A experiência da Raquel no Reino Unido

Foi em Etwall, nos idílicos campos rurais ingleses, que me deparei com o Tara Kadampa Meditation Center. Era aí que ia “viver” durante 10 dias, a ajudar preparar a UK Dharma Celebration. Com honestidade admito que ia um pouco a medo, primeira viagem de avião sozinha, primeira experiência de voluntariado internacional. Mas rapidamente o nervoso miudinho foi substituído por todas aquelas coisas boas: entusiasmo, curiosidade, e, claro, graças ao Para Onde, a certeza de que se algo corresse menos bem não era necessário ficar muito ansiosa, porque havia uma rede de apoio cá (em Portugal) e lá (em Inglaterra).

 

Mas sigamos para o mais importante: o trabalho e as pessoas. Não vou aqui inventar cenários perfeitos, sim o trabalho não é sempre fácil, tivemos de mover mobílias pesadas, carrinhos de mão cheios de gravilha, e até limpar 470 cadeiras (não, não estou a exagerar, nós contámos). No entanto o staff era mais que prestável, garantindo que os quartos eram do nosso agrado (e eram mesmo), que estávamos bem alimentados (e se não têm problemas com comida vegetariana incentivo-os a ir, nem que seja só para comer as iguarias que os voluntários preparam uns para os outros), e que, em geral, estávamos bem. O nosso trabalho resumia-se a 5 horas por dia (3 de manhã e 2 à tarde), e a possibilidade de no tempo livre participar na meditação da hora de almoço ou nas cerimónias de oferendas ao fim do dia. Para além disso, tivemos 2 dias livres, em que fizemos um passeio pela natureza, visitámos a catedral e as lojas de Derby, e explorámos a vila de Tutbury.

 

Mais de metade da experiência prende-se com os outros voluntários. Vindos um pouco de toda a parte da Europa, partilhávamos um espírito divertido e bem-disposto, pronto para tudo e também para se rir muito. Aspirar carpetes enormes é muito melhor se estão todos a cantar música espanhola enquanto o fazem. A fogueira onde queimámos armários destruídos e ramos cortados transformou-se depois do pôr-do-sol com marshmallows e danças italianas. Não vou esquecer as tentativas falhadas de tentar arrastar uma lona cheia de ramos de árvores ao longo do que pareceram 2 quilómetros (mas na verdade não ultrapassavam os 20 metros) enquanto me ria às gargalhadas das caretas que a nossa colega belga fazia. O grupo tornou-se muito unido de um modo que não previa, não podia desejar ter partilhado esta experiência com um grupo melhor de pessoas.

Voltam comigo as boas memórias, as fotografias, o cartaz que era nosso dicionário improvisado, com palavras como “bom dia” ou “voluntários” escritos em oito línguas diferentes, e os contactos de amigos que ficarão para sempre comigo.

Se estão indecisos, pensando que se calhar voluntariado não é bem para vocês, pensem como eu: Estão com um espírito aberto? Querem conhecer pessoas novas? Estão prontos para ajudar no que sabem e aprender o que não sabem? Então vão. Se fui com tantas “primeiras vezes”, regresso com as expectativas altas para as “segundas”.

A experiência da Ana Luísa no Nepal

2017 foi o ano de realizar uma das experiências mais fascinantes que há tanto esperava: realizar voluntariado internacional. Foi um sonho de infância tornado realidade, foi um desprender de tudo, deixando tudo para trás e um agarrar gigante a uma nova forma de viver!
Durante três meses viajei pela Ásia. Conheci o esplendor da Malásia, os paraísos da Tailândia, a simplicidade do Vietname, e o caos, no destino mais improvável e esquecido de todos, o Nepal.

 


Foi no Nepal, neste pequeno recanto do mundo, que realizei uma jornada fascinante de voluntariado com crianças órfãs. O Nepal é um país de contrastes esmagadores onde impera a luta pela sobrevivência, mas mesmo assim, um país com um povo tão simples e tão único, um povo de coração aberto capaz de uma amabilidade extraordinária.
O Nepal é um cantinho do mundo esquecido onde, só na capital Kathmandu, segundo a ONU, há mais de 9.000 crianças de rua, órfãs e abandonadas à sua sorte que vivem em condições de extrema pobreza. Conhecido este triste fato, estava traçado aquele que seria o objetivo desta jornada de voluntariado no Nepal: crianças órfãs.

