A experiência da Raquel no Peru

Carta aberta ao próximo voluntário(a),

Já passou mais de um mês desde que regressei do Peru, foram cerca de 3 meses intensos, e escrever sobre uma experiência que vivemos, vimos, e sentimos, sendo ela de longa duração, nunca foi tarefa fácil. Como descreves tudo aquilo que viveste em 2, 3, 4 meses? Sabendo que o principal objectivo aqui é partilhar contigo, um testemunho em primeira mão. Tive tempo para chorar, para rir, para me magoar, para sarar, para pensar e para não pensar em nada. Já deves ter reparado que me estou a dirigir a ti. Sim, a ti e a todos aqueles que se comprometeram a fazer algo de diferente nas suas vidas, nas vidas de outros. Este testemunho é para ti que procuras aquele pedaço de coragem que falta, da inspiração necessária para largares o que tens e partir. Vou ser o mais sincera possível, cada experiência é única e por mais coisas que leias, vai ser sempre diferente no final. Porque quem faz a experiência és tu, e todos aqueles que encontras no caminho. Se estás com dúvidas, vai! Eu fiz mil e um planos, vi 500 páginas de voluntariado, fiz contas à vida, à carteira, ao tempo que tinha e que não tinha, mas no final, aceitei o desafio. Já te imaginaste a pegar numa mochila e atravessar um oceano e um país sozinho/a? Se já, este é o lugar certo para ti.

Estive dois meses e meio no Peru, na cidade de Trujillo, na costa norte do país. Uma cidade que não vive do turismo, e como tal, sentes isso na rotina diária da cidade, no tráfico intenso dos táxis ou na falta de um café que te serve um expresso todos os dias, as infra-estruturas desorganizadas e na escola. Este lugar para onde te diriges diariamente, fica situado no distrito de Florencia de Mora, e só os teus próprios olhos podem descrever aquilo que encontras, mas posso-te garantir, que à falta de estradas e ordem neste bairro de longas estradas de terra batida e das milhentas estórias que ouvi sobre este lugar, senti-me sempre muito segura e bem recebida. Todos os dias eram diferentes, e todos os dias te levantas com a única motivação de que vais ensinar 80 crianças por dia. Elas, são realmente o foco deste projecto, são o melhor do mundo como se diz por aí, e saberes que estás a fazer o melhor que podes para que no mínimo eles possam sonhar um bocadinho mais além daquelas paredes, é o melhor presente que podes guardar na tua bagagem de regresso. Todos os dias são uma aprendizagem, para eles e para ti. O desafio a que te propões de lhes ensinar inglês, acaba por ser muito mais do que ensinar apenas uma língua. É o tempo gasto com eles, a atenção e a partilha de valores.

Descrever o que se vive num projecto de voluntariado, por palavras, imagens, por sentimentos ou como lhe quisermos chamar, é uma injustiça muito grande. Por mais testemunhos que possas ler, nunca vai chegar à realidade que é. Cada experiência, seja ela positiva ou negativa, é uma aprendizagem. Ser voluntário é um sentimento de pertença a um lugar e ao mesmo tempo, de um lugar que nos transforma. Na forma de se estar, de se pensar e viver.

Quando surgiu a ideia de fazer parte de um projecto de voluntariado, a minha prioridade era procurar um apoio em Portugal, neste caso a Para Onde? foi essencial nesta ponte. O carinho, a dedicação, a motivação e a segurança que te dá em TODO o caminho, foi fulcral para me sentir segura. Tinha muito medo do tipo de projecto que me esperava. Se era real ou não, se era válido, útil e realmente necessário. Se não seria mais um daqueles projectos de turismo, onde a única coisa que importante no final é ficares com uma foto para recordação. Nada disto aconteceu no final, isso posso-te garantir, mas tudo depende da tua forma de estar. Fui com muitas expectativas, e a expectativa pode ser o teu pior inimigo, porque acaba sempre por ser de uma forma totalmente diferente daquela que imaginaste, mas garanto-te que se fores com a mentalidade de dar, aquilo que puderes dar e que está ao teu alcance, se fores desprendido de todos os teus hábitos, se fores com a tua mente aberta, se fores tu próprio no estado mais puro e sincero, vai correr tudo bem.

Não te vou falar das estórias incríveis que viverás no caminho, da colega com quem partilhas o quarto que se torna uma irmã, da possibilidade de descobrires um país pelas tuas próprias mãos, dos lugares incríveis e de cortar a respiração que vais ver com os teus próprios olhos, da ligação que este país tem com a terra, com a mãe natureza, a “Pachamama” no seu estado mais puro, das 50 crianças que diariamente correm para te abraçar pela admiração que têm por ti e por fazeres parte do dia delas, pelo professor que nunca opinou sobre nada desde a tua chegada, mas no final vem ter contigo e te dá um abraço como forma de agradecimento. Pelas pessoas que largam tudo no seu país e dedicam o seu tempo a uma causa. Por tudo isto e muito mais, não te vou falar do quão feliz estou por ter tomado esta decisão e embarcado nesta aventura de fazer parte de algo.

Num mundo que hoje parece virado ao contrário, onde caminhamos numa direcção errada na luta pelos direitos humanos, sabemos que não vamos mudar o mundo, mas saíres da tua zona de conforto para, pelo menos “deixares o mundo um pouco melhor do que o encontraste”, é a melhor decisão que podes tomar.

Se tudo isto não te chegar, deixo-te aqui com os meus últimos recursos: