A experiência do Manel em Cabo Verde

O meu nome é Manel Clemente e tenho 27 anos. Tal como a maioria de nós, licenciei-me e mergulhei no mercado de trabalho. Certo dia, 5 anos e 3 empregos depois, percebi que precisava de algo que me aproximasse mais duma coisa que nos faz mais falta do que imaginamos: Humanismo. Por isso, optei por deixar de ser o colaborador 29527 para passar a ser o monitor Manel. Não foi o melhor que podia ter feito, foi sim a única coisa a fazer.

Já estive desse lado. Não sei se dias demais, mas foi o tempo necessário certamente. Li bastantes testemunhos, possivelmente todos os que existiam. E, apesar de toda esta “preparação”, uma coisa eu aprendi: a nossa imaginação nem sonha aquilo que vamos encontrar. Posto isto, rendi-me ao desconhecido e embarquei numa aventura de 90 dias em Cabo Verde.

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Optei por ficar 3 meses no Tarrafal para ter a possibilidade de sentir que vivia realmente lá, que fazia parte daquela vila. E vale tanto a pena! Não tenham medo de achar que é tempo a mais porque, quando acabar, vão sempre achar que não foi o suficiente.

Sempre com o Monte Graciosa a espreitar, a vila do Tarrafal é bastante pacata e possui aquela que é, para mim, a melhor praia da Ilha de Santiago. O peixe fresco abunda e as cores vivas das mangas e papaias não nos passam despercebidas. As pessoas são muito acessíveis e bastante hospitaleiras. Trânsito e stress são coisas que o Tarrafal não conhece, daí reinar um ritmo bastante relaxado.

Estão a ver aquele local de trabalho em que a qualquer momento pode acontecer algo mágico? É esta organização em Cabo Verde. Perdi a conta aos sorrisos rasgados, às danças incansáveis e brincadeiras intermináveis. Fico eternamente agradecido pela forma como fui recebido e integrado no projecto. Antes de me ir embora, o Florian (Fundador da organização) abraçou-me e disse-me: “Ainda vamos conseguir mudar o Mundo”. E sabem que mais? Saí de lá a acreditar que sim.

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Se estás a ler isto é porque, provavelmente, já tens aí o “bichinho”. O meu conselho: deixa-o crescer! Permite-lhe ver a luz do dia, não o oprimas nessa teia de dúvidas e receios. Desprende-te de todos os condicionalismos que te rodeiam e vai. Pode ser?

Se sentes, não hesites.

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A experiência da Alexandra em Cabo Verde

Há muito que desejava fazer voluntariado mas nunca consegui a altura certa… ou porque não havia tempo, ou disponibilidade mental ou monetária, ou porque tudo o que encontrava era por longa duração, ou para áreas muito específicas,… Havia sempre uma razão qualquer nem que fosse o “medo” do; e senão for capaz?, e se chego lá e não me ambiento?,… Para ser honesta, todas essas questões estiveram na minha cabeça até ao momento em que encontrei o Para Onde, li a experiência da Inês e vi todas as propostas de voluntariado e percebi… afinal é simples!

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A partir daí, foi pesar fatores como língua, preços de viagens, tipo de projetos,… escolher; e esperar que me recebessem. Foi um processo muito rápido, quando dei por mim já estava no Tarrafal, bem no meio da organização de acolhimento em Cabo Verde.

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Ajudar as crianças nos trabalhos de casa e a estudar, participar nos jogos didáticos, brincadeiras ou simplesmente conversar, trocar experiências e satisfazer curiosidades de ambos os lados… Ver sorrisos genuínos, gestos de carinho e partilha de quem tem pouco, mas que dá sempre para mais um; Conhecer um país, cultura e povo diferente…

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Foi um mês intenso, cheio de novas experiências e emoções. Foi um mês em que senti que dei muito pouco para o imenso que recebi! E por isso só tenho a agradecer às crianças e monitores da organização que me acolheu, às pessoas que conheci no Tarrafal e ao “Para Onde?” que me deu a direção certa. OBRIGADA!!

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O testemunho do Bakary

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“Chamo-me Bakary e venho da Gâmbia, cheguei sozinho a Itália em Abril de 2011 por Lampedusa – tinha 16 anos. Fui resgatado pela Associação Save the Children e levado para um acampamento improvisado de barracas para refugiados. Fiquei lá 23 dias e contei cada um deles. Foi de lá que parti para uma comunidade residencial de menores a 40km do aeroporto de Catânia. Fiquei lá um ano e meio e o início foi realmente difícil. Não entendia ainda a língua Italiana e poucos falavam Inglês. Passei muitos dias a estudar sozinho, intensivamente. Tive a oportunidade de frequentar a escola, mas sentia-me desconfortável porque éramos os primeiros alunos de cor negra a viver naquela cidade. Fugiam de mim, mudavam de rumo na rua para me evitar… Por isso mesmo, retraí-me muito, preferia sempre ficar sozinho em casa. No entanto, tinha uma enorme necessidade de me mexer, de libertar fisicamente tudo aquilo que me passava pela cabeça. Comecei a correr muito, primeiro sozinho, depois acompanhado. Repararam na minha condição física e convidaram-me para jogar futebol na principal equipa da cidade. Aí a minha vida começou finalmente a mudar. Mas, precisamente nesse período de maior mudança, veio mais uma: fui transferido para outra comunidade residencial para menores em Bari, no sul do país. Apesar da minha apreensão inicial, o dia em que lá cheguei foi o mesmo dia em que me inscreveram numa boa escola e que eu entendi que iria começar a construir o meu futuro com a ajuda das pessoas que lá trabalhavam. Terminei o 9º ano com boas notas, fiz um estágio e rapidamente encontrei emprego num restaurante. Apesar das dificuldades do país, tive sorte. Tenho neste momento contrato de trabalho há mais de um ano e meio. Ajudaram-me a estudar a língua, a encontrar um emprego e uma casa. Hoje estou integrado, independente e feliz!

Também tive más experiências, claro. Muitos nos olham mal, dizem que viemos para roubar os empregos e as pessoas. Discriminam-nos. Lembro-me que uma vez estava sozinho no autocarro a voltar para casa do trabalho e o motorista obrigou-me a sair porque disse que não me iria levar só a mim a lado nenhum. Gritou-me que o caminho acabava ali. Não sou uma pessoa violenta, perdi o dinheiro que tinha gasto no bilhete e saí. Tentei fazer uma queixa, mas vi que o responsável não estava minimamente interessado e simplesmente fingiu que a tinha assente, nunca resultou em nada. Às vezes surgem estas situações, mas temos de aprender a respirar fundo e manter a nossa integridade.

Decidi ajudar aqueles que chegam na mesma situação em que eu cheguei, tornando-me assim mediador intercultural. Ajudo como intérprete de refugiados menores e sou a ponte entre eles e os mais variados serviços judiciais, escolares, de saúde, etc. É algo que me dá um enorme gosto fazer.

Queria fazer algo mais. Comecei a participar em campos de voluntariado internacionais organizados pelo Serviço Civil Internacional. Trabalhei, junto a jovens de todo o Mundo, na reconstrução de um centro social e também organizámos vários debates e atividades sobre a imigração em Itália, jovens que vivem em ghettos e trabalhos forçados sem quaisquer condições. Aprendi muito sobre este assunto que me toca de forma tão profunda.

Hoje estou feliz. E o voluntariado é algo que me fez, sem dúvida, encontrar a alegria na vida. Continuarei a fazê-lo sempre, todos nós o deveríamos fazer.”

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(Traduzido da língua Italiana)