Os orfanatos no Nepal oferecem aquilo que é o essencial do essencial (e sem duvida fundamental): um teto! As crianças são retiradas da rua, às vezes, após anos a viver sozinhas. Tem então um lar, um espaço ao qual podem chamar “casa”, onde vivem com conforto e em segurança, longe do caos das ruas, sem carência de alimentação.
Nestas casas as crianças são felizes e o grande objetivo é que as crianças tenham acesso à educação. Infelizmente, sendo este um gasto muito elevado, nem todas as crianças acolhidas tem essa possibilidade.

 

A minha convivência com aquelas crianças rapidamente me mostrou que existiam várias carências: amor, afeto, regras, hábitos de higiene e alimentação adequados e acesso apropriado à aprendizagem e cultura.
É aqui que o voluntariado ganha força. É aqui que o trabalho desenvolvido se reveste de extrema importância para estas crianças.


Nos orfanatos de Kathmandu o dia começa bem cedo, com um pequeno almoço, que para mim tem tanto de estranho como de reforçado, constituído por arroz e sopa de lentilhas (o famoso dal bhat) e legumes muito picantes (que é como quem diz dolorosamente picantes). Após as crianças, literalmente, devorarem o pequeno-almoço, é hora de lavar os dentes, mãos e cara, vestir o uniforme escolar e ir para a escola.  Quando as crianças regressam da escola é hora de fazer os trabalhos de casa e rever a lição aprendida. As crianças adoram receber ajuda nestas tarefas, sendo que eu cuidadosamente ajudava nos trabalhos de inglês e matemática. Realizado o dever de estudo, as crianças ficam livres para atividades lúdicas. Entre badminton, andar de bicicleta, jogar às cartas, jogar à bola, ver televisão, fazer desenhos ou ler histórias há espaço e tempo para me pedirem (ou roubarem) muito mimo e colo, arrancando de mim um sorriso sem fim e um suspiro de amor.


Quero acreditar que o pouco do meu trabalho foi muito, quero acreditar que cada gesto de amor fez a diferença. Sei que não dei só o melhor de mim, dei-me a mim de uma forma completa e inteira e sei que recebi ainda mais do que aquilo que dei.


Regresso a casa uma pessoa diferente, mais simples e ao mesmo tempo mais completa, mais feliz, mais consciente e mais humana e sobretudo com o coração preenchido de amor e serenidade e com a certeza de que “é preciso tão pouco para ser feliz”.

 

A experiência do João no Reino Unido

Confesso que inicialmente a ideia de me lançar num programa destes não se devia exclusivamente ao facto de poder ajudar sem receber nada em troca. Tinha noção que além de ajudar, podia receber muito, como efetivamente se confirmou.

O voluntariado em Leckmelm Farm, Ullapool, na Escócia, proporcionou-me muitas coisas boas, que passo a enumerar:

  • Fiz parte de uma comunidade durante duas semanas que me recebeu muito bem e onde todos estiveram sempre disponíveis;
  • Conheci um país que não conhecia;
  • Convivi de perto com pessoas de diversos países, com experiências de vida e idades muito diferentes;
  • Melhorei o meu inglês;
  • Participei em atividades (trabalhos na quinta e na comunidade) que até então eram completamente desconhecidas para mim e que, graças ao apoio de todos, não foram tão difíceis quanto temia.

Acima de tudo, considero que foi uma experiência muito gratificante a nível pessoal, pois fiz parte de um grupo de 5 voluntários que durante as duas semanas de workcamp se comportaram como uma família e permitiu estar num ambiente muito diferente do meu dia-a-dia, o que sem dúvida foi ótimo para “limpar a cabeça”.

Espero que a equipa do Para Onde? continue a desenvolver da melhor forma este excelente projeto e uma vez mais digo que estou ao dispor para algo em que possa ser útil.

Com certeza que vai ser uma experiência a repetir o mais breve possível, só ainda não sei… Para Onde :)

A experiência da Adriana em Moçambique

2016 foi um ano de mudança. Tinha chegado o momento de deixar tudo para trás e seguir um sonho antigo, o do voluntariado internacional. Graças ao crowdfunding consegui angariar o montante suficiente para ir fazer voluntariado em Moçambique. Em Agosto parti para Moçambique, mais precisamente para Chówkè, uma pequena cidade localizada a 200 km de Maputo.

