A experiência da Rita e do João na Mongólia

Olá, os nossos nomes são João e Rita, temos 22 e 21 anos, respetivamente, somos ambos de Lisboa e estivemos este verão num programa de voluntariado através da organização Para Onde, durante duas semanas na Mongólia. Aqui fica um resumo, ou pelo menos uma tentativa de tentar pôr em palavras aquilo que muitas vezes transbordou do coração.

Há uma frase que gostamos muito que fala de como na vida, tantas e tantas vezes, estamos aborrecidos e tão absorvidos no nosso canto que nem nos preocupamos em levantar a cabeça do que quer que tomemos como sendo inadiável, e olhar à volta e perceber que é preciso “mexer a colher dentro do copo, porque muitas vezes o açúcar está no fundo”.

Por meio de conversas e um bocadinho desta necessidade de experimentar um verão um bocadinho diferente do habitual, decidimos embarcar numa viagem a um país do qual pouco ou nada sabiamos -Mongólia. Por meio de pequenas burocracias pusemo-nos em contacto com a organização do ParaOnde, e tendo falado com a Inês e com a Marta, que foram umas segundas mães durante umas boas semanas, partimos a uma aventura para a qual não tínhamos qualquer expectativa.

Honestamente, quando chegamos a UlaanBaatar, a capital da Mongólia, ficamos reticentes quanto ao quão “desligado” poderia efectivamente ser o voluntariado. Sem qualquer informação sobre que tipo de crianças seriam, qual seria o tipo de voluntariado que íamos fazer, e só sabendo que iríamos trabalhar e participar em atividades de verão para crianças que não pudessem pagá-las em circunstâncias normais, o nervoso miudinho aumentava quando nos aproximávamos do campo já com todos os voluntários.

Tão rápido como começou, também acabou por passar, esta sensação de nó no estômago, sendo que assim que chegamos ao campo fomos recebidos de sorriso na cara e braços abertos por crianças desde as mais pequenas até algumas adolescentes, que não falavam a nossa língua nem alguma em que conseguíssemos comunicar, mas cheias de amor para dar.

O campo estava organizado como uma casa de verão para crianças que durante o ano estavam num orfanato por várias razões. Todos tinham tarefas que eram feitas com o maior dos gostos, porque todos tinham prazer em ajudar (-nos) fosse de que maneira fosse. As condições eram pobres, mas não descuidadas, querendo dizer que o que havia estava bem cuidado e em uso.

Dormíamos todos numa sala comum o que facilitava muito o convívio entre voluntários e as crianças dormiam numa outra casa onde estavam divididos por idades. Fazíamos as refeições todos na mesma sala ainda que a horas diferentes e todas as noites, antes da hora de dormir das crianças cantávamos uma “Goodnight Song” em Mongol, com as crianças – um “beijinho de boa noite” muito especial, principalmente para nós.

Um dia normal começava por volta das oito e meia, em que tomávamos o pequeno almoço e éramos divididos em grupos com actividades diferentes como ensinar inglês a crianças mais pequenas, aos adolescentes, fazer desportos, ajudar na cozinha, ajudar a pintar infraestruturas dentro do campo ou fazer jogos didáticos que de alguma maneira pudessem ter impacto de várias maneiras.

Muitas vezes perguntavam-nos se a barreira linguística não era um entrave à comunicação e na verdade, o que sentimos durante essas duas semanas foi que isso nunca sequer existiu. A verdade é que nenhuma das crianças falava, nem aprendeu connosco ou com outros voluntários, inglês suficiente para ter uma conversa, mas o facto de saberem dizer “Goodnight”, “Goodmorning”, “Thank You” e “I Love You”, chegava para tudo o que fazíamos com eles; quer fosse a ensinar números até cem, as cores ou só a brincar à apanhada, tudo se fez porque o coração falou sempre mais alto.

