A experiência da Rita e do João na Mongólia

Olá, os nossos nomes são João e Rita, temos 22 e 21 anos, respetivamente, somos ambos de Lisboa e estivemos este verão num programa de voluntariado através da organização Para Onde, durante duas semanas na Mongólia. Aqui fica um resumo, ou pelo menos uma tentativa de tentar pôr em palavras aquilo que muitas vezes transbordou do coração.

Há uma frase que gostamos muito que fala de como na vida, tantas e tantas vezes, estamos aborrecidos e tão absorvidos no nosso canto que nem nos preocupamos em levantar a cabeça do que quer que tomemos como sendo inadiável, e olhar à volta e perceber que é preciso “mexer a colher dentro do copo, porque muitas vezes o açúcar está no fundo”.

Por meio de conversas e um bocadinho desta necessidade de experimentar um verão um bocadinho diferente do habitual, decidimos embarcar numa viagem a um país do qual pouco ou nada sabiamos -Mongólia. Por meio de pequenas burocracias pusemo-nos em contacto com a organização do ParaOnde, e tendo falado com a Inês e com a Marta, que foram umas segundas mães durante umas boas semanas, partimos a uma aventura para a qual não tínhamos qualquer expectativa.

Honestamente, quando chegamos a UlaanBaatar, a capital da Mongólia, ficamos reticentes quanto ao quão “desligado” poderia efectivamente ser o voluntariado. Sem qualquer informação sobre que tipo de crianças seriam, qual seria o tipo de voluntariado que íamos fazer, e só sabendo que iríamos trabalhar e participar em atividades de verão para crianças que não pudessem pagá-las em circunstâncias normais, o nervoso miudinho aumentava quando nos aproximávamos do campo já com todos os voluntários.

Tão rápido como começou, também acabou por passar, esta sensação de nó no estômago, sendo que assim que chegamos ao campo fomos recebidos de sorriso na cara e braços abertos por crianças desde as mais pequenas até algumas adolescentes, que não falavam a nossa língua nem alguma em que conseguíssemos comunicar, mas cheias de amor para dar.

O campo estava organizado como uma casa de verão para crianças que durante o ano estavam num orfanato por várias razões. Todos tinham tarefas que eram feitas com o maior dos gostos, porque todos tinham prazer em ajudar (-nos) fosse de que maneira fosse. As condições eram pobres, mas não descuidadas, querendo dizer que o que havia estava bem cuidado e em uso.

Dormíamos todos numa sala comum o que facilitava muito o convívio entre voluntários e as crianças dormiam numa outra casa onde estavam divididos por idades. Fazíamos as refeições todos na mesma sala ainda que a horas diferentes e todas as noites, antes da hora de dormir das crianças cantávamos uma “Goodnight Song” em Mongol, com as crianças – um “beijinho de boa noite” muito especial, principalmente para nós.

Um dia normal começava por volta das oito e meia, em que tomávamos o pequeno almoço e éramos divididos em grupos com actividades diferentes como ensinar inglês a crianças mais pequenas, aos adolescentes, fazer desportos, ajudar na cozinha, ajudar a pintar infraestruturas dentro do campo ou fazer jogos didáticos que de alguma maneira pudessem ter impacto de várias maneiras.

Muitas vezes perguntavam-nos se a barreira linguística não era um entrave à comunicação e na verdade, o que sentimos durante essas duas semanas foi que isso nunca sequer existiu. A verdade é que nenhuma das crianças falava, nem aprendeu connosco ou com outros voluntários, inglês suficiente para ter uma conversa, mas o facto de saberem dizer “Goodnight”, “Goodmorning”, “Thank You” e “I Love You”, chegava para tudo o que fazíamos com eles; quer fosse a ensinar números até cem, as cores ou só a brincar à apanhada, tudo se fez porque o coração falou sempre mais alto.

Acho que quando dizemos que algo nunca nos marcou tanto como isto, não é de todo um exagero porque toda a experiência, desde o termos chegado sem qualquer expectativa, até ao facto de quarto palavras terem servido para conseguirmos criar laços reais com estas crianças foram coisas absolutamente extraordinárias. Desde de termos tido ajuda, eu, Rita, quando queria lavar o cabelo na mangueira que havia na colina do campo e ter uma turma de crianças que vinha de bom grado ajudar-me, a mim, João, ter tido ajuda quando tentei montar uma espécie de estrutura para um chuveiro – não podíamos estar mais satisfeitos e mais felizes por termos, para além de nos sentido úteis e realizados, termos podido perceber que mesmo não tendo muito, há tanta coisa que ainda podemos partilhar uns com os outros, sejam quais forem as nossas circunstâncias.

O dia em que nos viemos embora do campo foi também um dia muito emotivo. Mesmo não tendo tido experiências disso o dia todo, todas as crianças com quem estivemos e principalmente as com quem criámos maior ligação ficaram, assim como nós, muito ligadas a tudo o que vivemos lá. Sair de pulseiras oferecidas e feitas pelas crianças, com cartas escritas em Mongol e traduzidas pela coordenadora fantástica que tínhamos no campo, e fazer tudo isto sem lágrimas nos olhos não é uma tarefa fácil.

É muito complicado deixar um lugar onde já fomos muito felizes e as pessoas que nos fizeram felizes nesse lugar.

Como resumo deste testemunho, fica não só o conselho de partirem a fazer algo parecido, mas principalmente, a partilha de que o que achamos que trouxemos de maior de lá foi na verdade a convicção de que não precisamos de ter nada para poder dar tudo a quem está ao nosso lado, que não precisamos sempre de falar para criar relações inesquecíveis e que muitas vezes, os atos mais pequenos são aqueles que mais marcam, mesmo que não só individualmente, mas como num conjunto – e que muitas vezes é mesmo preciso ir ao fundo buscar o açúcar que ficou esquecido no fundo do copo.