Fiquei alojada em casa de uma família moçambicana, o que me permitiu viver esta experiência na sua plenitude. Com a Vovó Cacilda partilhava os meus serões, as minhas alegrias e angústias. A Vovó é daquelas pessoas que guardo com enorme carinho no coração. Este é um sentimento predominante, o de gratidão para aqueles que me receberam de braços abertos na sua terra. Khanimambo!

No ano passado uma grande seca fustigou a região afetando gravemente aqueles que todos os dias lutam pela sua sobrevivência, ou seja, a maioria da população. É devastador assistir tal situação em primeiro plano, faz-nos sentir inúteis e impotentes. Perante esta incapacidade de atuação, decidi fazer a única coisa que podia: empenhar ao máximo na missão e entregar de corpo e alma ao projeto. Passo a passo. Gesto a gesto.

Ao longo de 4 meses trabalhei em duas escolas e num Centro de Dia HIV. Nas escolas ajudei os alunos nos seus trabalhos de casa, dei explicações de Português, Matemática e Inglês. Sempre que possível, dinamizava a sala de Apoio com atividades extracurriculares, como expressão plástica e momentos de escrita/leitura. Exemplo disso foi a atividade “Se eu fosse Presidente de Moçambique”, a Agredisse surpreendeu a classe quando afirmou que “construía uma escola para os jovens para o ensinamento do amor e de como namorar para acabar com as gravidezes prematuras e indesejadas”.

 

Quanto ao Centro de Dia HIV, é constituído por cerca de 30 crianças e, ao contrário do que possa parecer, elas convivem bem com a doença e não se sentem desprivilegiadas por tal. No Centro passei muitos dos meus dias… dançámos, brincámos, trabalhámos, “assistimos”, rimos e chorámos (mais eu que eles). Cada dia era diferente, cada dia era especial. A genuinidade dos seus sorrisos e abraços penetravam o mais duro dos corações. Era impossível resistir-lhes.

 

Posso dizer que muitas coisas mudaram, mas quem mudou realmente fui eu. Mudei a forma como vejo o mundo, aprendi a aceitar a diferença e a ser mais tolerante com o próximo.

Eu vivi. Eu cresci. Eu aprendi. Esta experiência capacitou-me de uma forma que nenhuma escola o fez. Ensinou-me a ser humilde, a valorizar o que tanto que temos, mas principalmente o dom de Deus, a Vida.

Regresso a Portugal com a certeza que sou uma pessoa mais paciente, mais consciente e, principalmente, mais humana.

Por mais pequena que seja, sei que o meu pequeno gesto fez a diferença!

A experiência da Marta nas Maurícias

Aquele nervoso miudinho começa a crescer, quando estou no avião quase a aterrar e penso “devo ser louca”. A paisagem vai-se aproximando e reforço a certeza de ter escolhido bem o lugar à janela, mesmo com menos idas à casa-de-banho. Tudo verde, o mar, as imensas montanhas, através do que as nuvens deixavam descobrir.

Para a maioria das pessoas, as Maurícias são praias paradisíacas. Para mim também eram. Tive dúvidas em como poderia vir a sentir a experiência pessoal que procurava que me mudasse, num sítio considerado tão turístico. Claramente não sabia o que me esperava.

O que conheci foram as verdadeiras Maurícias. As Maurícias do Inverno em Julho, com chuva, longe da praia, por muito que a ilha seja pequena. Foram as Maurícias de Moka, onde estava a sede do workcamp, as Maurícias das pessoas normais, locais, tão reais.

Éramos 11 participantes no campo: eu, dois espanhóis, duas checas e seis mauricianos (duas meninas e quatro rapazes). Mas nas nossas primeiras horas, éramos mais. Éramos uns 20 ou 30, muita gente local que nos quis conhecer, jantar connosco, saber quem seria o grupo que ia pôr mãos-à-obra por um bocadinho do seu país.

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Vivíamos numa casa que pertencia à organização local, com três andares. O primeiro era térreo no exterior, com uns plásticos que nos protegiam da chuva e do vento. Era onde comíamos, conversámos durante o dia e nos encontrávamo-nos ao final da tarde depois de tomarmos banho. Depois tínhamos mais dois andares, um para os rapazes, outro para as meninas. Dormíamos em colchões no chão, cada um com o seu saco-cama. Tínhamos duas casas-de-banho com água fria, uma cozinha e não havia Wi-Fi.