Acho que quando dizemos que algo nunca nos marcou tanto como isto, não é de todo um exagero porque toda a experiência, desde o termos chegado sem qualquer expectativa, até ao facto de quarto palavras terem servido para conseguirmos criar laços reais com estas crianças foram coisas absolutamente extraordinárias. Desde de termos tido ajuda, eu, Rita, quando queria lavar o cabelo na mangueira que havia na colina do campo e ter uma turma de crianças que vinha de bom grado ajudar-me, a mim, João, ter tido ajuda quando tentei montar uma espécie de estrutura para um chuveiro – não podíamos estar mais satisfeitos e mais felizes por termos, para além de nos sentido úteis e realizados, termos podido perceber que mesmo não tendo muito, há tanta coisa que ainda podemos partilhar uns com os outros, sejam quais forem as nossas circunstâncias.

O dia em que nos viemos embora do campo foi também um dia muito emotivo. Mesmo não tendo tido experiências disso o dia todo, todas as crianças com quem estivemos e principalmente as com quem criámos maior ligação ficaram, assim como nós, muito ligadas a tudo o que vivemos lá. Sair de pulseiras oferecidas e feitas pelas crianças, com cartas escritas em Mongol e traduzidas pela coordenadora fantástica que tínhamos no campo, e fazer tudo isto sem lágrimas nos olhos não é uma tarefa fácil.

É muito complicado deixar um lugar onde já fomos muito felizes e as pessoas que nos fizeram felizes nesse lugar.

Como resumo deste testemunho, fica não só o conselho de partirem a fazer algo parecido, mas principalmente, a partilha de que o que achamos que trouxemos de maior de lá foi na verdade a convicção de que não precisamos de ter nada para poder dar tudo a quem está ao nosso lado, que não precisamos sempre de falar para criar relações inesquecíveis e que muitas vezes, os atos mais pequenos são aqueles que mais marcam, mesmo que não só individualmente, mas como num conjunto – e que muitas vezes é mesmo preciso ir ao fundo buscar o açúcar que ficou esquecido no fundo do copo.

A experiência da Catarina em Zanzibar

Desde o dia que decidi embarcar nesta aventura até o dia de partida foi tudo muito rápido. Na verdade, tudo em si aconteceu demasiado rápido.

Já tinha na cabeça fazer esta experiência há algum tempo, até que um dia apareceu-me no Facebook o “Para Onde” e não hesitei. Trocámos uns emails, e passado uns dias estava a marcar voo.

Sem qualquer noção do que vinha aí, embarquei. Na realidade acho que mesmo quando já estava no voo, ainda não estava em mim, estava com alguns nervos, mas por outro lado sentia-me bastante relaxada e segura, parecia-me uma viagem “normal” para um sítio que eu conhecia e estava familiarizada.

A verdade é que não podia estar mais errada e tão certa ao mesmo tempo. Errada porque não era de todo um sítio que conhecesse, era uma cultura completamente diferente da nossa: hábitos, maneiras de pensar, cheiros, maneiras de viver, definições de riqueza/pobreza, horários, um ritmo muito diferente do nosso (em Zanzibar é tudo muito pole pole – devagar devagar)… Mas por outro lado estava tão certa relativamente a sentir-me segura, confiante pois iria para um local em que me iria sentir bem, que fosse bem-recebida. E este sentimento veio assim que pus os pés em Zanzibar e fui recebida pelo Mr. Idi da associação que iria colaborar, que após ter estado 3 horas à minha espera devido a atrasos de voos e demoras no visto e eu me ter logo desculpado por tê-lo feito esperar tanto tempo, me recebeu com um abraço, um sorriso na cara e me disse “Hakuna Matata, We are Family here,  We are here for you” – neste momento senti-me em casa.

Estive perto de 3 semanas em Zanzibar, com vários projectos desde remodelação de escolas, pinturas, brincadeiras com crianças dos 2 aos 18 anos, workshops com universitários, organização de actividades com crianças e pais, formação de líderes de associações, aulas de inglês, aulas individuais… e não há palavras para descrever o amor, a humildade, a simplicidade.

