A experiência da Rita no Laos

Adoro escrever, ajuda-me a imortalizar cada momentozinho vivido nesta linda aventura, ao mesmo tempo que reflito sobre os mesmos. Estou no aeroporto de Pakse (sul de Laos), vou embarcar para Hanoi, onde me vou encontrar com amigos (e que saudades tenho de os abraçar, bolas!). Mas estar aqui sentada neste banco duro a escrever e a ouvir as senhoras lá fora a conversar (o aeroporto é mínimo) significa que a minha estadia em Laos chegou ao fim e está a custar-me muito ir embora, as lágrimas caem-me pelo rosto… Neste país realizei um sonho de miúda: fazer voluntariado com crianças e o facto de ter sido na Ásia parece mesmo obra do universo, por mais voltas que dê ao mundo, acabo sempre na Ásia, a energia asiática tem em mim um efeito íman.

Tenho 31 anos e a minha vida nos últimos meses deu uma volta de tal forma que fui “forçada” a agir e tomar decisões em total concordância com o que sinto e não com aquilo que a minha cabeça ou “envolvência” dizem que devo sentir. Só encontramos aquilo que realmente procuramos com o coração – e não me enganei.

Aproveitando o facto de ir de férias para a Indonésia, senti que queria ficar mais tempo na Ásia (obrigada Joana Sabido pelo empurrão e Score Consulting pela licença sem vencimento). Falei com a “Para Onde” e tinham um projeto em Laos nas datas que eu queria: BINGO!

Não vou mentir, apesar de saber que queria muito isto, tive medo, mas fui com medo. É como saltar de uma rocha, no início dá aquele frio na barriga mas depois SABE TÃO BEM!!

Comecei a vacilar quando tive de preencher formulários e escrever carta de motivação: “Quais são os teus skills? Como achas que podes ajudar? Porque optaste por este projeto? O que te motiva a fazer voluntariado?”
O que me motiva é fácil, mas de que forma é que posso ajudar é que me tramou. Será que vou conseguir ajudar devidamente as crianças em Laos? Adoro dançar e música, mas não sou professora de dança nem sei tocar nenhum instrumento; adoro fazer yoga e desporto, mas não dou aulas; tenho bom inglês, mas não é perfeito e, mais uma vez, não tenho experiência na área de ensino. Agora é que me tramei, pensei eu!!

Bem, resolvi ser sincera: “Tenho skills e experiência em gestão de produto e de projeto (em diversas áreas, mas acho que não vale a pena especificar quais), sou comunicativa, tipicamente tenho facilidade em criar empatia com crianças, sou de riso fácil e, acima de tudo, quero muito isto.” WHAT, RITA? Riso fácil? Quanto muito é uma característica, agora um skill? Vou só ali cortar os pulsos e já volto. Senti-me um bocado ridícula, confesso, as crianças em Laos não vão pensar em processos ou em produto, não vão querer alinhar shapes no PPT ou fazer vlookup no Excel, não vão criar histórias no jira ou trabalhar com designers e developers, não vão trabalhar em SAP. Enfim, sou o que sou e fui sincera. Pode ser que tenham um site desorganizado e precisem de alguém que ponha a casa em ordem.

Estava tão enganada, gostaram de mim assim e em ordem puseram-me eles.

Laos é um país lindo de morrer, muito verde, com muitas montanhas e possibilidade de se fazer muito desporto, é encantador e especial. O projeto de longa duração para onde fui no Laos, o qual abracei e onde fiquei a dormir/viver em comunidade (perto de Vang Vieng), também é igualmente lindo, sem grandes luxos, claro, mas lindo.
Conheci voluntários de Laos, França (imensos), Espanha, Bélgica, México, Alemanha, Peru e eu (primeira e única portuguesa no projeto). Bem, miúda, vê se deixas boa imagem do teu país.

As coisas começaram a fluir, comecei a dar aulas de Inglês às crianças e a trabalhar em divesas atividades no projeto. Como projeto, acabei por recuperar/reformular uma zona de churrasco desabitada e destruída. Com a ideia definida, uma excelente equipa e muita boa disposição, conseguimos criar um espaço útil e acolhedor para a comunidade. Final do dia, dei aulas de Inglês aos níveis 1, 2 e 4 e foi, sem dúvida, umas das experiências que mais gostei. Crianças e adolescentes que querem muito aprender inglês, trabalham e estudam arduamente para atingir esse objetivo. São os primeiros a chegar à sala de aula, os primeiros a mostrarem o homework feito, sentam-se sempre na linha da frente. São muito tímidos, mas têm uma vontade imensa de chegar longe, chamam-nos “teacher” e querem muito saber o que se passa com a nossa vida.

Numa das aulas, estava eu a dar o present continuous, o CHANG interrompe, pensava eu para tirar uma dúvida, e diz com o seu sotaque engraçado: “Hey teacher, are you married?!” – Teve muita graça, todos se riram exceto a Song que lhe deu um caldo e eu que me tentei controlar para não ter ataque de riso ali. Toda aquela partilha me dava um prazer imenso, adorava cada aula, mesmo cansada, saía sempre das aulas com sorriso gigante. Queria mais. Queria saber da vida daqueles miúdos.