Foi nesse espaço que nos tornámos uma família. Não é cliché, é mesmo verdade. Durante 2 semanas partilhámos as vidas, olhámos nos olhos, entendemo-nos com graça, com risos. Com calma e com um coração gigante. Não há palavras que descrevam a bondade constante dos mauricianos, a dedicação. E foi uma magia sortuda poder descobri-los pouco a pouco, dia após dia. Não vi maldade, não vi egoísmo em 15 dias seguidos. E isso muda qualquer um!

O nosso workcamp consistia em trabalhar num bairro social, especialmente numa “casa” de uma divisão, onde viviam 5 pessoas: a mãe e quatro filhos, o maior já com 16 anos. A história da família é trágica, mas merece ser contada para entender por que foram os merecedores da nossa ajuda. Eram uma família normal, com trabalho, iam à escola. No entanto, num dia fatídico, a filha mais nova, com 4 anos, morreu atropelada por um tractor no meio de um dos inúmeros campos de cana de açúcar. O pai entrou em depressão e suicidou-se. A mãe tornou-se alcoólica e perderam tudo. Conseguiu forças para largar o vício e dar um tecto aos seus quatros filhos. Precário, a partilharem os mesmos 5 m2, mas ainda assim, um tecto.

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Todas as manhãs, por volta das 9h, íamos nós encavalitados em 2 carros, sem cintos, para este bairro, em Curipipe. No início chocou. Chocou-nos a nós e aos locais. Olhavam-nos de lado, os cães ladravam, os miúdos não saíam de casa e sentimo-nos um bocadinho intrusos, provavelmente porque não foi bem explicado à comunidade o que estávamos ali a fazer.

Tínhamos um casebre onde deixávamos os materiais, as malas e os sapatos, e onde nos preparámos para o trabalho físico: botas e luvas de borracha e muitos sacos do lixo à volta para nos proteger da chuva; afinal de contas, não havia gabardines para todos e quase ninguém tinha ido bem preparado para o Inverno.

Ao longo de 10 dias, com dedicação, paixão e amor ao próximo, limpámos a maior lixeira que vi de perto, que estava mesmo à frente da casa da família. Sacos e sacos e mais sacos de lixo e a lixeira não diminuía. Cheirava mal? Claro que sim. Isso impediu-nos de nos divertimos? Claro que não! Sempre que tirávamos uma mala, uns sapatos, simulávamos um fashion show para nos rirmos. Sempre que aparecia uma roda de uma bicicleta, fingíamos que a montávamos até ao contentor do lixo.

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Com o passar do tempo, no segundo ou terceiro dia, o bairro mudou. Passou a aceitar-nos, passámos a sentir-nos parte deles. Não podíamos comunicar muito, porque só falavam crioulo, mas os gestos fazem milagres. As crianças já brincavam connosco, fazíamos caretas e riam-se muito! Os cães já não se importavam connosco e continuavam nas suas sestas infinitas. As senhoras velhotas insistiam em carregar baldes de gravilha, mesmo que fossem demasiado pesados.

Fazíamos pausas com a comunidade, alguns almoçavam connosco. Fizemos torneios de futebol ali, no meio da estrada, descalços no alcatrão. Duas pedras a fazer de baliza e uma bola rota que andava por ali perdida. É preciso mais? É tão mais reconfortante viver na simplicidade.

Com a sua ajuda, construímos uma horta para que a comunidade pudesse plantar os seus legumes, para comerem de maneira mais saudável e pouparem um bocadinho mais. Movemos pedras para a frente e para trás, tantas vezes que já nos ríamos de voltar a fazer uma fila à chinês. Mas ficou bonita a nossa horta. Nos últimos dias, já em modo recta final, conseguimos os materiais para fazermos cimento e, assim, começar a fazer uma nova divisão para a casa, para terem mais espaço e um bocadinho mais de privacidade. Misturámos gravilha, terra e água no chão com pás, e de repente tínhamos um chão com ar muito profissional!

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Toda esta experiência foi ainda mais inesquecível devido ao grupo de voluntários. Aos amigos incondicionais que nasceram em meia dúzia de horas. Aos pequenos gestos, que se tornaram tão grandes. A um carinho que apetece trazer para casa. As checas começaram muito tímidas, os espanhóis a falar entre eles, eu a saltitar um pouco entre a gente. A comunicação saltava entre o inglês, o francês, o catalão, o espanhol e o crioulo mauriciano. De alguma maneira, foi assim que nos conhecemos, com expressões de cada um.

