A experiência da Marta na Sérvia

Toda esta aventura começou porque terminei o estágio e fiquei desempregada (à procura de um novo emprego como prefiro dizer), o que tem muitas desvantagens, mas me permitiu ter tempo para algo que sempre quis fazer: viajar sozinha e fazer voluntariado.

Escolhi fazer voluntariado com refugiados em Belgrado, na Sérvia, durante uma semana. Como era apenas uma semana de trabalho, houve um grande planeamento das atividades por parte dos (espetaculares) coordenadores e foi tudo bastante intenso, principalmente porque o nosso hostel estava localizado onde tudo estava a acontecer. Muito próximo de lá ficavam as estações de autocarro e comboio de Belgrado, um local de entrada e saída quase obrigatório para todos os migrantes, em especial para os refugiados que se concentravam num parque próximo à espera do contacto para avançarem com a viagem.

Antes de iniciarmos o contacto direto com os refugiados tivemos várias sessões de estudo para entendermos a situação passada e atual da rota de migração dos Balcãs, bem como da atuação política dos vários países intervenientes.

As atividades incluíram cozinhar com a “BelgrAid” para o campo de refugiados de Obrenovac, a 12 km de Belgrado, e fazer workshops educativos com os refugiados mais novos (no “The Workshop”, da Refugee Aid Serbia e NorthStar, e no InfoPark). Um dos workshops foi a realização de pulseiras, fizemos também um sobre criação de histórias e vários jogos como o uno e o quatro em linha. Devo mencionar que fiquei maravilhada com as capacidades de alguns dos refugiados, por exemplo: um rapaz de 12 anos que sabe falar três línguas e ensinou toda a mesa a jogar xadrez, e outro que com 19 anos quer ser escritor, vai editar um livro com o apoio de uma associação, e como era alfaiate no seu país, agora dá aulas de costura a senhoras da comunidade local.

Para além disso: preparamos um jantar especial de angariação de fundos para estas associações que apoiam os refugiados e este foi servido no “KC Grad”, um espaço de grande partilha cultural localizado na capital sérvia; fizemos um workshop acerca de sexo, género e estereótipos com os refugiados adolescentes que estão sozinhos na Sérvia. Foi uma experiência muito interessante e enriquecedora para entender as tradições culturais dos países de cada um e debater aquilo que poderá ser mais adequado (a tolerância e o respeito!). Também a respeito disto marcou-me um jogo de futebol que organizámos, entre os voluntários e os refugiados, e em que fui a única rapariga a jogar. Um rapaz afegão ficou muito admirado e antes do jogo comentou-me que nunca tinha visto uma mulher a jogar futebol (infelizmente não tenho fotos deste momento por diretrizes das associações com quem trabalhámos). Fiquei muito contente por, com este pequeno gesto, ter feito a diferença e ter contribuído para moldar os estereótipos de género destes rapazes.

Houve ainda tempo para conhecer a cidade em free walking tours e ver o pôr-do-sol mais bonito que já vi, no cruzamento dos rios Sava e Danúbio, enquanto saboreávamos um delicioso burrito depois de caminhar 45 minutos para chegar a este local.

Foi a minha segunda oportunidade de fazer voluntariado internacional, e espero que não a última, pois o mundo é muito mais do que aquilo que vemos da nossa janela. Muito obrigada à Para Onde, nas pessoas da Inês e da Marta, aos coordenadores do “Solidarity with Refugees”, Francesca e Alex, a todas as voluntárias de diferentes países com quem partilhei esta aventura (Kate, Samaré, Susana e Zdena), às associações e refugiados com quem trabalhei e a todos quantos tornaram este voluntariado possível.