A experiência da Rita em Cabo Verde

Para Onde?

Não sei, não fazia a mínima ideia. Queria fazer voluntariado, voluntariado fora de Portugal. A única regra que me impus era a língua. A língua mãe teria de ser o Português, ou parecido. Não fazia ideia do que era fazer voluntariado internacional, ainda mais com um dialecto totalmente diferente.

Eu escolhi Cabo Verde, e elas aceitaram-me na Ilha da Boavista. Se não foi a melhor escolha que já fiz na vida, de certeza que uma das melhores foi.

Cheia de medo e bastante nervosa, ansiosa e com coragem, uma enorme vontade de chorar, mas só me apetecia rir. Lutares por um sonho e chega um dia, e consegues. MEU DEUS.

Chegas à Barraca! Ao Bairro da Boa Esperança, só o nome acaba por falar um bocadinho por si. O chão é de terra batida, as casas são “ casas di tijolo”, os tetos são em chapas e lonas para proteger um bocadinho, as ruas entre as casas são apertadas. Ao lado da Barraca existe um outro bairro com ótimas condições. Prédios de três andares, pintados, com bidons de água em ótimas condições. Podiam olhar para aqueles prédios, e criarem um sentimento de revolta e tristeza, e no entanto a felicidade é quem vive naquelas “Barracas”.

Todos de chamam de “TIA”, todos te cumprimentam, todos te acolhem, todos te dão o que têm e o que não têm. Foi Incrível!

Cada criança que conheci dentro daquela creche tem a sua história, tem a sua vida e nunca ouvi nenhuma a queixar-se ou a lamentar por falta de alguma coisa. A forma como elas olham para a vida é fascinante. No entanto, ainda houve umas quantas vezes que a sensação que tinha era que me estavam a cortar as pernas. Queria andar para a frente, queria um final feliz para determinada situação, mas devido à cultura, não dá. Acabas por te adaptares. Tive muitas vezes vergonha de ser um “ser humano”. Turistas que entram na creche e só te observam, que só observam os miúdos, tiram algumas fotos para publicar nas redes sociais, e está feito. Não existe contacto, não existe conversa e pouco ou nada de sorrisos. Senti-me um “animal num jardim zoológico”, onde ninguém te toca, mas todos tem curiosidade em ver.

Aprendi, e cresci… cresci mesmo. A ideia de que vamos “ ensinar” ou que vamos “mostrar” algo novo saiu-me completamente ao lado. Na verdade foram eles. Foram eles que me ensinaram, e que me mostraram que existe muito mais para além daquilo que os olhos vêem, existe felicidade num país pobre e com muita miséria.

Tudo foi uma aprendizagem, tudo foi uma conquista.

Se um dia quero voltar? Quero, claro que quero voltar. Quero saber o futuro e o caminho que  eles escolheram.

Encontrei uma família, uma família que me escolheu a mim e às minhas companheiras.

Se queres mesmo fazer voluntariado, se queres mesmo ajudar… Faz voluntariado! Mesmo que não seja na ilha da Boavista, faz e nunca desistas.