Todas as noites, depois de jantarmos todos juntos, tínhamos uma reunião para falar sobre como tinha corrido o dia. Good evening guys, era o chamamento, quando nos tornávamos mais honestos, construtivos e tão unidos. Nas Maurícias, ou pelo menos ali, planeia-se muito tudo. Planeia-se o dia seguinte ao detalhe, o que vamos fazer em cada hora. Quando chega o dia seguinte, os planos mudam totalmente. Mudam os horários, muda a dinâmica, muda a acção. No início frustrou um bocadinho. Depois adaptamo-nos e é tudo melhor, com calma, muita calma. Que tranquilidade de maneira de viver!

Depois da reflexão sobre o dia, juntávamo-nos todos num dos quartos, em rodinha ou deitados nos colchões, com umas cervejas e música de fundo, especialmente em francês. Hoje, quando ouço essas músicas, voo quilómetros e volto a sentir-me nesse chão onde partilhámos quem éramos. Passavam-se horas na conversa e a rir, a descobrir mais de cada um, a criar ligações que só este ambiente permite. Foi assim que nos tornámos essenciais, foi assim que nasceram os abraços, a confiança que só se tem com quem vivemos tão intensamente e de maneira tão verdadeira.

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Tivemos dois dias livres de descanso. Num deles, fomos à capital, Port Louis. Já fomos tarde, porque a noite anterior tinha sido longa. Fomos com os nossos colegas das Maurícias, então estávamos à vontade. Apanhámos o autocarro directo e passámos o dia a passear pelas ruas antigas e pela zona moderna.

No outro dia livre, queríamos ir à praia. Apesar de estar (sempre!) mau tempo em Moka, bastava afastarmo-nos uns 20 minutos de carro e encontrávamos o sol e a praia por que tanto ansiávamos. Saímos por volta do meio-dia para apanhar um autocarro, pelo qual esperámos 40 minutos e nunca chegou a aparecer. De repente passa uma carrinha de 10 lugares e, sem sabermos bem como, estávamos lá dentro em direcção ao nosso destino, começava a aventura! Deixou-nos numa vila, os mauricianos estavam convictos e fomos a um mercado comprar comida típica, coisas estranhas que não sei confirmar o que comi. Mas provei de tudo, não podia negar essa experiência.

Enquanto comíamos, levaram-nos a ver o mar. Bonito, azul, que vontade de mergulhar! Onde está a praia? Era preciso apanhar outro autocarro, que por sorte estava à nossa espera na paragem. Entrámos, esperámos. Esperámos mais de meia-hora, porque o condutor não aparecia, e não fazia mal. Não havia uma única pessoa chateada, ansiosa, revoltada ou stressada com o atraso. Nós e todos, esperámos com calma, com uma paz interior!

Chegámos finalmente à praia, com os aviões a passarem a meia dúzia de metros de altura. Água cristalina e o sol que desapareceu em menos de duas horas. No meio disto tudo, perdemos o autocarro de volta; sem stress. O plano: atravessar um enorme campo de cana de açúcar à noite, para chegar à vila ao lado onde teríamos outro autocarro. Apesar de surreal, pareceu-nos o plano perfeito. Íamos com música, copos de rum e um bom feeling de paixão profunda pela vida. Pelo caminho, aparece outra carrinha de 10 lugares: “precisam de boleia?” Entramos, luzes néon, música aos altos berros, que energia! E levou-nos a casa.

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Os últimos 4 dias do workcamp foram passados em cima de uma bicicleta. Todos os anos celebram a amizade e a paz com uma volta à ilha em duas rodas. Pareceu-nos a ideia perfeita para conhecermos as Maurícias, ver cada quilómetro que percorríamos com a nossa força. Confesso que foi duro, muito duro. Uma média de 30 quilómetros por dia, com muitas subidas e descidas. Se voltava a fazer? Agora que já me esqueci das dores e do cansaço, digo já que sim!

Foi das melhores experiências!! As Maurícias têm uma beleza natural incrível, umas montanhas que nos deixam sem folgo e uns campos de cana de açúcar de perder de vista. Foram quilómetros e quilómetros de olhos apaixonados, de companheirismo de “vamos, tu consegues, estamos quase!”. De ter de parar para admirar, já sem força para tirar fotos, para respirar tanta pureza. Foi incrível!