Às vezes, desviávamos as mesas e ficávamos ali, em roda, a conversar e partilhar culturas. Dava aulas descalça, saia comprida, ombros tapados, cabelo preso e sem brincos. É uma questão cultural, mas não só, é um meio para atingir um fim. Algumas escolas são em zonas de prostituição e as crianças olham para as mães, irmãs, primas com roupas mais ousadas, baton vermelho e como crianças seguem o seu exemplo. É aí que este projeto se quer distinguir, pretendem que as crianças não sigam o exemplo da prostituição, mas sim o da educação e nós, professores, somos essa possível ponte.

Apesar de entender, esta parte para mim não foi fácil de lidar: as miúdas apareciam de baton vermelho, os rapazes de calções e eu não podia deixá-los entrar assim na aula. Os olhos deles quase que se enchiam de lágrimas e ficavam mesmo cabisbaixos (eles e eu), mas são as regras (sempre detestei regras, até lá isso era evidente em mim). As regras são importantes, claro, mas há que ter ginástica na sua aplicação. Como diz uma pessoa que gosto muito: “Quem nunca pisou um traço contínuo?”

Como forma de solucionar, pedia às meninas para limparem o baton, lá esfregavam muito rápido, mas baton vermelho não sai assim, ficavam todas borradas, mas desta forma conseguia que frequentassem as aulas e aprendiam a lição. Ninguém gosta de estar borrada, parece sangue ou um beijo mais forte, remédio santo: aula seguinte estavam IMPEC.

Outro factor difícil para mim foi o não poder criar ligação física com as crianças, isto é, abraços, beijinhos, colo, cavalitas – TUDO PROIBíDO. Os voluntários vêm e vão e os miúdos apegam-se e sofrem muito. E mais, em casa os pais não têm esse género de comportamento com os filhos e, segundo o projeto, crianças sofrem mais quando perdem um voluntário (e tudo o que lhe está associado) do que com a ausência de uma carinho que desconhecem de todo. Aqui não concordo muito, amor nunca é demais na minha opinião. E mais: falamos de ligação física, certo? Mas a ligação emocional/psicológica é muito mais forte e difícil de controlar e essa foi criada. Não acredito que se consiga “chegar” ao outro sem previamente ser criada uma ligação afetiva.

Eu estou ligada aos meus míudos (com limites claro), já sofro um pouco por saber que dificilmente vou estar com eles novamente, tenho saudades dos seus sorrisos e olhos brilhantes. Mas sofro ainda mais por não saber que futuro vão ter (ou melhor no fundo eu sei e isso dói). Mas também tive consciência que não dá para mudar o mundo, por isso temos de ter a capacidade e aprender a transformar as situações, dar o melhor de nós em cada situação e receber o melhor também. O “pouco” que achamos que damos e recebemos já é muito, é imenso, é gigante!

Estas crianças acordam às 5h da manhã, estão na escola “dita normal” das 8h às 16h e às 17h começam o Inglês connosco, terminamos perto das 20h e lá vão eles a pé para casa sozinhos e no meio da escuridão, mas não vão tristes. Não sei como fazem, mas nunca parecem tristes.

Nós também íamos para casa fazer o jantar juntamente com as pessoas de Laos, Kee, Pho and Pha. Eu conduzia o “camião” e lá seguíamos todos contentes, numa estrada cheia de buracos, sem luz e com vacas no meio. O contacto com os locais também me vai ficar na memória principalmente com o Kee, um miúdo de 20 anos com um humor e expressão muito engraçadas. Pedia-me conselhos quando escrevia mensagens às raparigas no Facebook, não queria dar erros no flirt: “Look Rita, so many!”, só janelas apitar. Disse-lhe que só o ajudava quando escolhesse apenas uma, com tantas não é certo e fico confusa. Ele dizia: “Oh RITÁAAAA, no no no no no!” e ria que nem um perdido, o safado.

Usava uns chinelos 3 números acima do número real dele e todos gastos. Antes de me ir embora, ofereci-lhe uns novos e com o número adequado e disse para ele colocar os velhos no lixo. Ele fez-me um ar sério e disse: “No RitÁ, I will save the old flip flop´s. Pho or Pha could need them” – até vibrei por dentro, palavras para quê? Claro, Kee <3 Tenho uma infinidade de histórias por contar, outras que não quero contar, são minhas, ficarão comigo, dentro de mim, para sempre!

Saio daqui uma pessoa nova, percebi que não tenho só skills de gestão, mas que esses skills me ajudaram e muito a resolver e contornar uma série de situações ocorridas. Faz parte de mim também, está sempre presente. Por isso, já não preciso de cortar os pulsos, mas sim arregaçar as mangas e lançar-me com garra ao trabalho. Mas, por outro lado, adoro o contacto com as pessoas, falar e ouvir, comunicar e partilhar. Faz-me imensamente feliz, por dentro e por fora. Temos uma imensidão de skills dentro de nós, todos nós, só que muitas vezes não são trabalhados ou potenciados. E pode acontecer que esses skills menos explorados sejam mesmo o nosso tesouro, o caminho para sermos mais felizes e completos e arriscaria mesmo a dizer, pessoas melhores.

Se tivesse de traduzir esta experiência numa palavra diria TRANSFORMAÇÃO. Por isso transforma-te, vai com medo, vai com amor, vai com tudo o que és (ou até mesmo com o que ainda não sabes que és), mas vai! Há por aí muitos mais Kee´s espalhados pelo mundo e vale muito a pena conhecê-los.

CHOP QUAI INCREDIBLE LAOS, EXTREMELY THANKFUL!

Rita