A experiência da Sara na Eslovénia

“Hvala” (Obrigada), era tudo o que sabia quando o iniciei o campo. “Najlepša Hvala Rakičan” (Muito Obrigada Rakičan), foi uma das frases que lhes disse quando terminei o campo. Entre estas duas expressões, existem duas semanas que as separam, nas quais estive a trabalhar com cerca de 111 crianças dos 5 aos 14 anos eslovenas, a somar com cerca de 20 pessoas (4 delas voluntários, provenientes de Espanha e Rússia), num campo de voluntariado na Eslovénia, que tinha por base ensinar inglês.

Podia começar por dizer que a comida que ofereciam no campo era à base de fritos, que o meu estômago não reagiu bem. Que pela primeira vez, do grupo de voluntários, para além de ser a única portuguesa, era a mais velha, a única que já não vivia em casa dos pais e a que trabalha e estuda ao mesmo tempo. No entanto, gostaria também de dizer que isso não impediu absolutamente nada que esta experiência fosse incrível e que a recomendasse vivamente.

Duas semanas passadas, não num campo de voluntariado mas numa mansão, onde até cavalos havia, se respirava ar puro, me deslocava de bicicleta para todo lado, as pessoas eram tão simpáticas que dei por mim a estudar a sua língua durante o campo e a ter aulas diárias de esloveno. Admito que, não sei se foi por sorte ou por azar, mas que no segundo dia de atividades, fui a uma das salas onde estavam a decorrer para saber se precisavam de ajuda e a professora de pintura não sabia quem eu era, mas recebeu-me na sua aula (eu também não sabia que paralelamente às aulas de inglês, este campo também tinha aulas de pintura) e assim que lhe disse que era estrangeira, ficou toda contente porque podia praticar o inglês. E, durante estas duas semanas, ela não pode apenas praticar o inglês, mas como dei comigo, passados mais de 10 anos, a pegar num pincel e em tintas e a ter aulas de pintura. Surpreendentemente, os desenhos ficaram bonitos.

Certo que os meus conhecimentos sobre a língua eslovena eram muito muito limitados, porém, senti-me muito contente por estar ali, com aquelas pessoas e aqueles miúdos, naquela mansão, no “meio do nada”. Já me tinha esquecido do porquê de gostar tanto de arte, não por ver a minha mãe replicar quadros de Miró quando era mais pequena ou porque lhe pedia que me ensinasse, mas porque era um momento em que tinha liberdade para criar algo sem julgamentos ou limitações. Já me tinha esquecido do quão bom era andar de bicicleta sem horário de regresso a casa, da liberdade, da segurança em andar pela rua sozinha à noite. E por fim, que de facto também é bom ter por perto pessoas de sorriso largo; pessoas que não se importam de nos ensinar mais que uma expressão nova na sua língua e de a repetir uma série de vezes; pessoas tão diferentes e tão iguais a nós, que damos por nós a refletir sobre as nossas ações e que graças a isso, nos tornamos melhores.

Porque no fim de contas, é para isto que nos lançamos para o desconhecido, vimos “trabalhar de borla” para fora dos nossos países de origem, para Sermos Melhores. Sempre Melhores. Seres com um senso de Humanidade Maior.