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A melhor parte do dia era quando chegávamos ao destino, exaustos. A meta era sempre uma das tais praias paradisíacas famosas do país. Água quente e cristalina, o sol a desaparecer, a areia fina e os músculos a relaxarem nas braçadas juntos, nas palhaçadas dentro do mar, na água de coco partilhada ou nos mini-ananases que vendiam as barraquinhas.

Montávamos as tendas, enormes para 6 pessoas cada, jantávamos à luz da fogueira. Abraçávamo-nos muito com a sensação que o fim da aventura estava próximo, e dormíamos que nem pedras em cima da areia, porque o corpo pedia descanso.

Esse fim da aventura chegou, já de volta a Moka. Com despedidas na cascata, com as últimas cervejas da viagem. Estava triste, mas tinha o coração tão feliz! Senti-me tão sortuda por tudo o que vivi e senti, por me terem voltado a ensinar o que é a calma, a amizade verdadeira, o coração puro, a dedicação desinteressada.

As pessoas, esse amor que nasceu, foi o que trouxe para casa, o que me enche as memórias. Estou realmente grata pela experiência incrível que me abriu o mundo dos workcamps, quero voltar a fazer outro já, já, já!!

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A experiência do Manel em Cabo Verde

O meu nome é Manel Clemente e tenho 27 anos. Tal como a maioria de nós, licenciei-me e mergulhei no mercado de trabalho. Certo dia, 5 anos e 3 empregos depois, percebi que precisava de algo que me aproximasse mais duma coisa que nos faz mais falta do que imaginamos: Humanismo. Por isso, optei por deixar de ser o colaborador 29527 para passar a ser o monitor Manel. Não foi o melhor que podia ter feito, foi sim a única coisa a fazer.

Já estive desse lado. Não sei se dias demais, mas foi o tempo necessário certamente. Li bastantes testemunhos, possivelmente todos os que existiam. E, apesar de toda esta “preparação”, uma coisa eu aprendi: a nossa imaginação nem sonha aquilo que vamos encontrar. Posto isto, rendi-me ao desconhecido e embarquei numa aventura de 90 dias em Cabo Verde.

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Optei por ficar 3 meses no Tarrafal para ter a possibilidade de sentir que vivia realmente lá, que fazia parte daquela vila. E vale tanto a pena! Não tenham medo de achar que é tempo a mais porque, quando acabar, vão sempre achar que não foi o suficiente.

Sempre com o Monte Graciosa a espreitar, a vila do Tarrafal é bastante pacata e possui aquela que é, para mim, a melhor praia da Ilha de Santiago. O peixe fresco abunda e as cores vivas das mangas e papaias não nos passam despercebidas. As pessoas são muito acessíveis e bastante hospitaleiras. Trânsito e stress são coisas que o Tarrafal não conhece, daí reinar um ritmo bastante relaxado.

Estão a ver aquele local de trabalho em que a qualquer momento pode acontecer algo mágico? É esta organização em Cabo Verde. Perdi a conta aos sorrisos rasgados, às danças incansáveis e brincadeiras intermináveis. Fico eternamente agradecido pela forma como fui recebido e integrado no projecto. Antes de me ir embora, o Florian (Fundador da organização) abraçou-me e disse-me: “Ainda vamos conseguir mudar o Mundo”. E sabem que mais? Saí de lá a acreditar que sim.

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Se estás a ler isto é porque, provavelmente, já tens aí o “bichinho”. O meu conselho: deixa-o crescer! Permite-lhe ver a luz do dia, não o oprimas nessa teia de dúvidas e receios. Desprende-te de todos os condicionalismos que te rodeiam e vai. Pode ser?

Se sentes, não hesites.

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A experiência da Alexandra em Cabo Verde

Há muito que desejava fazer voluntariado mas nunca consegui a altura certa… ou porque não havia tempo, ou disponibilidade mental ou monetária, ou porque tudo o que encontrava era por longa duração, ou para áreas muito específicas,… Havia sempre uma razão qualquer nem que fosse o “medo” do; e senão for capaz?, e se chego lá e não me ambiento?,… Para ser honesta, todas essas questões estiveram na minha cabeça até ao momento em que encontrei o Para Onde, li a experiência da Inês e vi todas as propostas de voluntariado e percebi… afinal é simples!

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A partir daí, foi pesar fatores como língua, preços de viagens, tipo de projetos,… escolher; e esperar que me recebessem. Foi um processo muito rápido, quando dei por mim já estava no Tarrafal, bem no meio da organização de acolhimento em Cabo Verde.

