A Experiência da Rita em Itália

Em conversa com uma amiga, percebemos as duas que nada melhor que o voluntariado para sair daqui e fazer algo que nos preenchesse realmente. 

Verão de 2018, estava desempregada e procurava alguma coisa que me fizesse sentir realizada. Queria viajar durante algum tempo, mas não podia gastar muito dinheiro. Não queria só as típicas férias de verão, até porque “férias” já eu tinha a mais. 

Pesquisei várias associações e foi aí que encontrei o Para Onde. Havia imensos destinos à escolha e programas de curta ou longa duração, com projetos ligados a todo o tipo de causas. Difícil foi escolher… 

Comecei a procurar só na Europa, até porque os custos da viagem não estão incluídos, e foi assim que descobri um campo de férias, em Bérgamo (Itália), com um grupo de crianças refugiadas do Sahara Ocidental.  

Precisavam de voluntários para organizar atividades lúdicas e visitas na região, para que os mais pequenos pudessem desfrutar de um verão agradável, longe do calor do deserto. 

O grupo de nove crianças passou mais de um mês em vários locais de Itália, onde receberam cuidados médicos e muito amor. 

Arrisquei, fiz a candidatura juntamente com a minha amiga, e foi assim que começaram as duas semanas mais felizes do meu verão.

Mal chegamos, conhecemos vários voluntários de Itália, da associação Mauja Sahrawi, que luta para que a região do Sahara seja livre, e para que estas crianças e as suas famílias deixem de viver na incerteza, entre campos de refugiados. 

Chegaram, ainda, mais duas voluntárias internacionais, uma da Sérvia e outra do México.

Ficamos a viver nas instalações de uma escola, onde tínhamos todas as condições básicas que precisávamos, e até tivemos direito a um cozinheiro que nos fazia os melhores pratos italianos (que é só a minha comida favorita do planeta…) 

Fomos tão bem recebidas por todos e partilhámos tantas horas do dia juntos que, rapidamente, acabamos por nos sentir uma verdadeira família. Falávamos italiano, espanhol, português, inglês e até árabe, por vezes tudo na mesma conversa (no final dei por mim a falar para a minha amiga em todas as línguas menos a nossa, de tão baralhadas que ficávamos…) 

As próprias crianças, que só sabiam árabe, acabaram por nos ensinar algumas expressões e aprenderam também um bocadinho de italiano. Ao inicio foi um desafio comunicar com elas, mas percebemos que nem sempre eram precisas palavras. 

Aqueles miúdos, que vivem uma realidade tão diferente da nossa durante o resto do ano, mostraram-nos que podem sim ser felizes com o mínimo. Ver o entusiasmo delas a comer uma pizza ou um gelado, a brincar com os animais, ou a tomar banho no chafariz no meio da rua, e perceber o quão generosos eram connosco foi o melhor de toda a experiência. 

Partilhavam tudo connosco, todos os dias nos agradeciam com um sorriso (nem que fosse por lhes dar a mão a atravessar a rua ou apertar um cordão), e tinham sempre um abraço e um beijo para nos dar. 

As meninas, cada vez que nos viam a arranjar de manhã, faziam questão de dizer o quão bonitas éramos (mesmo que tivéssemos dormido uma hora e com olheiras até ao chão) e o quanto gostavam da nossa roupa ou do nosso cabelo. “Bella” e “grazie” eram as palavras que mais vezes ouvimos. 

Gestos tão simples, que na correria da nossa vida nos passam ao lado, mas que tem o poder de transformar qualquer dia. 

Se alguma vez ponderarem fazer voluntariado e tiverem essa oportunidade, não hesitem e façam a mala. Mesmo que vão sozinhos, garanto-vos que vão sair de lá com o coração cheio e com memórias para a vida.