A experiência da Sara em Moçambique

Fazer um testemunho de um voluntariado não é tarefa fácil. Nunca ninguém vai conseguir transmitir aquilo que aprendeu, aquilo que viveu… Sempre me disseram para vir sem expectativas, realmente, ainda bem que me disseram isso, porque por mais que esperasse por alguma coisa, nunca ia ser nada semelhante àquilo que eu vivi. Foi das experiências mais únicas que tive na vida, mesmo já tendo morado fora do país e mesmo já tendo feito voluntariado antes. Várias pessoas me perguntam diariamente: valeu a pena? E mais uma vez o “SIM, VALEU” não transmite o quanto valeu verdadeiramente.

Conhecer este país, viver esta realidade muda-nos de uma forma que nem nós conseguimos perceber bem, mas faz-nos um bem danado. Se cada um tivesse uma experiência destas na vida, as pessoas eram bem mais felizes e mais gratas pela vida no geral. Fazer voluntariado em África sempre foi dos meus sonhos mais ambiciosos, porque para mim o importante não é mudar o mundo, é dar um pouco de mim e saber que mudei o mundo de uma pessoa em particular. Mal eu sabia o que me esperava, muito mais do que mudar a vida de alguém em particular foram eles que me mudaram a mim, foram eles que me fizeram bem, foram eles que me fizeram feliz até em dias que a saudade de casa apertava um bocadinho mais.

Muitos me disseram que ia encontrar muita pobreza, muita miséria, mas quando me diziam que as pessoas conseguiam ser felizes, mesmo assim, eu não conseguia perceber. Hoje eu percebo. Aprendi tanto e ganhei tanto neste mês que se, por um lado, passou a correr, por outro, parece que passei meses aqui.

Neste mês, fui fazer aquilo que mais gosto de fazer e que é a minha profissão: fisioterapia. Fazer voluntariado em África, na minha área de trabalho e com crianças? Não podia pedir mais. Em julho, saí de Portugal com o objetivo de melhorar um pouco a funcionalidade e autonomia das crianças da Cooperativa Luana Semeia Sorrisos, responsável por ajudar mães cujos filhos têm deficiência.

Trabalhar com crianças com deficiência é gratificante em qualquer parte do mundo, porque estas crianças dão-nos tanto amor que nem nós conseguimos retribui-lo com tanta intensidade. Mas trabalhar com crianças com deficiência num país onde estas crianças infelizmente ainda são escondidas em casa e, mesmo assim, receber este amor é a maior felicidade que alguma pessoa poderá alguma vez sentir e é a maior lição que podemos tirar disto tudo.

Neste mês aprendi tanto, aprendi com as minhas crianças que amor é amor independentemente das limitações, aprendi com as minhas mães que a força, às vezes, vem de onde menos imaginamos e que temos que lutar pelos nossos meninos, não importa como nem contra quem, aprendi com desconhecidos que a vida nestes países definitivamente não é fácil, mas há tantas coisas boas, mesmo assim, na nossa vida e o segredo é saber olhar bem para elas. Neste mês vim para dar um pouco do que sei, um pouco do meu trabalho e do que poderia oferecer e recebi muito mais do que alguma vez algum paciente meu me poderá pagar e aqui está a resposta a todos os que me perguntaram “a sério, vais trabalhar de graça?”.