Em Portugal, toda a gente me perguntava se havia muita pobreza e eu respondia sempre a mesma coisa: “A Pobreza e a riqueza são muito relativas” – aqueles miúdos vestiam a mesma roupa todos os dias durante uma semana, sujas e com rasgões, não andavam com as novas tendências, brinquedos quase nem vê-los e luxos nenhuns, mas davam-nos o seu maior sorriso, partilhavam connosco as suas melhores histórias desde as coisas grandes às coisas mais pequenas, onde mostravam a sua maneira de ser: pessoas simples, com muito amor, entusiasmados, motivados a aprender, ansiosos para que alguém lhes desse uma oportunidade, lhes ensinasse algo (fosse o que fosse) – o que eles queriam era aprender, chegavam sempre com os seus caderninhos a perguntar novas palavras, novas cores, novos adjetivos…Pessoas criativas, de uma garrafa de plástico faziam carros – desafio-vos a ver se conseguem ter tal criatividade. São pessoas muitos ricas em amor e felicidade, que me ensinaram e me inspiram muito, relembraram-me certos valores e ensinaram-me novos.

No final, existiu aquela sensação de que aquela é a realidade deles, e que eu iria embora e tudo voltaria ao normal, e os últimos dias foram vividos com alguma revolta. Mas hoje sei que fiz a diferença na vida de algumas pessoas quando passado mais de um mês me enviam fotografias de coisas que falámos, me enviam a opinião deles sobre livros que lhes dei, me enviam fotografias das crianças a fazer actividades que fazíamos… e para isto não há palavras que descrevam este sentimento.

Conheci pessoas que sei que não vou esquecer, saber as histórias de cada um deles é marcante, mantemos contacto e sei que um dia voltarei.

Não podemos mudar o mundo todo, mas podemos mudar uma pequena parcela. Se estão, nem que seja só um bocadinho, curiosos por ter uma experiencia de voluntariado, não hesitem e vão.

Vão vocês próprios, “nus” de todos os egos e ideais, sejam simplesmente vocês, levem amor, vontade de ouvir, de ensinar e um sorriso na cara, e voltarão muito mais ricos.

A experiência da Diana na Boavista, Cabo Verde

Já passaram alguns dias desde que voltei e as saudades são cada vez maiores, a vontade de voltar não desaparece e a cabeça teima em reviver os momentos passados nesta Ilha.

Assim que cheguei tive logo a oportunidade de conhecer a associação que me acolheu por 7 semanas e com quem tive a oportunidade de vivenciar momentos muito bons. Os primeiros momentos foram de um impacto enorme, perceber que em pleno século XXI ainda existiam pessoas a viver em condições tão más foi de uma tamanha tristeza. O certo é que sabemos que há pessoas a viver em condições más, mas vivemos no nosso mundo e não ligamos muito a isso, só mesmo quando conseguimos ver com os nossos próprios olhos e sentir é que começamos a dar mais atenção ao que anda à nossa volta.

Porém, esse sentimento apaziguou-se assim que entrei na primeira sala de aula. A sala tinha umas 30 crianças com 3 anos e todas começaram a gritar pela “tia” nova que tinha acabado de chegar, alguns mais envergonhados ficaram no lugar deles, mas outros começaram logo a abraçar-me e a dar-me beijos sem fim. E assim foi, durante as sete semanas que passei naquela associação. Todos os dias era recebida por eles como se fosse o primeiro dia, era preenchida de beijos, abraços, carinho e sorrisos do tamanho do mundo.

Era um sentimento tão bom que acordava todos os dias de manhã cedo cheia de vontade para voltar para eles, e à noite deitava-me cansada, por vezes sem forças, mas ao mesmo tempo realizada e feliz.

As educadoras e os funcionários da associação foram impecáveis, receberam-me da melhor forma possível e sempre me ajudaram e apoiaram em tudo. A ilha é fantástica e o povo é incrível, sempre muito acolhedores e queridos e
com eles passei experiências e momentos únicos e inesquecíveis.

Mas então, perguntam vocês, não houve momentos maus? Houve, claro que houve, houve momentos em que me faltou a paciência, na qual me chateava com eles, na qual não conseguia nem por nada mantê-los sossegados e atentos, mas não desistia, tentava sempre arranjar uma forma de resolver o problema e de no fundo lhes dar a volta. Umas vezes conseguia outras nem por isso, e ai tinha de me render àquela cara deles a olharem para mim literalmente com o olhar mais meigo e ao mesmo tempo mais traquina de sempre.

