Rita, Santo Antão 🇨🇻

O novo ano ainda agora começou e não posso deixar passar em branco aquilo que foi o melhor do meu 2019. Já passaram 5 meses desde a minha experiência em Santo Antão e não há um único dia em que não pense naquelas pessoas e em tudo o que vivi.

Ir foi a melhor coisa que fiz na vida. O meu sonho de há tantos anos foi realizado em julho e escrevi o meu testemunho com atraso porque tenho tentado arranjar palavras para descrever tudo aquilo que senti e simplesmente não consigo, nem dá.

Em Santo Antão tive o melhor dos dois mundos: o voluntariado foi, sem dúvida, aquele que mais me encheu o coração, mas fico ainda mais feliz por saber que aproveitei cada minuto do meu tempo livre para passear e conhecer a ilha.

Uma das perguntas que mais me fizeram após voltar foi “Não te meteu impressão ver tanta pobreza?”. Não, na verdade eu não consegui ter pena nenhuma porque as pessoas lá são tão felizes com aquilo que têm. Aquelas pessoas levam a vida com uma simplicidade brutal, aproveitando tudo e mais alguma coisa para sorrir.

Os dias, apesar de nem todos terem sido fáceis, tinham sempre momentos que nos faziam sentir por inteiro: começávamos todas as manhãs pelo Centro de Dia do Alto de São Tomé, onde os idosos dançavam, faziam ginástica, pintavam, faziam pulseiras; por vezes íamos realizar depois atividades com as crianças do ICCA (Instituto Cabo-Verdiano de Apoio à Criança e Adolescente), que eram mais difíceis de conquistar mas que tinham uma mente muito aberta; e as tardes eram passadas no Espaço Jovem, onde parecia que tudo era possível.

A minha maior surpresa foram os idosos. Eu achava que só iriamos estar com eles uma ou duas vezes por semana, mas acabámos por estar todas as manhãs… e tão bom que foi. Eu nunca tinha visto aquela força de viver em lado nenhum. Eles fazem tudo e têm tanto gosto por aprender que não há explicação. Relembro-me bem de como era acordar e sentir aqueles abraços apertadinhos cheios de “Dormiram bem?”, “Os mosquitos picaram muito durante a noite?” assim que chegávamos ao pé deles.

Das coisas que me fazem mais falta é o barulho das crianças na rua, o estar em casa e ouvi-los a brincar, sabendo que a qualquer momento podem tocar à campainha ou gritar por nós à janela.

Avisam-nos desde cedo de que não vale a pena irmos para lá a achar que “vamos mudar o mundo” porque isso é impossível, e é mesmo, mas compensa tanto saber que lhes proporcionámos momentos que farão diferença na vida deles. No entanto, há outra coisa inegável: nós recebemos muito mais do que aquilo que damos. Aprendemos a relativizar os problemas, a viver com calma, a agradecer por tudo o que temos e a não termos imensas expectativas… tudo é melhor porque assim não há como desiludir.

É importante referir que o apoio da coordenadora, a Matilde, e da Para Onde foram essenciais para que tudo corresse bem e digo isto para nada temerem, caso estejam interessados em ir, mas com receio de alguma coisa. Antes, durante e após a viagem tivemos sempre a oportunidade de falar acerca do que achávamos estar certo e errado e todos se mostravam muito atenciosos.

Por fim, há histórias naquela ilha que nunca irei esquecer, momentos que vou continuar a sentir como se tivessem sido hoje e pessoas que nunca irão sair do meu coração. As despedidas, apesar de difíceis, foram despedidas felizes. Felizes e com a certeza de que um dia voltarei. É impossível não ser feliz ali.

Com muita sodade