de cada um a beber.

A Vida é Bela sim! mas é um Mistério. Quero sentir a beleza deste mistério. Quero partilhá-la com o mundo. Quero voltar a ser criança e sorrir a toda a hora, partir na aventura e descobrir, pé descalço e saltar de rocha em rocha, ser em comunhão com os outros, frágil e vulnerável ao mesmo tempo. Quero ouvir a música tocar. Grato por partilhar este pedaço de caminho com todos vós, meus queridos amigos voluntários, crianças, aldeões, velhos, homens e mulheres, partes de mim. Até já!