A despedida foi a parte mais difícil de todas, as lágrimas corriam e teimavam em não parar, as crianças olhavam para mim sem saber o que fazer, alguns abraçavam-se a mim outro davam-me festas e outro andavam pela sala a dizer a toda a gente que a “tia” estava a chorar.

A quem está a pensar em fazer parte deste projeto, só posso dizer que vale muito a pena, para irem sem medo, com o coração cheio e com a mente livre. Foi uma experiência única, na qual aprendi muito e mudei muito a minha forma
de ver as coisas Acredito que mudei um pouco a vida deles, mas eles sem duvida mudaram a minha por completo. <3

A experiência da Andreia em Arraial d’Ajuda

Ainda recordo o momento em que cheguei a Arraial D’Ajuda e aguardava ansiosamente na Praça da Igreja a chegada de uma das responsáveis. Eu estava prestes a realizar um sonho da minha vida. Tudo parecia surreal e a minha mente estava invadida por um sem fim de pensamentos, dúvidas e medos que depressa se extinguiram no momento em que entrei na Associação Filhos do Céu e que conheci todas as pessoas maravilhosas que diariamente dão um pouco de si para manter esta Associação erguida e cuidar destas 150 crianças.

Torna-se difícil descrever por palavras aquilo que vivi durante o mês que estive nesta Associação. O carinho com que fui recebida, as oportunidades de aprendizagem, de crescimento e de desenvolvimento que tive, os valores que são transmitidos, as amizades que são feitas, o amor que se recebe da equipa e das crianças… Só sei que parti para Arraial D’Ajuda com a intenção de dar um pouco de mim e de alguma forma contribuir para esta Associação, a sua equipa e as suas crianças, no entanto regressei a Portugal com a sensação de que trouxe muito mais comigo com que levei e de que ultrapassei todas as expectativas…

A equipa da Associação Filhos do Céu tem uma missão: educar e ensinar as suas crianças com base em valores como o respeito, o amor, a amizade, a entreajuda, o carinho, a gentileza, a humildade… Ao mesmo tempo que os prepara para a vida na sociedade e os empodera para a transformação e para a mudança que a sociedade e o mundo tanto precisam.

Todos os meses a Associação desenvolve e foca-se num tema que explora com as crianças. Posso dizer que fui uma privilegiada durante o mês em que estive presente nesta Associação, já que o tema de Outubro, em homenagem ao dia da criança que se realiza neste mês, seria a CRIANÇA. Para além do tema do mês, que é explorado e desenvolvido através de diferentes atividades e abordagens, a associação desenvolve em simultâneo com as crianças atividades como a Capoeira e a acrobacia aérea em tecido. Tem ainda um dia dedicado ao apoio e reforço escolar e um dia em que realiza a roda do diálogo, onde todos se reúnem em roda, professores e crianças, com o objetivo da partilha e do crescimento conjunto.

Um mês que que foi vivido tão intensamente e que passou num segundo… Comigo veio um bocadinho de todas as pessoas que conheci e todos os momentos que vivi e fica a saudade e o desejo de um dia voltar…

Ter a oportunidade de passar por Arraial D’Ajuda e pela Associação Filhos do Céu, é ter uma oportunidade para crescer, para conhecer outra realidade, para mudar perspetivas e para compreender que a vida pode ser tão simples e tão cheia de paz, harmonia e tranquilidade. O truque? Simplesmente ser, viver e aceitar tudo aquilo que somos e tudo aquilo que temos…

 

A experiência da Vanessa em Moçambique

Como exprimir por palavras uma vivência de tamanhos sentimentos?

Foi uma experiência mágica, uma oportunidade única, na qual conheci pessoas tão bonitas… É um lugar onde a gratidão e a humildade vivem em plena harmonia, onde as crianças nos trazem sonhos e onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo.

Em Mahungo conheci uma nova cultura que me ensinou a viver o presente, pois a felicidade existe no momento e não no futuro. Em Mahungo a minha família cresceu mais um pouco com pessoas incríveis.