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Ajudar as crianças nos trabalhos de casa e a estudar, participar nos jogos didáticos, brincadeiras ou simplesmente conversar, trocar experiências e satisfazer curiosidades de ambos os lados… Ver sorrisos genuínos, gestos de carinho e partilha de quem tem pouco, mas que dá sempre para mais um; Conhecer um país, cultura e povo diferente…

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Foi um mês intenso, cheio de novas experiências e emoções. Foi um mês em que senti que dei muito pouco para o imenso que recebi! E por isso só tenho a agradecer às crianças e monitores da organização que me acolheu, às pessoas que conheci no Tarrafal e ao “Para Onde?” que me deu a direção certa. OBRIGADA!!

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O testemunho do Bakary

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“Chamo-me Bakary e venho da Gâmbia, cheguei sozinho a Itália em Abril de 2011 por Lampedusa – tinha 16 anos. Fui resgatado pela Associação Save the Children e levado para um acampamento improvisado de barracas para refugiados. Fiquei lá 23 dias e contei cada um deles. Foi de lá que parti para uma comunidade residencial de menores a 40km do aeroporto de Catânia. Fiquei lá um ano e meio e o início foi realmente difícil. Não entendia ainda a língua Italiana e poucos falavam Inglês. Passei muitos dias a estudar sozinho, intensivamente. Tive a oportunidade de frequentar a escola, mas sentia-me desconfortável porque éramos os primeiros alunos de cor negra a viver naquela cidade. Fugiam de mim, mudavam de rumo na rua para me evitar… Por isso mesmo, retraí-me muito, preferia sempre ficar sozinho em casa. No entanto, tinha uma enorme necessidade de me mexer, de libertar fisicamente tudo aquilo que me passava pela cabeça. Comecei a correr muito, primeiro sozinho, depois acompanhado. Repararam na minha condição física e convidaram-me para jogar futebol na principal equipa da cidade. Aí a minha vida começou finalmente a mudar. Mas, precisamente nesse período de maior mudança, veio mais uma: fui transferido para outra comunidade residencial para menores em Bari, no sul do país. Apesar da minha apreensão inicial, o dia em que lá cheguei foi o mesmo dia em que me inscreveram numa boa escola e que eu entendi que iria começar a construir o meu futuro com a ajuda das pessoas que lá trabalhavam. Terminei o 9º ano com boas notas, fiz um estágio e rapidamente encontrei emprego num restaurante. Apesar das dificuldades do país, tive sorte. Tenho neste momento contrato de trabalho há mais de um ano e meio. Ajudaram-me a estudar a língua, a encontrar um emprego e uma casa. Hoje estou integrado, independente e feliz!

Também tive más experiências, claro. Muitos nos olham mal, dizem que viemos para roubar os empregos e as pessoas. Discriminam-nos. Lembro-me que uma vez estava sozinho no autocarro a voltar para casa do trabalho e o motorista obrigou-me a sair porque disse que não me iria levar só a mim a lado nenhum. Gritou-me que o caminho acabava ali. Não sou uma pessoa violenta, perdi o dinheiro que tinha gasto no bilhete e saí. Tentei fazer uma queixa, mas vi que o responsável não estava minimamente interessado e simplesmente fingiu que a tinha assente, nunca resultou em nada. Às vezes surgem estas situações, mas temos de aprender a respirar fundo e manter a nossa integridade.

Decidi ajudar aqueles que chegam na mesma situação em que eu cheguei, tornando-me assim mediador intercultural. Ajudo como intérprete de refugiados menores e sou a ponte entre eles e os mais variados serviços judiciais, escolares, de saúde, etc. É algo que me dá um enorme gosto fazer.

Queria fazer algo mais. Comecei a participar em campos de voluntariado internacionais organizados pelo Serviço Civil Internacional. Trabalhei, junto a jovens de todo o Mundo, na reconstrução de um centro social e também organizámos vários debates e atividades sobre a imigração em Itália, jovens que vivem em ghettos e trabalhos forçados sem quaisquer condições. Aprendi muito sobre este assunto que me toca de forma tão profunda.

Hoje estou feliz. E o voluntariado é algo que me fez, sem dúvida, encontrar a alegria na vida. Continuarei a fazê-lo sempre, todos nós o deveríamos fazer.”

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(Traduzido da língua Italiana)