A Experiência da Sofia em Cabo Verde

Demorei para conseguir escrever este texto. É que estas missões deixam-nos assim. Do avesso. Com as emoções à flor da pele.

O meu mês de Novembro foi passado no pequeno paraíso a que os São Vicentinos têm o prazer de chamar de casa, e que, embora a minha estadia lá tenha sido curta, já me sinto no direito de lhes roubar um pouco dela. Afinal, a nossa casa é onde habita o nosso coração, não é? Uma parte do meu habita agora lá.
Desde o momento em que aterrei em São Vicente e pus os pés fora do avião que me apaixonei por aquela ilha. É que o ar de São Vicente é abafado, tão quente quanto os corações dos que nele habitam. No bom criolo, Son Cent é sab! Sab pra caga!!! E sente-se em todos os cantos! Transborda energia positiva e boas vibrações através de sorrisos calorosos, gestos simples e ações genuínas. E tudo é vivido com muito calma… “Nô stress” é a resposta! “Suav na Nav” era o lema da nossa casa. Com eles aprendi a viver devagarinho. A vida devagarinho tem outra beleza, que nos passa ao lado quando temos pressa de viver.
Durante esse mês dividi o meu tempo entre o Espaço Jovem da Ribeira de Craquinha e da Pedra Rolada. Espaços diferentes com crianças com necessidades e contextos diferentes, mas a ternura, os sorrisos, a pureza das
suas almas e a vontade de aprender era a mesma. Em ambos os centros dei apoio escolar, acompanhei crianças com necessidades reforçadas, participei em dinâmicas educativas e dei aulas de inglês aos mais crescidos. Os cabo verdianos são um povo muito quente, muito físico, muito do toque e as suas crianças não são excepção… Enfim, não sabem estar quietas! Estou a falar de crianças que, para serem afastadas das ruas, passam os seus dias em salas de aulas. De manhã têm aulas. À tarde, explicações. Se não tem aulas de manhã, tem explicações à tarde. E ao final da tarde, depois do sol se pôr, algumas ainda caminham a pé para mais uma hora de aula de inglês. Muitas vão com fome para o centro. Muitas outras sabemos que não têm a estrutura familiar que precisam E MERECEM…


Admito que fui para São Vicente com expectativas irrealistas e, por vezes, me senti frustada por sentir que não estava a conseguir fazer tudo o que pretendia e principalmente o que achava justo. O que achava que aquelas crianças mereciam e, por isso, muitas vezes terminei o dia a questionar-me sobre qual a verdadeira diferença que estava a fazer nas suas vidas. Até reler uma citação que tinha anotado antes de partir da Madre Teresa de Calcutá: “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”
Posso não ter enchido o mar de São Vicente, transformado vidas, mudado o mundo, mas sei que deixei a minha gota. Conseguem imaginar a dimensão desse mar se todos deixássemos a nossa gota?!
Aprendi tanto durante este mês.

Com os pequenos heróis que acompanhei, e que me aqueceram o coração com os sorrisos mais doces e os abraços mais apertados, aprendi a valorizar ainda mais os pequenos grandes gestos. Os que valem realmente a pena. Não me irei esquecer das flores matinais, do caminho de mãos dadas para o centro, dos jogos de futebol, dos momentos divertidos que criámos juntos que acabaram sendo momentos de aprendizagem, das cartas e dos desenhos onde me chamavam de professora (e eu gostava tanto!).
Aprendi muito também com os voluntários e elementos da comunidade que fazem estes projectos acontecerem e com quem tive o prazer de trabalhar e de hoje chamar de amigos.
Voltar a Portugal não foi fácil. De repente aquilo que já tinha virado rotina, aquelas pessoas que me acolheram como se fosse ficar para sempre já não estavam mais lá. E custa. Mas é porque o sentimento foi puro, foi genuíno. Fiz as amizades mais bonitas e mais descomplicadas em São Vicente. Agora entendo a Cesária. Sinto a sua “sôdade”. Sôdade de quem lá deixei e sôdade de quem lá era. Uma versão mais simples, mais livre e mais pura de mim, que vou cultivar e regar para não perder mais.
É humana, a maior riqueza de Cabo Verde.
Obrigada Son Cent, nha cretcheu *