Na escolinha as coisas acontecem muito devagar, é uma cultura onde o tempo é uma constante que ainda não está bem definida, ou seja ele simplesmente vai passando e as coisas acontecem ao seu ritmo como tiverem que acontecer. E assim se vive em paz e com tranquilidade e cada um aprende como consegue. É preciso motivação e incentivo para aquelas duas lindas professoras, que gostam tanto do que fazem e se complementam tão bem. A Lolinha faz uns bolos ótimos quando um menino faz anos e a Julia adora aprender coisas novas e praticá-las.

Aprendi com todas estas pessoas, que o amor resolve quase tudo na vida, viver com gratidão e com espírito de partilha é sem dúvida a forma mais digna de viver e que tudo na vida em todos os lugares acontece a seu tempo e tudo isto junto é a perfeita forma de felicidade.

Podia ficar a escrever durante horas que iria sempre faltar alguma coisa. São muitas as memórias dos que lá ficaram e uma única promessa. “Eu hei-de voltar”.

Kutsaca é “Estar Feliz”, e é só isto que faz sentido.

É um lugar de amor e paz, onde se contam histórias de força e de luta. Um lugar onde a humildade reina e todos são seus seguidoresm
É lá, onde o tempo não passa porque não existe, onde se vive o “agora” intensamente, porque na realidade não há passado nem futuro,
É lá, onde a felicidade é um modo de vida e não um objetivo, onde as crianças nos trazem sonhos, onde a gratidão é o que sentimos pelo próximo, onde vives dando o melhor de ti sem querer receber nada em troca,
É lá, onde ficam as memórias daqueles que por lá passam e trazem com eles memórias dos que lá ficam, onde o desapego tem presença obrigatória, onde uma trovoada é o espetáculo mais bonito das ruas e mesmo assim tem tanto de bonito como de ruim,
É lá, onde havemos de ter, onde havemos de ir, onde havemos de chegar, e nunca, mas mesmo nunca, tem problema.
É lá, que o amor resolve quase tudo!
É lá… lá looonge,
É Mahungo, é África 💛

A experiência da Marta na Boavista, Cabo Verde

Ainda faltam as palavras para descrever tudo o que vivi o mês passado.

Desde o dia em que decidi embarcar nesta aventura até ao dia de partir foi um salto. De um momento para o outro, as malas estavam cheias. Cheias de medo, incerteza e insegurança. Mas também carregadas de muito para dar, de conhecimentos para partilhar e de esperança em tornar o mundo (de alguém) melhor!

Assim que aterrei em Boa Vista o ar parecia cortar a respiração. O sol queimava mais, a paisagem era seca e deserta, e tudo funcionava a um ritmo diferente. Percebi que estava fora da minha zona de conforto como nunca. Seguimos para o bairro onde íamos começar a trabalhar, o Bairro da Boa Esperança, ou Barraca, como é chamado. Por muito que tenha visto fotos e vídeos, é impossível ficar preparado para conhecer um sítio como este.

Caminhar pela primeira vez pelo bairro foi surreal. O ambiente era quente e húmido e os cheiros fortes. Ali não existe nada do que nos é dado como garantido: nem água canalizada, nem saneamento, nem electricidade. Lidar de perto com este tipo de pobreza foi mais difícil do que esperava. Mas rapidamente percebi que, mesmo assim, há música nas ruas. Que as pessoas se juntam, que jogam, que cantam e dançam, e que há sempre quem tenha um sorriso para oferecer.

Os primeiros dias na associação foram invadidos por um sentimento de frustração. Tinha a sensação de que nunca iria conseguir mudar aquela realidade e de que, no final, tudo continuaria igual. A organização e o ritmo são diferentes. Ter mais de 30 crianças numa sala tão pequena tornou difícil a realização das actividades como tinham sido pensadas. São crianças alegres, sonhadoras e criativas, mas muito energéticas e habituadas a não ter regras. Foi preciso entrar no ritmo, perceber a realidade em que vivem e aprender a lidar com isso. Aprendi que é preciso ser
flexível, estar disposto a adaptar os planos às condições, que nem sempre são favoráveis. É preciso não levar expectativas. É preciso não ter pena. É preciso ter muito amor e carinho para dar, sem preconceitos.

