A experiência do Pedro na Boavista

01 Janeiro 2018 – Portugal
As dúvidas começam a surgir. Sempre quis fazer voluntariado com crianças mas será que estou preparado? Nunca tive experiência com crianças o que será que lhes vou ensinar? A cidade é segura? E se ficar doente? E se não me adaptar? E se…

02-31 Janeiro 2018 – Ilha Boavista
Todas as duvidas anteriores desapareceram mal o avião aterrou na ilha. Foi como se tratasse de um “clique” e tudo passou a fazer sentido. Todas as inseguranças anteriores deram lugar a uma ansiedade e motivação como poucas vezes se sente na vida.

Mas vamos por partes. Não vou falar da beleza da ilha, das praias maravilhosas, do mar brilhante e do por-do-sol fantástico. Nem vou falar de como a ilha é pobre, das desigualdades sociais que existem, da inexistência de saneamento no bairro aliados à prostituição e crime existentes. Estas informações encontramos todos na Internet e nem precisamos de nos levantar da frente do computador não é? Bem, vamos então falar do que não se transmite através da navegação online.

Chegou o primeiro dia de “infantário”. Ao aproximarmo-nos ouvimos o barulho de dezenas de crianças no recreio. Para chegar até lá temos uns curtos degraus para subir. Coragem, é para isso que aqui estamos não é?
Bem, o que aconteceu nos minutos a seguir não é possível descrever através de palavras, vídeos ou imagens. Cada um de nós foi engolido num mar de abraços, beijos, sorrisos e gargalhadas. Bastou baixarmo-nos durante uns breves segundos e já tínhamos crianças a “trepar” por cima de nós para subirem para as nossas cavalitas. Tudo era alvo de brincadeira, desde os pelos das pernas, ao cabelo, passando pelos piercings e tatuagens. Mas de onde vem tanta felicidade se estas crianças mal têm o que comer, estão cobertas de feridas (desde feridas de rua até violência familiar) e não têm o mínimo de saneamento exigível?!

É hora de lanchar. Há crianças que trouxeram alguma comida de casa, outras nem por isso. Bem esta na hora de irmos à cozinha buscar o leite que sobrou da manhã para darmos às crianças que não têm o que comer certo?
Errado! Alguém teve a sorte te ter na mochila 2 iogurtes? Vai comer 1 e guardar o outro para a noite talvez … ou simplesmente por iniciativa própria e sem praticamente ninguém se aperceber vai ter com o colega que não tem lanche e oferece-lhe o iogurte. Bem talvez seja um caso isolado pensei eu… olho para o lado e não podia estar mais enganado. Dezenas de crianças a partilhar o lanche com as que não tinham nada… mais um momento que não se descreve nem se encontra em testemunhos, blogs ou fotos!


Mas afinal venho aqui para aprender ou ensinar? Como é que miúdos dos 2 aos 5 anos que vivem na miséria, já aprenderam os valores mais importantes da vida como a partilha, a amizade, a ajuda ao próximo e a felicidade genuína?

A partir daí tudo o que tentei ensinar passou a ser secundário, pois as bases e os principais valores já estão lá. Obviamente que o “a e i o u”, as cores, os números, as regras da boa educação como por a mão antes de falar, pedir licença para ir à casa de banho etc são fundamentais sem duvida. Mas os principais valores da vida… esses estão todos lá!

Mas não nos vamos iludir nem ser hipócritas. Todas as crianças com quem brinquei e me abraçaram vezes sem conta durante todos os dias em que lá estive vão ser postas à prova dentro de poucos anos. Toda a felicidade pura e ajuda ao próximo vai ser colocada em jogo quando surgirem as propostas para a “má vida”. E não vai ser preciso esperar muitos anos…


Custa sentir que as meninas que peguei ao colo podem cair na rede de prostituição. Custa saber que os meninos com quem fiz imensas brincadeiras podem levar uma vida de crime e/ou droga. Custa ainda mais saber que ao acontecer isto, só prova que a vida não dá a mesma oportunidade a todos, pois quem esteve lá pode garantir que até aos 5 anos não havia maldade existente em nenhuma daquelas crianças.

Mas estas crianças são guerreiras. Estão habituadas a lutar desde o dia que nasceram. Podem cair durante o recreio, fazer “galos”, sangrar que não choram. Pelo contrário, ainda ficam todos orgulhosos quando a nossa enfermeira voluntária lhes colocava um penso e vinham a nossa beira mostrar como se de um troféu se tratasse. Soubessem eles que o “ti-tio Pedro” que para eles era muito forte pois “mandava-os ao ar” com 5 anos mal visse sangue começava a chorar…

Nunca foi o meu objetivo mudar a mentalidade de Cabo Verde em apenas 1 mês. E se for o vosso, aconselho que retirem essa expectativa. Apenas tentem dar o vosso melhor e ajudar o máximo que vocês que conseguirem… apenas o facto de já estarem la é um motivo de sorrisos para dezenas de crianças. E acreditem, não vão conseguir contar todas as vezes que fazem sorrir as crianças por dia. Vale uma aposta?

Sinceramente nem todas aquelas crianças têm que conseguir estudar ate ao 12º ano, ir para a universidade, ou serem doutores, advogados, engenheiros etc. Se com as dificuldades da vida que vão ter, conseguirem conservar os pilares que já adquiriram para mim são uns heróis.

E saber que apenas por um breve instante posso ter “ajudado” a conservar esses pilares faz-me dormir bem! Por outro lado saber que pode não ter sido suficiente faz-me sentir inútil e perceber como a vida é injusta … mas bem eu confio neles!

#maywemeetagain