Trago comigo a imagem daquelas crianças a correr de braços abertos para nos receber. Foi assim que nos receberam todos os dias, como se fosse o primeiro. Foi por elas que fomos e foi com elas que aprendemos mais. É incrível a quantidade de amor que têm para dar. Com elas aprendi que não somos o que temos, somos o que damos. Aprendi que a felicidade está nas pequenas coisas. Aprendi que com quase nada se faz muito, e que precisamos de muito menos do que julgamos.

Voltei com o coração apertado porque hoje estou aqui, mas elas continuam lá. Mas voltei com a esperança de que tudo o que ofereci um dia vá fazer a diferença, mesmo que pequena :)

Resta a promessa de um dia lá voltar. A esse sítio que será para sempre especial. Onde deixei muito de mim, mas de onde trouxe ainda mais. Onde apesar de todas as carências se vive de uma maneira humilde, simples e feliz, sem stress.

 

A experiência da Cláudia na Ilha da Boavista, Cabo Verde

É tão difícil falar sobre algo que nos marcou tanto.

Quando decidi ir para a Boa Vista não sabia muito sobre o que ia encontrar, não fiz pesquisa, não queria ir com ideias predefinidas. Sabia apenas o que se ouve falar por aí. A verdade é que por muito que nos digam nada nos prepara para aquela realidade! O primeiro contacto é um choque, nada parece real. O Bairro da Boa Esperança ou “Barraca” parece um cenário de um filme. As condições ou falta de condições são assustadoras. No entanto depressa o choque é passado para segundo plano e completamente derrubado por sorrisos. Sorrisos tão genuínos! Apaixonei-me todos os dias pelos mesmos sorrisos. É um amor sem medida.

Foram 4 semanas, aprendi tanto. Aprendi a viver de maneira diferente. Aprendi que se não há é porque não faz falta. Aprendi que o Amor supera tudo. Aprendi que tudo é fácil. Mas sem dúvida que o mais difícil é a despedida.
Foram 4 semanas muito intensas, poderia escrever muito mais, mas nunca vou conseguir explicar o que se vive e se sente lá…

Fica a promessa de um regresso e a certeza que sou uma pessoa diferente.

A experiência do João no Tarrafal, Cabo Verde

Olá, eu sou o João. Antes de partir para esta nova aventura tinha receios, que penso serem transversais a qualquer voluntário e uma ansiedade de quem vai pisar uma terra e cultura desconhecidas. Assim que cheguei à Ilha de Santiago, mais concretamente ao Tarrafal, ainda atordoado por um voo atrasado, dei por mim a jogar futebol na praia com nativos. Um momento que recordo com carinho pela aceitação imediata por parte do povo cabo verdiano e pela simplicidade destes em acolherem uma pessoa de quem nada sabiam.

Mais do que eu ensinei àquelas crianças, ensinaram-me elas a mim valores tão básicos como a felicidade sem motivo aparente. Uma felicidade genuína construída com tão pouco, um prazer em viver a vida na sua simplicidade plena.
Aquilo que guardo em mim, não passa pela beleza natural da ilha (que é arrebatadora), mas sim a relação que criei com o Pitchitchu, o sorriso da Vanessa, o abraço da Solene, os silêncios do Elton e tudo aquilo que as outras crianças me ofereceram sem esperarem algo em troca, mas que seria impossível de enumerar.

Foram 32 dias que sinto que passaram a correr, num país onde tudo se passa tão devagar. Cheguei há um mês, mas não há um dia em que não sinta saudades destes momentos. Aconselho vivamente a que partam para um projeto que vos escolha, como este me escolheu a mim.

A experiência da Ana Sofia na Ilha da Boavista

Já estou de volta a Portugal e ainda não consegui mentalizar-me de que o último mês foi real. Quando há alguns anos atrás surgiu a vontade de fazer voluntariado fora do país, parecia-me algo muito longínquo até decidir começar a procurar mais sobre o assunto. No último ano o “bichinho” cresceu ainda mais e decidi que estava na altura de pôr em prática a ideia de há tantos anos! Foi então que encontrei a associação “Para Onde?” e tudo me começou a parecer bem mais simples e realmente possível. E desde o tomar a decisão até lá chegar, foi um pulo. Quando me apercebi já estava a aterrar na Ilha da Boavista, em Cabo Verde. Tentei preparar-me antes de ir para lá mas nunca conseguimos estar verdadeiramente preparados para o que se vive numa experiência destas.
Aquele primeiro dia foi um choque. Quando cheguei àquele bairro, parecia coisa saída de um filme. Demorei imenso tempo a cair na realidade e a perceber que realmente lá estava, que estava mesmo a viver aquilo! Só dois dias depois é que estivemos pela primeira vez com as crianças. Chegámos ao Jardim de Infância e fomos recebidas por mais de uma centena de crianças a gritarem “tia”, a abraçarem-nos e a tentarem subir por nós acima para nos darem beijinhos. Fomos tão bem recebidas! E o mais incrível é que todos os dias éramos recebidas como se fosse o nosso primeiro dia. Enchiam-nos o coração dia após dia. Mas nem tudo foi fácil. Uma realidade completamente diferente da nossa, condições bem diferentes das que estava habituada e tantas outras coisas com as quais tivemos que lidar. Levava imensas ideias que gostava de ter posto em prática e que rapidamente percebi que seriam impossíveis de concretizar, o que nos primeiros dias levou a uma certa frustação. Não é fácil manter aquelas crianças concentradas a fazer algo durante muito tempo seguido! Mas rapidamente isso se contornou, foram apenas alguns dias de adaptação até entrar no ritmo daquelas crianças com tanta energia e tanto amor para dar.

O ambiente daquele país é incrível, as pessoas são maravilhosas, são um povo fantástico! E a forma como levam a vida é invejável. Rapidamente fui contagiada pelo “No stress” que ali se vive. Uma tranquilidade inexplicável que me fez questionar o porquê de levarmos uma vida inteira a correr. Ali aprendi que é realmente tão fácil ser feliz.
Este regresso a casa foi das despedidas mais dolorosas pelas quais já passei. As lágrimas teimavam em correr sem que eu conseguisse ter mão nelas. São muitas pessoas que ficam para trás, muitos locais, muitos momentos. Um mês muito intenso de tantas recordações. Mas venho de coração cheio e com a certeza de que nestas ocasiões a típica frase do “recebemos bem mais do que aquilo que damos” é realmente verdade.

Não será nunca um adeus. Ainda nem tinha vindo embora e já estava a pensar no regresso. Ficou feita a promessa de que voltarei um dia ♡

A experiência da Catarina em Moçambique

Como sumarizar este intenso mês em poucas linhas?

Cheguei a Moçambique sem qualquer tipo de expecativas, vim de coração aberto como pediu a Susana. Fomos extraordinariamente bem recebidos na Aldeia de Mahungo, tanto por adultos como crianças. Fomos observadores durante as primeiras duas semanas, e a partir daí começámos a propor algumas mudanças em conjunto com as professoras. Tanto a Lolinha como a Júlia têm imensas ideias e são muito criativas, só precisam de alguém que puxe por elas como todos nós.

Desde o princípio que queria muito conhecer cada criança mais a fundo, mas a verdade é que 1 mês é muito pouco tempo. Quando elas já estavam a depositar alguma confiança em nós, viemos embora. Por isso recomendo a quem venha fazer um projecto deste género a ficar o maior tempo possível. Por um lado custa mais porque nos apegamos muito aos miúdos, mas por outro lado poder vê-los crescer e evoluir é muito gratificante.

Acho que acima de tudo, no pouco tempo que estive em Moçambique com a Escolinha Kutsaca, tirei muitas lições que secalhar noutro lado não teria retirado. Aprendi a ser mais paciente (a cultura africana é outra e as coisas acontecem a um ritmo diferente, consequência disso é a calma e leveza com que levam a vida), aprendi que devemos agradecer sempre por tudo o que temos e vivemos, aprendi que é possível ser-se muito feliz com pouco e aprendi a
dar valor às pequenas coisas que dantes menosprezava.

Tudo o que nos era pedido pelas crianças era que lhes déssemos um pouco de afecto e atenção, o pedido mais simples e honesto que pode haver. E foi o que tentámos fazer. No final o balanço é mais do que positivo. Espero continuar a acompanhar o crescimento dos miúdos e a evolução da Escolinha, mesmo que seja à distância. Porque todos eles têm agora um lugar no meu coração.